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Um detalhe que pode matar muitas startups. Começando pelo Uber

17 de março de 2017

Eu uso e gosto (muito) do Uber. É uma startup fenomenal, não só porque é a mais valiosa do mundo (US$ 69 bilhões – valor muito questionado) mas principalmente porque gera renda para milhares de pessoas ao redor do planeta.

Mas qualquer negócio quebra por não conseguir reverter seu fluxo líquido de caixa negativo. E o Uber apresentou resultados pavorosos em 2016 segundo a Bloomberg News. De acordo com esta agência, nos primeiros nove meses do ano passado, o Uber iria faturar cerca de US$ 5,5 bilhões, mas queimar cerca de US$ 3 bilhões. É comum startups terem resultados negativos, inclusive por longos períodos como aconteceu com a Amazon durante quase uma década. Em geral, os investidores querem reinvestir todo o resultado gerado pela startup na própria empresa, não querem pagar impostos sobre lucros, estão preparados para bancar a queima de caixa por um período até sufocar a concorrência e as métricas de valuation estão mais associadas à tração do negócio do que à indicadores financeiros de resultados.

Por isso, muitos investidores ainda estão confiando na ideia vislumbrada por Travis Kalanick e Garrett Camp quando estavam enfrentando o forte inverno de Paris em 2008 e com uma dificuldade insana de encontrar um táxi. Com tantos motoristas circulando aqui nas ruas parisienses, porque não há uma solução em que apertamos um botão e alguém nos pega e nos leva ao nosso destino mediante um pagamento, pensaram?

A ideia se transformou em startup no ano seguinte nas ruas de San Francisco e se expandiu rapidamente para centenas de outras cidades do mundo, mudando por completo o hábito de milhões de pessoas em suas locomoções urbanas e se tornando um padrão na criação de startups. Tem uber de comida, entregadores, babás, motoboys, serviços domésticos, pesquisa de mercado, profissionais liberais… Tem até uber de abraço.

E quando uma cidade não tem o Uber ou seu principal concorrente, o Lyft, a reclamação é geral. É o que está acontecendo agora na cidade norte-americana de Austin no estado do Texas. Mas de 70 mil pessoas estão enchendo a cidade, que tem menos de um milhão de habitantes, para participar das centenas de atividades do festival South by Southwest (SXSW). Como o SXSW atrai empreendedores, inovadores, artistas entre outros criativos e antenados (em um mundo que havia antenas visíveis), a chance de algum visitante não utilizar o Uber é praticamente zero.

Como a prefeitura de Austin aprovou uma legislação que obriga motoristas a serem reconhecidos por impressão digital que não foi aceita pelo Uber e  Lyft, ambas foram proibidas de funcionarem na cidade do SXSW. Desta forma, o “como assim” foi um dos termos mais utilizados pelos visitantes. Como assim o Uber não funciona em uma das cidades mais inovadoras do mundo? Como assim vou ter que alugar um carro? Como assim vou ter que procurar um estacionamento? Como assim não sabe dirigir?
Para piorar a situação, o Ride Austin, o aplicativo local que conecta motoristas e passageiros, passou a travar, sair do ar, se tornar muito lento e o motorista poderia demorar quase 30 minutos para chegar.  Por esta razão, falar mal do Ride Austin se tornou ainda mais popular do que o “como assim”.

Mas é justamente o Ride Austin que apresentas os melhores “como assim” para os empreendedores, inovadores e criativos. Como assim só funciona em Austin? Sim. A ideia é que o Ride Austin seja um serviço público para os seus próprios habitantes. Alguém de confiança para levar o filho na escola, um idoso ao médico ou o trivial, alguém para uma reunião. Mesmo tendo quase um milhão, a ideia é fortalecer o senso comunitário e a amizade entre os locais.

Como assim foi fundada por dois dos empreendedores mais respeitados dos Estados Unidos? Sim. O Ride Austin foi fundado por Joe Liemandt (formado pela Universidade de Stanford, se tornou bilionário com sua primeira startup, a Trilogy) e Andy Tryba, um dos principais empreendedores de tecnologia da cidade.

Como assim captou mais de US$ 4 milhões em investimentos? Sim. Ambos os empreendedores não são reconhecidos apenas como executivos de sucesso, mas também pelos seus esforços em transformar Austin em uma cidade mais inovadora, apoiando, principalmente, novos empreendedores. Diante desta missão comunitária, bastaram alguns telefonemas e reuniões para levar o recurso com outros amigos da cidade.

Mas é o “Como assim é uma startup sem fins lucrativos?” que pode representar uma ameaça para muitas startups que lutam para sobreviver, crescer e atender às expectativas dos seus investidores. Sim. O Ride Austin faz parte de uma nova geração de empresas que não estão sendo criadas com o que há de mais avançado na criação de startups (incluindo lógicas de blockchain), mas que também não visam o lucro. Isto não quer dizer que dão prejuízo, mas que conseguem manter um equilíbrio financeiro atraente para todos os envolvidos já que não precisam atender expectativas de investidores ou de empreendedores mercenários que querem ficar milionários em pouco tempo.  A lógica adotada pelo Ride Austin pode pagar um bom salário para seus colaboradores ao mesmo em que oferece uma remuneração mais competitiva para os motoristas, uma taxa justa e com apelo social para os usuários e diversos serviços gratuitos para os habitantes da cidade.

O Ride Austin pode derrotar o Uber? Sim. Acredita Andy Tryba. Mas ainda é algo como Davi e Golias… complementa (ou profetiza).

Marcelo Nakagawa é Professor de Inovação e Empreendedorismo do Insper e Coordenador de Área em Pesquisa para Inovação da FAPESP

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