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Três lições a aprender com a falta d’água em São Paulo

20 de outubro de 2014

Marcelo Pimenta é professor da ESPM e criador do Laboratorium

Como todos já sabem estabelecimentos e casas de várias regiões de São Paulo começam a sentir a falta d’água. Não se pode ir tranquilo ao banheiro na capital paulista –  7ª maior cidade do mundo, capital econômica da América Latina, presente em todas as listas como um dos melhores locais para se empreender – pois não se tem certeza que o vaso sanitário vai funcionar. Bares e restaurantes na Avenida Paulista, Pinheiros, Zona Norte (a lista só cresce) fechando as portas pois não conseguem atender seus clientes. A situação é dramática.  E vamos deixar claro: São Pedro é culpado pela estiagem, mas a falta d’água é culpa da má gestão da Sabesp.  Israel, uma das regiões com menor índice de precipitação (chuvas) do planeta, é o exemplo de como, com tecnologia e investimento, é possível abastecer a população e agricultura mesmo sem chuvas. Portanto acredito ser útil identificarmos alguns erros graves de gestão – para que não repitamos em nossas empresas:

1) Prepare-se para o pior. Um estudo denominado Plano da Bacia Hidrográfica do Alto Tietê foi produzido pela FUSP (Fundação de Apoio à USP) em 2009 e já apontava uma crise se aproximando. O texto fala explicitamente na previsibilidade de “déficits de grande magnitude”. Entre as recomendações feitas pelos especialistas estavam “iniciar os processos para sua implantação que incluem projetos, licenças, outorga, dentre outros” que busquem aumentar a capacidade de armazenamento e a busca de fontes alternativas “que evitem o colapso de abastecimento das regiões envolvidas e minimizem a influência política nas decisões”.

Ou seja, se há indícios de que um problema pode acontecer, você PRECISA se antecipar, ser pró-ativo e efetivamente implementar ações que MINIMIZEM o risco. Não há como ficar à mercê da sorte (ou, no caso, das chuvas). Vale lembrar: o relatório é de dezembro de 2009.

2) Não distribua resultados antes da hora. Em levantamento feito pela consultoria Economática, a Sabesp aparece entre as 30 empresas listadas do iBovespa que mais distribuíram dividendos nos últimos anos. Distribuir lucros significa que não há necessidade de reinvestimento e que é a hora dos acionistas (legitimamente) receber de volta o resultado daquilo que investiram.

Quando a empresa está diante de uma crise iminente – e os estudos já apontavam isso – é a hora de distribuir lucro? A decisão certa seria reinvestir para criar contingências e garantir a perpetuidade da empresa e da prestação dos serviços. Gastar o recurso disponível para buscar novas tecnologias para melhor tratar e distribuir água. Portanto, comemore e distribua resultados quando não dá. Quando não dá, melhor investir para prevenir e, se possível, evitar a crise que se avizinha.

3) Seja transparente. Até a semana passada, a Sabesp não admitia o risco de racionamento na capital. Mesmo com campanhas de incentivo para a economia de água, a falta d’água não era cogitada como algo provável.  Assim, a população já acostumada com a abundância de água e tolerante ao desperdício, não empreendeu todos os esforços para economizar água – prova são os flagrantes nas mídias sociais das pessoas lavando calçadas e carros de mangueira.  E hoje quem paga o preço da torneira seca somos todos nós.

Se a Sabesp tivesse sido mais transparente com seus clientes, talvez nossas reservas não estivessem tão secas como estão. Portanto, se há um problema de aproximando, comunique a seus clientes o mais rápido possível, com total transparência. Eles serão sensibilizados a lhe ajudar, a contribuir, a dar sugestões. Esconder só vai aumentar a desconfiança e a indignação.

O que nos resta?

Como morador de São Paulo, torço para que chova. Muito e logo.

Como cidadão, espero que a Sabesp inicie as obras de contingência para garantir o abastecimento de água à população, incluindo obras, ações de reflorestamento, conscientização da população, promoção de concursos e desafios que mobilizem a comunidade científica e empresarial a somar esforços e desenvolver tecnologia para resolver o problema. O Wall Street Journal publicou em maio passado um artigo que mostra como a crise de água nos EUA vem impulsionando novos negócios através da inovação. É esperado que a Sabesp utilize da cocriação para resolver o problema. Se não tem conhecimento interno para enfrentar a questão, peça ajuda. Só não deixe que a arrogância penalize milhões de cidadãos.

E como blogueiro neste espaço, espero que outros empreendedores não repitam os mesmos erros que a administração da Sabesp cometeu.

2 Comentários Comente também
  • 20/10/2014 - 20:33
    Enviado por: Graziela

    Por que não criar um projeto de recuperação das nascentes existentes em São Paulo.
    Viajo sempre para o interior de SP nas férias, e o que eu vejo é que nenhuma prefeitura tem projetos para que não seja despejados esgotos nos rios.
    No entanto é todos nós que sofremos as consequências por maus gestores no poder que só pensam no próprio umbigo.

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  • 21/10/2014 - 16:49
    Enviado por: Geraldo

    O maior problema de transparência neste caso é que caso fosse realmente dito que estava em racionamento a população entraria em caos, já vi isso acontecer, o que eles fizeram foi tática, mas o problema é o povo que desperdiça não interessando se há fartura ou não e isso é um grande problema brasileiro.

    Em relação ao investimentos a Sabesp deveria triplicar o número de reservatórios para atrasar a situação atual em pouco mais de 1 ano. Quando há problemas em relação a natureza só podemos tentar reduzir os impactos, pois é impossível neutralizar.

    O que poderia ser feito é criar uma unidade de dessalinização como foi feito em Israel e com isso reduzir a dependência das fontes e dos reservatórios, o sal extraído poderia ser vendido para empresas do setor ou colocado no círculo antártico que cujos ambientalistas vem havendo perdas de equilíbrio pelo derretimento de geleiras com água “doce”, se for transportado por um Chinamax (capacidade de transporte de 400 mil toneladas) o custo é mínimo de $ 12 dólares por tonelada.

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