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Tem mais sucesso quem incentiva os pecados ou as virtudes capitais?

29 de setembro de 2017

Há um paradoxo talvez moral ou filosófico que pode chocar quem está empreendendo ou pensa em iniciar um novo negócio. Tem mais sucesso comercial quem incentiva os pecados ou as virtudes capitais?

Historicamente, o teólogo romano Evágrio do Ponto (345-399) é citado como o primeiro formulador de uma lista de oito “pecados capitais” que tornavam as pessoas cada vez mais egocêntricas espelhadas em si. Posteriormente, o Papa Gregório I, reduziu a sete pecados capitais, entendo que vaidade e orgulho representariam conceitos similares. Assim, a lista se fixou em luxúria, ganância, gula, preguiça, ira, inveja e vaidade. Para não incorrer nos tais pecados, era necessário praticar as virtudes capitais, apontadas, inicialmente, pelo poeta, também, romano Prudêncio (348-410): Pureza, caridade, temperança, diligência, paciência, bondade e humildade.

Da natureza humana, depois religiosa, agora a reflexão chega a muitos empreendedores a respeito dos seus negócios.

“As redes sociais têm mais sucesso quando incentivam um dos sete pecados capitais. O Facebook incentiva a vaidade. O Zynga, a preguiça. O Linkedin é a ganância.”, explicou Reid Hoffman, fundador do próprio Linkedin, em uma entrevista ao The Wall Street Journal, ainda em 2011.

Conscientemente ou não, muitos empreendedores já sabiam disso mesmo antes de Hoffman apontar, de forma tão franca, um dos principais pilares do sucesso dos negócios. Criado em 2004, o Facebook tinha pouco mais de 100 milhões de usuários em 2008. O lançamento do botão Curtir em fevereiro de 2009 fez sua base dobrar em apenas um mês, e a rede social de Mark Zuckerberg fechou aquele ano com 360 milhões de pessoas querendo ser curtidas.

Pela perspectiva de Hoffman, entende-se o sucesso de tantos negócios de comida ao redor do mundo. Canais de televisão transmitem gordices 24 horas por dia, cozinheiros com milhões de seguidores, sites de receitas com bilhões de page views e aplicativos milionários de comida que instigam a gula mesmo daqueles mais disciplinados na dieta.  A luxúria é outro pecado capital que serve como principal combustível de diversos negócios desde os mais objetivos aplicativos de encontros aos mais obscuros serviços pessoais.

E de todos os pecados capitais, a ira é um dos mais emblemáticos. Como criar um negócio a partir da raiva e do ódio das pessoas?  Quem melhor soube aproveitar esta poderosa força que surge nas pessoas descontentes com algo ou alguém foi o brasileiro Maurício Vargas. Ele mesmo, enfurecido com um péssimo serviço que recebeu de uma companhia área em 2001, resolveu criar um espaço em que as pessoas pudessem descarregar sua ira com atendimentos ruins que recebiam das empresas. O ReclameAqui, o negócio fundado por Vargas é um exemplo de como canalizar um pecado capital em algo bom para outras pessoas já que as empresas estão mais atentas a sua reputação.

Mas se o ReclameAqui é um dos sites mais acessados do Brasil, haveria um espaço para um ElogieAqui? Sim, e existe o ElogieAki, mas infelizmente está na posição 105.585 entre os mais acessados do  país.

E também infelizmente estamos ganhando cada vez mais espelhos e por isso, estamos vendo um mundo cada vez mais doente.

Marcelo Nakagawa é Professor de Inovação e Empreendedorismo do Insper