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Tecnologia será (cada vez mais) commodity, você não (deveria ser)

3 de março de 2017

Há um discurso apocalíptico sobre como a 4ª Revolução Industrial irá dizimar corporações e empregos. E isso já está acontecendo silenciosamente em diversos setores. E o que fazer diante deste cenário cada vez mais desafiador senão respirar profundamente e ser mais criativo?

Por isso, ainda lembro de uma palestra que o economista-chefe do Bradesco, Octavio de Barros, deu em um evento que ajudei a organizar há quase um ano. Ele fez um grande resumo do que ele e a diretoria executiva do banco tinham visto no Fórum Econômico Mundial em 2016. Grande resumo é um paradoxo, mas foi um sumário de diversas coisas importantes que tinha visto na pequena cidade de Davos, na Suíça. Todas, absolutamente todas as mensagens, traziam um grande impacto para todos nós e por consequência, para o trabalho dele que era enxergar para onde estamos indo e qual seria o papel do banco neste novo cenário. Por isso, slide após slide, Barros mostrava como a chamada Quarta Revolução Industrial era tão disruptiva para as pessoas e, daí, para as empresas. Mobilidade, computação em nuvem, big data, inteligência artificial, impressão 3D, automação cognitiva, blockchain, transações peer-to-peer, sociedade em rede, virtualização, economia compartilhada. Cada uma destas disrupções tecnológicas, sozinha, já tinha um impacto revolucionário. Se combinadas então, assombrava cada executivo que tinha ido ao fórum.

E cada passagem do seu extenso resumo, Octavio de Barros deixava claro como a tecnologia, que já alterou profundamente como as organizações funcionam nos últimos 30 anos, iria redesenhar quase todos os setores, dos mais tradicionais como a produção de commodities às mais inovadoras, que precisam se reinventar a cada cinco anos como as de internet. Em pouco tempo, todas as organizações seriam negócios de tecnologia? E as pessoas, seriam trocadas por robôs?

Mas o então economista-chefe do Bradesco (agora é conselheiro econômico da instituição, pois teve que aposentar em função das regras de idade do banco) guardou o último slide para falar da sessão que mais lotou no Fórum Econômico Mundial que tratava de um tema que o impressionou, não só por atrair tantos líderes mundiais como também ser tão diferente da 4ª Revolução Industrial, tema central do encontro. A sessão trazia um monge budista e outros executivos para falarem sobre como o mindfulness (que no Brasil vem sendo traduzido como consciência plena) pode trazer impactos ainda mais significativos para as organizações que a tecnologia em si.

Neste novo cenário de 4ª Revolução Industrial, muitas empresas descobriram que a inovação tecnológica em si é uma vantagem competitiva forte, por isto, investem tanto nisso. Mas esta vantagem é cada vez mais passageira já que a tecnologia se torna rapidamente uma commodity em função da rapidez de reação dos concorrentes.

Por outro lado, todas estas tantas inovações disruptivas estão causando um forte stress entre os colaboradores de muitas organizações. As pessoas já não mais conversam, trocam mensagens pelo Whatsapp, estão conectadas em redes sociais com o que os seus colegas de trabalho têm de bom e ruim, são analisadas e precisam analisar um número crescente de dados sempre com o receio de serem substituídas pelo Watson da IBM ou algum bot mais simples (e muito mais barato), são programadas para atingirem metas e descartadas quando não as atingem. Assim, no final de cada dia, que passa cada vez mais rápido, os funcionários estão cada vez mais distraídos, alienados, dispersos, descomprometidos, improdutivos e muito, muito cansados. Estes, em algum momento, serão substituídos pelas disrupções da 4ª Revolução Industrial.

Mas há outras organizações, justamente as que estão liderando esta nova revolução industrial como Google, Qualcomm, Genetech e Salesforce, que perceberam que investir em tecnologias disruptivas é apenas metade da mágica. A outra parte depende de quem cria e reproduz a magia, que são os colaboradores mais íntegros, comprometidos e inovadores da organização.

Entretanto, estes colaboradores precisam encontrar seus motivos para fazer mais e melhor o que ele(a) próprio(a) espera dele(a). E é neste contexto que cresce os programas de autoconhecimento e mindfulness implementados pelas organizações mais inovadoras ao redor do mundo, em especial as que estão no Vale do Silício. Nestas iniciativas, os colaboradores são convidados a se desconectar, por um momento, do mundo (barulhento) para se reconectarem a si mesmos por meio da meditação, ioga, compaixão e altruísmo. Neste contexto, o Google inovou ao criar o instituto Search Inside Yourself que oferece programas de meditação e autoconhecimento não só para a sua equipe ao redor do mundo, mas também para diversas outras organizações como Qualcomm, Genetech e American Express. A SalesForce criou uma sala de meditação em cada andar do prédio da sua nova sede em San Francisco. E universidades como Stanford, Berkeley e Harvard criaram centros de mindfulness diante do crescente interesse pelo assunto e dos resultados positivos das pesquisas que vem sendo conduzidas, em especial, dentro de organizações empresariais.

O último slide do Octavio de Barros explicava porque tantas líderes empresariais estavam ali. Eles sabiam que em um mundo cada vez mais high tech, é o high touch que fará, cada vez mais, a diferença na vida das pessoas e, por tabela, no desempenho das organizações.

A tecnologia é e será (cada vez mais) commodity, você não (deveria ser). Se tiver dúvidas disso, faça um teste que não dura nem 30 segundos…. Feche os olhos e respire profundamente. Sinta o ar preenchendo os seus pulmões. Solte o todo ar lenta e gentilmente. Repita isto três vezes e abra os olhos lentamente. Sinta-se vivo e, por isso, mais criativo! Namastê…

Marcelo Nakagawa é Professor de Inovação e Empreendedorismo do Insper (e também consultor de inovação do banco mencionado no texto)