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Blog do Empreendedor
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As pontes empreendedoras entre a Sicília e o Brasil

30 de outubro de 2017

Estou finalizando minha viagem pelos quatro cantos da Sicília, conhecendo empreendedores do agronegócio e da gastronomia nesta ilha que – faz milênios – é um extraordinário hub de cultura e arte de diversas civilizações antigas. Ao mesmo tempo, temos tantos pontos em comum com o Brasil – muito mais do que poderia imaginar. É curioso ver que, mesmo separados pela distância geográfica, o “mindset” do empreendedor tem sempre muita semelhança: a busca constante de fazer dar certo, um sonho, uma visão, e muito trabalho.

Para contextualizar que não é moleza empreender por aqui: um relatório econômico de 2015 da Comunidade Europeia aponta a Sicília com 22% de taxa de desemprego (piora de 61% entre 2009 e 2015) e o menor PIB regional da Itália e um dos piores da Europa. Por outro lado, a Sicília apresenta alto potencial no agronegócio, no turismo e na pesca.

Destaco mais dois exemplos dos novos empreendedores que estão mostrando novas formas de criar valor e liderando as novas gerações:

Caseificio Occhipinti. Nascido dentro da tradição, no coração das montanhas Iblei, Giuseppe Occhipinti transformou completamente há 3 anos o pequeno laticínio familiar. Modernizou a apresentação de produtos, rótulos, investiu na agricultura biológica e faz a produção diariamente com leite da região. Hoje, o laticínio produz clássicos como o queijo Ragusano DOP, com até 48 meses de maturação, até a ricota embalada num cesto de vime, resgatando uma embalagem como era feita há centenas de anos. Na visita ao porão, estão armazenados centenas de queijos de valor inestimável. Cada queijo tem um número, uma história, e Giuseppe o pega no “colo” pra nos mostrar, como se fosse um filho.

Note di Zafferano. Angelo Liali é mais um exemplo do novo – e jovem – empreendedor siciliano, que já viajou o mundo e fez a volta ao perceber o valor escondido na terra dos ancestrais. Enquanto muitos dos amigos já migraram para as grandes cidades, ele fez o caminho de retorno em busca de cultivos de alto rendimento e qualidade, para se posicionar de forma destacada no mercado internacional. A empresa combina alta tecnologia com agricultura biológica na região de Giarratana, com foco em especiarias, em especial a açafrão. O mais bacana é a visão de marketing, com uma pegada que une o antigo, a credibilidade do produto, com uma comunicação moderna e atrativa. Abertos a contatos para trazer seus produtos ao Brasil!

Todos estes jovens empreendedores sicilianos reforçaram minha crença de que vale a pena investir tempo e energia em produzir alimentos de qualidade, apostar na reinvenção de ofícios históricos da gastronomia e, principalmente, resgatar as tradições alimentares, modernizando a forma que transmitimos o valor de produto e processo. Como fazemos no Pastifício Primo – continuamos no caminho, e vem muita gente junto!

Ivan Primo Bornes – fundador da rede de rotisserias Pastifício Primo (www.pastificioprimo.com.br) ivan.primo@pastificioprimo.com.br

A nova Sicília empreendedora

23 de outubro de 2017

Estou na metade do meu giro na Sicilia, dando a volta nesta ilha cheia de história, mezzo férias com toda a família e mezzo trabalho, bem do jeito que eu gosto. Coloquei especial foco em conhecer as pequenas cidades e os pequenos produtores de alimentos, e tenho observado com curiosidade e interesse a dinâmica do pequeno empreendedor da ilha. Nas pequenas cidades, a minha primeira impressão é que praticamente todos são donos de algum negócio, estabelecidos há gerações: o dono da padaria, o dono do laticínio, o dono do restaurante, e assim por diante. Os funcionários do negócio são basicamente a própria família.

Giuseppe Occhipinti, preparando queijos DOP em Ragusa

Eu fiquei imaginando que isso pode ter um lado bom e um lado ruim. O lado bom é que os filhos já nascem com uma certa garantia de trabalho, no negócio da família, e não precisam construir um negócio do zero. Pode ser bastante confortante, e mesmo que pareça estranho para muitos de nós, é algo muito comum aqui – e na Europa em geral. O lado ruim é que existe muito pouco espaço para novos empreendedores ou, pelo menos, para empreender fora da área de atuação daquela família. A demanda de trabalho e serviços nas cidades pequenas é escassa, são povoados que não tem turismo, e por isso é tão comum, numa família grande muitos filhos migrarem em busca de oportunidades na cidade grande, ou em outros países. Me parece que é muito similar com o que acontece nas cidades pequenas do interior do Brasil.

Ao mesmo tempo, fui impactado pela descoberta de uma outra Sicília, de pensamento moderno, uma galera que eu defino na vanguarda da gastronomia, conectada com o mundo, atuando de forma a valorizar a terra e o conhecimento ancestral. Este pessoal não está mais pensando no mercado local, e sim no mercado mundial, e mesmo que pareça óbvio, não é fácil encontrar um lugar no mundo competitivo da gastronomia, e eles estão conseguindo. Ao encontrar novas soluções de se apresentar no mercado, agregando valor ao trabalho local, estão criando um modelo de prosperidade a ser seguido pelos novos jovens empreendedores da ilha.

No meio das montanhas, as azeitonas da Calaforno


Agrobiologica Calaforno Angelica
(www.locandaangelica.it).
No meio das montanhas, no qual cheguei através de um caminho sinuoso de difícil acesso, nos recebe Salvatore Angelica, jovem empreendedor de 25 anos que é o “guardião” de mais de 7 mil oliveiras “soltas” nos vales ao redor. A paisagem milenar, silenciosa, com muitas pedras e com oliveiras enormes, contrasta com o que vejo ao entrar no edifício de manipulação e produção: é um laboratório, máquinas novas, tudo extremamente limpo, organizado, amplo (eu, que sou um apreciador dos métodos de produção artesanal, fiquei emocionado), unindo a última tecnologia a um dos rituais mais antigos da humanidade: colher azeitonas na mão e prensar para extrair o azeite. Salvatore me mostra a diferença entre os vários tipos de azeitonas, e como as cores de suas azeitonas são 100% naturais, sem corantes. Descemos no deposito onde são feitas a salmouras em temperatura controlada, tudo impecável. Acima de tudo, Salvatore mostra o orgulho da terra, do produto que ele faz e conhece a fundo. Mas com uma visão agressiva de apostar no mercado internacional através dos selos da produção biológica.

Nossa visita à Chocolate Sabadi

Chocolate Sabadi (www.sabadi.it). Conheci este pessoal na feira Summer Fancy Food em New York, e agora pude finalmente conhecer a pequena e moderna fábrica bio-artesanal em Módica. Esta cidade é reconhecida no mundo todo pelos chocolates trabalhados a baixa temperatura, o que traz um paladar único e os torna muito mais saudáveis. Como reinventar a roda do chocolate? Pois aqui um jovem empreendedor chamado Simone Sabaini está mostrando como se faz, através da comunicação inteligente, com um packaging cheio de bom humor e personalidade. O slogan da empresa é “slowliving” (que pode ser traduzido como “viver lentamente” fazendo alusão ao “slow food”). É bom destacar que a Sabadi tem 5 prêmios consecutivos de melhor chocolate de Módica – o que não é pouca coisa – e trabalha com selos orgânicos e bios. Como o Simone diz, viver na Sicília é uma escolha, e desta pequena cidade no interior, e com uma pequena equipe, os chocolates vão para o mundo todo!

Ivan Primo Bornes – fundador da rede de rotisserias Pastifício Primo (www.pastificioprimo.com.br) ivan.primo@pastificioprimo.com.br

Sobre férias e o que queremos ensinar aos nossos filhos

16 de outubro de 2017

Escrevo de Ragusa, cidade mais do que adorável da Sicília, onde estou em férias com a família. Por que escolhi a Sicília para férias? Confesso para vocês: foi o trabalho.

Como empreendedor, não consigo separar a vida familiar da vida empresarial. Faço questão de que os dois aspectos andem colados: minha vida familiar, meus valores, minhas vivencias e necessidades pautam muito do que faço nos negócios. E vice-versa.

E assim é com minhas férias.

O ponto de partida de minha viagem familiar foi um convite de Salvatore Lialli e seu filho, Angelo, donos do Molino di Ragusa, ancestral, que produz sêmolas e farinhas de alta qualidade. Conheci-os numa feira já faz uns bons 12 anos, quando o Plastifico Primo era apenas um sonho ainda a ser realizado. O Angelo, que quando o conheci devia ter uns 15 ou 16 anos e já acompanhava o pai nas exposições de trabalho, hoje é um jovem empreendedor agrícola procurando seu próprio caminho, e cultiva o valioso açafrão (o verdadeiro) e outras frutas e legumes orgânicos.

Quando decidi aceitar o convite deles para conhecer o moinho e o trabalho que fazem, vi aparecer a oportunidade para, mais uma vez, aliar a busca do aprimoramento empresarial e vivencia pessoal. A combinação perfeita de trabalho e diversão, nosso lema de vida. Assim, decidimos alugar um motor home e dar a volta na ilha, visitando produtores, pesquisando – e comendo! – a gastronomia local, que é uma das mais inspiradoras do mundo. E jogando conversa fora com os sicilianos, que são maravilhosos.

É nossa primeira vez nesta que é uma ilha carregada da história do mediterrâneo, palco de muitas disputas que moldaram sua paisagem e sua cultura. E estamos encantados. A ideia do motor home surgiu de uma brincadeira de que a gente queria conhecer pelo menos dez cidades, e lógico que isso significava ficar abrindo e fechando malas pelo menos dez vezes – e trabalho dobrado com crianças. Assim, apenas desembarcamos nos instalamos na nossa casinha rodante e “andiamo via” no hotel sobre rodas.

Entre paisagens de perder o fôlego e ruínas milenares, temos aproveitado para ensinar aos nossos filhos sobre a origem de coisas que lhes são familiares como o azeite de oliva (foto acima), a farinha, o queijo, o presunto. Temos visitado produtores locais, conhecido sua rotina, acompanhado seu trabalho – e suas dificuldades, e o sorriso de felicidade, o orgulho quando falam de seus produtos. E tento, com isso, mostrar aos meus filhos que tudo de bom que se come tem, por trás, pessoas, trabalho duro, suor e dedicação.

Se, ao crescer, eles não quiserem seguir o caminho da gastronomia, que ao menos saibam reconhecer o valor do trabalho alheio. Como fazem nossos clientes.

Ivan Primo Bornes – fundador da rede de rotisserias Pastifício Primo (www.pastificioprimo.com.br) ivan.primo@pastificioprimo.com.br