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O cotidiano de empreendedores como você
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Já ouviu falar em tecnologia assistiva?

7 de junho de 2018

Movido pela necessidade de se comunicar melhor com a filha Clara, que tem paralisia cerebral, o empreendedor pernambucano Carlos Pereira desenvolveu o Livox, um aplicativo para pessoas com algum tipo de deficiência motora, cognitiva ou visual se comuniquem e aprendam. Em Alagoas, Ronaldo Tenório, Thadeu Luz e Carlos Wanderlan criaram o Hand Talk – um software que traduz o português oral e escrito para a Língua Brasileira de Sinais. Em Blumenau, Marlon Souza e Jean Carlos Gonçalves desenvolveram a Playmove que tem, entre os produtos principais, a Playtable: uma plataforma ludopedagógica estruturada em uma mesa digital que apoia o aprendizado de crianças com dificuldades motoras e doenças como Síndrome de Down e Autismo.

Ao analisarmos o ecossistema de negócios de impacto social como um todo, nota-se que grandes inovações estão surgindo com base na tecnologia assistiva. O termo, originado do inglês assistive technology é utilizado para identificar recursos e serviços que contribuem para proporcionar ou ampliar as habilidades funcionais de pessoas com deficiência, resultando em inclusão e melhor qualidade de vida. Temos identificado e potencializado empresas que desenvolveram produtos e serviços inovadores que representam uma das tendências no campo dos negócios que geram impacto social; soluções desenvolvidas e comercializadas no Brasil que estão ganhando o mundo.

Quando analisamos as demandas da população de baixa renda em setores estruturantes (saúde, educação, serviços financeiros e habitação, por exemplo) é óbvio que as pessoas com deficiência que estão na base da pirâmide são ainda mais desassistidas; estão em grave situação de risco social e impedidas de ter seu desenvolvimento pleno, muitas vezes, por falta de acesso a produtos e serviços adaptados a suas necessidades e realidade financeira. Ou seja, brasileiros expostos a um círculo vicioso de não prosperidade e desenvolvimento. Por outro lado, quando falamos em oportunidade de negócio e de impacto social, estamos olhando para um mercado potencial de 45,6 milhões de pessoas. Na prática, quase 24% da população brasileira, de acordo com o IBGE, possui algum tipo de deficiência. Desses, a maioria tem entre 15 e 64 anos, faixa etária de brasileiros apta ao trabalho.

Dados da Organização das Nações Unidas (ONU) mostram que de sete habitantes do planeta, um vive com algum tipo de deficiência. Diante deste cenário, é preciso fazer uso da tecnologia para desenvolver produtos e serviços inovadores, que proporcionem e ampliem habilidades funcionais destas pessoas. Oferecer qualidade de vida e inclusão ao promover a autonomia – sobretudo da população menos favorecida, de baixa renda. Vale ressaltar que tecnologia assistiva é transversal a outros temas, como educação e saúde; e o impacto dessas soluções atinge, ainda, o entorno da pessoa com deficiência, incluindo familiares e sociedade.

Embora seja um mercado pouco explorado, há muita oportunidade para tornar cidades, produtos e serviços mais inclusivos, atingindo dentro deste recorte as pessoas de baixa renda. A estimativa é que a parcela da população brasileira com alguma deficiência, de todas as classes sociais, movimente R$ 22 bilhões por ano; no mundo, o valor chega a US$ 4,1 trilhões anuais. Cabe ressaltar que há modelos de receita diferenciados que não envolvem somente o beneficiário final como pagante. Ao ter formas de monetização que envolvem poder público e iniciativa privada, os negócios focados em tecnologia assistiva são altamente acessíveis à baixa renda.

A Artemisia tem trabalhado para apoiar empreendedores e empreendedoras que olham para esse potencial e enxergam um mercado real, lucrativo e de alto impacto social.

Maure Pessanha, coempreendedora e diretora-executiva da Artemisia, organização pioneira no fomento e disseminação de negócios de impacto social no Brasil.

As oito oportunidades para empreender negócios de impacto social no setor da Energia

23 de maio de 2018

Foto: Pixabay

O acesso à energia de qualidade com baixo custo está diretamente relacionado ao atendimento das necessidades básicas – e ao desenvolvimento social ligado à educação, saúde, crescimento econômico, segurança, oportunidades de trabalho e de renda. Das áreas rurais às urbanas, a energia é essencial para a melhoria da qualidade de vida. Frente a essa demanda, vemos a importância de potencializar empreendedores que já atuam na resolução dos principais desafios ligados à temática e, junto a isso, inspirar o desenvolvimento de uma nova geração de negócios que foquem no setor de energia e queiram gerar alto impacto socioambiental.

Para apoiar e inspirar o surgimento desses novos negócios, a Artemisia conduziu um estudo inédito que aponta oportunidades para empreender no setor. O levantamento – construído com o apoio da Eletropaulo e AES Tietê – reúne os desafios enfrentados pela população de menor renda no Brasil relacionados à energia e destaca oito oportunidades para o desenvolvimento de negócios que enderecem esses desafios de forma escalável.

Acesso à energia; geração e distribuição descentralizada de energia; inteligência de dados para eficiência energética; eficiência energética por meio da adequação de imóveis e equipamentos; eficiência energética na gestão e em equipamentos públicos; energia para produção no campo; meios de financiamento para acesso a serviços de energia não convencional; e capacitação e oportunidades para profissionais são as oportunidades detectadas e ilustradas com casos de negócios de impacto social brasileiros e estrangeiros.

Na oportunidade ligada à inteligência de dados para eficiência energética, um dos exemplos é a GreenAnt. A empresa de tecnologia, acelerada pela Artemisia, tem o objetivo de estimular a eficiência energética por meio do acesso à informação, através de um algoritmo próprio, desenvolvido pelo empreendedor Pedro Bittencourt. A partir de um medidor inteligente é possível identificar os aparelhos de maior consumo na residência e propor alternativas para redução de consumo. O negócio fluminense disponibiliza uma plataforma online para gestão e acompanhamento dos gastos em tempo real por eletroeletrônico – e envia recomendações direcionadas com foco na ação via SMS. A solução é aplicável tanto para residências quanto para empresas que busquem mais controle dos gastos energéticos.

Na oportunidade associada a meios de financiamento para acesso a serviços de energia não convencional está a Solstar – um negócio acelerado pela Artemisia que viabiliza geração de energia mais econômica e sustentável por meio de geração solar distribuída. Com o objetivo de diminuir as principais barreiras de adoção da energia solar, a startup desenvolve soluções que democratizam o acesso – garantindo a performance dos equipamentos instalados e viabilizando o investimento em projetos de energia solar em domicílios. A solução, criada em 2016, assegura a energia que será produzida, cobrindo a defasagem, caso fique abaixo do esperado. A startup está desenvolvendo, ainda, uma plataforma digital de financiamento para geração distribuída.

Vale ressaltar que as novas tecnologias impulsionam o usuário de energia a ter mais protagonismo. Em um novo cenário, o usuário tem a capacidade de gerar e armazenar a própria energia, além de contar com sistemas de gerenciamento que o ajudem a usa-la de forma mais inteligente. É o chamado “prosumidor” – neologismo baseado no termo em inglês prosumer que representa a junção das palavras produtor e consumidor. Esse prosumidor participa de maneira ativa ao começar a produzir a própria energia, possibilitando o envio dessa produção diretamente para o sistema para gerar economia. Como resultado, menor custo pela energia consumida e a democratização de um benefício importante para garantir dignidade ao humano. Para finalizar recomendo a leitura, na íntegra, do estudo que está disponível para download: http://bit.ly/TeseImpactoEnergia

Maure Pessanha, coempreendedora e diretora-executiva da Artemisia, organização pioneira no fomento e disseminação de negócios de impacto social no Brasil.

O papel do empreendedorismo de impacto social na luta pela igualdade racial

17 de maio de 2018

Diáspora Black/Divulgação Facebook

Há 130 anos, o Brasil reafirmava juridicamente que deveria romper com uma das mais brutais atrocidades humanas: a escravidão. Em mais de um século temos avançado, vagarosamente, na direção de uma sociedade igualitária; os números mostram que devemos tornar célere essa construção de uma nova sociedade. Pesquisa do Instituto ETHOS mostra que os negros ocupam apenas 4,7% dos cargos executivos e 6,3% dos postos de gerência nas 500 maiores empresas do Brasil; no caso das mulheres, os números mostram que elas ocupam 0,4% e 1,6%, respectivamente – embora a população negra represente 55% dos brasileiros. Estimativa do Instituto Locomotiva aponta que os negros movimentaram R$ 1,6 trilhão em 2017.

De acordo com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), 51% dos empreendedores brasileiros são negros, mas apenas 29% deles empregam ao menos uma pessoa – sinal das barreiras de crescimento e discriminações enfrentadas por essa parcela da população no campo do empreendedorismo. Há muito espaço para crescer e muito a se fazer para mudar esse cenário desigual. Na Artemisia, temos acompanhado uma nova geração de negócios de impacto social que representam a força e a vontade de brasileiras e brasileiros que querem fortalecer a cultura negra por meio de produtos e serviços. Carlos Humberto, Antonio Pita e André Ribeiro, cofundadores da Diaspora.Black, e Adriana Barbosa – empreendedora da Feira Preta que recebeu o título de Most Influential People of American Descent (MIPAD), em 2017 – são exemplos do enorme potencial do afroempreendedorismo no Brasil.

Vivenciar a cultura negra por meio de roteiros turísticos, hospedagens e experiências culturais afrocentradas é a proposta da Diaspora.Black. Na Rota da Liberdade – circuito de quilombos e fazendas do Vale do Paraíba – o visitante pode refazer o percurso da afirmação. Na rota Quilombo da Fazenda, em Ubatuba, o turista participa de rodas de conversa sobre a memória local; produz estampas em tecido; dança o jongo; e degusta receitas tradicionais com a farinha que ele mesmo produz. Esses são exemplos de experiências oferecidas pela plataforma brasileira que reúne anfitriões e viajantes interessados no turismo de impacto social – que promove cultura, estudos e lazer ao mesmo tempo que gera impacto econômico positivo.

Esses empreendedores de negócio de impacto social acreditam que o fomento ao turismo é um grande catalisador da circulação econômica na comunidade negra. A startup reúne, em uma única plataforma, iniciativas e serviços focados na cultura negra em diferentes cidades para aproximá-las de viajantes conectados. Em menos de um ano de operação já está presente em 70 cidades – com mais de 2.000 usuários cadastrados. Vale lembrar que, nos Estados Unidos, esse mercado movimentou em 2016, US$ 48 bilhões com a venda de produtos, serviços, viagens.

Adriana Barbosa, por sua vez, criou o maior evento de cultura negra da América Latina há 16 anos. O evento já recebeu 120 mil participantes, 700 expositores, 600 artistas e 4 milhões de reais em circulação monetária. A primeira edição foi realizada na praça Benedito Calixto, em São Paulo. O evento reúne empreendedores negros que focam seus negócios nas demandas de consumidores negros. É a maquiagem para a tonalidade de pele, são as roupas de estilo afro ou os produtos que ressaltam os cachos. Segundo Adriana, à medida que a população negra começou a declarar a identidade, essa demanda começou a surgir. Formada em gestão de eventos, Adriana começou a atuação profissional na área de Comunicação, com trabalhos em emissoras de rádio, produtoras de TV e gravadoras. Percebeu que, enquanto a economia brasileira se desenvolve, também se desenvolve o poder de compra dos afrodescendentes. Com isso em mente, com pouco mais de 20 anos de idade criou a maior feira negra do Brasil. A Feira Preta é o espelho vivo das tendências afro-contemporâneas do mercado e das artes, além de ser o espaço ideal para valorizar iniciativas afroempreendedoras de diversos segmentos.

A Artemisia só está começando nessa jornada; temos muito a aprender, refletir e fazer. Mas tem sido uma honra e uma fonte profunda de aprendizado colaborar com o desenvolvimento e expansão dos negócios que ajudam o Brasil a avançar nas questões de raça e de gênero – temas urgentes no campo do empreendedorismo no Brasil e no mundo. Essas iniciativas trazem para cada brasileiro a dignidade de viver em um país que não deve se conformar com as injustiças e desigualdades. Que isso seja lembrado não apenas em 13 de maio, mas em todos os dias das nossas vidas.

Maure Pessanha, coempreendedora e diretora-executiva da Artemisia, organização pioneira no fomento e disseminação de negócios de impacto social no Brasil.

Os negócios de impacto social oferecem soluções concretas para problemas reais da sociedade brasileira?

24 de abril de 2018

Como um empreendedor pode atestar que o produto ou serviço que oferece é realmente inovador e responsável pela melhoria da cognição de alunos de escolas particulares e públicas? Uma empresa pode diminuir, via SMS, o impacto negativo da “ausência” dos pais na vida escolar? Essas são algumas questões presentes no cotidiano de empreendedores de impacto social, sobretudo os que estão em busca de recursos. Isso porque os investidores usam métricas de avaliação para uma série de propósitos – tomar decisões de investimento, identificar e mitigar riscos, capturar o valor agregado em longo prazo e acompanhar o investimento para garantir que os objetivos sociais e financeiros sejam cumpridos.

As métricas também ajudam a melhorar o modelo de negócio e atestam o impacto causado pela empresa. Tudo isso contribui para aumentar a transparência com todos os públicos interessados; por outro lado, são inúmeros os desafios para implementar um sistema de métricas. Medir o impacto tem um alto custo e demanda uma série de competências e recursos humanos difíceis de conseguir. Com a premissa de unir lucro à transformação social, a comprovação da efetividade e sustentabilidade do negócio é fundamental para conquistar investidores e aprimorar a atuação no que diz respeito à geração de impacto positivo. Diante desse desafio para o empreendedor de impacto, a Artemisia se juntou à Agenda Brasil do Futuro e à Move Social para lançar o Guia Prático de Avaliação para Negócios de Impacto Social, disponível para download gratuito.

O guia prático traz conceitos importantes na avaliação de negócios de impacto social e o passo a passo para essa medição. Com um texto simples e explicativo, aborda cada item com casos concretos, vídeos, websites, dicas de leitura e exercícios de brainstorming – que ampliam a compreensão da equipe e mostram como conduzir a mensuração adequada a cada estágio da startup e área de atuação. O guia foi organizado por Rogerio Renato Silva, Max Gasparini, Elis Alquezar, Paola Gongra e Antonio Ribeiro.

A proposta é oferecer suporte ao empreendedor de impacto social para que pense sobre os principais conceitos de avaliação do impacto social do negócio; como criar uma cultura de avaliação interna e externa; como conduzir e quais instrumentos; metodologias e métricas; e quais armadilhas evitar. Um guia que ajudará o empreendedor e a equipe a construir uma solução customizada; totalmente voltada ao negócio e ao propósito que espera com essa mensuração.

Na Artemisia temos cases de empreendedores acelerados que criaram mecanismos e parcerias para viabilizar a avaliação do impacto dos negócios. O ponto de partida para a análise conduzida pela Geekie – empresa referência em educação com apoio de tecnologia no Brasil e no mundo – foi o ENEM 2015, quando a diferença entre a média das escolas privadas em comparação com as públicas era de 70 pontos: 556 contra 486, respectivamente. Com o uso do Geekie Games, que atua com simulados oficiais do MEC, plano de estudos personalizado com as melhores aulas e exercícios, esses resultados começaram a mudar, melhorando a nota em cinco vezes mais. A plataforma atuou com 4,5 milhões de alunos inscritos – 57% do total de candidatos do ENEM – estudantes de 99,8% municípios do país. Entre eles, histórias de sucesso como a de Luiza. Aos 16 anos e estudante de escola pública no Estado de Pernambuco, a garota tinha o sonho de ingressar na faculdade pública de Medicina; em contrapartida, a nota do ENEM era de 433, um impeditivo para a realização do sonho. Com o uso do Geekie Games, Luiza conseguiu melhorar a nota em 101% e atingir 871 como nota final.

Vencedora do prêmio Melhor Inovação Social liderada por empreendedores brasileiros com menos de 35 anos – concedido pelo MIT Technology Review – a MGov oferece o ImpactCom, uma plataforma de comunicação inteligente para engajamento voltado ao desenvolvimento social. Entre suas soluções está a biblioteca de conteúdo EduqMais – que atua diretamente para diminuir o impacto negativo da “ausência” dos pais na vida escolar. Segundo dados, 25% dos pais não sabem que os filhos faltaram à aula; 33% dos pais não perguntam sobre os problemas dos filhos; e 50% não têm o hábito de verificar o dever de casa. Com o apoio da Universidade de Stanford, a MGov conduziu uma avaliação do custo-efetividade para investigar a eficácia desse produto – que tem como base a comunicação via SMS para engajamento das famílias na educação dos filhos. A análise mostrou que o EduqMais tem impacto quatro vezes superior ao de outras políticas públicas de educação, tendo o mesmo investimento em reais necessários para aumentar a jornada escolar em uma hora, aumentando a proficiência do aluno.

A Vivenda – que oferece acesso a reformas de qualidade para a baixa renda, atuando com venda diretamente para o consumidor; com organizações filantrópicas e organizações; e com o poder público – já fez mais de 700 obras, atendendo a aproximadamente 2.700 pessoas. Mas faltava, na percepção dos empreendedores, uma pesquisa de impacto. Com a ajuda da FGV e Plano CDE, puderam verificar que a reforma da casa é a prioridade para o público-alvo e que, entre os principais impactos da atuação é privacidade, autoestima, praticidade, saúde e faísca para a transformação.

Quanto ao questionamento inicial que norteou esse artigo, a resposta é claramente SIM! Os negócios de impacto social estão mudando a forma de empreender no Brasil e imprimindo impacto positivo na vida de milhões de brasileiros da baixa renda. É possível mudar o mundo e ganhar dinheiro via empreendedorismo de impacto social.

Maure Pessanha, coempreendedora e diretora-executiva da Artemisia, organização pioneira no fomento e disseminação de negócios de impacto social no Brasil.

Acelerando os negócios de impacto social da quebrada e cruzando a ponte

3 de abril de 2018

Um dos protagonistas do movimento que tirou o Jardim Ângela da lista dos lugares mais violentos do mundo, Marcelo Rocha – conhecido como DJ Bola – é um parceiro antigo da Artemisia. Em 2000, no bairro da zona sul da cidade de São Paulo, esse empreendedor da quebrada criou A Banca, uma produtora musical, cultural e social que se transformou em um polo de debate cultural, ações de conscientização política, educação e saúde. A iniciativa também ajudou a lançar vários músicos e colocou São Paulo na vanguarda do hip-hop. Nas palavras do DJ Bola, “A Banca quebrou as próprias barreiras para dialogar e se relacionar com as pessoas do outro lado da ponte”.

Em 2008, após o processo de aceleração conduzido pela Artemisia, A Banca se estruturou juridicamente. Do início das atividades para cá são mais de 130 eventos gratuitos em espaços públicos, mais de 120 grupos musicais e 45 mil pessoas beneficiadas diretamente. Mais de 25 escolas públicas e privadas já receberam intervenções educacionais promovidas. Pioneiro em fazer conexões de impacto, Bola é incansável na busca por romper as barreiras invisíveis – culturais, sociais e econômicas. E, mais uma vez, temos a alegria de sermos parceiros.

No ano passado, A Banca lançou – com o apoio da Artemisia e do Centro de Empreendedorismo e Novos Negócios da Fundação Getulio Vargas (FGVCenn) – a Aceleradora de Negócios de Impacto Social da Periferia. Dos 51 negócios inscritos, foram selecionados cinco para um processo de aceleração de quatro meses. Ao final do ciclo, os empreendedores e empreendedoras podem receber até R$ 20 mil de capital-semente para investir no negócio. Com atuação nos distritos Jardim Ângela (M’Boi Mirim), Capela do Socorro e Campo Limpo (Capão Redondo), os selecionados têm em comum a forte intencionalidade de causar uma transformação significativa na sociedade a partir do sonho de criar negócios relevantes para a quebrada.

Boutique Kriola – marca focada em resgatar a identidade e autoestima da população negra –; Empreende Aí, negócio que dissemina a educação empreendedora na quebrada; Ecoativa, programa de gestão ambiental que desenvolve intercâmbios e vivências; Jovens Hackers, escola com aulas de programação e cultura maker robótica; e Editora Selo Povo editora com um catálogo formado por autores da periferia são os negócios selecionados e geridos, respectivamente, pelos empreendedores Michelle Fernandes, Luís Henrique Coelho e Jennifer Rodrigues, Jaison Pongiluppi, Arthur Gandra e Ferréz.

Nos próximos meses, as organizações envolvidas vão botar em prática um sonho em comum: potencializar o desenvolvimento de negócios de impacto social na periferia com soluções voltadas para endereçar desafios sociais e ambientais. Além de apoiar, queremos também incentivar o surgimento de novos negócios de impacto dentro das periferias, que hoje representam uma parcela pequena do ecossistema.

Uma nova geração de negócios de impacto só será efetiva se a população das periferias brasileiras for protagonista na geração de negócios que solucionem seus problemas sociais. Nas diversas comunidades do nosso país, existem empreendedoras e empreendedores com soluções de alto potencial de gerar impacto positivo que, com suporte adequado, podem escalar e transformar a vida de milhares de pessoas. Seremos incansáveis no trabalho de criar pontes entre empreendedoras e empreendedores acelerados provenientes de realidades distintas.

Maure Pessanha, coempreendedora e diretora-executiva da Artemisia, organização pioneira no fomento e disseminação de negócios de impacto social no Brasil.

As empreendedoras e a luta por representatividade

8 de março de 2018

Há 110 anos, mulheres norte-americanas se reuniram em prol da igualdade política e econômica no país. Nos Estados Unidos e Europa, nesse longínquo Dia da Mulher de 1908, a luta era – entre outras demandas – contra jornadas de trabalho de 15 horas diárias e discriminação de gênero. Mais de cem anos depois é estranho pensar que muitas das nossas lutas permanecem as mesmas. Embora seja impossível não pensar no quanto avançamos e no tanto de conquistas podemos celebrar, uma questão se mantém presente: a luta por representatividade.

:.Colunistas do Estado dão voz a vítimas de violência.:

Vale lembrar que representatividade é tão relevante na construção do empoderamento feminino quanto oferecer oportunidades iguais para as garotas. As mulheres de todo o mundo têm reivindicado o direito a contar a história real da contribuição feminina na Matemática, Ciência, Física Nuclear, Engenharia Aeroespacial, Programação,Finanças e tantos outros territórios supostamente masculinos. É importante termos modelos que inspirem as novas gerações. A cientista Rosalind Franklin, por exemplo, teve um papel preponderante na descoberta do DNA. Ada Lovelace, matemática e programadora britânica, criou o primeiro algoritmo e produziu estudos que influenciaram os trabalhos de Alan Turing na construção dos primeiros computadores. Na Segunda Guerra Mundial, 80% de todos os criptoanalistas eram mulheres.

Não sabia? E tem mais… Artemisia Gentileschi, pintora do Barroco italiano no século XVII – inspiração para nomear a organização pioneira no Brasil no fomento de negócios de impacto social – foi a primeira mulher a ser aceita pela Academia de Belas Artes de Florença (Itália), a mesma na qual Michelangelo estudou. O talento, ativismo, vanguardismo e coragem para enfrentar o status quo inspiraram a cofundadora Kelly Michel, que conheceu o trabalho da artista ao cursar Artes na Universidade.

A nossa Artemisia surgiu da inquietação e da profunda crença de que a força e a escala de negócios poderiam ser eficientes para solucionar problemas sociais estruturantes e complexos; da visão de que o mercado pode endereçar questões sociais. E, nesse contexto, as empreendedoras têm um papel preponderante. As mulheres possuem uma excelente visão de longo prazo, têm capacidade de resolução de conflitos, talento para comandar equipes multiprofissionais e empatia com problemas e desafios alheios. Estas características são extremamente relevantes para empreendedoras que investem em negócios de impacto social – empresas que oferecem, de forma intencional, soluções escaláveis para problemas sociais da população de baixa renda.

A Artemisia está conectada com a causa da representatividade de gênero e a geração de oportunidades para que as empreendedoras possam se desenvolver em um ambiente mais igualitário. Em todos os nossos processos – da contratação de profissionais à seleção de negócios para programas de aceleração – buscamos contemplar a questão de gênero. Além disso, queremos contar, cada vez mais, a história de mulheres brasileiras que estão desafiando os padrões e empreendendo em prol da melhoria da sociedade. Elas têm trajetórias inspiradoras que merecem ser compartilhadas para influenciar mais e mais meninas.

Convido todos a conhecerem, na fanpage da Artemisia, histórias inspiradoras de brasileiras que criaram negócios de impacto social em setores como Tecnologia e Finanças, por exemplo. São empreendedoras que estão liderando negócios que vão de cartão de crédito para a população do bairro de Paraisópolis (Julia Drezza, MaisFácil); estações meteorológicas para gerar alertas antecipados em tempo real para prevenira população sobre eventos climáticos extremos como enchentes e deslizamentos (Mariana Marcílio, Pluvi.On); marketplace para compra e venda de produtos (Nanda Carvalho, Youtrendz); à plataforma de comércio justo e lucrativo para pequenos produtores rurais (Daiana Censi Lerípio, Sumá).

Indico, também, a leitura de Wonder Women – de Sam Gaggs – que traz a história de 25 mulheres inovadoras, inventoras e pioneiras que fizeram a diferença. Na obra há um guia muito útil de organizações que apoiam mulheres de todas idades interessadas em expandir os próprios horizontes em ciência e tecnologia.

Maure Pessanha, coempreendedora e diretora-executiva da Artemisia, organização pioneira no fomento e disseminação de negócios de impacto social no Brasil.

Uma nova geração de profissionais com o propósito de mudar o Brasil

24 de janeiro de 2018

Há uma nova geração de profissionais brasileiros em busca de uma carreira que possibilite ter sucesso financeiro e atuar em uma atividade relevante para a sociedade. De acordo com um estudo conduzido pela Stanford University, na Graduate School of Business, 90% dos alunos de MBA da instituição estão dispostos a trocar benefícios financeiros pela oportunidade de trabalhar em uma empresa que demonstre um forte compromisso com o bem social. Estamos vivendo o que a consultoria global Great Place to Work – gestora da pesquisa Melhores Empresas para Trabalhar – classifica como “A era do significado”.

Na prática, parte dessa demanda tem sido atendida pelo campo dos negócios de impacto social – empresas que por meio de uma atividade principal oferecem soluções para problemas sociais. Seja empreendendo, trabalhando para o negócio ou para organizações de apoio (como aceleradoras, incubadoras e fundos de investimento, por exemplo), ou até levando o conceito para dentro das grandes empresas – os chamados intraempreendedores –, muitos brasileiros têm conseguido unir o que muitas vezes parece difícil conciliar. Estão ganhando dinheiro e mudando o mundo!

Se há mais de uma década esse foi o caminho trilhado por jovens recém-formados em universidades – que decidiram empreender ou atuar nessas empresas – hoje, muitos dos empreendedores e funcionários de negócios de impacto social são profissionais experientes do mercado financeiro, por exemplo. Ou seja, pessoas com mais de 40 anos e com carreiras sólidas construídas em um mercado corporativo mais tradicional resolveram mudar suas rotas em busca de aplicar suas habilidades para gerar impacto positivo.

Na Artemisia, não nos faltam exemplos dessa tendência. Claudio Sassaki, empreendedor da Geekie, trocou a carreira de executivo do Credit Suisse impulsionado por um incômodo causado por uma atuação profissional que não atendia ao seu propósito maior: transformar a educação no país, tornando-a mais justa, eficiente e significativa. Vitor Moura, fundador do VidaClass, criou o negócio de impacto social focado em saúde depois de vivenciar cinco anos como CFO do Hospital Israelita Albert Einstein – referência em saúde de qualidade do país – e ter sido membro do Conselho Gestor do Hospital Municipal do M’Boi Mirim. Ou seja, ter vivenciado duas realidades de acesso à saúde.

Por quase 20 anos, João Lencioni – empreendedor da fintech Jeitto – foi gestor de tecnologia, atuando como CIO em negócios da GE na América Latina, Estados Unidos e Alemanha. A carreira ganhou um outro significado ao empreender um negócio alinhado ao propósito de criar soluções de microcrédito com potencial de impactar um grande número de pessoas na base da pirâmide.

Mas, um ponto de atenção é que não existem heróis solitários. Existem pessoas em comunhão de um propósito maior do que elas mesmas. Essas pessoas têm trabalhado para transformar a realidade do país. É nesse ponto que entra a capacidade do empreendedor de inspirar para formar e gerir equipes coesas; profissionais talentosos que partilham do propósito de mudar a forma de fazer negócios. Um tema que, certamente, vamos abordar em outro artigo.

Maure Pessanha, co-empreendedora e diretora-executiva da Artemisia, organização pioneira no fomento e disseminação de negócios de impacto social no Brasil.

 

Você tem fome de quê? O empreendedorismo de impacto e as oportunidades no setor da alimentação

14 de dezembro de 2017

David Hertz, grande impulsionador do movimento da gastronomia social no Brasil e no mundo, transformou as experiências profissionais em um poderoso insight. Se a gastronomia é tão rica – movimenta 9,3% do PIB brasileiro, sendo um dos maiores empregadores nos grandes centros urbanos do país –, ela pode ter um propósito maior do que apenas alimentação; pode ser um agente poderoso de transformação e inclusão social. Dessa forma, em 2006, surgiu a Gastromotiva, uma iniciativa que atua com a capacitação de jovens e apoio a microempreendedores na área de gastronomia.

Uma década depois, Hertz transformou o sonho em instrumento para promover educação, empregabilidade e geração de renda. De 2007 até hoje, a Gastromotiva já formou mais de 2 mil pessoas – com idades entre 17 anos e 35 anos – em São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Curitiba e Cidade do México, atingindo um índice de 80% de empregabilidade, após o término do curso; e já apoiou mais de 200 microempreendedores.

Em 2017, a Artemisia teve uma nova oportunidade para refletir e estudar o poder da alimentação e da gastronomia dentro da lógica dos negócios e da transformação social. Em parceria com a Fundação Cargill, conduzimos a Tese de Impacto Social em Alimentação – um estudo que reúne informações relevantes sobre os desafios enfrentados na temática pela população brasileira de baixa renda e pelo setor; e aponta quais são as oportunidades para o desenvolvimento de negócios de impacto social que possam contribuir de forma positiva com a sociedade.

Acesso ao mercado; produtos e serviços financeiros adequados; ampliação da conectividade; insumos, ferramentas e maquinários adequados e de baixo custo; apoio e capacitação para melhor gestão e produtividade; acesso a frutas, verduras e legumes; produção próxima ao consumidor; acesso a refeições saudáveis; armazenamento de alimentos; prevenção & nutrição; e educação nutricional são as oportunidades para empreender detectadas pelo estudo. A análise setorial traz, ainda, exemplos de iniciativas e negócios de impacto social que representam as principais inovações no setor – alguns deles, inclusive, acelerados pela Artemisia, como a Gastromotiva.

A íntegra desse estudo inédito está disponível para download gratuito (aqui), porque consideramos fundamental fomentar ações inovadoras para disseminar conhecimento. Podemos afirmar que a construção dessa Tese é uma entrega à sociedade, servindo como ferramenta para desdobramentos múltiplos de um tema relevante para a população brasileira e para toda uma rede de profissionais do setor – incluindo empreendedores, institutos, fundações, incubadoras, outras aceleradoras e fundos de investimento.

E, voltando ao David, o sonho dele não parou por aí. Ano passado concretizou o Refettorio Gastromotiva, um restaurante no Rio de Janeiro localizado na Lapa que serve comida feita com alimentos excedentes, vindos de mercados ou cozinhas profissionais, e não manipulados. No almoço, a casa é aberta a todos e no jantar apenas para a população menos favorecida. Para as receitas, conta com o auxílio de chefs convidados. O Refettorio é um exemplo concreto de como evitar o desperdicio de alimentos, um dos principais desafios – que pode virar uma oportunidade – da cadeia de alimentação evidenciados em nossa Tese. Com ela, esperamos que mais empreendedores geniais e conectados com o propósito, como o David Hertz, surjam. Boa leitura!

* Maure Pessanha, coempreendedora e diretora-executiva da Artemisia, organização pioneira no fomento e disseminação de negócios de impacto social no Brasil.