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Blog do Empreendedor
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Hype Economy: A insustentável superficialidade da fumaça colorida

15 de dezembro de 2017

O termo hype tem sido associado a coisas legais, novidades ou modernidades que deveríamos prestar atenção. No dicionário Merriam-Webster, o termo, como adjetivo, é definido como algo excelente ou bacana.  Esta referência ainda cita que esta definição é mais recente, sendo utilizada desde 1989. Hype ainda é algo que é promovido de forma extravagante ou artificial para ganhar notoriedade. Mas curiosamente, a definição principal, utilizada desde 1931, segundo o Merriam-Webster, está relacionada com ilusão, engano ou ainda fingimento, simulação.

Neste contexto, hype talvez seja um termo ideal que realmente representa diversos temas, negócios, eventos, treinamentos, especialistas e novas fontes de conhecimento, que, de repente se tornaram… hype, criando uma economia própria.

Hype como algo importante ou legal deve sempre ser estudado, analisado e, se for útil, planejado, implementado e avaliado. A Quarta Revolução Industrial apresenta uma enxurrada de novas tecnologias que estão inquietando muitos C-Levels das empresas. Toda semana aparece um cavaleiro do apocalipse amaldiçoando a sua empresa que ainda não iniciou sua transformação digital. Se não bastasse ter que pensar no futuro disruptivo do seu negócio com base em big data, internet das coisas, automação ou inteligência artificial, ainda precisa fazê-lo com o custo e velocidade de uma startup e com a perspectiva do design thinking na experiência do usuário, tudo isso, com analytics em todas as frentes. Dos fabricantes de cimento e trading de grãos às startups unicórnios mais valorizadas ao redor do mundo, quem não precisa considerar estas novas regras de negócio?

É aqui que entra o hype promovido de forma extravagante ou mesmo, maliciosamente, artificial. Diante das drásticas mudanças de comunicação e comportamento das pessoas e empresas e velocidade e teor das destas alterações, boa parte das empresas precisa inovar. Mas o “analfabetismo” digital de muitos executivos os tornam vulneráveis a vendedores de soluções milagrosas. Isto já havia acontecido no passado com soluções de Knowledge Management (KM) e depois Business Intelligence (BI), mas agora os desafios são mais numerosos, complexos e exponenciais. Uma decisão errada de plataforma de inbound marketing pode sangrar seriamente o caixa de muitos negócios. Some-se a isto o design centrado no usuário, a jornada do consumidor, a Geração Y e a valorização do propósito de vida de cada colaborador. A roupa nova do rei é sempre o hype da semana até que alguém mais lúcido aparecer e questionar: O conceito de Retorno sobre o Investimento (ROI) também (ainda) é algo hype?

Por isso, antes de embarcar em qualquer hype, estude para não ser traído pelo desejo de também ser isto de forma superficial e insustentável. O número de “especialistas” em temas hype disparou na última década. Dizem conhecer profundamente bitcoin, big data, design thinking, cloud, mas quando se entra em questões mais profundas, a nuvem se torna fumaça colorida de fogos de artificio. Assim, antes de entrar em um embate com sua rede de contatos a respeito do valor do bitcoin, estude profundamente blockchain e a evolução do seu uso. Antes de alardear os benefícios do Big Data, analise a qualidade das bases de dados da sua empresa e tire o pó dos seus livros de estatística. Se possível, pesquise como Sam Walton, fundador do Walmart já acreditava e aplicava estes conceitos ainda na década de 1970. E antes de colar post-its coloridos e dizer que isto é a última tendência em Design Thinking, apaixone-se pela antropologia e, especial a etnografia. Neste campo, deleite-se com sua aplicação ainda em 1870, quando Jacob Davis criou a calça jeans considerando a experiência de uso pelos mineiros de ouro na Califórnia para depois patenteá-la junto com Levi Strauss.

A história da Levi´s ainda é intrigante, pois é a própria metáfora de qualquer onda hype. Muito mais pessoas perderam dinheiro no hype da Grande Corrida ao Ouro no Velho Oeste Americano no Século XIX. Quem ganhou foram os vendedores de ferramentas como calças jeans e picaretas.

Agora, na corrida ao ouro digital do Século XXI, é preciso tomar cuidado justamente com os… picaretas que tentam vender fumaça colorida a preço de ouro.

Marcelo Nakagawa é Professor de Inovação e Empreendedorismo do Insper.

 

A empresa que todos os empreendedores deveriam conhecer não faz nada mais além do óbvio

10 de novembro de 2017

Uma boa empresa deveria vender muito. Considerando as vendas proporcionais por metro quadrado, esta tem vendido o dobro da segunda colocada. Uma boa empresa deveria ter clientes fiéis. 76% dos seus clientes lembram que fizeram a compra mais recente lá e indicariam a empresa para seus amigos e conhecidos, mantendo-a entre as favoritas do seu ultracompetitivo mercado há muitos anos. Uma boa empresa deveria fazer o bem para o seus clientes. Esta empresa vende majoritariamente alimentos naturais e orgânicos, premiums e gourmets e ainda consegue fazê-los mais baratos do que os similares da concorrência. Por isso, esta empresa tem fila na porta.

Na abertura da sua mais nova loja, no mês passado, as portas foram abertas às oito da manhã, mas as filas começaram a se formar duas horas antes. Uma boa empresa deveria ser um ótimo local de trabalho. Ela foi considerada a 16ª melhor empresa para trabalhar em todos os Estados Unidos no ano passado, pagando os maiores níveis salariais do seu setor e oferecendo os melhores benefícios. E há diversos relatos de colaboradores atuais e antigos sobre como trabalhar nesta organização mudou suas vidas. E depois de tudo isso, lá na última linha da demonstração do resultado, uma boa empresa precisaria ser lucrativa. E esta empresa é uma das mais rentáveis do setor varejista mundial. A empresa opera lojas pequenas, com poucas opções e com cerca de 80% dos itens sendo marca própria. Isto aumenta a eficiência, escala de compra, custos logísticos, tornando a empresa muito lucrativa e sem endividamento.

As empresas deveriam ser assim, mas não são. Por isso, deveriam conhecer um pouco mais sobre esta empresa, a Trader Joe’s. Mas as empresas também deveriam falar menos e fazer mais. Neste contexto, com quase 500 lojas, mais de 38 mil colaboradores e com faturamento estimado de 13 bilhões de dólares, pouco se conhece da TJ como é mais chamada pelos seus clientes e colaboradores. Seu fundador, Joe Coulombe, atualmente com 87 anos, vendeu a empresa há quase 40 anos. O grupo alemão que adquiriu a Trader Joe’s, manteve não só Joe a frente do seu negócio até se aposentar em 1988 como nunca mais interferiu na forma com que o criativo fundador gerenciava o negócio ou criava uniformes espalhafatosos com temas havaianos para sua equipe. Ele, por sua vez, passou a adotar o perfil discreto, quase invisível que era a principal característica do grupo alemão. A empresa, seus produtos, serviços e experiência de consumo é que devem se destacar! E desde então, seus executivos não aparecem na mídia, não palestram, não falam da empresa. Por ser de capital fechado, a Trader Joe’s não divulga seus números. A empresa também não faz nenhum tipo de propaganda, com exceção ao Fearless Flyer, seu tradicional panfleto de ofertas. A discrição chega à sede da matriz, localizada na cidade de Monrovia, Califórnia, que não tem nenhuma placa ou sinalização com o logo ou nome da TJ.

E mesmo com esta discrição absoluta, a Trader Joe’s consegue entregar uma experiência de consumo que só pode ser descrita com um termo: Uau! Mas o segredo do sucesso da TJ não é nenhum segredo e segue cinco lógicas absolutamente óbvias:

• Venda para pessoas educadas e inteligentes: A empresa foi fundada em 1958 com o nome de Pronto Market e era, basicamente, uma loja de conveniência. Em 1967, Joe Coulombe explicou em uma das suas raras entrevista que leu uma notícia em que era mencionado que 60% das pessoas estavam indo para a faculdade naquele momento. Ele pensou que pessoas mais bem educadas, naturalmente seriam mais exigentes e demandariam um serviço de varejo com produtos mais sofisticados, mas nem por isso pagariam mais caro (afinal, eram inteligentes). Daí veio a ideia de reformular todas as lojas que tinha e inspirado nos “mares do sul” e diversas ilhas famosas, lançou a primeira loja da Trader Joe’s, como algo que remetesse a um entreposto comercial sofisticado do Joe no Havaí. A obviedade é que é fácil vender e manipular clientes idiotas, mas os mais bem educados tendem sempre a exigir o melhor da empresa.

• Monte times pequenos e engajados: A lógica inicial é a mesma até hoje. Os colaboradores são chamados de tripulação. Cada loja tem um capitão. Os gerentes são chamados de First Mate, ou algo como imediatos. A seguir vêm os Merchants ou mercadores. Por fim, há o Crew ou membros da tripulação. A metáfora óbvia é que todos estão no mesmo barco, com poucos níveis hierárquicos e com todos sabendo suas funções, mas também atentos na execução de outras atividades para manter ou aumentar a velocidade do navio funciona!

• Mantenha sua tripulação sempre muito feliz: Encontrar um funcionário feliz ou muito feliz nas lojas da Trader Joe’s e sempre disposto a atendê-lo(a) excepcionalmente bem é uma constante. Para se chegar a este patamar, a TJ oferece os melhores salários, benefícios e condições de trabalho do mercado e total liberdade com responsabilidade. Está cansado, pode descansar. Com fome, pegue algo para comer. Precisa sair mais cedo ou chegar mais tarde. Tudo bem. Não se dá bem um chefe, bom… há vários outros para reportar. Em troca, a empresa quer ver o membro da tripulação entregar uma experiência de consumo UAU! Deve ser amigável, atencioso e divertido. Com todos!

• Ofereça poucas, mas sempre as melhores opções de produtos: A TJ tem uma variedade entre 4 a 5 mil opções enquanto seus grandes concorrentes chegam a oferecer 60 ou 70 mil. Mas cada produto ofertado é cuidadosamente concebido, produzido e embalado. Por se concentrar em uma camada exigente de consumidores, a Trader Joe’s acaba lançando diversos novos produtos que se tornam tendência de mercado depois como cervejas artesanais, iogurtes gregos ou alimentos integrais gourmets. Além disso, cerca de 80% dos itens são comercializados via marca própria. Com isso, a TJ consegue oferecer produtos muito diferenciados, mas com preços baixos.

• Nenhum cliente deve estar insatisfeito. Além do tratamento sempre cordial, da qualidade e criatividade dos seus produtos, a política de reembolso de clientes insatisfeitos da TJ é assustadoramente eficaz. Comprou um produto e não gostou? Mesmo já tendo consumido parte dele ou mesmo não tendo nota fiscal, a empresa reembolsa o valor. Sem questionamentos. Mas a empresa não faz isto pelo medo do impacto negativo de um cliente insatisfeito, mas por acreditar que precisa, de fato, vender algo de grande valor fortalecendo os laços de confiança.
Óbvio assim… há quase 60 anos.

Marcelo Nakagawa é Professor de Inovação e Empreendedorismo do Insper

Mais que clientes, receitas, cabelos… empreendedores estão perdendo sua saúde

7 de novembro de 2017

Não só no Brasil, mas em todo o mundo, criou-se o mito do empreendedor super-herói. Estes aparecem sempre sorridentes, poderosos, bem sucedidos, confiantes, sábios, visionários, ainda que, em alguns casos, a sua empresa ou vida pessoal esteja um caos. “Se não der certo, eu pivoto…” – diz com pleno domínio do startupês, linguagem dos empreendedores mais atualizados. Mas nem sempre é possível pivotar a queda de cabelo, a pressão alta ou as poucas horas de sono, principalmente quando as estatísticas apontam que parcela majoritária das empresas nascentes quebra nos primeiros cinco anos.

Mas como os empreendedores são tratados como um super-herói, quase ninguém fala da sua saúde. Contudo, ele também é vulnerável. Por isso, o artigo escrito por Larry Alton para a revista norte-americana Inc. é tão importante. Nele, Alton apresenta as aflições pessoais mais comuns entre os empreendedores, até entre os mais bem sucedidos, e que abalam seriamente a sua saúde. São elas:

• Dores nas costas: Dores lombares, nas costas, pescoço não prevalecem apenas em empreendedores. Mas a intensidade de preocupações e a quantidade de horas em uma postura errada diante do computador ou celular só intensificam as estatísticas.

• Problemas com a visão: Dez, quinze ou mais horas trabalhando. Boa parte olhando para uma tela de computador ou do celular. Em algum momento, a Síndrome de Visão de Computador (CVS) aparece na timeline do empreendedor.

• Insônia: Quando se diz que o empreendedor trabalha 24 X 7, isto não é uma mera metáfora. Muitos chegam próximo disso e quando vão para a cama, dormem mal. Se não bastasse a quantidade de trabalho, o sono ainda é afetado pela pilha crescente de preocupações e deteriorado pela quantidade de café ingerida diariamente.

• Hipertensão: Que o empreendedor precisa ter coração forte, todos sabem. Mas mesmo sendo forte, é preciso escutá-lo periodicamente. Pressão alta de vez em quando, faz parte da rotina empreendedora, mas sempre pode ser sinal de alguma doença importante.

• Enxaqueca: Quem tem sabe como isto implode sua capacidade de trabalho. Ter que ficar parado com tantas urgências para resolver é uma das piores torturas para qualquer empreendedor. E se não for a enxaqueca, pode ser a gastrite…

• Obesidade: Por mais que o espelho diga todas as manhãs que está acima do peso, muitos empreendedores continuam tendo uma vida sedentária, alimentando-se mal e dormindo pouco.

• Ansiedade: A rotina do empreendedor é naturalmente intensa e diversas novas decisões precisam ser tomadas todos os dias. Para Alton, isto pode favorecer crises de ansiedade. Nosso problema é que o Brasil é recordista mundial em pessoas com transtornos de ansiedade, segundo a OMS. Quase 19 milhões de brasileiros são diagnosticados clinicamente como ansiosos.

• Disfunção sexual: E como se não pudesse piorar…

• Depressão: Apesar de exigir diagnóstico clínico, o número de pessoas que sofrem com a depressão tem disparado no Brasil. A pesquisa mais recente da Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que há, pelo menos, 11,5 milhões de casos registrados no país.

• Vícios: Em alguns casos, Alton explica que se tenta combater a enorme carga de pressão do empreendedor com algum tipo de consumo crítico de alguma substância, desde o café, cigarro ou álcool aos entorpecentes proibidos.

Mesmo que as aflições pessoais dos empreendedores ainda não recebam tanta atenção, elas estão presentes na sua vida pessoal. Por isso, é preciso lembrar algo óbvio: todas têm tratamentos!

Para o empreendedor ser um super-herói (e é de fato dado às dificuldades que enfrenta) precisa ser forte. Mas antes disso, deve estar saudável.

Marcelo Nakagawa é Professor de Inovação e Empreendedorismo do Insper

 

Para o seu próprio bem, as empresas deveriam valorizar os mais velhos

16 de dezembro de 2016

“Eu não tenho medo de morrer…” – diz minha mais que colega, minha amiga de trabalho. “Tenho medo sobre como vou morrer…”. Dona Áurea, como a chamamos, é vitalidade, bom humor e resiliência em todos os sentidos. Ela não gosta de falar da idade, mas acho que viu o Brasil ser campeão em todas as Copas. Já não precisa da remuneração do trabalho há muito tempo, mas cumpre sua jornada diária porque gosta muito do que faz. Mas isto não a impede de apreciar um bom restaurante, jogar cartas com os amigos, postar novidades no seu Facebook, ir para a praia de tempos em tempos e ser viciada em tênis. Não conheço alguém que goste mais de tênis do que a Dona Áurea. Até hoje não sei se é por causa do esporte ou dos tenistas. Mas seja o que for, ela está certíssima. Dona Áurea sempre está certa. Errados estão os outros que se acham inválidos por causa da idade.

Mas a Dona Áurea é uma exceção no Brasil. Enquanto em outros países como no Japão, Coréia do Sul ou mesmo nos Estados Unidos é absolutamente normal idosos trabalharem, no Brasil a pirâmide etária organizacional está se achatando cada vez mais. Se não trabalhar em um órgão público, notará o predomínio da faixa de 20 a 30 anos e depois uma drástica redução nas faixas posteriores até ter dificuldade em citar pessoas com 50 a 60 anos. Mas isto ocorre menos pela vontade dos profissionais mais experientes e mais pela métrica financeira da margem crescente de lucros. Daí a intensa juniorização no quadro de colaboradores das empresas. Isto é ótimo para a juventude “que tem resposta para tudo” que entra no mercado de trabalho, mas algo cada vez mais preocupante para os “entas” (40, 50, 60) que lutam para manter seus crachás e sobrenomes corporativos.

Além disso, muitos idosos, talvez até já aposentados, precisam complementar sua renda. Neste ano, uma empresa de Curitiba anunciou a vaga de secretária com remuneração de R$ 1.200,00, mas dizia que tinha interesse em candidatos com idade mínima de 60 anos. A empresa entendia que candidatos com este perfil tinham mais paciência, eram mais comprometidos, além de ter experiência. Recebeu 1.700 currículos de cinco estados brasileiros. O IBGE estima que cerca de, pelo menos, 220 mil idosos estejam nesta situação. E o que mais assusta é que esta demanda vem crescendo 60% nos últimos quatro anos.

Este cenário assustador para todos nós que, invariavelmente, envelhecemos, tem mostrado alguns alentos (que estão longe se ser comemoráveis), mas que servem de exemplos para a importância dos profissionais mais experientes em trazer mais do que conhecimento, rede de relacionamento ou vontade real de trabalhar. Estes profissionais trazem mais serenidade, sabedoria e tem mais compromisso com a empresa, com as pessoas, principalmente clientes. E o principal, estes idosos tornam a empresa mais humana.

Muitas empresas já criaram programas de contração de profissionais mais experientes. Agora, inspirados no filme “Um Senhor Estagiário”, em que Robert De Niro representa um senhor de 70 anos que arranja uma vaga em uma startup e a revoluciona a partir da (re)descoberta de aspectos verdadeiramente humanos como a compaixão, a ética, o compromisso, a organização, o senso de equipe, a curiosidade em aprender e principalmente o amor fraternal pelas pessoas, várias novas empresas também estão interessadas em trazer um estagiário sênior para suas equipes.

Um dos grandes responsáveis pela valorização dos profissionais mais experientes é o empreendedor Mórris Litvak Jr. Ele fundou a startup MaturiJobs, a primeira plataforma brasileira que só conecta pessoas com mais de 50 anos com empresas que buscam este perfil, mas que também incentiva um número maior de organizações e em mais setores a também valorizarem não só a experiência, mas a sabedoria que só vem com a idade.

Para o nosso próprio bem, incentive e divulgue a valorização daquilo que é o futuro de todos nós. E viva como não ficasse velho nunca, pelo menos esse é o conselho da Dona Áurea. Já que você não pode escolher como vai morrer, pelo menos escolha como vai viver.

E viva a vida, Dona Áurea!

Marcelo Nakagawa é Head de Empreendedorismo da FIAP

É preciso que as faculdades parem de formar desempregados

14 de outubro de 2016

“Professor, estou buscando empreendedores. Conhece algum aluno ou ex-aluno que está empreendendo?” Ele desviou sua atenção do computador, encarou-me como se fosse um ET e com um olhar oblíquo e desinteressado perguntou quem eu era e se poderia ser mais claro. Disse que trabalhava com venture capital e que estava em busca de startups para investir. Ele voltou-se para o monitor e balbuciou algo que entendi que ele não poderia ajudar. Agradeci a atenção e saí da sua sala com a dúvida se ele tinha entendido alguma coisa do que tinha falado ou se tinha ficado bravo por tê-lo abordado sem um agendamento prévio. Mas a cena se repetiu inúmeras vezes naquele ano de 1999 em outras faculdades e universidades e a quase totalidade dos professores não tinha nenhuma compreensão ou referência de empreendedorismo.

Dezessete anos depois e esta universidade que tinha visitado inicialmente, a UNICAMP, é a principal referência acadêmica nacional de empreendedorismo. É a que mais gera patentes no país, tem uma das principais incubadoras e parques tecnológicos do Brasil, a mais atuante agência de inovação e seus dirigentes não se cansam de falar das “filhas da UNICAMP”, um conjunto monitorado de 286 empresas que foram criadas por egressos da instituição e que juntas faturaram algo próximo a R$ 3 bilhões e geraram 20 mil empregos altamente qualificados em 2015.

Mas enquanto a UNICAMP não só incluiu o tema empreendedorismo, principalmente a partir de 2002, quando o Professor Carlos Henrique Brito Cruz assumiu a reitoria, mas também criou as bases de um ecossistema condizente com a sua estrutura e papel social, muitas faculdades e universidades do país ainda não perceberam o papel cada vez mais relevante em formar alunos empreendedores e inovadores.

Se os temas empreendedorismo e inovação já se tornaram rotina nas faculdades de negócios, engenharias e computação, em outras são solenemente ignoradas e, em certos casos são até execradas como símbolo maldito do capitalismo.
Em cursos como Medicina, Odontologia, Fisioterapia, Educação Física, Pedagogia, Direito, Contabilidade, Psicologia, Nutrição, Design, Arquitetura, Moda ou Gastronomia, entre tantos, a opção de atuar por conta própria será considerada pelo(a) aluno(a) em algum momento da sua carreira profissional e este momento tem sido cada vez mais cedo. Desta forma, conhecimentos, habilidades e atitudes empreendedoras só o(a) tornará um(a) melhor profissional, trabalhando para si ou para os outros.

Mas há outros cursos que muitos não enxergam uma relação direta com o empreendedorismo e inovação. Filosofia e Biblioteconomia são dois exemplos emblemáticos. Estes não entendem o real motivo de Mario Sergio Cortella, Luiz Felipe Pondé ou Clovis de Barros Filho fazerem tanto sucesso empreendendo algo que tende a ser cada vez mais, o maior problema do ser humano: a sua própria existência. Também desconhecem como o Google surgiu justamente a partir de um problema de pesquisa bibliográfica e a relevância de uma determinada referência em um mundo inundado de informações inúteis ou desconexas.

Mas o principal motivo de incluirmos empreendedorismo e inovação na grade curricular de todos os cursos superiores não está no fato de darmos mais alternativas de carreiras para os nossos alunos, mas porque ensinamos olhando para o passado, com exemplos, técnicas e abordagens de anos ou décadas atrás, que, em várias situações já não são mais utilizados pelo mercado.

Isto tem criado um desemprego sistêmico e funcional em que uma massa crescente de jovens não consegue encontrar uma vaga para aplicar o que aprendeu. Por outro lado, o aluno empreendedor é um visionário que tem iniciativa, sabe identificar oportunidades e estabelecer soluções inovadoras. Ser um empreendedor não se limita às pessoas que criam iniciativas muito rentáveis, negócios sociais ou mesmo empresas sem fins lucrativos. O comportamento empreendedor existe em todos os setores, em todos os níveis de carreira, em todos os momentos da vida. E, curiosamente, é o perfil mais demandado pelas principais empresas que precisam contratar talentos que querem empreender e inovar dentro das organizações. O empreendedor pode querer ou não ser empregado, mas nunca ficará desempregado.

Mas voltando ao professor… Ele tinha vários alunos e ex-alunos empreendendo. Anos depois, acabamos investindo na startup criada pelo Fabricio Bloisi e outros colegas da faculdade. Fabrício co-fundou a Compera, atual Movile, a maior empresa de aplicativos móveis da América Latina, com soluções como a PlayKids, iFood e TruckPad, tornando-se um dos principais empreendedores brasileiros da atualidade.  Um golaço da UNICAMP…

Marcelo Nakagawa é Professor de Empreendedorismo e Inovação do Insper e Diretor de Empreendedorismo da FIAP.

 

Quem reclama, sabe fazer melhor

7 de outubro de 2016

O que Ghandi, a dentista brasileira que criou o escorredor de arroz e o fundador da ONG Médicos Sem Fronteiras têm em comum? Ele pararam de reclamar e foram fazer melhor

Eu reclamo. Tu reclamas. Ele reclama. Nós reclamamos. Vós reclamais. Eles reclamam. Até que eu reclamo porque eles reclamam. E de repente, todos estão reclamando. É o trânsito. São os políticos. É o atendimento ruim que recebeu. O seu chefe. Seus funcionários. O governo. É a violência. Quantas vezes já reclamou hoje, mesmo que mentalmente?

Ainda me lembro de uma mensagem colada na porta da sala de um professor da faculdade em que estudei: Quem reclama, sabe fazer melhor! Depois que li isto, desisti de falar com ele. Nem ia reclamar, mas achei melhor voltar depois com uma melhor solução.

Vários anônimos ou nem tanto, se depararam com mensagem semelhante em portas da vida. Enquanto a maioria reclama da provocação, outros são provocados a fazer melhor.  Alguns reclamam do mundo de todos. Cansado de reclamar da falta de engajamento da Cruz Vermelha em suas ações, o médico francês Bernard Kouchner co-fundou a Médicos Sem Fronteiras em 1971, organização não governamental que buscava alinhar ajuda humanitária, sensibilização mundial e discussão política sobre graves problemas localizados de saúde.

Outros reclamam do nosso mundo. Quantas vezes já reclamou da corrupção no país? O alemão Peter Eigen também. Mas ele parou de reclamar disso a partir de 1993 quando co-fundou a ONG Transparência Internacional que monitora e divulga o nível de corrupção nos países. Graças ao ranking da corrupção mundial da Transparência em 2015, a população da Dinamarca, país menos corrupto do mundo, pode reclamar das razões do país ter tirado nota 91 e não 100. Da mesma forma, por que Finlândia e Suécia tiraram 91 e 89, respectivamente e não 100. E enquanto isso no Brasil… a população começa a não aceitar a nota 38…

Você pode também reclamar dos seus problemas mais mundanos do seu mundo. Que tal reclamar do aspirador de pó? No final da década de 1970, esse era o hobby do inglês James Dyson. Era o barulho ensurdecedor, a oscilação da potência e quem já tirou o saco do aspirador sabe que saco representa bem a situação.

Como quem reclama, sabe fazer melhor, o sujeito pediu demissão e se trancou em uma oficina improvisada em sua casa por cinco anos. Entre 1979 e 1984, criou 5.127 protótipos de um aspirador que não tinha saquinho e era mais silencioso. Até que chegou a um resultado que julgou perfeito. Tentou vender sua criação para os fabricantes de aspiradores de pó, mas descobriu que eles não estavam neste negócio e sim no de sacos. Até quem em 1992 decidiu criar a sua própria empresa. A Dyson Ltd se tornou muito bem sucedida e seu bilionário fundador passou a ser oficialmente reconhecido como Sir James Dyson. Até suas reclamações mais simples são provocações para você fazer melhor.

A dentista brasileira Beatriz Zorowich já estava cansada de encontrar a pia da cozinha entupida com arroz preparado pela sua empregada quando teve a ideia de criar o escorredor de arroz em 1959. Era uma bacia conectada a uma peneira que facilitava a lavagem do arroz. Patenteou o produto e encontrou empresas interessadas em comercializá-lo. Hoje a inovação brasileira é encontrada em diversos países.

Quase 20 anos depois da citação da porta do professor, encontrei mensagem semelhante no trabalho de uma aluna que citava Ghandi: Seja a mudança que quer ver no mundo!

Marcelo Nakagawa é Professor de Empreendedorismo e Inovação do Insper e Diretor de Empreendedorismo da FIAP

 

Likes, shares, memes e haters: Quando a felicidade é um Moleskine e um lápis B2

30 de setembro de 2016

Qual Moleskine levar para casa? Como é possível inovar tanto em algo tão simples como um caderno de anotações? Como conseguem criar o desejo no consumidor de levar mais itens do que realmente necessitamos? Como criaram uma marca tão premium e desejada em um mercado tão fácil de entrar?

Preciso prestar atenção ao estilete enquanto aponto meu lápis B2, mas meus questionamentos voam enquanto olho para o meu divertido Moleskine desenvolvido em parceria com a Lego. A ideia é maravilhosamente simples, mas poderosamente criativa. Quem não gosta de Lego deve ser muito frustrado na vida ou deve ter pisado descalço em alguma peça. Mas de qualquer forma, a base na capa é um convite para você conectar seu personagem ou montagem preferida e só isto já te leva para outra dimensão só sua onde você só existe em pensamento, onde toda a criatividade é permitida, onde você não precisa se preocupar com likes, shares ou se distrair inutilmente com memes e tampouco se envenenar com a maldade de algum hater. Mas isto porque eu escolhi um Moleskine da Lego. Mas a sensação é a mesma dos outros diante dos seus Moleskines novinhos e a companhia de um lápis bem apontado ou uma caneta macia. Neste momento, estamos nas mesmas condições de Ernest Hemingway, Oscar Wilde, Vincent van Gogh, Henri Matisse e Pablo Picasso quando iniciavam um novo caderno de anotações. Começamos a, literalmente, colocar o melhor de nós no papel.

Por todas estas questões, reflexões e aspirações, a criação da Moleskine é uma inspiração para todos os empreendedores que queiram criar produtos que exponham a melhor parte dos seus consumidores.

A origem da empresa vai decepcionar muita gente. Mesmo que os blocos de anotações fossem usados desde 1850 na Europa, foi apenas em 1997 que uma pequena editora italiana chamada Modo & Modo registrou a marca Moleskine e produziu cinco mil unidades. Isto quebra a mágica de imaginar Hemingway à beira de uma praia em Cuba fazendo anotações iniciais de O Velho e o Mar ou Van Gogh no meio de uma plantação de girassóis tentando rascunhar o brilho do sol em seus Moleskines como a Modo & Modo conseguiu incluir no imaginário popular. Mas o bloco de anotação Moleskine fez tanto sucesso que no ano seguinte, em 1998, as vendas alcançaram 30 mil unidades e a empresa nunca mais parou de crescer a ponto de alguns anos depois ter sido comprada pela Société Générale Capital, uma empresa de capital de risco. Se seu crescimento for analisado, a Moleskine se comportou como uma das melhores startups daquele momento. Talvez por isso, tenha conseguido abrir o capital da empresa na bolsa italiana em 2013.

E o que distancia a Moleskine de todos os outros seus concorrentes é a plena dedicação da empresa a sua proposta de valor que é ser o sinônimo de “estilo de vida das pessoas criativas”. Para entregar isto, a empresa trabalha com três pilares:

1) Ser icônico: Seja o meu Moleskine Lego ou o mais tradicional de capa preta e elástico, custe o que custar ou faça o que deve ser feito, o cliente precisa bater o olho e enxergar um produto exemplar, que não pode nem merece ser comparado com qualquer outro concorrente;

2) Entregar valores aspiracionais únicos: O cliente precisa perceber uma forte identidade pessoal com o produto, que precisa estar plenamente alinhado com a sua cultura e memória, precisa fazer com que viaje em sua imaginação;

3) Conectar com o passado, mas sendo moderno: É preciso criar alguma ligação com algo já conhecido pelo cliente, estabelecendo-se uma tradição ou um costume, mas com uma roupagem totalmente moderna.

Esta forma de enxergar o que os clientes querem fez com que a Moleskine nunca atuasse no mercado de cadernos de anotações. Para isto há concorrentes mais baratos e competitivos. Mas a empresa sabe disso e por esta razão vem crescendo 21% em receita e 25% em lucros anualmente nos últimos seis anos porque oferece para o cliente o que ele(a) mais quer: Um pouco de felicidade consigo mesmo. E isto, muitas vezes, é apenas um Moleskine para chamar de seu e um bom lápis bem apontado.

Marcelo Nakagawa é Professor de Empreendedorismo e Inovação do Insper e Diretor de Empreendedorismo da FIAP

 

O empreendedorismo corporativo se tornou imprescindível para o crescimento das grandes empresas

8 de julho de 2016

A grande empresa, como a conhecemos hoje, é um dos maiores legados do Século XX. Quem estudou administração vai se lembrar do impacto das abordagens de Frederick Taylor, Henry Fayol e Henry Ford, entre outros, que provaram o papel dos tempos e métodos, da burocracia, da ordem e previsibilidade das operações no aumento da eficiência das organizações. A partir destas abordagens, uma pessoa com pouco conhecimento pode participar da produção de itens complexos como carros, eletrodomésticos e medicamentos.

O mecanicismo das operações começou a sufocar, de certa forma, os operários e funcionários, que assim eram chamados, pois (simplesmente) operavam as máquinas e tinham uma função. Mas antes de operários, eram pessoas que tinham necessidades e motivações. Os que não faltaram às aulas de Teoria Geral da Administração irão fazer alguma associação ao papel de Elton Mayo e o desafio de lidar com os aspectos psicológicos das pessoas na linha de produção e também de outros pensadores como Abraham Maslow e sua Pirâmide das Necessidades Humanas e Frederick Herzberg e sua Teoria dos Dois Fatores (Higiênicos e Motivacionais). O fator humano começou a influenciar na produtividade e os empresários perceberam que isto também era importante para aumentar suas margens de lucro.

A obsessão pela eficiência e lucratividade foi, depois, tangibilizada pela gestão da qualidade. William Deming, Joseph Juran, Kaoru Ishikawa e Shigeo Shingo e tantos outros pais da qualidade permitiram que qualquer organização do mundo que realmente quisesse, pudesse ser eficiente em custos e em qualidade. Organizações japonesas, norte-americanas, europeias, depois sul-coreanas, chinesas, indianas, taiwanesas e agora filipinas, vietnamitas e cambojanas se tornaram verdadeiramente globais por terem preço e qualidade.

Mas na edição de julho/agosto de 1960, o professor Theodore Levitt publicou um artigo com uma questão que intrigou o mundo dos negócios: Por que as maiores empresas do Século XIX não se mantiveram na mesma posição no século seguinte? A resposta era tão óbvia que muitas empresas não se atentaram a isto até hoje. As empresas acreditavam que estavam no mercado do seu produto (ou serviço) e não no do benefício do produto. Desta forma, empresas ferroviárias acreditam que estavam no mercado de ferrovias e não no de transporte. E continuaram a investir no aumento da eficiência e qualidade no transporte de trilhos. Muitas empresas, inclusive grandes corporações ainda sofrem desta Miopia de Marketing, título do artigo do Prof. Levitt.

Mas curiosamente, a história é formada de ciclos que se repetem e novamente muitos se questionam como as maiores empresas do Século XX conseguirão manter sua posição neste século? Esta questão já é clara às empresas de aluguel de carros e ao Uber, às redes hoteleiras e ao AirBnB e às varejistas tradicionais e à Amazon, entre outros exemplos. Mas todas as grandes empresas mais visionárias também estão buscando as suas respostas.

E para lidar com as startups que questionam seus modelos de negócios vitoriosos até então, as algumas grandes empresas também passaram a investir não apenas em startups mas também no empreendedorismo dos seus antigos operários, depois funcionários, colaboradores e agora empreendedores corporativos.

É a visão de dono da empresa que torna os membros do seu time mais empreendedores. E são os empreendedores que vislumbram oportunidades, reagem rápido e transforam ideias em resultados. E que organização, startup ou grande empresa que não quer um profissional assim?

Marcelo Nakagawa é Professor de Empreendedorismo do Insper e Diretor de Empreendedorismo da FIAP

 

 

Quer ser lembrado? Então, roda, roda, roda baleiro, atenção!

29 de janeiro de 2016

Quando o baleiro parar, põe a mão. Pegue a bala mais gostosa do planeta, não deixe que a sorte se intrometa. Bala de Leite Kids. A melhor bala que há. Bala de Leite Kids. Quando o baleiro parar.

Se tem mais de 40 anos, já entregou sua idade pelo sorriso que deu agora.

Empresas e empreendedores estão investindo fábulas em Google Adwords e Facebook Ads para que suas marcas sejam lembradas e relembradas e se esquecem de que várias fórmulas antigas ainda funcionam, mesmo nesta era ultraconectada, individualizada e mensurada.

Desta forma, o tempo passa, o tempo voa, mas o jingle continua numa boa. E quando acaba? Quando acaba a gente quer de novo. Gostoso. Cremoso. Quando acaba a gente quer de novo. Todo mundo gosta a qualquer hora em todo lugar. Vigor Grego, a gente quer de novo. Talvez não reconheça a música, mas se tiver filhos pequenos, como eu, é bem provável que saiba o impacto desta musiquinha. Pois vende como pipoca…

E quem tem mais de 35 anos sabe que pipoca na panela, começa a arrebentar. Pipoca com sal, que sede que dá. Só eu e você, que sede no ar. Quero ver pipoca pular (pipoca com Guaraná). Quero ver pipoca pular (pipoca com Guaraná). Quero ver pipoca pular, pular. Soy louco por pipoca e Guaraná! Isto foi em 1991, e muitos (ou quase todos) cantam como se fosse hoje.

Por isso, muitos estudos já demonstraram o poder da música na criação e, principalmente, lembrança de uma marca. E Juliano Prado e Marcos Luporini provaram isto na prática, repetidas e repetidas vezes, pois são os empreendedores da Galinha Pintadinha (E do Galo Carijó. A galinha usa saia e o galo, paletó). Se ainda não tiver filhos, mas pretende tê-los, acredite: saberá quem ficou doente e quem nem ligou. Mas os mais “experientes” sabem que de leste a oeste, de norte a sul, a onda é a dança da galinha azul. Bata as asas, dê uma ciscadinha. Bata as asas, dê uma bicadinha. Afinal, este era o caldo nobre da Galinha Azul no final da década de 1980.

E agora, mesmo que muitos hábitos tenham mudado e as pessoas já não apanhem o sabonete, peguem uma canção e cantem sorridente pois o banho de alegria (precisa ser rápido) em um mundo de água quente, outros costumes continuam.

Por exemplo, depois de um sono bom, a gente levanta, toma aquele banho e escova o dentinho. Na hora de tomar café, é o Café Seleto, que a mamãe prepara, com todo carinho. Café Seleto tem sabor delicioso. Cafezinho gostoso, é Café Seleto.

Ou, já que hoje é sexta feira, chega de canseira. Nada de tristeza…

Marcelo Nakagawa é professor de empreendedorismo e inovação do Insper e diretor de Empreendedorismo da FIAP

Para sonhar grande, é preciso parar de agir pequeno

22 de janeiro de 2016

Jim Collins, o maior pensador de negócios atualmente é fã deles. Warren Buffett, o investidor mais idolatrado do mundo é mais que fã, é sócio deles. É fato que o legado de Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira sobre como construir grandes empresas será muito maior do que os seus negócios.

O sucesso deste legado é refletido nas vendas do livro best-seller Sonho Grande (Editora Sextante, 2013), que vendeu mais de 300 mil unidades apenas da sua versão em português.

Os ensinamentos do trio agora viraram lugares comuns em artigos, treinamentos de autoajuda corporativa e mantras para executivos e empreendedores.

Por terem sido tão vitoriosos, suas mensagens fazem muito sentido… para eles. Para os demais, que ficam inspirados pela beleza da sabedoria implícita, pode ser apenas sonho grande ou apenas uma realidade pequena.

Diz Jorge Paulo: “Comecei a usar a regra de tentar reduzir todas as disciplinas a cinco pontos essenciais. Eram as coisas básicas que eu tinha de saber bem. Hoje em dia é algo que usamos em nossas empresas”. Pensa o que sonha grande: “Uau! É isso!” Passado um tempo, pergunte quais são seus cinco pontos essenciais e obterá um “hum?” como resposta.

E continua a refletir as sábias palavras: “…descobrimos cedo que, numa sociedade, é bom ter pessoas diferentes. Não pode ser todo mundo igual. Pessoas diferentes têm habilidades diferentes.” Balançando a cabeça, mesmo que mentalmente, o que sonha grande concorda: “Isso, isso, isso!”. Mas depois, só contrata pessoas que pensam como ele(a) já que como são inteligentes as pessoas que pensam como nós. Mais um tempo, a empresa só tem clones do chefe.

Os mais entendidos sabem que Lemann sempre foi um tenista muito competitivo, mas poucos sabem que, além disso, o tênis o ensinou outras lições marcantes. Uma foi o jeito simples, direto e espartano, marcas do seu tipo de gestão. “Sempre tentamos administrar tudo com simplicidade, objetividade. Nada é muito enrolado nas nossas coisas.” – diz. “Tive um professor chileno que me influenciou muito na maneira com que eu vejo as coisas. Ele tinha dois ditados. O primeiro era ‘mucha ropa, poco juego’. Quer dizer, o cara que aparecia todo bem-vestido e com muitas raquetes, em geral, não jogava nada. O segundo: não jogue para a plateia, mas para ganhar o jogo. Até hoje, muito elogio me deixa preocupado.” Mas muitos dos que sonham grande ainda continuam sendo complexos, indiretos e, principalmente, caros para suas organizações. Para estes, a aparência ainda é mais importante do que a essência. E elogios são sempre bem aceitos, claro.

A base da receita do sucesso de Jorge Paulo, Beto e Marcel é sintetizada por algo que se tornou o principal referencial para todos que querem construir grandes negócios: “Estamos sempre tentando escolher gente melhor do que nós” ou “Basicamente queremos encontrar sempre pessoas melhores do que nós” – explicou Lemann em diversas ocasiões. Mas muitos dos que sonham grande, curiosamente, sempre têm as melhores ideias da equipe…

E não há algo mais verdadeiro para os que sonham grande do que a principal atitude de Lemann: “Delego muito: nunca fiz questão de ser o cara que fazia tudo. Gastei mais tempo escolhendo e formando gente muito boa, para eventualmente dar oportunidades a eles e ter mais tempo para mim”. Muitos sonhadores concordam com este ensinamento… desde que tenham a palavra final.

Daí, mais do que por essas razões, mas por essas ações, é preciso refletir se o que é grande mesmo é o sonho ou é o ego.

Marcelo Nakagawa é professor de empreendedorismo e inovação do Insper e diretor de Empreendedorismo da FIAP