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Blog do Empreendedor
O cotidiano de empreendedores como você
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De advogado a chef de cozinha e empreendedor

23 de outubro de 2018

Esta é a história de Thiago Benetton Gil, chef de cozinha e idealizador da Burger Happens, no bairro da Vila Mariana, uma hamburgueria que começou minúscula em 2016, na garagem do prédio da família, e que mesmo após uma ampliação, continua pequena – e lotada. O cardápio tem apenas três burgers fixos e um burger inédito a cada semana, o que significa que desde a abertura foram produzidas mais de 100 diferentes receitas. Este ano, o negócio dobrou de tamanho.  “De uma garagem, passamos agora para duas garagens” brinca o Thiago.

O que te levou a deixar a profissão de advogado e empreender na gastronomia?

Desde pequeno me imaginava em uma cozinha, sendo dono de um restaurante, mas sempre soube que seria um sonho muito difícil de realizar. Ninguém na minha família trabalhou em restaurante ou teve um negócio próprio no ramo alimentício e esse fato só contribuiu para dificultar a realização do meu sonho. Me formei em Direito, pós-graduei, passei na OAB e comecei a estudar para prestar concursos, mas sabia que não era aquilo que me faria feliz. Após a frustração com os resultados de alguns concursos, fui morar em Berlim, na Alemanha. Naquele país eu comecei a ver que um negócio pequeno poderia ser mais interessante do que um negócio grande e que algo pequeno funcionaria melhor, pois eu conseguiria ter maior controle administrativo. Porém, continuava sem dinheiro para tanto.

Na Europa, trabalhei em cozinhas e aprendi muito com minhas experiências. Voltei ao Brasil, não consegui me encaixar no ramo gastronômico e voltei às atividades jurídicas. Após um ano de trabalho eu consegui juntar dinheiro para investir em um negócio. Minha avó, de surpresa, me ofereceu uma pequena garagem no prédio construído pelo meu bisavô. Eu pensei muito, fiz muitas contas e decidi abrir minha hamburgueria. Todos me perguntaram por que hambúrguer e a resposta é simples: era o que o espaço me permitia fazer, era o que meu dinheiro podia pagar e era uma das técnicas culinárias que eu mais dominava. Então finalmente consegui realizar meu sonho.

Primeiro apareceu a hamburgueria que forçou você a virar empreendedor? Ou primeiro apareceu o empreendedor que saiu procurando um negócio?

Na verdade as duas coisas. Eu sempre quis empreender, mas não sabia direito como e não tinha condições financeiras. Depois, as oportunidades surgiram, coube no meu orçamento e eu me dediquei de corpo e alma pra fazer o negócio acontecer.

Como é que a família participa do empreendimento?

Minha família tem uma participação muito importante no meu negócio. Minha irmã hoje se tornou minha sócia, meus pais nos apoiam demais e sempre que podem nos ajudam aqui. Na verdade, eu só contei que ia abrir minha hamburgueria 15 dias antes de inaugurar, porque sabia que eles teriam medo por mim. Hoje em dia meus pais sonham meu sonho comigo, sempre me ajudam muito, dão conselhos e criticam quando necessário e sempre ficam muito felizes com nosso sucesso. Tenho certeza de que eles se orgulham demais de mim e, agora, da minha irmã.

Para o empreendedor, os dias e noites são bem diferentes do “normal” das pessoas. Como você vive isso?

Realmente essa é a parte mais complicada de empreender. Já tive diversos problemas por conta dos meus horários, normalmente as pessoas não entendem que não podemos deixar o negócio. Já deixei de ir a casamentos e aniversários, já deixei de confraternizar com amigos e família, já perdi um relacionamento por conta da falta de tempo, porém hoje em dia estou conseguindo me adaptar e me acostumar com essa vida. Tenho uma namorada maravilhosa que me entende e que me apoia, tenho minha família que sempre me ajuda e me incentiva, tenho amigos e familiares que fazem confraternizações aqui na hamburgueria pra que eu possa participar, enfim, infelizmente acabo abdicando um pouco da minha vida pessoal, mas faço isso porque amo meu trabalho e minha rotina. Mais pra frente, quando meu restaurante estiver andando sozinho, eu vou sentir falta da correria da operação e do calor da cozinha.

Quais são os planos de futuro do negócio?

Eu não abri o Happens pra fechar ou pra colocá-lo nas mãos de outras pessoas. Quero consolidar a base e quero abrir filiais em locais estratégicos, tenho vontade de vender o Happens como minha marca com roupas e acessórios, já pensei em abrir uma barbearia com o mesmo nome, tenho vontade de expandir o negócio com outras frentes como pizza, cozinha vegana, bistrô… Mas também tenho vontade de voltar à Europa… Isso não significa que eu teria que fechar meus empreendimentos, pelo contrário, quero mantê-los funcionando para que tenha condições de viajar pra estudar, pra aprimorar meus conhecimentos e para enobrecer meus cardápios.

Se você pudesse dar uma dica aos empreendedores que estão chegando agora no teu setor, qual seria?

Não tenham medo de empreender! Tudo e todos farão e falarão de tudo pra que você não abra seu negócio, mas se é seu sonho e se você tem condições de bancar seu empreendimento, faça! Sem medo! Você só vai saber se valeu a pena se você arriscar!

Qual o futuro do Brasil?

Essa é uma pergunta muito difícil de responder. Espero que o Brasil se torne um país de menos impostos e mais oportunidades. Espero que diminuam as burocracias e que aumentem o respeito ao empreendedorismo. Espero que eu consiga prosperar mais e mais com meu negócio e com a minha marca. Espero poder empregar mais pessoas e poder fazer com que as pessoas que me visitam saiam sempre satisfeitas e felizes. Minha contribuição será sempre uma cozinha de qualidade pra que as pessoas esqueçam seus problemas na primeira mordida.

Burger Happens
Rua Alcindo Guanabara, 27, Vila Mariana
Fone: (11) 3578-2613
Insta: @burgerhappens
Facebook: /burgerhappens

Ivan Primo Bornes (ivan@pastificioprimo.com.br) – empreendedor e fundador da rede de rotisserias Pastificio Primo (www.pastificioprimo.com.br)

 

5 pontos em comum a todo empreendedor na batalha do dia a dia

15 de outubro de 2018

Ao longo dos últimos meses, tenho entrevistado pequenos empreendedores em vários segmentos, perguntando sobre motivações, família, rotina e planos de futuro.  São histórias que ainda estão sendo construídas, com um recorte atual de quem está na luta do dia a dia e na linha de frente do pequeno negócio.

Estas perguntas e respostas com “gente que coloca a mão na massa” são passadas de forma direta por quem está fazendo acontecer e representam lições valiosas para quem quer empreender e aprender. Ou mesmo para quem já está empreendendo poder se reconhecer e compartilhar vivências semelhantes, sentindo-se acompanhado.

Não chega a surpreender como todas estas histórias têm muitos elementos em comum. Eu mesmo me emociono a cada relato, me identifico. É como uma fraternidade. Mesmo que a pessoa tenha trilhado uma jornada muito particular e única para chegar aonde chegou, algumas características são comuns a todos.

1. Um sonho – ou como dizem alguns, uma ideia. Tudo habitualmente começa nisso: um insight de algum produto ou serviço, a vontade de construir uma empresa ou, em muitos casos, o desejo de modernizar o negócio da família. Para empreender é preciso ter algo em mente que possa ser realizado, que possa fazer a diferença. É o que vai justificar tudo.

2. Coragem – todo empreendedor, em algum momento, quando decide iniciar o próprio negócio vai respirar fundo, fechar os olhos, visualizar mentalmente tudo o que planejou e decidir ir em frente. É nesse instante que nasce o empreendedor. Nos segundos que antecedem a assinatura do contrato de locação, ou do empréstimo no banco, ou da importação de uma máquina, ou da compra de um caminhão. Muitas vezes arriscando a segurança financeira de um emprego confortável, ou a poupança dos filhos, ou contradizendo amigos e familiares que duvidam. Sempre tem muito em risco, nunca é fácil: o estômago embrulha, o coração acelera. É preciso uma coragem inimaginável.

3. Resiliência – é começar o negócio e as coisas começam a dar errado – ou melhor, o trabalho do empreendedor é fazer as coisas que estão dando errado darem certo. Acordar todo dia de bom humor, cheio de energia, e como Sísifo levar a pedra montanha acima, é para poucos. E ao mesmo tempo, é muito comum encontrar esta capacidade, entre empreendedores, de se manter animado e confiante.

4. Valores – todos os empreendedores compartilham o respeito e orgulho da história que os fez ser o que são. E cada um tem suas particularidades. Alguns passaram por doenças que os fizeram ver a vida de forma diferente, outros são agradecidos aos filhos que lhe deram uma motivação a mais, outros lembram dos pais que os influenciaram. Ou de um professor, ou de um antigo patrão. Este respeito à sua própria história é um dos alicerces de todo empreendedor.

5. Vontade de fazer a diferença no mundo – é claro que o dinheiro é importante, é uma medida de sucesso e é necessário para recompensar o trabalho e trazer prosperidade. Mas é impressionante como nenhum dos empreendedores dá maior importância ao vil metal. Os olhos se enchem de emoção mesmo é quando falam do impacto que o negócio está trazendo para os clientes, para os colaboradores, para a família. O orgulho de fazer algo que é admirado.

Ivan Primo Bornes (ivan@pastificioprimo.com.br) – empreendedor e fundador da rede de rotisserias Pastificio Primo (www.pastificioprimo.com.br).

 

Empreender é doce, mas não é mole não

17 de setembro de 2018

Esta é a história de Ana Rita Leme de Mello, 46 anos, e de sua filha Giulia, 12 anos. Com sólida formação em publicidade e propaganda e pós-graduação em marketing e administração, Ana Rita trabalhou desde os 21 anos no mundo corporativo em grandes empresas como Avon, Souza Cruz e Portugal Telecom. Em 2008, quando era diretora de comunicação corporativa da Portugal Telecom, venceu um câncer de mandíbula que quase lhe tirou a vida, e assim deu início a uma guinada na carreira e fundou a Nano Doces.

Antes da Nano, como era tua vida profissional?
Sempre fui executiva e sempre trabalhei muito. Com a minha formação, minhas responsabilidades eram desenvolver canais de vendas, zelar pela imagem das marcas, das empresas e de seus executivos.  Sempre atuei em cargos de responsabilidade ligados à presidência das empresas, o que contribuiu muito para a minha experiência pois, tive a oportunidade de conhecer outras áreas nas quais não era especialista. O conhecimento, os desafios que este mercado te oferece tem um valor inestimável, principalmente se você tem a sorte, como eu tive, de trabalhar com pessoas muito competentes.

Como começou essa ligação forte que você tem com a gastronomia?
A paixão pela cozinha começou na infância, quando passava os finais de semana na casa dos meus avós paternos. Minha avó era uma cozinheira de mão cheia, e nos divertíamos fazendo pratos deliciosos para a família que almoçava junta todos os domingos. O preparo dos doces era feito com o maior carinho, e então minha avó me deixava colocar, literalmente, a mão na massa de bolo. Em 2001 , me casei e fui morar em Milão, na Itália,  quando aproveitei para visitar as livrarias, encher a minha casa de livros de gastronomia e testar receitas do velho continente. Inesperadamente, nossos amigos vinham em casa para experimentar a culinária brasileira e as receitas que tinha aprendido nas minhas pesquisas pela Europa, e foi assim que começou a nossa aventura: vender doces brasileiros para italianos, em Milão. Por estar na Europa, o acesso aos livros, aos restaurantes, ao melhor da culinária era mais fácil. Aproveitava meu tempo para viajar em busca do legado e da cultura gastronômica de cada país.  As malas voltavam cheias de livros e do sonhos de um dia poder transformar esta paixão em realidade.

Em que momento você decidiu largar a vida corporativa e empreender?
Apareceu um câncer quase incurável, tinha chances mínimas de sobreviver. Foi um ano de muita luta. Meu tumor era muito agressivo e raro, mas estive nas mãos dos melhores médicos da área e com força de vontade, garra, muita vontade de viver, me tiraram dessa. Sou uma pessoa movida a desafios. Durante o tratamento fiz vários cursos de gastronomia, confeitaria para aperfeiçoar meus conhecimentos em culinária. Não tive dúvida: era hora de juntar uma paixão antiga aos conhecimentos que tinha adquirido. Assim decidi dar uma virada na vida e empreender no meu antigo sonho. Fundei a Nano Doces, com foco no food service. Nossas sobremesas – petit gateaus, cookies, tortas, brownies, entre outras – estão presentes em aproximadamente 150 estabelecimentos comerciais de São Paulo e também em outros Estados.

E as dificuldades?
Nestes dois últimos anos, gerenciar um negócio como este têm sido muito cansativo e desafiador. A carga de impostos é altíssima, o aumento no custo do frete inviabiliza, muitas vezes, a expansão da empresa para outros Estados, o custo dos ingredientes inviabiliza a produção de alguns itens, encontrar mão de obra qualificada é um desafio e, algo que me chama muita atenção, é a falta de incentivos para o desenvolvimento do microempreendedor. Recentemente, compramos a Original Brownie que trouxe para a Nano um produto de muito sucesso: os cookies recheados. Eles aumentam significativamente o faturamento dos nossos clientes.

Como manter a pequena empresa relevante num cenário de crise?
Temos que nos adequar constantemente: implantamos um sistema de avaliação dos funcionários baseado em metas, substituímos os colaboradores pouco produtivos, desenvolvemos novos produtos sem abrir mão da nossa qualidade, desenvolvemos novos sabores dos nossos produtos mais vendidos, paramos de atender supermercados que, nos pagam com 45 dias de prazo e internalizamos o frete, que antes era feito por uma empresa terceira. Tiramos de linha nossos produtos que eram o coração da empresa, os copinhos de vidro. Após a crise que vem nos assolando, nossos fornecedores aumentaram seu volume mínimo de venda. Para se ter uma ideia, nosso fornecedor de tampas para os copos de vidro passou a vender somente em quantidades acima de 35 mil unidades, o que faz com que nosso custo seja muito alto. E não paramos por aí. Estamos trabalhando em um projeto para abrir as vendas para pessoas físicas e vamos dar início a produção de salgados pois, temos estrutura para isso. Contratamos uma profissional que fará a gestão operacional da fábrica para que eu possa estar exclusivamente dedicada ao desenvolvimento do negócio, seja na criação de novas linhas de produtos ou no desenvolvimento das vendas e expansão do grupo. Estamos também conversando com investidores que entrarão com capital para abrir nossas vendas para o consumidor final.

A família participa do empreendimento?
Não. Não acredito que família envolvida no empreendimento colabore. Família é família e já dá muito trabalho por si só. Gosto de separar as coisas. Também não gosto de envolver amigos nos negócios.

Qual o futuro do Brasil?
Incerto. Vivemos este momento de eleições com muita apreensão pois a única certeza que temos é que do jeito que está não dá mais para ficar. Nosso País está dividido, uns contra os outros. Precisamos de um governante que trabalhe para unir o país. O que mais me preocupa são candidatos preocupados em acusar uns aos outros, em vez de vir ao público apresentar suas ideias, discutir ideias, trabalhar em projetos factíveis. Somos um País rico, seja do ponto de vista natural ou financeiro. Mas como usam estes recursos? Para o bem de uma nação? Não!  Quando vejo nossos meios de comunicação trabalhando para aumentar a discórdia e inflar os ânimos dos candidatos, fico ainda mais estarrecida. Temos que explorar ao máximo as ideias, os projetos, entrevistar, analisar o perfil psicológico dos candidatos, o seu curriculum, suas experiências, seus resultados e, votar com consciência, não por conveniência. Acredito no futuro do País e acredito que a Nano possa crescer ainda mais.

Instagram: @nanodoces
Facebook: facebook.com/nanodoces
Email: contato@nanodoces.com.br

Ivan Primo Bornes (ivan@pastificioprimo.com.br) – empreendedor e fundador da rede de rotisserias Pastificio Primo (www.pastificioprimo.com.br).

Cannoli para tubarões – o empreendedor que sobreviveu ao Shark Tank

23 de abril de 2018

O sonho de ser empreendedor é uma força da natureza, difícil de ser contida, que nos faz dar mil voltas até encontrar o seu curso. Hoje apresento uma entrevista muito divertida e enriquecedora com o empreendedor Alexandre Caliman, jornalista, publicitário, vespista e – acima de tudo – orgulhoso dono, junto com a esposa Mônica, da empresa Cannoli do Calimano.

No filme “O Poderoso Chefão”, o mafioso diz “Leave the gun, take the cannoli” (“Deixe a arma, pegue os ‘cannoli’”). Os cannoli são um dos doces mais conhecidos da Itália, originários da Sicília, onde eram presença obrigatória nas festividades das comunidades rurais e no carnaval. Hoje fazem parte do dia a dia das ruas e das confeitarias de toda a Itália. As receitas de cannoli chegaram ao Brasil junto com os imigrantes.

Assista o vídeo do Alexandre preparando a sua receita “secreta” na cozinha de casa.

Entre as várias aventuras que o negócio do cannoli vem proporcionando, Alexandre e Mônica foram selecionados em 2017 a participar na segunda temporada do reality show Shark Tank Brasil, onde apresentaram o projeto de investimento de transformar a fábrica “caseira” num negócio de grande porte. Mesmo não conseguindo convencer os “tubarões”, os doces foram um sucesso, e Alexandre levou para casa um grande aprendizado.

1. Qual o teu histórico profissional e como isso culminou na vontade de empreender?

Cara, meu histórico profissional é meio maluco e se confunde com a minha história de vida, porque eu sempre trabalhei, desde os 13 anos. Não porque precisava ajudar a família ou porque meus pais me obrigaram a isso. Mas porque eu queria!

Comecei como balconista em uma locadora de vídeo, e isso me deu uma muita noção de atendimento ao público. Sempre fui fã dos filmes clássicos e dos filmes de ação da época… fiquei uns 3 anos nessa locadora, vi muito filme, fiz muita sinopse e atendi muita gente do bairro, que virou minha amiga.

Bom, depois disso acabei indo trabalhar com meu pai na gráfica e aí aprendi com ele, e com a equipe toda, o valor da excelência nos processos. Ver a produção, acompanhar meu pai na gestão e também ajudar no dia a dia sendo uma espécie de “faz tudo” da gráfica me fez entender como é importante um empreendedor saber e já ter feito tudo o que é feito na sua própria empresa. Meu pai começou como contínuo numa gráfica, foi impressor, trabalhou em todas as áreas, foi vendedor e depois de, sei lá, 20 anos, resolveu abrir a própria empresa – que durou algumas décadas até ele adoecer e morrer bem novo, com 48 anos. Ele, Luiz Caliman, era uma força da natureza trabalhando, um líder nato. E era apaixonado por artes gráficas. Muitas vezes o vi saindo do papel de “dono da empresa” pra virar impressor, acabamentista ou tipógrafo, junto da equipe. Foram uns 4 ou 5 anos que passei ao lado dele que me inspiram até hoje.

Daí, com uns 20 anos fui trabalhar em shopping, fui estoquista, caixa e vendedor. Passei por uma loja de roupas e outra de sapatos. Nas duas, aprendi que um cliente, na maioria das vezes, entra pra comprar um item, mas se o trabalho for feito de forma apaixonada e correta, a gente convence ele a levar mais uns 3 ou 4 e ainda lhe agradecer no final.

Em 1999  me formei em Jornalismo (aos 25 anos) e aí fui trabalhar numa grande empresa. Já comecei sendo editor de quadrinhos, na Abril Jovem e agradeço ao universo por isso: terminei uma faculdade de jornalismo, mas fui trabalhar mais uma vez com coisas que amava, as HQ’s de super-heróis. Lá foram 3 anos de um aprendizado completamente diferente do anterior. Vi que numa empresa grande, só sobrevive quem está disposto a “se anular por um bem maior”… não tem espaço pra grandes ideias, não existem grandes possibilidades para arriscar. É tudo controlado pela instituição e a gente consegue, às vezes, colocar uma ideia própria em prática… é tudo muito mais político, mais engessado, mais hierarquizado. Mas foram anos incríveis também. Daí saí pro mundo da internet – lembra da bolha? Participei do portal Zip.net como editor, passei pelo UOL e, quando a bolha da internet estourou, acabei me tornando um redator publicitário.

Há uns 5 anos, talvez pela famigerada crise da meia idade, percebi que só a publicidade não me completaria pessoalmente e comecei a pensar em fazer algo relacionado a outra paixão que tenho na vida: a Itália e tudo o que está relacionado a este país. Sempre gostei de cozinhar e, modéstia a parte, sempre cozinhei bem. Foi então que, por hobby comecei a fazer os cannoli. Mas logo, virou empreendimento. E aí tudo começou a se mover diferente, pra um caminho bacana que, eu acredito, vai me levar ainda bem longe!

2. Você teve algum perrengue que serviu de aprendizado?

Tive. E foi com os próprios cannoli. Em 2014, depois do auge da onda dos food trucks, a gente (eu e a minha sócia e esposa, a Mônica) resolvemos abrir uma pequena loja em um strip mall do bairro (na Casa Verde) onde os eventos de food truck eram feitos com sucesso. Depois de 4 meses, fechamos. Não por falta de público, nem por conta de má gestão, mas por uma incompatibilidade de objetivos entre nós e os donos do pequeno shopping. Na verdade, eles só queriam a gente lá (e todos os outros que alugaram suas lojas) para não ficarem sem renda até a venda da propriedade. Claro que a gente não sabia dessa intenção deles e quando descobrimos, resolvemos cortar relações. Nesse episódio, aprendi que muitos fatores, além da qualidade do seu produto, bom atendimento e esforço pessoal, podem influenciar no seu negócio. Como por exemplo: o caráter dos donos do imóvel que a gente aluga pra montar um empreendimento.

E o maior aprendizado nesse caso foi o seguinte: não acredite “somente na palavra” de ninguém, faça contratos e especifique tudo nesses contratos. É o tal negócio… todo mundo é amigo, até as coisas começarem a ficar estranhas. Não estou dizendo que a gente deva desconfiar, nem que devemos ser pessoas rudes no trato e nas negociações. Acreditei, acredito e sempre vou acreditar nas pessoas, na gentileza e nos relacionamentos harmoniosos. Digo isso por uma questão de precaução mesmo e, vou usar outra frase feita pra exemplificar tudo isso: “o combinado nunca é caro”.

Aprendi que pesquisar antes sobre as pessoas, conversar com quem já fez negócios com elas, observar por um tempo antes de fechar negócio pode fazer a diferença na vida de um empreendedor e evitar algumas dores de cabeça.

3. A vontade de empreender veio antes ou depois do cannoli?

Creio que os cannoli surgiram de uma vontade absurda e contida que eu já tinha de empreender. Os doces (que pra mim são como joias) foram só a manifestação dessa vontade.

4. Como o empreendimento afetou a rotina da família?

Putz… senta que lá vem história… hehehe. Mudou tudo! Completamente tudo na nossa rotina. Eu continuo trabalhando como redator e a Mônica tem agora a dupla função de cuidar dos filhos e também dos cannoli (ela é quem coordena a produção, faz as compras, o financeiro e um montão de outras coisas). Esse apoio e a dedicação da Mônica com os cannoli são fundamentais pra boa saúde do negócio e da família. Sem ela, nada existiria, nem os cannoli, nem a família. Acho até que pra ser mais justo, a gente deveria chamar Cannoli da Monica, não do Calimano (risos). Acredito que vem dela toda a organização e a capacidade de conciliar a família com os negócios. Se dependesse só de mim, o foco estaria todo o tempo no trabalho. Mas quando eu estou “viajando” muito, deixando a família meio de lado, ela vem, me dá um puxão de orelha e me coloca no eixo de novo. Na prática, tentamos sempre estar o mais organizado possível para cumprir uma agenda. Procuramos sempre fazer tudo em família, quando é possível. No último evento que participamos, por exemplo, no Shopping Pátio Higienópolis, levamos os filhos com a gente. Enquanto trabalhávamos, eles comiam. E o Vito, 9, até que ajudou um pouquinho. A Giulia só curtiu o evento mesmo (risos).

5. Qual o teu ponto forte como empreendedor?

Ah… a vontade de fazer o melhor sempre, de não desistir. Também acredito muito na minha capacidade de comunicação com os clientes e no conhecimento que tenho do meu produto.

6. Conta um pouco de como foi a aventura do Shark Tank, como coisas legais  que aconteceram.

Foi uma experiência incrível. Primeiro porque eu achava que nunca seria chamado para participar, fiz um vídeo e me inscrevi muito despretensiosamente. Depois, porque o processo todo, do dia em que te ligam até o dia da gravação, é muito intenso. A gente fica imaginando como vai ser a vida se os tubarões toparem o negócio ao mesmo tempo que se prepara pra não fazer feio em frente às câmeras, ensaia o pitch umas 300 vezes por dia, conversa sobre a proposta umas 350 vezes, refaz os planos umas mil vezes… e aí quando vamos ver, já foi… E é muito bacana isso, como tudo o que tira a gente da zona de conforto. Foi muito legal conhecer os bastidores, ter contato com o pessoal da produção, todos muito ágeis e profissionais e gente fina (até hoje vendo cannoli pra alguns deles). É bem bacana ver como um programa de TV é feito e ficar cara a cara com os empreendedores considerados como alguns dos melhores traz pra gente uma confiança, um sentimento de que nada é impossível.

7. Qual o maior desafio enfrentado (e superado) até hoje com o Cannoli?

Creio que é o desafio que vamos ter que encarar sempre: a perda de um cliente. Esse ano, deixamos de atender a um restaurante que era nosso cliente desde o início do negócio. Foram quase 4 anos juntos e, como eles reformaram a cozinha e criaram uma estação dedicada a doces, passaram a fabricar seus próprios cannoli. Isso gerou um impacto negativo no início do ano, mas a gente superou encontrando um cliente ainda melhor, que compra mais do que esse restaurante e tem uma relação de parceria incrível com a gente!

8. Qual foi a maior besteira que você já fez? Alguma coisa que você teria feito diferente?

A gente tende a ter memória seletiva e esquecer as mancadas, mas algumas delas não esquecemos porque justamente nos ajudam e nos ensinam. Uma dessas foi quando eu, na ânsia de atender a tudo e a todos, aceitei fazer 4 eventos simultâneos em um final de semana. Foi uma loucura, correria. Saímos atrás de gente pra trabalhar, produzimos o dobro, nos enchemos de expectativas e 2 dos 4 eventos não tiveram nem a metade do público estimado. Deu tudo certo, graças ao nosso esforço, mas no final, não tivemos o retorno financeiro que imaginávamos. Chegamos à conclusão de que às vezes é melhor selecionar com calma quais eventos devemos participar, fazer contas imaginando o pior cenário e, só então assumir ou não uma responsabilidade. Resumindo, às vezes a gente ganha mais dando uma descansada e uma pensada nos próximos passos ao invés de sair como um trator querendo conquistar tudo!

Saiba mais do Cannoli do Calimano
Site:  cannolidocalimano.wordpress.com
Instagram:  instagram.com/cannolidocalimano
Facebook:  facebook.com/cannolicalimano

Ivan Primo Bornes (ivan@pastificioprimo.com.br) – empreendedor e fundador da rede de rotisserias Pastificio Primo (www.pastificioprimo.com.br)

A história do refrigerante artesanal GLOOPS

19 de março de 2018

No meio de tanto “storytelling fake” que grandes marcas tentam nos empurrar, é raro – e também muito satisfatório – quando encontramos um produto com o qual nos identificamos e ao mesmo tempo admiramos as pessoas que fazem a coisa toda acontecer. Eu acredito que é impossível separar o produto artesanal das pessoas que o fazem.

Assim aconteceu quando conheci o GLOOPS, o suco gaseificado (também chamado de refrigerante artesanal) que surgiu em 2012, e venho acompanhando sua trajetória, na luta de abrir espaço no disputado mercado de bebidas, em busca de uma alimentação mais saudável e divertida – valores tão importantes para mim.

Acredito que propagar estas histórias servem de modelo a empreendedores atuais e futuros empreendedores.

O nascimento do empreendedor

Gustavo Siemsen foi um empreendedor precoce. Aos 14 anos – junto com 2 amigos – iniciou uma pequena confecção de calções de surf que vendeu todo o primeiro lote rapidamente. Ao comprar o tecido para o segundo lote, o pai pediu para ele priorizar os estudos “Se der certo, você não vai ter mais tempo de estudar, e se der errado idem. Sem estudar você não irá a lugar nenhum, dizia ele.”

O momento da verdade

“Aos 42 anos, trabalhando na Pepsi, tive um momento de forte reflexão sobre meu propósito de vida e cheguei à conclusão de que além de não estar realizando meu sonho, eu estava indo contra alguns dos meus próprios valores por estar incentivando o consumo de refrigerantes para crianças.”

“Foi neste momento que tive a ideia de criar uma bebida saudável que pudesse substituir os refrigerantes e que eu pudesse ter orgulho de vender. Que máximo seria montar a minha própria empresa e ao mesmo tempo contribuir com algo útil para transformar os hábitos alimentares da molecada, eu imaginava.”

A dúvida

“Neste momento, porém, bateu o desespero de perder tudo o que eu já havia conquistado na carreira, estabilidade financeira e um padrão de vida bem confortável. Tive que amadurecer a ideia por mais 4 anos antes de criar coragem para largar tudo e começar do zero.”

O passo adiante

“O nome Gloops surgiu de um brainstorm com minhas filhas onde começamos a ver expressões em gibis que representavam a sede ou engolir comida. Vimos palavras como Glupt, e fomos adaptando até chegar em Gloops, que tem um som parecido com um gole de bebida. Além disso queríamos um nome que pudesse ser universal, que funcionasse independente da língua ou do país que estiver sendo vendido.”

A produção

“Iniciamos a produção de forma artesanal na cozinha do nosso escritório há 3 anos atrás. Nós espremíamos as frutas, coávamos o suco e usávamos uma máquina que nós mesmo desenvolvemos para gaseificar. Esta máquina foi construída usando algumas peças de fábricas de cerveja artesanal adaptadas a um trocador de calor, pois o suco tem que estar bem gelado para incorporar o gás. Este desenvolvimento foi um processo longo que fomos aperfeiçoando ao longo do tempo.”

A diferença

“Nosso suco gaseificado não tem adição de açúcar e os refrigerantes naturais tem bastante açúcar na fórmula. Nós até usamos o termo refrigerante saudável para facilitar na explicação do que é o nosso produto, pois o fato de ser natural não significa que ele será saudável. Você pode colocar bastante açúcar orgânico na sua bebida e ela será natural, mas menos saudável que um suco sem adição de açúcar. Outro conceito que está surgindo é o do refrigerante artesanal, ou craft soda. Assim como no mercado de cervejas, nós acreditamos que as pessoas estão cada vez mais em busca de produtos artesanais, por isso há bastante espaço para estas opções que estão surgindo no mercado. Mas acreditamos que se o produto, além de ser artesanal, também for saudável, terá mais chances no médio e no longo prazo. Os consumidores estão cada vez mais bem informados e rapidamente eles estão percebendo as diferenças.”

O crescimento

“O primeiro ano foi assustador. À medida que o interesse pela bebida foi crescendo e as pessoas queriam volumes maiores para levar para casa nós tivemos que adaptar o processo. A máquina para gaseificar o suco ainda não estava totalmente pronta, mas os consumidores queriam comprar quantidades cada vez maiores. Tivemos alguns momentos de quase pânico, em que tínhamos encomendas grandes para o dia seguinte e a máquina não gaseificava direito ou o nosso fornecedor de frutas do Ceasa teve uma inundação e não conseguiu entregar. Corremos para o supermercado mais próximo e saímos com dois carrinhos cheios de limão, mas nunca deixamos de atender o cliente. Tivemos muitos momentos em que adaptar era o nome do jogo. Hoje, com a produção na fábrica, é bem mais tranquilo.”

O trabalho numa pequena empresa

“Tudo é muito diferente, as rotinas, os desafios, a falta de recursos, a falta de segurança. Mas para mim o que é mais relevante é o fato de não precisarmos fazer politicagem para agradar este ou aquele alto executivo, e não gastamos horas e recursos em reuniões intermináveis. Fazemos o que é importante para o consumidor e para o negócio, pois se der errado é no nosso bolso que irá doer. O fato de eu e o Ricardo, meu sócio, termos vivido por muitos anos em grandes empresas, nos permite trazer toda a experiência estratégica corporativa e implementar uma série destes processos no dia a dia da nossa pequena empresa. Então conseguimos extrair o que há de melhor numa grande corporação e somar com a agilidade e espírito inovador de uma startup.”

O futuro

“Hoje nosso volume mensal é de 25 mil litros, sendo que no primeiro ano vendíamos cerca de 1.500 litros por mês. Queremos estar presentes nas principais redes de supermercados, restaurantes, padarias e lojas de produtos naturais de Manaus a Porto Alegre.”

A definição do empreendedor, por Gustavo Siemsen

“O empreendedor é uma pessoa que gosta de sonhar, mas não se contenta apenas em sonhar, gosta de fazer, de transformar, uma pessoa irrequieta, que quer ver o sonho se tornando em realidade.”

Ivan Primo Bornes (ivan@pastificioprimo.com.br) – empreendedor e fundador da rede de rotisserias Pastificio Primo (www.pastificioprimo.com.br)

Aviso aos devedores!

5 de março de 2018

Advogados tributaristas estão alertando para as novas regras que o Banco Central está praticando e que tem enorme impacto sobre empresas com dívidas em fase de penhora.

Explico: até há pouco tempo atrás, quando um juiz determinava o bloqueio de um valor na conta corrente de uma empresa devedora para pagar alguma dívida (seja trabalhista, comercial, tributária, etc.) a ordem de penhora atingia apenas os valores que estavam na conta corrente no momento da ordem judicial.

A novidade desde o começo do ano é o uso do Novo Regulamento do Bacen Jud 2.0. O sistema já existe desde 2016, mas era pouco usado na prática.

As novidades:

A conta do devedor fica bloqueada até 3 dias.

São bloqueados / penhorados TODOS os valores que entrarem na conta durante o bloqueio.

Atinge todas as contas tanto da matriz como das filiais.

Também são penhorados o limite do cheque especial e investimentos.

“Esse sistema já existe há anos, mas, até agora, o sistema era pouco inteligente. Isso porque antes as ordens dadas pelos juízes eram pontuais, ou seja, só eram bloqueados os valores que estavam na conta corrente no exato momento da ordem judicial” , explica o advogado Rafael Bicca Machado, do escritório Carvalho, Machado e Timm Advogados, com bases em São Paulo (SP), Porto Alegre (RS), Curitiba (PR) e Indaiatuba (SP).

Um resultado positivo imediato é que, com maior facilidade de cobrar dívidas, as taxas de juros de empréstimos tenham queda. Ou seja, péssimas notícias para devedores, e ótimas notícias para credores e bons pagadores.

Ivan Primo Bornes (ivan@pastificioprimo.com.br) – empreendedor e fundador da rede de rotisserias Pastificio Primo (www.pastificioprimo.com.br).

Vem 2018!

8 de janeiro de 2018

 

Todo começo de ano, a esperança de um futuro melhor é renovada. Certamente, quem chegou vivo a 2018 fez por merecer. Parabéns, um brinde, um tapinha nas costas e ganhamos a chance de começar mais um ciclo. Mas é bom ter certeza, colega: nada está garantido! Apenas nasceu mais um dia, começamos mais um ano, e devemos seguir em frente como se nada, estoicos, cumprindo com os deveres assumidos com nossas famílias, equipe, clientes.

Para nós, pequenos empreendedores que batalhamos nas trincheiras do dia a dia do varejo, os últimos anos têm sido duros e de muitas perdas. Perdas materiais e emocionais. Perda de clientes, perda de funcionários qualificados, perda de rentabilidade, perda de anos de trabalho investido. E, para o Brasil, o pior: a perda de milhares de empreendedores que quebraram, demitindo, se endividando por longos anos à frente. E a perda de toda uma nova geração de empreendedores que não conseguiram nem começar – em alguns anos à frente vamos sentir falta deles.

Apesar de todas estas dificuldades, não podemos nos deixar intimidar. Por isso, cada um de nós precisa buscar – onde for – a inspiração para enfrentar estes momentos de incerteza.

E a melhor inspiração, para mim, vem do mar. Talvez seja minha origem Genovese, povo de marinheiros. Empreender sempre me fez imaginar um barco no mar, onde desistir não é uma opção. É preciso manter o foco. Mesmo que a viagem seja cheia de percalços, e demore 20 anos, qual Ulisses em seu caminho a Itaca. Como Colombo, desacreditado, antes de avistar as novas terras americanas. Como Shackleton e sua jornada em salvar todos os marinheiros. Ou Amyr Klink, na travessia solitária a remo. Manter o foco no futuro, nunca esquecendo do sonho que deu início a tudo.

Os marinheiros sempre foram conhecidos por fazerem tatuagens para celebrar feitos heroicos, guardar lembranças das aventuras, ou como amuleto de boa sorte. Uma das tatuagens mais clássicas de marinheiro é o “Homeward Bound”, figura de um veleiro enfrentando as ondas do Cabo Horn – no extremo sul da América do Sul – onde o Atlântico encontra o nada Pacífico. O marinheiro que enfrentava a travessia do Cabo Horn conquistava a honra de fazer a tatuagem do veleiro, pela coragem e sangue frio.

O Cabo Horn é um dos lugares mais perigosos do mundo, com ventos e tempestades constantes, ondas enormes, e inúmeros naufrágios. Mesmo assim, era rota obrigatória do comércio: antes do canal do Panamá, era a única forma de levar mercadorias de barco de Nova York a Los Angeles, ou de Santiago do Chile ao Rio de Janeiro, por exemplo.

Acho que esta virada de ano no Brasil representa o Cabo Horn para todos nós: estamos atravessando a tempestade perfeita. E quem está com o barco no mar, não tem volta atrás. Sangue frio e coragem para enfrentar as ondas, em busca de um porto seguro. Vem 2018! Vamos tatuar você!

Ivan Primo Bornes – empreendedor e fundador da rede de rotisserias Pastifício Primo (www.pastificioprimo.com.br) ivan.primo@pastificioprimo.com.br

A rede empreendedora sustentável

28 de novembro de 2017

 

 

Uma das grandes satisfações que tenho no dia a dia é o contato direto, no balcão, com as pessoas que frequentam as lojas. Tenho um interesse genuíno pela vida de cada um, que me enriquece, e termina por desenvolver amizades e ótimos encontros. Esses contatos fortuitos com clientes – às vezes são alguns segundos, uma frase; e outras vezes rende vários dias de conversa – seja de receitas, de viagens, e da vida em geral, me trazem grande prazer, sendo um grande bônus do trabalho.

Nesses encontros do acaso, na semana passada conheci a Glória Andrade, empreendedora de sucesso na área de eventos. A Glória me contou que a filha passou a não comer carne em certo momento, e isso aprofundou a curiosidade dela nesse mundo do alimento saudável: de onde vem, como chega até o consumidor, onde está o produto, etc. “A dificuldade de encontrar as informações organizadas é enorme, é tudo na sorte do Google”.

Acompanhando os interesses da filha, Gloria começou a pesquisar, experimentar, conhecer pessoas e projetos criativos, e o lado empreendedora dela começou a formatar uma ideia – vinda da própria necessidade de informações – de conectar pessoas interessadas numa alimentação saudável, como ela e a filha, com as empresas que compartilham os mesmos valores.

Assim surgiu a primeira plataforma digital – em parceria com a Safra Digital – com propósito de reunir empresas que priorizam o uso de recicláveis, orgânicos, não poluentes, naturais, em sintonia com o meio ambiente, chamada Maria Conecta.

Fiquei fascinado no projeto, pois me identifiquei tanto como consumidor quanto como empresa, e achei ótima a iniciativa de poder encontrar mais empresários com as mesmas afinidades – e construir parcerias em busca de custos, de novidades, de informação. Virei fã e apoiador imediato.

Fica o convite a empreendedores e consumidores, de visitar a plataforma, fazer contato, levantar a bandeira abraçar esta causa, que vale a pena.

Ivan Primo Bornes – empreendedor e fundador da rede de rotisserias Pastifício Primo (www.pastificioprimo.com.br) ivan.primo@pastificioprimo.com.br

A fragmentação dos meios de produção, unicórnios e cavalos

10 de outubro de 2016


Fomos convidados a umas reuniões para avaliar propostas de investimento em nossa empresa. A tentação é grande: isso pode levar nosso projeto de negócios para o próximo nível. E está sendo, acima de tudo, uma oportunidade de olhar nossa empresa pelo lado de fora, no microscópio, de forma científica, fria, com os olhos de quem nos observa como um produto na prateleira, sem mais nem menos. Assim, estamos descobrindo um pouco deste mundo dos investidores.

Uma palavra que escutei em uma destas reuniões foi “unicórnio”. Parece que encontrar um unicórnio é o sonho de quase todos por ali. Fiz cara de entendido, mas depois vim googlear o que isso significa exatamente, nos negócios.

Em resumo, as empresas unicórnio são aquelas que rapidamente alcançam valores de mercado acima de 1 bilhão. Exemplos: AirBnB, Uber, Facebook, Dropbox e outras que surgiram repentinamente e hoje fazem parte de nosso dia a dia. Algumas características em comum: são empresas disruptivas, tem capacidade mundial de escalabilidade, crescimento exponencial, e são todas – pelo menos por enquanto – de tecnologia. Também tem as que não dão certo, e fazem pensar que unicórnios são instáveis.

Agora, voltando à nossa realidade real – nós fazemos massas e molhos para vender no bairro – sabemos que estamos mais para cavalo do que para unicórnio.

Entendemos que nosso negócio tem outras regras. Afinal, fazemos produto, e precisamos de lojas onde produzir e contatar o cliente para entregar nossos produtos. Mesmo nosso e-commerce precisa de produto. Portanto nossa escalabilidade vai ser sempre mais lenta quando comparada com modelos de negócios de tecnologia. Esta lentidão, por outro lado, nos permite um controle de risco muito maior, e o crescimento é sólido e palpável, entre outras vantagens.

Nosso cavalo fica cada vez mais interessante quando leio um artigo da Deloitte analisando uma incipiente tendência que une produto à tecnologia: a fragmentação dos meios de produção. Acredito que vale a pena ficar de olho neste assunto, pois chegou para ficar.

Lendo nas entrelinhas, percebo uma grande e silenciosa revolução acontecendo: indivíduos – ou pequenos grupos – com baixo investimento, podem ter acesso aos meios de produção e atender/criar produtos e serviços em suas comunidades, bairros, cidades, com acesso direto ao cliente/consumidor.

Eu vejo de forma apaixonada esta movimentação, pois é justamente o modelo de negócio que sonhamos desde nosso início. No começo era apenas uma ideia, mas agora vejo o conceito prosperando em toda direção.

Por exemplo, na impressão 3D. Um pequeno escritório vizinho de minha casa desenvolve um projeto customizado, envia para a Dinamarca para ser impresso e vendido localmente para um consumidor específico. Diferente da tradicional exportação, o que se movimenta de um lugar ao outro não é o produto, mas a tecnologia do produto, que é feito localmente. E isto é fantástico!

Eu vejo muitas semelhanças com nosso negócio artesanal, onde cada unidade do Pastifício Primo tem produção autônoma! Em comum com as impressoras 3D de alta tecnologia, evitamos transporte de produto finalizado, evitamos estoques, evitamos poluição. Entregamos o produto personalizado, mais rápido e perto de você. Esta é basicamente nossa filosofia de expansão. Localmente cada unidade pode atender a demanda de sua região. Apenas o conhecimento artesanal é transportado.

Todos podem ser empreendedores, donos da própria vontade, da criatividade e dos meios de produção. Será que a utopia anarquista de derrubar grandes corporações e monopólios está sendo reinventada? Com unicórnio, a cavalo ou a pé, vamos em frente.

Ivan Primo Bornes – o fundador do Pastificio Primo escreve toda semana no Blog do Empreendedor. Quer fazer uma pergunta ou comentário? Receber uma dica? Escreva para ivan.primo@pastificioprimo.com.br

 

O que vai ser tendência na gastronomia mundial

7 de julho de 2016

Acabo de voltar da 62º Summer Fancy Food, que levou a Nova York 3670 expositores de todo o mundo, mostrando 180 mil produtos, as novidades na gastronomia, sabores, tendências, ingredientes, temperos, matéria prima e tudo o é relacionado com comida.

Neste ano, o evento teve 46 mil visitantes, de praticamente todos os países do mundo. O Brasil esteve representado por poucos expositores, e poucos participantes – bastante compreensível pelo momento atual de retração.

A sensação boa que eu tive é que a gastronomia de vanguarda no Brasil está bem sintonizada na busca de alimentos mais saudáveis, de origem não industrial, produtos feitos por pessoas com história e comprometimento, que é o que esteve mais em evidência na feira. Ou seja, acredito que não existe mais um abismo entre o Brasil e os EUA no que se refere à busca de uma melhor alimentação.

Mas percebi, sim, algumas diferenças brutais no acesso que pessoas comuns tem a todas estas novidades saudáveis. Fica evidente que o consumidor estadunidense consegue bancar uma grande quantidade e diversidade de pequenos produtores através do poder aquisitivo, do consumo, fazendo possível que tendências se consolidem e não sejam apenas modas passageiras, ou para poucos, como acontece no Brasil.

A nota curiosa e de minha total alegria é que o produto que ganhou o prêmio de inovação foi… massa!

O que mais se destacou, na minha opinião:

PLANT BASED
São os alimentos de origem vegetal (legumes, cereais, vegetais, frutas, flores e tudo o que se possa imaginar) e – muito importante – orgânicos e não modificados geneticamente. É como se os veganos estivessem com todos os desejos realizados, com lanches, sorvetes, leites, doces e uma infinidade de alimentos destacando que são 100% de origem vegetal e não-transgênicos – o grande inimigo da vez são os transgênicos. Ou seja, não adianta ser de origem vegetal, tem que ser orgânico e não-transgênico. Foto: Leite de macadâmia, da Austrália, da Nova Zelândia ou Havaí. Sabor excepcional, cremosidade, perfeitamente capaz de converter um fã de leite de vaca em vegano em instantes.

CANNABIS
Sim, a maconha na gastronomia não chega a ser novidade, mas agora está chegando com força total e numa diversidade enorme de produtos.E a cannabis está presente em tudo: leite vegetal com cannabis (orgânica e não-transgênica), nos flocos, nos iogurtes, nos biscoitos, no óleo de cozinha. Importante ressaltar que é uma variedade de Sativa sem o THC, que é o componente “chapante”. Fazer receitas com cannabis deixou de ser coisa de maluco beleza para se transformar num ingrediente com alto índice de proteínas, e além de ter o sabor e aroma valorizado.

SUPER LOCAL
Estamos falando das hortas em cima dos prédios de grandes cidades, como Nova Iorque e Chicago, e estufas de cultivo em áreas urbanas. A filosofia é usar áreas de baixo custo em grandes cidades (os telhados de edifícios ou fábricas), e assim evitar o transporte de alimentos em grandes distâncias, principalmente alimentos que contém muita agua, como a batata e o tomate, com 95% de agua. Hoje a plantação nos telhados dos prédios é um negócio não apenas rentável, como promove muitas pesquisas de cultivo sem o uso de agrotóxicos, usando insetos de controle, por exemplo. O “superlocal” é um conceito muito querido por nós, e que tem muito a ver com o trabalho que fazemos em todas as unidades do Pastifício Primo produzindo massas localmente.

O pensamento mais bacana que escutei do William Rosenzweig, da Food Business School: a produção de alimentos vai ser – se é que já não é – a mais importante ferramenta para a paz mundial. A humanidade precisa de alimento em primeiro lugar. Amém.

Ivan Primo Bornes – o fundador e masseiro do Pastifício Primo escreve toda semana no Blog do Empreendedor