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Por que a empresa mais inovadora do mundo contraria as principais práticas atuais de inovação?

14 de setembro de 2018

AP Photo/Marcio Jose Sanchez

Há muitos anos, setembro é o momento da empresa mais inovadora do mundo, de acordo com o ranking da revista Fast Company, anunciar seus lançamentos. E é isso que Tim Cook, CEO da Apple tem feito desde 2011. Quando assumiu, praticamente todos questionavam se Cook conseguiria manter o incrível crescimento liderado por Steve Jobs desde o seu lendário retorno à empresa que tinha fundado e posteriormente havia sido demitido. O discretíssimo Cook pegou uma empresa vitoriosa que valia cerca de US$ 330 bilhões e, inacreditavelmente, triplicou seu valor, rompendo a barreira de ser a primeira organização do mundo a valer mais de US$ 1 trilhão em 2018.

Por atingir esta marca, tida por muitos como uma missão impossível, o evento especial de lançamento dos novos produtos da Apple em 2018 era especialmente aguardado. E logo na abertura do evento, os primeiros cinco segundos da música do filme Missão Impossível já dava uma sensação confusa em quem acompanhava a transmissão. Seria algo inovador ou só mais um clichê? No filme, uma moça, aparentemente uma funcionária da Apple, corre para o auditório com uma maleta, enfrentando diversos obstáculos. Depois de ignorar a sugestão da Siri, a assistente virtual da empresa e ultrapassar várias barreiras, consegue entregar a maleta à Tim Cook. É revelado então o grande segredo que havia dentro da maleta: um antiquado passador de slides. Cook pega o clicker, entra no tablado, o evento começa e ele pergunta para a plateia: O vídeo não é divertido?

Desde que Cook se tornou o principal executivo da empresa, a Apple vem sendo questionada sobre sua real capacidade de inovação já que, quase sempre, seus concorrentes já haviam lançado antes soluções semelhantes. Mas quem conhece a trajetória da empresa, sabe que a empresa sempre agiu desta forma. E mesmo assim, a empresa fundada por Steve Jobs sempre foi considerada inovadora.

E mesmo sendo a empresa mais inovadora do mundo, a Apple contraria boa parte das principais práticas de inovação que está sendo adotada, em larga escala, pelas organizações que querem ser inovadoras.

O primeiro paradoxo diz respeito à inovação radical, fetiche de um número crescente de empresas ao redor do mundo que querem se transformar em organizações exponenciais. “Nunca tivemos vergonha de roubar grandes ideias...” – dizia Steve Jobs ao citar a frase de Pablo Picasso, um dos seus ídolos: “Bons artistas copiam, grandes artistas roubam…

Como ser radicalmente inovador, copiando os outros? De forma muito sincera e corajosa, Tim Cook explica: “Você pode escolher qualquer um dos nossos produtos – iPod, iPhone, iPad, Apple Watch – eles não foram os primeiros, mas foram os primeiros modernos, certo?

Outro paradoxo diz respeito às abordagens de Lean Startup, Design Thinking e outras técnicas de cocriação com clientes. Enquanto há um movimento crescente de inovação aberta, a Apple se fecha e quase nada é conhecido pelo mercado antes do evento anual de setembro. Tudo é feito dentro da empresa. “Porque não acreditamos em usar nossos clientes como um laboratório.” –  explica Cook.

Além disso, outro contrassenso diz respeito a aumentar a velocidade do desenvolvimento de inúmeras inovações ao mesmo. “Não queremos que nosso pessoal se concentre em bits, bytes, entregas parciais ou em ser veloz…” – esclarece Cook. “É preciso ter certeza que você está focado naquilo que realmente é relevante… O que eu acho que nós temos e que é único é paciência. Nós temos paciência para esperar até que algo seja grandioso antes de enviar para o mercado” – continua.

E, por fim, outra aparente contradição diz respeito ao alarde do domínio das novas tecnologias. “Nós somos um grupo de pessoas que está tentando mudar o mundo para melhor, isso é o que nós somos. Para nós, a tecnologia está em segundo plano.” – declara Cook.

Por isso, a receita contraditória de inovação e bons resultados da Apple é resumida na crença deste líder que acha engraçado um filme sobre um passador de slide: “Para mim, isto diz respeito a produtos e pessoas. Nós fizemos o melhor produto e tornamos a vida das pessoas melhor? Se nós estivermos fazendo estas duas coisas e, obviamente, se elas estiverem incrivelmente conectadas, porque uma leva à outra, então, teremos um bom ano.”

Marcelo Nakagawa é Professor de Inovação e Empreendedorismo do Insper.

 

Em um momento com tantas Kodaks, uma entrevista com Steve Sasson, o funcionário da Kodak que inventou a câmera digital

10 de setembro de 2018

Muito se fala em transformação digital e inovação radical atualmente, mas poucos são os que verdadeiramente se aprofundam nas lições de quem já passou por isso. Dos que citam a Kodak, quase ninguém sabe quem foi e por isso não cita Steve Sasson.

É fácil falar mal da Kodak, depois de tudo o que aconteceu. Mas, George Eastman, seu fundador, foi um dos maiores empreendedores de todos os tempos e seu legado mais importante ainda é um dos principais líderes mundiais de, curiosamente, transformação digital e inovação radical.

Para quem não conhece Steve Sasson, traduzi, a seguir, uma entrevista que ele deu para HEC Paris Business School e Presans no início deste ano. Seus ensinamentos, de 40 anos atrás, são gritantemente atuais para os líderes e a média gerência de centenas, talvez milhares, de kodaks atuais.

Olhando para trás, qual foi a principal razão pela Kodak não ter adotado a sua invenção?

Quando eu demonstrei a fotografia digital para a empresa em 1976, a tecnologia ainda estava muito imatura e os questionamentos não eram necessariamente sobre como isto funcionava, mas por que alguém iria gostar deste tipo de fotografia. Porque não tinha nenhuma relação com a compreensão da época sobre fotografia. Era o mesmo dos últimos 100 anos.  Por exemplo, a fotografia digital não envolvia revelação em papel e eles acreditavam que todo mundo queria a fotografia em papel, entende. Ninguém queria ver suas fotos eletronicamente. Então, eles permitiram que trabalhássemos tecnicamente no projeto. Trabalhei continuamente em fotografia digital desde 1975. Na Kodak, eu não poderia falar para ninguém sobre isto. Depois, outras pessoas começaram a trabalhar nesta iniciativa, mas nada poderia se tornar público, porque nós queríamos manter a percepção de que o papel fotográfico era a melhor forma de imagem.

Você foi um visionário com um olhar de 15 anos para frente, pode descrever as diferentes fases deste período?

Em 1975, eu mostrei o sistema fotográfico, que funcionava. Havia um sistema integrado de fotografia digital. Nós mostramos as fotos na tela que tiramos em uma sala de escritório muito parecida com essa. Isso funcionava, mas soava tão estranho que eles não levaram a serio. Mas nos deixaram continuar trabalhando nisso. Mas isso se tornou importante em termos de investimento para a companhia quando a Sony anunciou a Mavica, uma abordagem alternativa, em 1981. Mas eles (Sony) não conseguiram viabilizar isto de forma prática durante muitos anos, mas anunciaram que estavam entrando no mercado de fotografia. E nada coloca mais medo na diretoria que um novo e poderoso competidor. Assim, em 1981, nós conseguimos muito mais recursos para conduzir diferentes projetos. Nós abrimos diferentes subdivisões que eram dedicadas à área de imagem digital. Havia muitas mudanças organizacionais já que as companhias adoravam fazer reorganizações. OK, mas em essência, nós investimos ao longo da década de 1980 nesta tecnologia, mas fizemos muito poucas demonstrações. Só em 1990 começamos, de verdade, a ir para mercados de nichos com um esforço específico de marketing, tentando entender se as pessoas demandariam uma câmera digital. E eles quiseram! Foi o que disse para você antes… Eram aqueles diferentes mercados que abordamos naqueles cinco anos iniciais perambulando no deserto… Persistimos. E então, depois de dez anos conseguindo algum apoio, principalmente por ameaças externas, as coisas começaram a parecer viáveis. Isto já não era por uma ameaça externa, mas porque parecia viável para a Kodak.

Pode explicar como era a concorrência naquele momento?

Quando eu me juntei à Kodak, eu diria que éramos o fornecedor dominante no mundo e a competição era muito limitada. Nós tínhamos obviamente alguma competição da Fuji e Agfa, mas para ser franco, a barreira para entrar e fabricar filmes fotográficos era muito grande. Era muito complexo fazer tudo. Todos os equipamentos eram especialistas, especializados e quase tudo era protegido por segredos industriais. Não era uma informação pública. Assim, tínhamos relativamente poucos competidores no mercado, mas quando migramos para o mundo digital, ninguém poderia controlar toda a tecnologia associada, como nós tínhamos no mundo do papel fotográfico. Isso porque nós controlávamos os insumos químicos, nós controlávamos os equipamentos de revelação, as câmeras, os filmes, os papéis. Tudo aquilo era feito pela Kodak.

Onde aconteceu quando a transformação digital se consolidou?

Entramos no mundo digital onde havia muitos competidores, a barreira para entrar era muito baixa, e isto era… eletrônico. Havia Sony, Canon, essas empresas… eram o que eles faziam. E a Kodak teve que avançar na velocidade de um elétron.

Você vê empresas que serão as próximas Kodaks?

Eu acho que toda companhia precisa estar muito preocupada com as mudanças tecnológicas que já estão ocorrendo. E que estão acontecendo muito mais rapidamente agora! É claro, se comparadas com as que derrubaram a Kodak. Mas com o mesmo efeito. Eu acho que toda companhia que se baseia em uma determinada tecnologia, que está oferecendo produtos e serviços, servindo clientes utilizando alguma tecnologia tradicional, precisa estar muito atenta com as mudanças que estão ocupando espaços. Eu não posso nomear nenhuma empresa em particular porque cada situação é diferente. O que aconteceu com a Kodak, eu chamaria de uma descontinuidade tecnológica massiva, que ocorreu em um período de provavelmente cerca de 15 anos, mais ou menos. Eu acredito que a maioria das mudanças que ocorrerão nos próximos anos serão ainda muito mais rápidas. Assim, eu acho que é inevitável ver outras companhias se tornarem obsoletas.

O que uma companhia precisa considerar para ter sucesso na sua transformação e desenvolver um novo modelo de negócio?

Eu diria paciência, OK? E uma clara compreensão de que desenvolver um novo negócio de grande porte demanda algum tempo. A Kodak, em muitas situações, era impaciente com seus novos negócios. Agora, muitas das iniciativas em que a Kodak esteve envolvida são negócios muito prósperos, mas de outras empresas. E eles estão indo muito bem! Desta forma, havia muito potencial naquelas iniciativas! Mas se comparássemos com a lucratividade que tínhamos com o filme e papel fotográfico, nunca se demonstravam muito atraentes.  Assim, os gerentes ou departamentos sempre compararam o que fazíamos com o que ganhávamos com o filme.

Filme contra o digital na Kodak. Que conselho você daria para garantir a sustentabilidade de longo prazo nas empresas?

Bem, é necessário estar atento com as disrupções potenciais! Então tentar se reinventar ativamente ou destruir seu próprio negócio neste sentido, OK?  Ter uma ideia não é o suficiente. É preciso ter um caminho claro que permita que os inovadores sigam em frente, implemente estas coisas e utilizem o que acharem que é necessário.  O poder que as empresas têm em termos de mercado ou qualquer outra coisa permite que elas possam tentar isto de verdade. O maior problema para a maioria das corporações é liberar-se. Libere-se para novas ideias, assim elas podem crescer. A Kodak teve problemas com isso. Posso compartilhar várias estórias assim, mas você precisa liberar as ideias, desafiá-las e então implementá-las. Nós tínhamos um processo faseado para a comercialização, onde você deveria ir do estágio da prototipação, mockups, até se tornar um produto real. Aí seria criado um modelo de negócio e neste momento você iria para o mercado tentar vender ou implementar o serviço. Você precisa permitir que façam isso! E às vezes, quando estiver indo para o mercado, isso entrará em conflito com um canal existente ou um mercado já atendido. Você precisa que a alta gestão faça a arbitragem entre as duas situações, equilibrando a lucratividade presente com o crescimento futuro. Este é o trabalho da direção da empresa. Às vezes é difícil, especialmente para as companhias de capital aberto, que precisa reportar dividendos. Isso sempre se torna um desafio real! Isso será eterno…  Mas você deve fazer isso porque precisa dizer para si mesmo, em cinco anos, eu precisarei destas novas pessoas.  E não é tolerá-los… É porque vai precisar mesmo!

Como alocar recursos? É muito difícil criar um orçamento para ideias disruptivas que parecem extravagantes, quando você já tem algo lucrativo em seu modelo de negócio atual.

Se tiver novas ideias, isso precisa ser uma aposta da área de pesquisa e desenvolvimento. Mas você precisa deixá-los ir para o mercado e começar a vender. Não apenas pela empresa, mas pelas pessoas envolvidas. Inovadores não sobrevivem se não forem para o mercado e virem seus produtos, mesmo que não decolem. Eu vi muitas pessoas brilhantes ficarem meio cansadas e irem embora porque eles não foram ouvidos. Você precisa dar a chance deles irem para o mercado. E a alta direção precisa apoiá-los. Mesmo que fracasse, você aprende algo. E o seu público precisa ver que você está sendo inovador, tentando oferecer o melhor futuro possível para eles. E se isso significa mudar algo, eles precisam saber que a sua empresa está preparada para a mudança. Assim, eles continuarão com você.

Às vezes, parece que a alta direção tem medo de comunicar seus receios com seu time. Como eles deveriam fazer isso?

No caso da Kodak… a alta direção… eu conhecia os vários CEOs e eles sabiam disso. Eram pessoas muito espertas. É mais difícil no meio da empresa, na média gerência, com o gerente médio. Boa parte do nosso pessoal na nossa empresa tinha uma vida inteira na Kodak. Pessoas, certo, que estavam lá por 35, 40 anos. Eles tinham uma organização estável. Talvez eles tivessem criado aquilo para eles mesmos. Assim, estavam relutantes em mudar. É muito difícil para a alta direção mudar, de fato. Eu acho que isso foi um dos maiores problemas que enfrentaram. Alguns deles disseram isso para mim. Desta forma, eu acredito que isso é o verdadeiro desafio.

Se a média gerência fica com medo, a alta gestão provavelmente está com medo. Mas é a média gerência…  Diante da preocupação, às vezes, é tomada alguma ação drástica por parte da alta direção para mudar as coisas. Se isto vai mudar a organização, mudar a forma de remuneração, formas de se fazer as coisas, talvez mudar a forma como você promove as pessoas… mas algo vai direto para o coração das pessoas da média gerência. Mas isso precisa ser feito, isso precisa ter um impacto. Você não será mais avaliado da forma antiga.

Você será avaliado, lembre-se do que é usado pela 3M ou GE, nós seremos avaliados não sobre quão lucrativo estamos sendo, mas sobre quanto dinheiro estamos fazendo com produtos que foram lançados nos últimos três anos ou algo parecido.

Steve Sasson sempre foi muito respeitoso com a empresa que o empregou durante toda a sua vida profissional e sempre explica o contexto em que as decisões foram tomadas. Naquele momento, as decisões da empresa, do ponto de vista racional, foram as corretas para aquele tipo de jogo, do qual a Kodak foi a mais vitoriosa. Mas o jogo mudou e a Kodak não conseguiu se transformar a tempo. É justamente por isso que os aprendizados de Sasson são tão precisos e preciosos neste momento em que tantas organizações veem seus jogos serem drasticamente alterados.

Considerando a instituição, como um todo, mesmo que haja muitos aprendizados em seus 130 anos de história, a Kodak não foi o maior legado de George Eastman. Ele apoiou e investiu algo que hoje seria equivalente a US$ 500 milhões na criação e desenvolvimento de um instituto de tecnologia do estado de Massachusetts, mais conhecido como MIT.

Marcelo Nakagawa é Professor de Inovação e Empreendedorismo do Insper.

(Finalmente) cientistas estão indo para as empresas, neste caso, startups

6 de julho de 2018

Curiosidade. Inquietude. Identificação do problema. Seleção do método de pesquisa. Coleta de dados e informações. Condução da pesquisa. Análise dos resultados encontrados. Avanço do conhecimento e… aplicação em uma startup!

O currículo do Giovani Chiachia é incrível. Graduado em sistema de informação pela UNESP, mestrado em ciência da computação pela mesma instituição, doutorado e pós-doutorado no mesmo assunto pela Unicamp, pesquisador do instituto alemão Fraunhofer e da Universidade de Harvard. Teria condições de ser um brilhante acadêmico em qualquer universidade brasileira ou do mundo, mas se tornou cientista-chefe da sua própria empresa, a SAFFE Payments, uma solução de pagamento via reconhecimento facial, sua área de pesquisa científica.

Em um momento em que o avanço tecnológico é tão drástico e disruptivo, os cientistas se tornam cada vez mais imprescindíveis em organizações que buscam inovações tecnológicas radicais. E nenhum país leva tão à serio isso quando a China. O país vem aumentando exponencialmente o investimento em desenvolvimento científico, a remuneração dos pesquisadores e formando mais cientistas do que o resto do mundo… somado. Neste ano, pela primeira vez na história, segundo dados da National Science Foundation (NSF), a China passou os Estados Unidos em número de artigos científicos publicados. Este movimento também é percebido nas startups. A Tencent, que há muito tempo deixou de ser uma, com valor de mercado próximo dos US$ 500 bilhões e que ruma para ser a primeira empresa do mundo a valer US$ 1 trilhão, emprega cerca de 22 mil cientistas. Isto significa que metade dos seus colaboradores se dedicam a desenvolver novos conhecimentos científicos em inteligência artificial, big data, IoT, segurança digital, saúde ou qualquer outra área que está na fronteira do conhecimento.

Durante muito tempo, o destino de boa parte dos mestres, doutores e pós-doutores e outros cientistas lato sensu era se tornar um acadêmico que seria cobrado pela publicação de papers ou gasto extra para cumprir alguma regra do MEC de proporcionalidade. Outra opção seria ser subvalorizado como funcionário de alguma empresa privada. Ou ainda ter algum subemprego em alguma área não relacionada a sua área de pesquisa.

Mas a natureza inovadora das startups vem abrindo oportunidades para este tipo de formação acadêmica que integram desenvolvimento profissional, remuneração financeira e interesses científicos e tecnológicos.

Além de pesquisadores nas áreas específicas em que cada startup atua, há um falta generalizada de cientistas de dados, de inteligência artificial e, cada vez mais, do comportamento humano. Neste sentido, cursos que eram coadjuvantes nos vestibulares como estatística, matemática, física e antropologia se tornam protagonistas no desenvolvimento de muitas inovações levadas ao mercado pelas startups.

Para cientistas assim como o Giovani, há muito mais vida além dos papers e dos parecistas quando você tira suas ideias, literalmente, do papel.

Marcelo Nakagawa é Professor de Inovação e Empreendedorismo do Insper e Coordenador de Área de Pesquisa para Inovação da FAPESP.

 

O empreendedor solitário, o inovador, a startup e sua equipe

22 de maio de 2018

Existe certa visão romântica e uma boa dose de mitologia acerca da figura do empreendedor, aquele sujeito arrojado e algo misterioso, corajoso e até genial, que ergueu sua startup totalmente sozinho, com muito esforço e trilhando um caminho solitário.

Certo? Não, nada de mais errado!

Nenhuma startup é criada por uma pessoa só, por mais genial que ela seja. Uma empresa de uma pessoa só não saberia adquirir velocidade e, desde logo, não teria agilidade para se estruturar e para desbravar seu próprio mercado.

Por outro lado, não devemos esquecer a centelha que move muitos empreendedores e, tampouco, desmerecer sua contribuição para o processo de inovação e criação!

Entretanto, vale observar que um empreendedor não precisa inovar, necessariamente; bem como, por sua vez, um inovador não precisa ser aquele que empreende. Inúmeros empreendedores, de diferentes tamanhos e setores, não fizeram nada mais do que empreender implementando modelos, produtos e serviços criados por outros, que já foram inovadores. O que eles fizeram – e é preciso garra, inteligência e velocidade para fazer isso – foi seguir quem inovou e dividir com ele fatias do mercado que, anteriormente, tinha sido dele por inteiro (escreverei sobre a sina do inovador e a visão de Schumpeter em um próximo texto).

Por sua vez, o inovador pode associar-se com um empreendedor ou, simplesmente, revender-lhe o fruto da sua inovação, para que ele transforme a ideia em algo que se torne palatável para o mercado.

Agora, voltando à nossa dúvida inicial, o empreendedor que queira transformar uma ideia inovadora em uma startup precisará permear a empresa de processos de gestão, tais que lhe permitam adquirir velocidade na execução e agilidade na abordagem do mercado. A gestão é o mal necessário do empreendedor, que lhe permite, por um lado, conter seus excessos de criatividade e transformar seu entusiasmo em um negócio sustentável; e, por outro, definir claramente quais são as áreas que gerem a companhia e as pessoas que as compõem.

Ficou claro, agora, que nenhum empreendedor faz uma empresa sozinho, mas, ao contrário, a cria cercando-se da melhor equipe.

Agora vem a difícil tarefa. Como escolher os membros da equipe de uma startup? Quais caraterísticas essas pessoas deverão ter

A lista de exigências poderia ser infindável, mas acredito que, no caso específico de uma startup, um bom começo pode ser observar os pontos a seguir:

1. Em primeiro lugar, é fundamental que a equipe esteja alinhada com os propósitos do empreendedor. Apesar de ser desejável um nível adequado de heterogeneidade na composição da equipe no que diz respeito às competências pessoais e de gestão, no momento do lançamento da start up é necessário que o barco zarpe com a tripulação bem consciente de quem é o capitão e de quais são a rota e as diretrizes de viagem.
2. O mesmo conceito vale no que diz respeito aos valores e à missão da companhia, que devem ser definidos antes mesmos do seu lançamento, não sendo negociáveis. Quem não concordar com o “credo” da empresa, não deverá fazer parte da equipe.
3. Neste momento da start up, é desejável procurar não somente bons colaboradores, mas pessoas que se “apaixonem” de fato pela sua proposta e se tornem seus evangelizadores. Uma equipe apaixonada pelo projeto será muito mais resiliente nas primeiras dificuldades e terá mais garra para superá-las.
4. É essencial que os membros da equipe sejam dotados do conjunto de competências e habilidades (skills) necessárias à implementação do projeto e à adequada gestão da empresa. Alguns skills podem ser adquiridos em um segundo momento, mas é importante escolher, como membros da equipe, colaboradores que tenham capacidade e disposição de adquiri-los depois.
5. É desejável que os colaboradores escolhidos mantenham um mix de competências complementares entre si, viabilizando a formação de uma equipe multidisciplinar, essencial para o crescimento do negócio e a gestão da companhia.
6. Last but not least, é aconselhável montar, no limite do possível, uma equipe fácil de se conviver e que saiba agregar e compartilhar. Garanto que estruturar a equipe dessa forma vai ser muito melhor para os negócios e para o dia-a-dia da companhia!

Luca Borroni-Biancastelli é PhD em Economia e Teorias Econômicas, co-fundador e Dean da Brain Business School, conselheiro emérito da UNICON-Consortium for University-based Executive Education, conselheiro, professor universitário e empreendedor.

A história do homem que não necessariamente criou a lâmpada

16 de maio de 2018

A história empresarial recente está repleta de heróis e figuras inspiradoras quando se pensa na conjunção entre espírito empreendedor e inovação tecnológica. Elon Musk, Steve Jobs e Steve Wozniak, Jeff Bezos, Bill Gates e Paul Allen, Pierre Omydiar (Ebay), Reid Hoffman (LinkedIn), Reed Hastings (Netflix) ou Brian Acton (WhatsApp), por exemplo, são nomes que certamente merecem ser reverenciados e terem suas vitórias e percalços conhecidos e extraídas lições de suas trajetórias. Entretanto, uma das histórias mais ricas e fascinantes que amalgamam empreendedorismo e inovação vem de um personagem que ajudou a moldar a vida contemporânea com realizações que datam de 120 anos atrás: Thomas Alva Edison.

Nascido em 1847, o mais novo de sete irmãos, sem nenhuma educação formal e com problemas auditivos, teve boa parte da infância passada vendendo doces e jornais nos trens que iam e voltavam entre a pequena cidade onde morava e Detroit. Na adolescência, tornou-se operador de telégrafo e dedicou-se aos seus passatempos preferidos: leitura e experiências. Morou alguns anos em New Jersey no porão da casa de um telegrafista e inventor chamado Franklin Pope. As primeiras invenções de Edison foram relacionadas ao telégrafo e sua primeira patente foi obtida aos 22 anos (a 1.093º e última foi obtida aos 83 anos de idade). Em 1877, um ano após fundar um laboratório de pesquisa em Menlo Park, New Jersey – com o dinheiro proveniente de suas primeiras invenções, inventou o fonógrafo e foi pela primeira vez chamado de “gênio”.

Menlo Park foi o primeiro laboratório voltado a criação e aplicação sistemática de conhecimento, viés perseguido por Edison ao longo de toda sua carreira. Como dito por ele mesmo: “na maior parte de minha vida me recusei a trabalhar em qualquer problema a menos que sua solução parecesse capaz de ser posta em uso comercial”. Além disso, desde o início de funcionamento de seu laboratório, o autodidata sempre se fez rodear por mentes brilhantes e com ótima formação, como por exemplo o engenheiro elétrico William Hammer e o matemático Joseph Sprague, ou até mesmo o também genial Nikola Tesla.

Apesar de ter inventado o fonógrafo, a câmera cinematográfica, a pilha alcalina, a urna “elétrica”, o telégrafo automático, o microfone para aparelhos telefônicos e inúmeras outras criações, Thomas Edison é primeiramente reconhecido por algo que ele não exatamente criou, mas que buscou à exaustão aprimorar: a lâmpada elétrica incandescente, cujas primeiras versões datam de 40 anos antes dos experimentos de Edison. A procura de um filamento – durável para operar no interior de um bulbo de vidro no qual foi feito vácuo – chegou ao fim depois dele experimentar mais de 3.000 alternativas, o que ilustra modelarmente sua frase mais famosa: “Genialidade é 1% de inspiração e 99% de transpiração”.

Na verdade, por trás da intensa busca por uma lâmpada incandescente comercialmente viável estava a ideia de um sistema completo de iluminação para as cidades e as residências. Para isso, em 1878, Edison formou a Edison Electric Light Company com a participação do venture capitalist Spencer Trask, membros da rica família Vanderbilt e do banqueiro J. P. Morgan. Depois de chegar a um filamento satisfatório cerca de um ano depois, ele patenteou um sistema de distribuição de energia e fundou a Edison Illuminating Company. Em menos de dez anos, a empresa de Edison já havia construído mais de 100 estações de distribuição de energia elétrica.

Curiosamente, nessa que foi uma de suas empreitadas mais arrojadas e na qual devotou muitos anos e muito esforço, Thomas Edison não foi exatamente bem-sucedido. Seu sistema de distribuição, que operava com corrente contínua de baixa voltagem, apresentava limitações para transmissão a distâncias maiores que uma milha e acabou por se mostrar inferior ao sistema que operava em corrente alternada e que era utilizado pela Westinghouse Electric (sob a orientação do mesmo Nikola Tesla que já havia trabalhado para Edison) e pela Thomson-Houston Electric. Sua insistência pela solução de corrente contínua fez J. P. Morgan provocar uma fusão da já então chamada Edison General Electric com a Thomson-Houston, formando a General Electric – GE, sob a gestão dos executivos da Thomson, afastando Edison da diretoria.

Percebemos assim que nem mesmo mentes geniais são capazes de acertar 100% do tempo.Entretanto, para Thomas Edison não havia fracassos, apenas o aprendizado de como uma coisa não deveria ser feita. Passados 86 anos desde sua morte, ele segue justamente considerado como um dos mais brilhantes personagens da história da humanidade. Sua postura analítica, incansável, pragmática e empreendedora será sempre uma excelente referência para quem quer conciliar inovação e empreendedorismo. Finalizando com palavras do próprio Thomas Edison, “estarmos ocupados não necessariamente significa fazermos um trabalho real. O objeto de todo trabalho é a produção e a realização e, para que ambos sejam alcançados, deve haver preparação mental e antecipação, método, planejamento, inteligência, um propósito honesto e muito esforço”.

Fabio De Biazzi é doutor em Engenharia de Produção pela POLI-USP, conselheiro, consultor, diretor da Brain Business School, professor do Insper e autor do livro ‘Lições Essenciais Sobre Liderança e Comportamento Organizacional’

As desculpas que restam para os que não inovam são arrogância, ignorância, medo ou a preguiça mesmo

9 de fevereiro de 2018

Quem quer faz, quem não quer inventa desculpa! A frase é tão utilizada que é difícil identificar quem deu este tapa na cara pela primeira vez. Mas é um bom recurso para levantar e começar afazer ou aceitar o seu verdadeiro tamanho e ficar sentado.

Mas depois que abordagens eficazes para inovação como Lean Startup, Design Thinking, DuploDiamante ou desenvolvimento ágil passaram a ser praticadas por empresas de qualquer porte esetor, não resta mais nenhuma barreira para começar a inovar. São lógicas que deveriam seraceitas por qualquer tomador de decisão na companhia pois privilegiam o baixo custo, a rapidez eo aprendizado.

Desta forma só restam as desculpas para empresas que não inovam. A mais comum delas é a arrogância. Quando o professor Clayton Christensen publicou o livro O Dilema do Inovador há vinte anos, leitura obrigatória para qualquer um que se diz especialista no assunto, ele apontou para as principais demonstrações óbvias de arrogância de organizações que perdem as grandes oportunidades de inovações. A primeira prática é que estas empresas costumam ouvir seus clientes. E o cliente sempre pedirá uma melhoria ou algum ajuste e nunca será capaz de pedir algo que sequer existe. Thomas Edison, Henry Ford, Steve Jobs ou Bill Gates teriam desistido se tivessem pesquisando antes se os clientes desejavam uma lâmpada, um automóvel, um computador ou um sistema operacional.

O segundo reflexo é a necessidade de calcular detalhadamente o tamanho do mercado e seu crescimento esperado. Reed Hastings até que tentou vender a empresa que fundara, a Netflix,para a Blockbuster em 2000, mas John Antioco, o CEO da rede de locadoras que arrasava quarteirões, declinou, pois, para ele, o mercado de vídeo sob demanda era muito pequeno e não tinha potencial de crescer. O terceiro sinal de arrogância é que as empresas investem onde o retorno é mais alto. Não há nada mais óbvio do que esta constatação, por isto a IBM estava absolutamente certa de que o negócio estava na venda de microcomputadores, muito mais lucrativo, e não dos sistemas operacionais (que por sinal, já vinham instalados na sua máquina).Quase 40 anos depois, grandes empresas estão cometendo o mesmo “acerto” quando abrem suas portas para nos novos Bill Gates, acreditando que a conta com startups sempre é lucrativa pois os custos são baixos.

Mas a afirmação mais arrogante de todas é a crença de que dominam grandes mercados e só por isso estão imunes aos ataques de startups nascentes ou de inovações “de nicho” como pensam.Os executivos da Barnes & Noble e da Border´s riram quando um executivo de Wall Street se mudou para a distante Seattle para criar uma livraria online e de lá, distribuir produtos para todo o país. Mais bisonho do que a localização era o nome ridículo da startup, Amazon. Mas os arrogantes estão absolutamente corretos nas suas decisões lógicas. Não há o que discutir quando o jogo é o mesmo. Mas nunca é quando se inova.

O segundo tipo de desculpa é a ignorância. O que é blockchain e ióte? – Pergunta um diretor executivo de uma das principais empresas logísticas do país. Meses depois ele não estava mais na empresa…. Muitas companhias percebem que estão indo tão bem. Mas é culpa da economia, da concorrência, da situação política, mas nunca da ausência de compreensão em perceber que o jogo mudou ou vai mudar drasticamente.

Ainda resta como desculpa o medo de inovar. Mas o verdadeiro medo não é de inovar, mas de fracassar diante dos seus colegas. Organizações que não inovam punem exemplarmente quem erra. Dizem que não vão promover apenas o acerto, já que o erro ensina. Mas no final do ano, só o acerto promove.

E de todas as desculpas, a mais surpreendente é que inovar dá trabalho. Para preguiçosos assim,obrigue-os a encontrar soluções para os desafios mais complexos. O preguiçoso sempre encontrará uma solução rápida e criativa para se livrar do problema.

Marcelo Nakagawa é Professor de Inovação e Empreendedorismo do Insper

Experimentar é o novo planejar

19 de maio de 2014

Marcelo Pimenta é professor de Inovação na ESPM

Vivemos na era das incertezas. A modernidade líquida faz com que tudo se transforme instantaneamente. Pequenos acontecimentos podem provocar grandes ondas.

‘Do dia para a noite’ surgem soluções que conquistam clientes – ameaçando negócios que passaram anos investindo para oferecer um tipo de serviço que o consumidor pode não querer mais. O caso recente das cooperativas de táxi e prefeituras tentando impedir aplicativos que facilitam a vida do cliente ilustra isso.  Não é uma lei que vai evitar que os clientes desfrutem de uma inovação.

Nesse contexto, planejar se tornou algo cada vez mais complexo e até certo ponto questionável, quando falamos de inovação.

Mais importante do que planejar, atualmente, é a coragem de se dar à oportunidade de criar condições e situações em que é possível errar rápido (e aprender com isso), tentando novamente, mas construindo algo realmente inovador em co-criação com o cliente.

Essa é a cultura startup: ter ideias criativas, pensar modelos de negócios viáveis e sustentáveis e ‘prototipar’ inovações como uma forma de obter feedback dos clientes. E, nesse ciclo, conseguir criar negócios vencedores.

PS – Este é meu primeiro post de uma parceria que inicio com o Blog do Empreendedor do Estadão PME. Toda segunda, para inspirar sua semana, uma provocação para você conhecer e experimentar a cultura startup – de criar modelos inovadores que possam mudar sua vida, viabilizar seu negócio e transformar o mundo.