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Blog do Empreendedor
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Curiosidade empreendedoras: Nomes de marcas famosas com origens inusitadas

12 de agosto de 2016

Se estiver passando pelo desafio de escolher um nome para a sua empresa, talvez a Odete ajude!

Em tempos de Luís Augusto (ou Bráulio para os mais antigos), não me esqueço do conselho de um amigo de trabalho quando decidíamos o nome de uma startup que estávamos investindo. A empresa tinha um nome bastante genérico e por esta razão seria impossível diferenciá-la no mercado. Diante do impasse na escolha do nome, que tal chamá-la de Odete enquanto seguimos em frente com outras decisões e ações importantes? – sugeriu.

A Odete nunca chegou a ser utilizada como nome da empresa, mas algo semelhante aconteceu com o nome Daniel. Daniel Fitipaldi era o estagiário responsável por receber todas as sugestões de nome enviadas pelos sócios e outros funcionários da startup que vendia sapatos pela internet.

Todos deveriam enviar suas ideias para o seu endereço de e-mail que começava com Dafiti. Como ninguém conseguia definir o melhor nome, optaram por usar como nome da empresa o e-mail do estagiário. O nome Daniel também foi utilizado em outra solução caseira. Quando Isaac Carasso precisou escolher um nome para a sua fábrica de iogurte fundada por ele em 1919 em Barcelona, optou pelo nome do seu primeiro filho, Daniel, adotando inicialmente seu apelido Danon e depois juntando sabe-lá-como Dan e one (filho número 1), que viria a se tornar apenas Danone.

Enquanto alguns fazem associação com nomes de pessoas próximas, outros empreendedores batizaram seus negócios com os nomes dos seus… cachorros. Mesmo que tenha jogado FarmVille ou Mafia Wars talvez não se lembre da Zynga, a empresa que é dona destes games e tampouco do seu logotipo, um bulldog. Na falta de um nome melhor, Mark Pincus deu o nome do seu animal de estimação para a empresa que atualmente vale cerca de US$ 1,6 bilhão.

Ideia semelhante teve James Jannard ao criar uma empresa, a Oakley, que, inicialmente, fabricava peças para motos, mas que depois ficou famosa por seus óculos.

Outros empreendedores optaram por usar nomes dos seus personagens literários preferidos. Atualmente o nome Starbucks parece sofisticado e vencedor, mas é nome de um dos personagens do livro Moby Dick e foi o melhor da criatividade de Gordon Bowker e Zev Siegl, co-fundadores da rede de cafeterias, que na época eram escritor e professor de inglês, respectivamente. De forma semelhante, Jesse Shwayder, chamou sua empresa de Sansão, pois admirara suas histórias de força. Anos depois, mudou o nome da sua fábrica de malas para Samsonite.

E enquanto alguns empreendedores não gastam muito tempo na escolha do nome das suas empresas, outros ficam horas e horas criando nomes que não significam absolutamente (e propositalmente) nada. Reuben Mattus ficou criando palavras inexistentes até chegar a um termo que, no seu entendimento, soava dinamarquês para a sua sorveteria: Häagen-Dazs.

E George Eastman seguiu o mesmo processo. “Eu inventei o nome sozinho. A letra K era a minha favorita. Parecia um tipo de letra forte, incisiva. E isto se tornou um desafio: tentar um grande número de combinações de letras que começavam e terminavam com K. O resultado foi a palavra Kodak” – explicou, certa vez, o fundador da indústria fotográfica moderna.

Mas estes exemplos são apenas curiosidades quase sem aplicação prática. Os empreendedores, em geral, escolhem os nomes das suas empresas pela análise dos seus sobrenomes como Disney, Ford, Dell; fazendo associações diretas como Oracle (oráculo), FloresOnLine, Salesforce; combinações de termos como Microsoft (Microcomputer Software), Compaq (Compact Quality), Intel (Integrated Electronics); ou mesmo forçando associações distantes como a Nike (Deusa grega da vitória), Sony (som em latim) e Viagra (Vigor e Cataratas do Niágara) – que se tivesse sido criada no Brasil, talvez se chamasse Viguaçu

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Marcelo Nakagawa é professor de Empreendedorismo e Inovação do Insper e Diretor de Empreendedorismo da FIAP.

Por que todos os empresários deveriam (re)conhecer Yvon Chouinard

24 de junho de 2016

Talvez “Lições de um empresário rebelde” não seja a melhor tradução de “Let my people go surfing”, livro em que Yvon Chouinard narra como criou a Patagonia, uma das marcas de roupas esportivas mais prestigiadas do mundo e os pilares filosóficos e práticos que a mantém entre as empresas mais admiradas, melhores para trabalhar, mais inovadoras, melhores empresas para mamães trabalharem, que mais crescem, mais rentáveis e mais sustentáveis dos Estados Unidos, mas é o que justamente encontramos: lições de um empresário rebelde, mas rebelde às práticas vigentes.

Em um momento que estamos discutindo a corrupção corporativa, o impacto ambiental da produção, o lixo gerado do uso e pós-uso dos produtos, a ‘financeirização’ dos negócios, a instantaneidade das relações, a coisificação dos clientes e a bestialização das pessoas, as lições deste pequeno empreendedor que tem feito companhias gigantes se curvarem são, no mínimo, provocações para o desenvolvimento de uma nova geração de bons negócios realmente bons.

O livro está repleto de reflexões que invocam o equilíbrio (muitas vezes Zen) já que isto, inclusive, faz parte da própria missão da Patagonia. E a primeira lição é a passagem que abre o texto: “Sou um empresário há quase 50 anos. Mas para mim é tão difícil de dizer isto como é para alguns admitir que são alcoólatras… Nunca respeitei esta profissão. As empresas são as maiores responsáveis pelos atentados contra a natureza… No entanto, as empresas podem produzir comida, encontrar a cura de doenças, controlar o aumento da população, empregar pessoas e, de modo geral, enriquecer nossas vidas. E podem fazer essas coisas boas e lucrar sem vender suas almas.”

A segunda reflexão se concentra em ser a melhor com crescimento sustentável. “Não queremos ser uma grande empresa. Queremos ser a melhor empresa, e é mais fácil tentar ser a melhor pequena empresa que a melhor grande empresa… Quando nossos clientes se dizem frustrados por não conseguirem comprar nossos produtos porque estão o tempo todo fora de estoque, então precisamos fabricar mais, o que nos leva a um crescimento natural. Não criamos demanda artificial por nossa mercadoria fazendo anúncios… Queremos clientes que precisem de nossas roupas, não clientes que simplesmente a desejem”.

Se por um lado Chouinard não quer atrair clientes que queiram comprar uma vida que não vivenciam, também não quer clientes que desvalorizem seus produtos pagando um preço baixo: “…qualidade e não preço tem uma maior relação com o sucesso de um negócio… empresas que têm uma boa reputação pela qualidade de seus produtos e serviços conseguem, em média, taxas de retorno de investimentos 12 vezes mais altas que seus concorrentes de qualidade inferior e mais baratos.” – diz.

Mas mesmo se negando a vender produtos “baratos”, lucros crescentes não deveria ser o propósito de um negócio em sua visão. “Na Patagonia, gerar lucros não é o objetivo, porque o mestre Zen diria que os lucros chegam quando todo o resto vai bem… Mas nenhuma empresa nos respeitará… se não formos lucrativos. Tudo bem ser excêntrico, desde que seja rico, caso contrário, você simplesmente está louco” – afirma.

O resumo do enorme sucesso deste “anti-empresário” é feito pelo próprio: “Estudo a filosofia Zen há muitos anos. No tiro com arco Zen, por exemplo, deve-se esquecer do objetivo – atingir o alvo – e se focar em todos os movimentos isolados que envolvem disparar uma flecha… Se todos os movimentos forem realizados com perfeição, não se pode evitar que a flecha atinja o centro do alvo. A mesma filosofia funciona para escalar montanhas. Se você foca no processo de escalar, terminará chegando ao cume”.

Marcelo Nakagawa é Professor de Empreendedorismo do Insper e Diretor de Empreendedorismo da FIAP

Entre a fé e a cegueira nos negócios

23 de junho de 2016

Tem uma expressão de negócios no inglês que é “blind faith” (fé cega) que sempre achei duvidosa, pois as palavras traduzidas, de imediato, me trazem uma imagem de desnorteio e certa teimosia.

Eu, como empreendedor racional guiado pela emoção, não me deixo encantar por qualquer argumento sem contestar, por isso a tal da “fé cega” me parecia uma ideia limitada, sem muito sentido prático.

Mas, nesta semana, assisti a uma vídeo-palestra do Bernardo Ouro Preto (um dos fundadores do St Marché), depois da qual mudei meu entendimento sobre a tal da “fé cega” a partir da explicação dos significados ocultos desta frase, na cultura empreendedora americana.

Achei a explicação tão bacana que gostaria de compartilhar com você.

O Bernardo explica que, nos Estados Unidos, o termo “blind faith” simboliza a jornada de muitos empreendedores de sucesso que, depois de tomar uma decisão, de idealizar um projeto, não deixam mais espaço a dúvidas e vão até o final, mesmo passando anos de dificuldades, até comprovar sua ideia.

Veja bem, não é que a tomada de decisão é feita de forma aleatória ou irresponsável. Na verdade, para poder aplicar a “fé cega”, o preparo do empreendedor é pré-requisito fundamental, com muito pensamento racional, planilhas, projeções, estatísticas, consultas a especialistas, pesquisa de mercado, pragmatismo e tudo o mais.

Mas, existe um momento – um momento muito especial – no qual, após tomar a decisão ir em frente com o projeto, o empreendedor baixa a cabeça e começa a trabalhar, sem se deixar abalar por opiniões contrárias, por resultados negativos ou pelas dificuldades encontradas na jornada.

Ou seja, após tomar a melhor decisão, fria, calculada e estudada, ele começa a trabalhar aplicando a “fé cega” para construir a visão de negócio que ele arquitetou. É como pular de paraquedas, depois que você pulou, não tem volta atrás, e resta confiar em tudo o que você preparou.

E reforça mais ainda minha crença nas semelhanças entre os empreendedores e os aventureiros, assunto com o qual me identifico em especial e recorrente nos meus textos. Casos de sucesso nos quais a “fé cega” foi aplicada não faltam, e na verdade são mais comuns do que se pensa. Depois que o negócio deu certo, é fácil esquecer de todos aqueles que apontaram o dedo dizendo que “não ia dar certo”.

Ivan Primo Bornes – o fundador e masseiro do Pastifício Primo escreve toda semana no Blog do Empreendedor

 

Bê-a-bá para franqueados

28 de abril de 2016

A palavra ‘Franquia’ volta e meia aparece nas conversas de empreendedores. E praticamente tudo o que você consegue imaginar é franqueável hoje em dia. Desde lavanderias, passando por lojas de doces, marido de aluguel, yoga, petshops, hotéis, cervejarias, aluguel de carros, massa artesanal (pastifícios) e muito mais.

Diferente de uma grande empresa comandada por executivos, uma franquia é geralmente operada pelo próprio empreendedor, que não apenas financia o negócio, como também faz tudo aquilo que qualquer dono de pequena loja precisa fazer no dia a dia: contas a pagar e receber, contratações e demissões, ir ao banco, atender ao público, pegar pedidos, responder emails, cuidar das mídias sociais, arrumar as prateleiras, treinar a equipe e uma infinidade de pequenas atividades.

O que diferencia uma franquia de um negócio qualquer é a necessidade de seguir um conjunto de regras, tanto operacionais quanto de marca, e pagar uma taxa de royalties para o franqueador.

As vantagens para o empreendedor fazer parte de uma franquia são muitas:

- ficar mais focado na rentabilidade diária do negócio

- ganho no poder de venda de uma marca reconhecida

- acesso a descontos com fornecedores em escala

- suporte de marketing, investimentos de criação de conteúdo

- sistemas de controles, software

- e, principalmente, a sabedoria acumulada pelo franqueador e franqueados, que funciona como um “conselho”

Já ouvi a frase que “ser um franqueado é estar no negócio por conta própria, mas não sozinho”. Ou seja, mesmo com todo o suporte do franqueador, esteja preparado para desafio.

Apesar de existirem talvez milhares de franquias diferentes, não quer dizer que todas são boas para qualquer um. Ser dono de uma franquia, assim como ser dono de qualquer outro tipo de negócio, não é para os fracos do coração.

E o melhor franqueado, na minha opinião, não é necessariamente quem tem mais experiência ou dinheiro, e sim quem tem disciplina e vontade de entrar num sistema de trabalho do qual se identifica com os valores, com a ética e a cultura dessa empresa, e está disposto a trabalhar pelas regras, pela “constituição”. Para o sucesso do seu negócio, não vejo tão importante escolher uma franquia inovadora e sensacional, e sim que você se sinta confortável no negócio, caso contrário vai ser difícil de dar certo.

Por isso é importante que o candidato à franquia, antes de assinar qualquer contrato, faça uma boa autoanálise para saber quais são seus pontos fortes e quais os pontos fracos. Quem sabe você odeia lidar com vendas, mas adora animais, por exemplo, isso já pode ser um indicativo de direcionamento, não é?

Em primeiro lugar é importante entender que o negócio precisa ser rentável, deve dar lucro para pagar suas contas; é bastante óbvio, na verdade. E também considero imprescindível que, para que um negócio tenha sucesso, seja relevante para a comunidade, ajude pessoas, gere empregos, crie coisas boas aos seu redor. O empreendedor, o franqueado, deve ter um forte senso de competitividade, mas também deve querer escrever uma história bonita na sua vida. É o comprometimento com os sonhos e objetivos de vida o que faz toda a diferença.

Os primeiros seis meses são muito desafiadores em qualquer negócio. No Pastifício Primo, eu os chamo dos “meses de heroísmo”. Pois tudo é novo. Nosso treinamento é de mãos na massa, mas mesmo assim, é muita informação nova, vida nova, clientes novos, loja nova, equipe nova. É muita coisa para absorver. Por isso acompanhamos muito de perto estes meses, dando suporte, apoio, aconselhamento e, principalmente, tranquilidade. Ao final de 6 meses, quando nosso franqueado olha para trás e diz “uau, como avançamos! ” é um momento mágico e gratificante. E ficamos todos energizados para a próxima etapa de consolidação!

Ser um franqueado é, portanto, um negócio para pessoas com uma atitude profissional, empreendedora, competitiva.

As minhas dicas finais:

- Capacidade de ouvir conselhos: ser um franqueado é basicamente saber ouvir quem tem mais experiência que você.

- Atitude positiva: sempre vai haver dias ruins, mas isso não significa que o mundo está acabando!

- Capacidade de lidar com pessoas: não é necessário ser genial, mas é preciso saber administração básica e falar com as pessoas, sejam clientes, funcionários ou fornecedores.

- Respeito pelas regras: reconhecer o valor do sistema já criado e trabalhar na mesma direção

E finalmente, talvez primeiramente: se você é do tipo que acha que sabe mais do que os outros – do seu franqueador, neste caso -, melhor inventar seu próprio negócio e esquecer a franquia. Porque vai estar desprezando justamente aquilo pelo que você estará pagando: a expertise alheia, muitas vezes oriunda de já ter cometido muitos erros, sim. Erros que, como franqueado, podem ser economizados.

Ivan Primo Bornes – masseiro fundador do Pastificio Primo tem como missão espalhar a revolução das massas pelo Brasil.

 

Nem a crise para o crescimento do Outback no Brasil (e o que aprender com isso)

25 de março de 2016

Marcelo Nakagawa é professor de empreendedorismo e inovação do Insper

Ter sucesso nos momentos de crise é sorte ou competência. No caso da rede de restaurantes Outback deve ser uma competência incrível em ter sorte. Em 2013, a empresa tinha 50 lojas no Brasil. Este número pulou para 64 em 2014 e no ano passado, mesmo com a queda do PIB, mais onze lojas foram abertas, totalizando 75 em 2015. Em 2016, mais duas lojas foram abertas bem no auge da Lava Jato. E quando muitos estão fugindo de Brasília, o Outback inaugura sua quarta unidade na cidade ainda neste primeiro semestre.

A origem do negócio, apesar de curiosa, tem pouca relação com o sucesso no Brasil. Em 1987, três amigos, Tim Gannon, Bob Basham e Chris Sullivan, que trabalhavam em restaurantes especializados em carnes (steakhouses) na Flórida, Estados Unidos, estavam cansados da vida de empregados. “Nós éramos três caras que sempre tinham trabalhado para os outros e que sempre diziam: ‘Deus, se tivéssemos nosso próprio negócio, faríamos diferente.’ – explicou certa vez Tim Gannon.

Até que no ano seguinte, em 1988, criaram coragem, abandonaram seus empregos e fundaram sua própria steakhouse na cidade de Tampa, também na Flórida. O “diferente” que sempre diziam veio por meio de um conceito de um restaurante com inspiração australiana. Na época, o filme Crocodilo Dundee estava fazendo sucesso e os sócios acharam que poderiam se beneficiar deste acontecimento mesmo que nenhum deles conhecesse a Austrália de fato. Apesar do falta de clientes nos primeiros dias, os anúncios surtiram efeito e quinze meses depois já tinham aberto mais cinco lojas.

O Outback continuou crescendo rapidamente nos Estados Unidos até 1996 quando um norte-americano que morava no Brasil entrou em contato questionando se havia interesse em expandir a marca para o País. Outras redes como a T.G.I. Friday´s já estavam no Brasil e o tal americano-brasileiro, Peter Rodenbeck, parecia o sócio ideal. Conhecia o mercado de alimentação como poucos no Brasil, pois já tinha trazido o McDonald´s em 1979 e tinha dinheiro, pois também tinha vendido (muito bem) o próprio McDonald´s para a matriz em 1994. E assim, o Outback chegou ao Brasil um ano depois, em 1997 e desde então, não parou mais de crescer, a ponto da própria matriz também comprar a rede em 2013. Se não bastasse o sucesso que obteve com o McDonald´s e o Outback, Peter Rodenbeck (junto com sua esposa) também trouxe a rede de cafeterias Starbucks em 2006 e a vendeu para a sua matriz em 2010.

Pouco conhecida, a lições de Peter Rodenbeck, podem servir como orientação para outros empreendedores e pessoas que pensam empreender.

-> Parcerias com marcas consagradas: Empreender não é só abrir seu próprio negócio. Também é possível empreender com o negócio dos outros. Ele próprio fez isto com McDonald´s, Outback e Starbucks e isto se tornou um dos pilares do crescimento da rede de stakehouses no Brasil. No Outback, apesar do restaurante ser da matriz, “cada unidades é liderada por um sócio-operador, um profissional com espirito empreendedor que fica responsável em tempo integral pelas operações do restaurante no seu dia a dia” – diz o site da empresa.

-> Empreendedor com nome na porta: Se for a qualquer unidade do Outback, verá o nome do “dono” em letras gigantes na porta de entrada. A empresa não divulga, mas especialistas do mercado estimam que esta pessoa, em geral, investiu algo em torno de R$ 100 mil (uma loja custa em torno de R$ 4,5 milhões), recebe cerca de R$ 15 mil por mês e aproximadamente 8% dos lucros da loja. No final, o empreendedor tem uma bela remuneração. Mas precisa trabalhar muito para ter o contrato renovado. Seu nome na porta é apenas o registo do seu total comprometimento com o negócio.

-> Valorização dos melhores funcionários: Aquela história, muitas vezes hipócrita, de que é preciso valorizar os colaboradores parece ser, estaticamente, verdade na rede. Mais de 60% dos sócios-operadores começaram como garçons, garçonetes ou gerentes no próprio Outback.

-> Alta qualidade padronizada: Com sua experiência de McDonald´s, Rodenbeck conseguiu padronizar os processos sem deixar de atender os exigentes padrões de qualidade do Outback internacional. Muito do que foi desenvolvido no Brasil se tornou padrão lá fora. É por isso que há tantos fãs de produtos aparentemente simples como o pão da entrada ou a cebola de aperitivo.

No final, muitos entenderiam que as lições deste grande empreendedor (norte-americano) brasileiro são óbvias. “Persistência, tenacidade e reservas financeiras que te garantam o tempo para mostrar estas qualidades, é a melhor certeza de sucesso.” – explica. Daí, poucos reconhecem que a sorte que ele teve nos negócios, na verdade, é o resultado de muito, muito trabalho. Por isso, é uma pena que tantos ainda reclamem da sua própria sorte.

Hey, ho, let´s go! Sobre rock e empreendimentos – vamos começar uma banda?

24 de março de 2016

Tem uma galera em São Paulo preparando um curso muito interessante – e até onde eu sei inédito – ligando rock e empreendimento de uma forma didática e inusitada. Eu adoro estas abordagens fora da caixa, pois são as únicas que conseguem me manter sentado numa cadeira prestando atenção.

O curso, de curta duração, vai ser realizado na FIAP , começa 6 de maio e vai conectar pontos e notas musicais, mostrando que existe muita coisa em comum entre formar uma banda e abrir uma empresa, vai ser apresentado pelos jornalistas – e fãs de rock – Daniel Fernandes, editor do Estadão PME, e Marco Bezzi, que já participou de especiais da MTV e Multishow. Ambos também são coautores do livro ‘Como o Rock Pode Ajudar Você a Empreender’, com lançamento previsto para abril de 2016 pela editora Benvirá.

Não é segredo que somos rockeiros no Pastificio Primo. De origem italiana, nossa trilha sonora nas lojas passa longe da tarantella … Estamos mais sintonizados no  Zucchero e Vasco Rossi.

Nossa ligação com o rock nos levou a criar, faz um par de anos, o projeto urbano colaborativo Rock é Massa, em parceria com a Casa do Mancha – reduto da música independente em São Paulo. Em resumo, uma vez por mês nos juntamos para oferecer uma plataforma para que bandas novas possam apresentar seu som na rua (usando como palco a caçamba de uma Kombi!!!) para um público formado de curiosos, fãs, e passantes em geral, que são surpreendidos pela intervenção sonora e artistica fora de contexto.

A próxima edição, aliás, será na sexta feira, dia 01 de abril, ao meio dia, na esquina das ruas Fradique Coutinho com a Artur de Azevedo na Vila Madalena.

Ainda sobre este assunto, o Rock é Massa terá a transmissão inédita ao vivo, via internet, feita por uma startup muito bacana – a ClapMe – que também se integra ao projeto de rua. A empresa tem a missão de ser reconhecida como a “Netflix dos shows ao vivo”, trazendo mais visibilidade aos artistas, uma comunicação direta entre os músicos e seus fãs. Assim, quem não puder participar pessoalmente, vai poder assistir de qualquer lugar do mundo ao show ao vivo – e sim, em cima de uma Kombi. Confere mais informações nos links.

Música é arte, mas também demanda profissionalismo, comprometimento, dedicação e trabalho duro. O músico sempre tem que combater o preconceito de que o criativo não poderia ser objetivo. Bem, a minha conclusão é que os músicos têm que ser ambos para dar certo. Seja em um palco no Morumbi, seja em cima da caçamba de uma Kombi.

Ivan Primo Bornes – o masseiro do Pastifício Primo é fã de Bowie, Zucchero, Beethoven e Ramones (vai entender!)

Comércio eletrônico exige MUITO conhecimento e dedicação

29 de fevereiro de 2016

Abrir uma loja virtual parece fácil, mas não é. Requer múltiplas competências e gestão de todos os detalhes.

Esta semana recebi contato de uma leitora querendo minha opinião sobre abrir uma loja online para vender artigos de decoração “descolados”.  Ela atua como arquiteta num escritório, mas para enfrentar a crise, quer “diversificar” as fontes de renda e pensa em abrir seu próprio negócio. Perguntei se ela tinha conhecimento prévio no mercado de varejo de decoração – a resposta foi não, nem varejo, nem decoração. Perguntei se tinha conhecimento de tecnologia web, marketing digital, se estava por dentro do segmento, quais os principais players,  a resposta foi: não. Perguntei se ela tinha alguma credibilidade além da tradicional nesse segmento, tipo: lançou um livro, tem um blog, dá cursos, ganhou algum prêmio, a resposta também foi negativa.

Meu conselho, no rápido telefonema: comece buscando criar reputação digital e/ou a vender para seus vizinhos, amigos e familiares, de forma física. Crie uma página no Facebook bem simples para mostrar seus produtos (veja esse exemplo). Experimente “ter uma loja” grátis no mercado livre ou no OLX para “brincar”. Se você gostar mesmo, encare um período de estudo, dedicação: comece a ler os sites do assunto, faça cursos, comece a participar de eventos (nesse ponto a primeira referência é E-Commerce Brasil que reúne o melhor time de empresas e profissionais comprometidos em fazer o comércio eletrônico dar certo no país).

Depois fiquei pensando se não fui pessimista ou “negativo” demais. Refleti e cheguei à conclusão de que não, afinal, e-commerce tem uma “imagem” de ser algo simples, mas ter um e-commerce que consiga fechar as contas no final do mês é complexo e exige múltiplas competências.

- Negócio – Se você tem um e-commerce de peças de automóveis, precisa entender desse mercado. Se for de mel, precisa saber de alimentação saudável. Se for de roupas, deve entender de moda. Se for de máquinas pesadas, deve entender de engenharia, mercado de construção. Enfim, é preciso conhecer e acompanhar as tendências do segmento que pretende atuar.

- Varejo – Comércio eletrônico é uma atividade de compra e venda. O dono da loja precisa saber escolher o que oferecer, o que comprar, encontrar e qualificar seus fornecedores, definir seu catálogo de produtos, como eles estarão descritos, como serão exibidos. Definir como vai gerenciar o estoque, a entrega, toda a retaguarda do negócio atrás do balcão: o lado da cozinha que ninguém ver.  Do lado de fora (no computador ou smartphone) há um cliente. Para encantar e satisfazer esse cliente cada vez mais exigente é preciso entender de vendas, de atendimento, relacionamento, fidelização, suporte, legislação, tendências, canais, parcerias.  Antes de tudo, quem quer ter e-commerce precisa saber de vendas e varejo.

- Tecnologia – O relacionamento com o cliente, a experiência de compra, o pagamento, o acompanhamento da entrega, o SAC, tudo no e-commerce, necessariamente, é software. Que roda em plataformas de hardware. Por mais que os fornecedores venham cada vez mais tentando fazer lojas amigáveis, que qualquer um possa editar, você vai precisar escolher, decidir, estar permanentemente atualizado. E estar disposto a saber que tudo está em contínua evolução – nesse caso, mais uma vez, não apenas aprender e pronto –  é preciso atualizar-se constantemente.

- Marketing digital – não basta saber de tecnologia. O marketing digital exige todos os conhecimentos do marketing tradicional: branding, quatro pês, campanhas, canais, embalagem, relações públicas, assessoria de imprensa  e incorpora todo um vocabulário e conhecimento do mundo digital: métricas, conversão, SEO, ambientes responsivos, conciliação, design…. Conhecer plataformas e redes – Facebook, Twitter, Instagram, Snapchat, LinkedIn, YouTube, Vimeo … – e saber quais priorizar, porque e como – e manter essas redes vivas, gerando engajamento constante.

- Logística – Não existe frete grátis. Essa é uma ilusão do consumidor, as questões de logística no comércio eletrônico são muito complexas e vão além da gestão de estoque. Existem os custos de armazenamento e transporte – que podem ser muito complexos pois podemos estar falando de perecíveis, de congelados, de joias, de obras de arte, de geladeiras. Existem os problemas de endereçamento – que se agravam quando o e-commerce começa a atingir as áreas rurais. Sem falar na logística reversa (pelo código do consumidor todo cliente pode devolver um produto comprado – e o custo de devolução desse produto é obrigação do lojista).

- Finanças – vender por meios digitais exige um acompanhamento constante dos preços. E gestão e fluxo de caixa (na maioria das vezes, o prazo entre a compra da mercadoria e o efetivo recebimento da receita é de 60 a 90 dias). Além de que o custo com publicidade e aquisição de clientes no e-commerce é muito alto. E os gigantes são experts nesse tema, acompanham em tempo real as ofertas, o custo dos links patrocinados, fraudes, taxa do cartão, custo de entrega, cashback, remarketing.

- Fiscal – mais recentemente a burocracia estatal vem exigindo do empreendedor uma especialização fiscal, pois a medida do Confaz (o chamado convênio ICMS 93/2015), que divide a tributação de compras pela internet entre os Estados de origem e destino da mercadoria, na prática inviabiliza a venda de produtos entre diferentes estados. A polêmica é grande e a luta contra esse absurdo vem sendo liderada pelo E-CommerceBrasil, ABComm e Sebrae (atualmente uma liminar vem suspendendo a cláusula 9 do Convênio).

- Gestão – conseguir equilibrar todos esses fatores, no tempo que o cliente digital espera exige do empreendedor do comércio eletrônico muita resiliência, dedicação, atenção e força de vontade (maior do que em outros segmentos menos complexos).

Sim, o e-commerce é um segmento que mais cresce no mercado (o aumento foi de 24% em 2015, numa época que outros setores amargaram retração)– e vai continuar crescendo – os principais números estão no infográfico abaixo.

Porém, comércio eletrônico é um terreno para quem está disposto a encontrar um modelo inovador. Não há espaço para mais do mesmo. Feito isso é encarar o desafio de buscar equilibrar essas múltiplas competências, formando um time. E preparar-se para ralar muito. Já tinha escrito sobre isso em 2014, e volto a repetir: e-commerce não é fácil. Não se iluda achando que é mais é mais barato ter uma loja virtual do que física (dê uma olhada nessas estimativas de custos atualizadas para criação e manutenção de uma loja online). Mesmo que seja um caminho sem volta (os consumidores querem cada vez mais comprar online), ter uma loja online lucrativa exige do empreendedor muito mais que boas intenções – é preciso identificar um modelo que seja realmente inovador e persegui-lo com muita dedicação.

Menta90 (Marcelo Pimenta) é jornalista, professor de inovação da pós-graduação da ESPM e fundador do Laboratorium. Escreve às segundas no Blog do Empreendedor. Para acessar outros conteúdos, acesse www.mentalidades.com.br

Pensando em empreender para mudar o mundo? Deveria conhecer o PIPE da FAPESP.

26 de fevereiro de 2016

Um milhão e duzentos mil reais (ou até um pouco mais) é o valor que você pode conseguir da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo para transformar sua ideia de inovação em um negócio bem sucedido. E este dinheiro não é empréstimo. É uma subvenção, ou seja, um recurso não reembolsável. Ou de forma mais simples: É dado! Não precisa devolver. Não precisa deixar nada em garantia. E não há nenhuma pegadinha… Tem interesse?

Se sim, deveria conhecer a história da Danielle Brants. Nascida em 1984, se formou em administração de empresas aos 22 anos e foi trabalhar no mercado financeiro. Ficou cerca de seis anos na área trabalhando em banco, empresa de investimentos e consultoria financeira. Mas aquilo ali não a realizava pessoalmente. Trabalhar com dinheiro para simplesmente gerar mais dinheiro era algo que passou a questionar com o tempo. Carreira não era simplesmente ralar pelo salário no final do mês e promoção de vez em quando, ainda por algo tão abstrato quando o setor financeiro. Já aos 27 anos, queria ir para a economia real e se tornou diretora de novos negócios de uma empresa bem real, a General Electric. Buscava novos negócios em energias renováveis e transportes em toda a América Latina. Agora conseguia ver resultados bem tangíveis do seu trabalho, afinal só uma única torre de energia eólica tem quase 100 metros de altura e mais de 800 toneladas. Era tão grande que qualquer pessoa sumia em um parque eólico. Mas a enormidade de tudo também a incomoda. Só no Brasil, sua empresa tinha mais de 10 mil funcionários e passava boa parte do seu trabalho fazendo relatórios, planilhas e apresentação. É preciso ser muito alienado para se sentir realizado só fazendo isso. A vida é bem mais do que só word, powerpoint e excel. Havia um mundo lá fora e isto a incomodava cada vez mais. Aos 30 anos, mesmo tendo um cargo tão alto, pediu demissão para tentar encontrar seu verdadeiro lugar no mundo. Seus amigos se preocupavam e perguntavam para onde ela ia, e a Danielle simplesmente dizia que não ia para lugar algum. Mas ela colocou uma meta para si mesma: Iria conversar com uma pessoa nova todos os dias que estivesse fazendo algo novo.

Entre um bate-papo e outro, conheceu jovens empreendedores que estavam lidando com um dos mais nobres desafios: a educação de crianças e adolescentes. E passou a se questionar por que as crianças do Século XXI estão fazendo em escolas do Século XIX?

Para entender quais são os novos caminhos da educação, procurou a melhor escola do mundo e se inscreveu na Escola de Educação de Harvard. Na volta, fundou a Guten News: inicialmente um jornal eletrônico para crianças. Ela queria incentivar a leitura e ao mesmo tempo incluir a criança no mundo atual. Em vez de ficar evitando fatos “que não eram para crianças”, ela se propunha a mostrar o fato, mas com uma linguagem mais adequada. Escolas que realmente formavam pessoas para o mundo em que vivemos e pais que não queriam criar seus filhos em bolhas fictícias de proteção adoraram a solução e o negócio evoluiu.

Apesar da boa aceitação do seu produto, ela queria mais porque sabia que as crianças aprendiam de formas e ritmos diferentes. Lendo um artigo científico, descobriu um grupo de pesquisadores de Linguística Computacional da USP de São Carlos e se mandou para lá para entender como poderiam trabalhar juntos em um projeto de aprendizagem adaptativa de leitura para crianças. Da reunião nasceu uma amizade com os pesquisadores, da amizade veio a parceria e da parceria surgiu o projeto “Personalização da leitura por meio de ferramentas de classificação automática de complexidade e adaptação textual: leitura em níveis crescentes de dificuldade para alunos do ensino fundamental” que tem recebido apoio financeiro da FAPESP por meio do Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE).

No PIPE é possível solicitar o recurso mesmo que ainda não tenha uma empresa formada. Se já tiver uma, empresas sediadas no Estado de São Paulo com até 250 funcionários podem se candidatar. A ideia do negócio precisa ter estar associado a um problema científico ou tecnológico, mas não é preciso ter mestrado ou doutorado para pedir o apoio. Basta mostrar competência técnica por meio da constatação da realização de projetos similares anteriores. Na primeira fase, que dura até nove meses, é possível solicitar até R$ 200 mil para realizar o que a FAPESP chama de viabilidade técnico-científica, reforçando que sempre haverá riscos no projeto. Neste caso, é preciso desenvolver, pelo menos, um protótipo funcional demonstrando sua eficácia. Após isto ou caso já tenha algo demonstrado, é possível solicitar o recurso para a segunda fase cujo aporte pode chegar a até R$ 1 milhão e durar até 24 meses.

Visite a página do PIPE na FAPESP caso tenha interesse. Procure conhecer os projetos aprovados na sua área de conhecimento. E participe do próximo encontro com a FAPESP que ocorrerá no dia 28 de março para tirar suas dúvidas.

Quanto a Danielle… Bom, ela recebeu o prêmio Inovadores abaixo dos 35 anos do MIT, está na lista dos 10 empreendedores para serem observados em 2016, foi selecionada pela Artemísia Negócios Sociais e vem sendo apoiada Omidyar Network, criada pelo Pierre Omidyar, fundador do eBay.

Banco para ela, agora só de conhecimento. Usinas, só de talentos. 10 mil, só se for de crianças lendo mais e melhor.  E para realmente mudar o mundo, vale o conselho que ela própria recebeu e seguiu: Rume para o futuro que deseja construir e queime a ponte com o seu passado. Não olhe pra trás!

Marcelo Nakagawa é Professor de Empreendedorismo do Insper, Diretor de Empreendedorismo da FIAP e Coordenador Adjunto de Pesquisa para Inovação da FAPESP.

Consumidor não é fiel ao WhatsApp; nem os concorrentes são solidários

17 de dezembro de 2015

O WhatsApp está fora do ar no Brasil por decisão da justiça. Os detalhes que levaram ao bloqueio do serviço por 48 horas não foram divulgados, mas sabe-se que o Facebook, controlador da empresa de mensagens instantâneas, optou por manter sigilosos dados pessoais aos quais a justiça gostaria de ter acesso.

Mark Zuckerberg, criador do Facebook e dono do WhatsApp, usou a rede social para criticar o sistema judiciário brasileiro. Diz que se trata de um dia triste para o Brasil e que a empresa trabalha duro para reverter a situação. Jan Koum, o idealizador da ferramenta, foi um pouco mais duro – disse que o Brasil se isolou do mundo com a decisão.

Não tenho conhecimento suficiente do assunto para entrar no mérito da validade ou não da proibição – a Justiça tem direito? O criador do app tem o dever de manter a confidencialidade de uma conversa? É uma discussão boa e não deve se encerrar com o fim do bloqueio.

Do ponto de vista empreendedor, entretanto, vale a pena comentar um ponto específico.

Ouvi outro dia de um professor que não havia mais fidelidade por parte do consumidor. Queiram as marcas ou não, compramos o que melhor nos atende naquele momento. Seja um iogurte ou um carro. Ou um aplicativo de mensagens. Desde o anúncio do bloqueio, ainda no fim da tarde da quarta-feira, dia 16, as pessoas – consumidores – começaram a procurar alternativas para manter sua comunicação virtual.

Sim, é um caso extremo. O serviço foi interrompido e, portanto, simplesmente perdeu a capacidade de concorrer com outras ferramentas. Mesmo assim, o comportamento desta quinta-feira, dia 17, do consumidor vale a pena ser observado mais a fundo. Ao mesmo tempo que as pessoas manifestavam desaprovação pela decisão da justiça – proibir o acesso de todos por causa de uma questão específica -, também trocavam ideias em velocidade espantosa sobre alternativas ao aplicativo de Jan Koum.

Falar do WhatsApp, então, não significa não falar mais virtualmente. Não houve – pelo menos até onde eu percebi no urgente da apuração para publicar este post – nenhuma mobilização de solidariedade. Houve sim, o uso da internet para a troca de informação sobre alternativas. O que é melhor neste momento em que o principal produto do mercado não opera mais?

É com isso, também, que Zuckerberg e Koum devem se preocupar a partir do caso brasileiro. E se surgir algo melhor que o WhatsApp, será que as pessoas vão continuar fiéis?

Mercado. Costumam dizer que o ambiente de livre concorrência é cruel. Hoje, de fato, é um dos raros dias no qual é possível visualizar isso na prática. Dois concorrentes do WhatsApp se colocaram, por meio de posts patrocinados no Facebook e no Instagram (doce ironia!), como alternativas ao serviço bloqueado para o consumidor. Solidariedade? A gente não vê no mercado do século XXI.

Daniel Fernandes é editor do Estadão PME e a última mensagem que ele recebeu no WhatsApp antes do bloqueio foi a resolução de um exercício de planejamento tributário do MBA (doce ironia!)

 

Para quem optou pela excelência no Brasil: Obrigado Cosac Naify

4 de dezembro de 2015

Para os que não apenas gostam de ler, mas que também gostam de livros, o anúncio do fim das operações da editora brasileira Cosac Naify nesta semana trouxe uma mistura de tristeza, vazio e agradecimento.

Para os que conhecem Barroco de Lírios, o primeiro livro da editora, lançado em 1997, sabem que não é possível reproduzir os dez tipos de papéis utilizados artisticamente na publicação em um tablet, mesmo com todos os seus recursos.  Em Na noite escura, o designer italiano Bruno Munari convida as crianças para uma aventura em uma noite escura. Uma misteriosa luz brilhante atravessa as páginas. Na parte inicial, toda impressa em papel preto, mostra a escuridão da noite e suas surpresas escondidas. Em seguida, usa-se papel translúcido, mostrando a neblina da manhã e o livro termina em uma intrigante gruta, toda em papel pardo. Mesmo tendo sido elaborado em 1956, o livro ainda bate em muito aplicativo pois aguça o que o que a criança tem de mais belo: sua imaginação.

Daí, a tristeza fica por conta de que todos que conhecem a editora sabem da sua opção e obsessão pela excelência e por isso, todos passam a ter o seu livro preferido. E a sensação de que isto (e outras boas surpresas) pode não existir no futuro cria um vazio.

Mas entendo a opção do empreendedor Charles Cosac em descontinuar as operações. Por mais que tenha o compromisso com a excelência em toda a experiência do leitor com suas publicações, é, muitas vezes, desanimador observar o tipo de obra que vira best-seller no Brasil. Não raro, optar pela excelência não dá lucros aqui. E sem lucros, não há negócios.

Por isso, neste momento, só resta agradecer à Cosac Naify pela publicação de tantos livros de qualidade. Pelo momento que vivo, tenho uma especial atenção com os livros infantis. E o número de opções da editora deixa qualquer pai admirado. A Árvore Generosa muda a relação das crianças com a natureza. O Não é uma Caixa fala das possíveis brincadeiras com uma caixa de papelão e principalmente, sobre a importância de pensarmos, literalmente, fora da caixa.

Em O Pato, A Morte e a Tulipa, refletimos sobre a beleza da vida e também da morte. De tempos em tempos precisamos lidar com isto, não? E quem não tem um filho que desobedece, pelo menos, de vez em quando? Onde Vivem os Monstros discute a liberdade que as crianças querem ter e a autoridade dos pais, os “chefes” da casa, levando a todos a refletir sobre o impacto das suas decisões. É um livro para crianças de todas as idades que reclamam dos seus “chefes”.

Mas o livro preferido da Helen, minha filha mais velha, de seis anos, fala de uma menina que nasceu muito pobre e anos depois se tornou uma rainha. Cinderela? Bela? Rapunzel? Não… O livro fala de Gabrielle, filha de mãe lavadeira e pai vendedor de rua. Aos doze anos, perdeu sua mãe e o pai, sem condições de criá-la, colocou-a em um orfanato. Aos 18 anos, mudou-se para um pensionato de moças onde aprendeu a costurar e conheceu a alta sociedade francesa. Por discordar sobre como as mulheres eram tratadas e, principalmente, como se vestiam na época, Gabrielle “Coco” Chanel passou a criar roupas que ofereciam mais liberdade e incentivava o protagonismo feminino.

O livro Diferente como Chanel é leve como deveria ser um livro infantil e muito bem ilustrado pela própria autora, Elizabeth Matthews, mas também trata de alguém que ousou ser diferente, empreendedora, inovadora e protagonista da sua vida. Tudo isso em um livro de capa dura, papel couché fosco de 170 gramas que faz o livro pesar quase meio quilo e durar por toda a vida. É diferente como Chanel mas com a mesma alta qualidade como a Cosac Naify.
Marcelo Nakagawa é professor de Empreendedorismo e Inovação do Insper e Diretor de Empreendedorismo da FIAP