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Blog do Empreendedor
O cotidiano de empreendedores como você
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O fim (simbólico) do trabalho e uma nova era para quem não precisa trabalhar

4 de janeiro de 2019

Os levantamentos assustam, mas, dependendo da pesquisa, entre 50% a 75% dos trabalhadores atuaria em outra atividade ou empresa “se pudessem escolher”. Trabalhadores nesta situação terão chances, cada vez maiores, de “escolher” nos próximos anos.

Etimológica e historicamente, trabalho não é algo prazeroso. Da sua origem latina tripallium, um instrumento de tortura, ao seu caráter obrigatório para garantia de subsistência ou acesso a outros bens, o trabalho é um meio e quase nunca um fim em si para a realização pessoal.

No Brasil, simbolicamente, “a criação do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio, em 26 de novembro de 1930, foi uma das primeiras iniciativas do governo revolucionário implantado no Brasil no dia 3 daquele mesmo mês sob a chefia de Getúlio Vargas. O ‘Ministério da Revolução’ – como foi chamado por Lindolfo Collor, o primeiro titular da pasta – surgiu para concretizar o projeto do novo regime de interferir sistematicamente no conflito entre capital e trabalho. Até então, no Brasil, as questões relativas ao mundo do trabalho eram tratadas pelo Ministério da Agricultura, sendo na realidade praticamente ignoradas pelo governo.” Assim começa a explicação do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) sobre o surgimento do Ministério do Trabalho no país.

O trecho é particularmente interessante pois resume a dinâmica do contexto do trabalho naquele momento. Revoluções não ocorrem da noite para o dia, por mais que uma data ou ano passem a representá-las posteriormente. Em 1930, o avanço da indústria e comércio na economia brasileira era nítido e muitos deixavam a agricultura para trabalhar em fábricas, comércios e prestadores de serviços urbanos. O conflito entre capital e trabalho também era bastante caracterizado na medida em que havia (e ainda há, não só no Brasil) elevada exploração do trabalho por aqueles que detinham o capital.

Quase 90 anos depois, agora, em 2019, o Ministério do Trabalho foi extinto e suas funções transferidas para outros ministérios como o da Economia e Justiça. Mas este fim é apenas simbólico em relação às profundas modificações naquilo que vínhamos chamando de trabalho.

Historicamente, até 1784, trabalho era algo associado aos artesãos. Pessoas que produziam, artesanalmente, algo de valor para os demais. O ferreiro, o fabricante de sapatos ou de tecidos entravam nesta categoria. Mas este ano marca o surgimento da máquina à vapor na Inglaterra que permitia que processos artesanais pudessem ser conduzidos por equipamentos, reduzindo assim a demanda e os ganhos do sapateiro, ferreiros e outros “eiros”.

Tentando frear o que depois passou a ser chamado de a 1ª Revolução Industrial, alguns destes artesãos se tornaram ludistas, pessoas que invadiam as fábricas à noite para destruir as máquinas, na esperança de manterem seus trabalhos como eram há séculos. A partir deste momento, o trabalhador também passa a ser um operário, alguém empregado para operar uma máquina em uma fábrica.

Mas havia diversas outras funções como o linkboy. Pessoas que utilizavam tochas para iluminar o caminho de pessoas que precisam se locomover durante a noite em algumas das principais cidades europeias. Mas esta profissão começa a perder o valor a partir de 1870, quando a eletricidade passa a ser adotada em fábricas e depois em cidades. Muitos apontam esta data e fato como principal divisor que marca o início da 2ª Revolução Industrial. Mas a adoção da divisão do trabalho nas fábricas teve um impacto ainda maior na sociedade já que não era mais necessário operários especializados, apenas funcionários que pudessem executar uma única tarefa simples. Por serem facilmente substituíveis, estes funcionários eram baratos para o dono da fábrica, intensificando assim a tensão entre trabalho e os donos do capital. De certa forma, este foi o contexto para que o Ministério do Trabalho fosse criado no Brasil muitas décadas depois.

O trabalho ganha novas perspectivas a partir de 1969 com a adoção de tecnologias da informação, eletrônica e automação. Agora, não apenas os funcionários das fábricas, mas os de prestadores de serviços também são afetados. Funções como calculista, datilógrafo e caixa de banco começam a perder espaços nas organizações pois novas tecnologias como planilhas eletrônicas, editores de texto e ATMs são adotadas por empresas de todos os portes, marcando a 3ª Revolução Industrial. Para continuar sendo útil para a empresa, o funcionário precisa adotar a postura de ser um colaborador, contribuindo para o desenvolvimento do negócio além da sua função inicial, pelo qual foi contratado.

Este é o modelo mental atualmente em vigência na maioria das organizações ao redor do mundo e aceito por seus trabalhadores.

Mas estamos no início da 4ª Revolução Industrial, que mais uma vez altera drasticamente o que entenderemos por trabalho e sua relação com os donos do capital. Uber, Airbnb, Didi Chuxing (99 no Brasil), Rappi, Loggi, iFood e tantas outras novas empresas estão gerando milhares de novos postos de trabalho, porém, de um novo tipo de função: os trabalhadores de aplicativo. E se no passado o capital poderia representar uma grande barreira para a entrada de novos competidores, na 4ª Revolução Industrial fintechs podem enfrentar os maiores bancos do planeta, serviços de hospedagem peer-to-peer tem mais capacidade que as maiores redes hoteleiras do mundo e startups de economia compartilhada podem ser mais eficientes que seus concorrentes intensivos em capital.

“O trabalho ganha novas perspectivas a partir de 1969 com a adoção de tecnologias da informação, eletrônica e automação.”

A 4ª Revolução Industrial também avança sobre trabalhos notadamente mais sofisticados como advogados, médicos, engenheiros e professores, já que o uso de inteligência artificial, ciência dos dados (big data) e aprendizagem máquina (machine learning) estão conseguindo oferecer soluções cada vez mais eficientes em um número cada vez maior de trabalhos. Assim como ocorreu nas revoluções industriais anteriores, uma boa parte dos trabalhadores perderá seus empregos. E a regularização da terceirização da atividade-fim pelo Supremo Tribunal Federal (STF), em 2018, só tende a acelerar estes efeitos no Brasil.

Infelizmente, uma parcela importante dos trabalhadores impactados pela 4ª Revolução Industrial não entenderá o que está acontecendo e repetirá o ciclo que os levou àquela situação de xeque-mate profissional.  Mas outra parcela irá repensar seus talentos e habilidades, adquirir novos conhecimentos, praticar novas atitudes e, principalmente, definir o que querem fazer em suas carreiras profissionais. Essas pessoas vão procurar se reinventar como trabalhadores, tornando-se empreendedores de si mesmos. Para esta parcela, a frase do Rolim Amaro, empreendedor da TAM, sempre fará sentido: “Só trabalha, no sentido duro da palavra, quem não gosta do que faz. Por isso, eu, graças à Deus, nunca precisei trabalhar.”

Marcelo Nakagawa é Professor de Inovação e Empreendedorismo do Insper

 

As palavras mágicas para 2019

3 de janeiro de 2019

Eu acredito que tem coisas importantes que você quer fazer em 2019. Eu tenho, você tem, todos temos desejos e ambições a serem realizadas.

Em todo começo de ano há um simbolismo especial: uma nova possibilidade de começar – ou de recomeçar – de ajustar o percurso, de continuar em frente. Para ajudar a fazer o planejamento para 2019, preparei uma lista das palavras com significado especial para qualquer empreendedor. São palavras com o poder de resumir grandes ideias.  Para tanto, é bom conhecer bem sua definição.  Use e abuse destas palavras mágicas.

so·nho |ô|
(latim somnium, -ii)
substantivo masculino

1. Conjunto de ideias e de imagens que se apresentam ao espírito durante o sono.
2. [Figurado]  Utopia; imaginação sem fundamento; fantasia; devaneio; ilusão; felicidade; que dura pouco; esperanças vãs; .ideias quiméricas.
3. [Culinária]  Bolinho muito fofo, de farinha e ovos, frito e depois geralmente passado por calda de açúcar ou polvilhado com açúcar e canela.

o·ti·mis·mo
(.ótimo + -ismo)
substantivo masculino
1. Disposição, natural ou adquirida, para ver as coisas pelo bom lado e esperar sempre uma solução favorável das situações
2. Confiança no porvir.
3. Doutrina de Leibniz (1646-1716) segundo a qual, a despeito da realidade do mal, o mundo em que vivemos foi escolhido por Deus como o mais perfeito possível, como aquele em que a felicidade tende a prevalecer sobre a adversidade.
4. Sistema dos que têm fé no progresso moral e material atuais, na evolução social para o bem e para o ótimo.

em·pre·en·de·dor |ô|
adjetivo e substantivo masculino
Que ou aquele que empreende; que é animoso para empreender; trabalhador; amigo de ganhar a vida (traçando empresas novas).

po·ten·ci·al
(potência + -al)
adjetivo de dois gêneros
1. Relativo a potência.
2. Virtual.
3. [Filosofia]  Que só está em potência.
4. [Gramática]  Diz-se de um modo gramatical que designa a possibilidade.substantivo masculino
5. Conjunto dos recursos de que uma .atividade dispõe; capacidade de trabalho, de produção ou de .ação. = POTENCIALIDADE
6. Conjunto de qualidades de um indivíduo, geralmente inatas ou originais. = POTENCIALIDADE

re·si·li·ên·ci·a
(inglês resilience, do latim resilio, -ire, saltar para trás, voltar para trás, reduzir-se, afastar-se, ressaltar, brotar)
substantivo feminino
1. [Física]  Propriedade de um corpo de recuperar a sua forma original após sofrer choque ou deformação.
2. [Figurado]  Capacidade de superar, de recuperar de adversidades.  co·ra·gem 1(francês courage)substantivo feminino1. Firmeza de ânimo ante o perigo, os reveses, os sofrimentos.
2. [Figurado]  Constância, perseverança (com que se prossegue no que é difícil de conseguir).

von·ta·de
(latim voluntas, -atis)
substantivo feminino
1. Faculdade comum ao homem e aos outros animais pela qual o espírito se inclina a uma .ação.
2. Desejo.
3. .Ato de se sentir impelido a.
4. Ânimo, espírito.
5. Capricho, fantasia, veleidade.
6. Necessidade física.
7. Apetite.
8. Arbítrio, mando, firmeza de .caráter.
9. Zelo, interesse, empenho.

re·so·lu·ção
substantivo feminino
1. .Ato ou efeito de resolver.
2. Decisão; tenção; deliberação; propósito.
3. Soltura de ventre.
4. Transformação.
5. Intrepidez; coragem.
6. [Álgebra]  Cálculo para achar a solução de um problema.
7. Conteúdo de um texto que define a solução para determinada questão em um congresso, em uma assembleia etc.

per·se·ve·ran·ça
(latim perseverantia, -ae)
substantivo feminino

1. Qualidade ou .ação de quem persevera.2. Constância, firmeza, pertinácia.3. Duração aturada de alguma coisa.

cer·te·za |ê|
(certo + -eza)
substantivo feminino
1. Qualidade do que é certo. ≠ INCERTEZA
2. Coisa certa.
3. Adesão absoluta e voluntária do espírito a um fato, a uma opinião.
4. Ausência de dúvida. = CONVICÇÃO
5. Estabilidade.6. Habilidade ou firmeza em trabalhos manuais.

pro·pó·si·to
(latim propositum, -i)
substantivo masculino
1. Tomada de decisão. = DELIBERAÇÃO, RESOLUÇÃO
2. Aquilo que se pretende alcançar ou realizar. = INTENTO, .PROJETO, TENÇÃO
3. Finalidade, fim, mira.
4. Tino, juízo, seriedade, prudência.

tra·ba·lhar
verbo transitivo
1. Dar determinada forma a (ex.: trabalhar a madeira). = LAVRAR
2. Fazer ou preparar algo para determinado fim (ex.: trabalhar a terra).
3. Rever ou refazer com cuidado (ex.: trabalhar o texto). = APERFEIÇOAR, LIMAR
4. Treinar ou exercitar para melhorar ou desenvolver (ex.: trabalhar os músculos).
5. Causar preocupação ou aflição. = ATORMENTAR, INQUIETAR, PREOCUPAR, RALAR verbo transitivo e intransitivo
6. Fazer esforço para algo. = EMPENHAR-SE, DILIGENCIAR, LIDAR, PROCURAR
7. Exercer uma .atividade profissional verbo intransitivo
8. Fazer algum trabalho ou tarefa (ex.: vou para casa trabalhar).
9. Formar .ideias ou fazer reflexões. = COGITAR, MATUTAR, PENSAR10. Estar em funcionamento. = FUNCIONAR, MOVER-SE

Grite bem alto, use cada palavra como uma armadura contra os medos e a paralisia. Vamos em frente!

Pesquisa feita no Dicionário Priberam da Língua Portuguesa  https://dicionario.priberam.org/

Ivan Primo Bornes (ivan@pastificioprimo.com.br) – empreendedor e fundador da rede de rotisserias Pastificio Primo (www.pastificioprimo.com.br)

 

Empoderando as mulheres empreendedoras

9 de maio de 2018

O termo empoderamento feminino tem ganhado enorme destaque nos últimos tempos, com o objetivo claro de busca pela redução das diferenças de direitos entre homens e mulheres, seja no mercado de trabalho ou na sociedade de uma forma geral.

Embora percebamos importantes avanços em relação ao empoderamento feminino, diversos estudos apontam que há ainda uma enorme disparidade de gênero em aspectos financeiros, profissionais e sociais, especialmente no que se refere a salários e oportunidades de ascensão.

O paradigma do modelo familiar tem sofrido transformações relevantes, mas a participação masculina na vida familiar ainda não é proporcional. As mulheres assumem grande parte das tarefas domésticas e dos cuidados com os filhos, e essa dupla jornada dificulta a conciliação entre a vida familiar e a profissional.

Pouco se debate nas companhias como efetivamente implantar um sistema de gestão de pessoas realmente meritocrático, o que certamente corrigiria as distorções de gênero. Porém, a evidência aponta ainda para um alto nível de preconceito e resistência, retardando uma evolução acelerada.

Considerando que as oportunidades de ascensão na carreira ainda são limitadas para as mulheres, será que o empreendedorismo não poderia acelerar o processo de empoderamento feminino? Iniciar um negócio diminuiria a dependência da figura masculina e traria independência em relação ao seu futuro, porém empreender traz maiores riscos e dificuldades, apesar das enormes oportunidades.

Não há uma estatística oficial, mas alguns estudos apontam que cerca de 30% a 40% das empresas do Brasil são detidas por mulheres. Aproximadamente metade dos negócios que se iniciaram em 2016 foram abertos por mulheres. A grande diferença é que as empresas das mulheres crescem menos e poucas efetivamente se tornam médias ou grandes, o que denota certo conservadorismo, ou mesmo falta de oportunidades.

Apesar das diferenças dos gêneros, os fatores culturais ainda influenciam em como as mulheres agem em relação ao potencial do empreendedorismo. Há uma clara evolução no processo de desenvolvimento das mulheres nos últimos tempos, mas poucas são efetivamente preparadas para cuidar das finanças ou mesmo liderar pessoas e negócios. Essas competências, que são essenciais para se iniciar um negócio, precisam ser desenvolvidas, não só pelos seu efeitos práticos, mas também para contribuir com a confiança necessária para que ela se torne uma futura líder e seja reconhecida por sua competência e influência positiva.

Homens tendem a ser mais sistemáticos. As mulheres costumam ter melhor empatia e são geralmente melhores comunicadoras e formadoras de times, além de na média, terem maior nível ético e mais paciência, especialmente na administração das emoções e das relações interpessoais.

São grandes os desafios do empreendedorismo feminino. Primeiramente é preciso quebrar as barreiras culturais e superar o preconceito familiar, o conservadorismo, e às vezes as travas do moralismo excessivo.

Todas as mulheres têm capacidade para empreender. Desta forma, é importante fortalecer a autoestima e lutar pelos seus objetivos. Outro fator relevante é a necessidade de conciliar a vida pessoal com a profissional para não comprometer nem a família nem a companhia.

É importante para a mulher desenvolver uma atitude empreendedora, contudo é vital definir o quanto ela estaria disposta a abrir mão e a se sacrificar para crescer e empreender.

Muitas mulheres se sentem inseguras e despreparadas para iniciar ou gerir seus negócios, mas o mesmo acontece com a maioria dos homens. Insegurança e medo fazem parte da natureza humana, mas o mais importante é ter coragem e resiliência para superar barreiras.

Há diversas organizações sérias que estão se mobilizando para contribuir com o empoderamento feminino no empreendedorismo. A ONU Mulheres, o Sebrae, a Rede Mulher Empreendedora, a Escola de Você, a Endeavor e o Itaú Mulher Empreendedora são ótimas fontes para a mulher se informar e se apoiar para iniciar seu negócio.

O empreendedorismo feminino, além de diminuir as diferenças de gênero, tem potencial de altíssimo impacto social, mas algumas barreiras têm que ser vencidas. É necessário expandir as redes de contatos, criar empresas mais inovadoras e principalmente destinar mais recursos financeiros para suas companhias. Apesar de serem melhores pagadoras, as mulheres geralmente não têm a mesma capacidade de captação de financiamentos do que os homens.

Empreender é realizar, transformar idéias em realidade. É difícil, corre-se riscos e exige sacrifício, mas pode transformar sua vida. Numa sociedade e num ambiente empresarial ainda desbalanceados em termos de gênero, o empreendedorismo feminino é, sem dúvida, uma forma de acelerar o desenvolvimento das mulheres, especialmente na base da pirâmide da sociedade.

Tudo começa com uma ideia e a vontade de empreender. É importante buscar orientação e capacitação, para começar a transformação de vida. Empreender é fascinante, o que pode propiciar maior controle de seu futuro e acima de tudo, possibilitar de forma justa que a mulher alcance seu máximo potencial.

Ricardo Mollo é empreendedor, CEO da Brain Business School e PhD candidate na University of London.

Cristina Delboni é executiva, possui mestrado pelo IPT e é Gerente de Operações da Brain Business School.

E aí, tudo bem? Tudo bem… Esta e outras mentiras verdadeiras alardeadas pelos empreendedores

4 de maio de 2018

“E aí, tudo bem?”, pergunto. “Tudo bem”, responde o empreendedor em sua apresentação.

Terminado o pitch, ele me aborda e pede ajuda para abrir portas com investidores. “Mas você acabou de dizer que está tudo bem, que o produto foi validado, que tem um time incrível, que o mercado está bombando, que captou R$ 2 milhões, que está em um escritório muito bacana…. Por que precisa de investidores?”, questiono.

Daí o semblante do empreendedor muda. “Sabe, não é bem assim. Chegamos a muito custo no break-even no mês passado, não conseguimos fechar boa parte das vendas, tínhamos 10 pessoas em tecnologia formos obrigados a reduzir para apenas duas, nossos concorrentes estão crescendo sem parar, investimos todo o dinheiro em uma solução que ainda demanda ajustes e fazemos um escambo com o proprietário do escritório…”, desabafa.

Nos últimos anos, ser empreendedor se tornou algo mítico, sinônimo de inovador, de desbravador, revolucionário e, principalmente de vencedor. Empreendedores encantam plateias contando suas trajetórias épicas, são premiados, reconhecidos, copiados e servem como inspiração para um crescente número de pessoas que acredita no sonhar grande. Mais aí vem o cesto de lixo… “Como assim o lixo?”, pergunto a um amigo que iniciou um novo negócio.

Eu era diretor de um grande banco, mas fui demitido e decidi abrir minha empresa. Durante toda a minha vida como executivo, nunca me preocupei com meu cesto de lixo. Todos os dias, pela manhã, ele estava lá, totalmente limpo e vazio. Mas agora que estou sozinho, preciso fazer tudo. Por isso, empreender para mim é ter que limpar, literalmente, seu próprio cesto de lixo. Se não fizer isso, na manhã seguinte, seu lixo ainda permanecerá lá, mas estará ainda pior.

Lembrei desta passagem enquanto o empreendedor que me abordava dizia que agora ele tinha que limpar o próprio banheiro do escritório…

Muito se tem falado sobre o lado bom de empreender e isto é fundamental para avançarmos com a cultura empreendedora do país. Precisamos, cada vez mais, de empreendedores inovadores comprometidos em criar novas e melhores soluções. Mas há o lado ruim, difícil e, muitas vezes, pouco falado, como ter que cuidar do seu próprio lixo e limpar a m. que encontra pelo caminho.

O difícil não é estabelecer uma meta grandiosa, complicada e audaciosa, é demitir pessoas quando ela não é alcançada. O difícil não é contratar funcionários excelentes, é quando esses funcionários excelentes passam a achar que têm o direito de exigir coisas que não são razoáveis. O difícil não é montar o organograma da organização que você idealizou, é fazer as pessoas se comunicarem dentro dela. O difícil não é sonhar grande, é acordar suando frio no meio da noite quando o sonho vira pesadelo.

O alerta é de Ben Horowitz, um dos mais respeitados empreendedores e investidores do Vale do Silício, não pelo seu enorme sucesso (que teve), mas pela franqueza com que aborda passagens que todos os empreendedores vivenciam, mas que não admitem em público já que sempre está “tudo bem”.

Por isso, empreendedores ou interessados no assunto também deveriam conhecer e valorizar o “Lado Difícil das Situações Difíceis”, título do livro de Horowitz. Mas também é difícil encontrar tanta sinceridade como nos livros Nada Easy, de Tallis Gomes (co-fundador da Easy Taxi e Singu), ou A Marca da Vitória, de Phil Knight, co-fundador da Nike. Knight, por exemplo, conta como mentiu, desde o início, quando falou que tinha uma empresa já estruturada nos Estados Unidos para fazer a primeira importação de tênis do Japão, das diversas vezes que convenceu seus financiadores que estava tudo bem (quando tinha caixa para apenas mais um ou dois meses) e das centenas, talvez milhares, de más decisões para manter o “tudo bem” perante todos que o rodeavam, inclusive família.

Mas voltando ao empreendedor que me pedia ajuda, cito a definição de empreendedorismo que outro amigo, empreendedor de muito sucesso costuma dizer em suas apresentações: “Empreender é mentir sem se f…”

Depois de uma boa gargalhada, o semblante dele até então derrotado, agora, tem um grande sorriso vencedor e os olhos voltam a brilhar intensamente.

“Tudo bem! Vou ajudar!”, digo enquanto o apresento, por e-mail, a amigos que são investidores.

Marcelo Nakagawa é Professor de Empreendedorismo e Inovação do Insper

Por que jovens brilhantes estão largando bons empregos para empreender e o que as empresas deveriam fazer para (não) retê-los

13 de abril de 2018

Talvez alarme não seja o termo ideal, mas chama a atenção a preocupação de boa parte das principais empresas do Brasil com o pedido de demissão de jovens que largam ótimos empregos, bons salários e grandes planos de carreira para empreender. Em geral são os mais promissores, que se formaram nas melhores faculdades, são fluentes em dois ou mais idiomas, além de terem níveis elevados de inteligência emocional. Daí a preocupação e, consequentemente, o alarme dos líderes da organização. Não só em função do investimento feito pela empresa naquele profissional, mas, principalmente, nos vácuos de liderança e sucessão que começam a se formar nas organizações que se acostumaram a se posicionar entre as mais desejadas.

Muitos jovens mimados pedem para sair por imaturidade mesmo e as organizações deveriam agradecê-los pelo favor e repensar o processo de contratação.

Mas o questionamento se concentra nos grandes talentos que estão deixando as corporações. Uma das principais empresas de alimentos ilustra este contexto. A marca conhecida, respeitada e desejada atrai mais de 20 mil candidatos interessados em seu programa de trainee todos os anos. Assim, não foi fácil para uma jovem conseguir uma das 20 vagas oferecidas em 2016. Mas um ano depois, ela e outros 15 trainees haviam pedido demissão para se juntar a uma startup. O motivo da desistência do salário de quase R$ 10 mil: hipocrisia da empresa. Comprou o sonho (que ainda está no site da instituição) de que faria a diferença em uma carreira cheia de desafios em uma organização aberta à inovação alinhando seu propósito de vida aos objetivos da empresa, mas encontrou um local rígido de trabalho onde o chefe sempre contava as melhores piadas. Ganhando menos, trabalhando até mais, ela agora está feliz liderando uma área de novos negócios de uma startup.

A história dela e de vários outros jovens é resumida por Tallis Gomes, um dos principais empreendedores do Brasil e recém-eleito como um dos jovens mais inovadores do mundo pelo MIT:

Eu cansei de tirar pessoas que trabalhavam em empresas renomadas para virem trabalhar comigo ganhando a metade do que eles ganhavam. E sempre me perguntam como eu consigo contratar tanta gente boa pagando tão barato assim. E explico que eles não estão vendo valor que estão recebendo em dinheiro. Eles estão vendo valor em conhecimento profissional, em experiência. E aí eles saiam de uma grande empresa, na qual sua principal função era fazer Power Point e Excel, e se mudavam para uma empresa que tem como propósito de vida entregar um bem maior para a sociedade.”

Neste contexto, das organizações que não só querem contratar talentos empreendedores e inovadores, mas mantê-los assim, algumas reflexões podem ser úteis:

Não use filtro ou Photoshop. Se vender sua empresa como perfeita só atrairá os tolos que acreditam que isso existe. Nos últimos anos, algumas consultorias de recrutamento começaram vender bojo de sutiã na forma de empregos incríveis em empresas incríveis para pessoas incríveis. Mas de incrível mesmo só o valor que cobravam. As organizações precisam mostrar que não são perfeitas, que o trabalho nem sempre é inspirador e ainda assim é possível entregar benefícios para todos os envolvidos. Se a jovem que menciono no início do texto tivesse consultado o site da LoveMondays antes de se candidatar, teria entendido que aquela empresa não era Cinco Estrelas, mas medianamente 3,2. E não há problemas em atuar em uma organização 3,2 desde que não tenha sido vendia como 5.

Contrate ex-empreendedores. A chance de uma startup quebrar é de cerca de 92% nos Estados Unidos e algo semelhante ou pior no Brasil. Assim, se cresce o número de pessoas que querem empreender, o mesmo ocorre com ex-empreendedores. Trazer alguém que já empreendeu e quebrou a cara para dentro de uma organização pode ser o equilíbrio entre comportamento empreendedor, engajamento e disciplina executiva demandado por muitas empresas. Trazer empreendedores que fracassaram para contar suas trajetórias em palestras para seus colaboradores também pode ser didático e motivador (para manter seus talentos engajados, é claro).

Adote práticas, ferramentas e abordagens típicas das startups. Para não perder seus talentos para startups, muitas grandes empresas estão se tornando (hipocritamente) uma. Ambientes descontraídos podem contribuir para práticas de trabalho mais informais e colaborativas, mas não serão os pufes coloridos que transformam empresas tradicionais em startups. Práticas de gestão típicas de startups como OKR (Objetive and Key Results) e ferramentas ágeis de desenvolvimento de projetos como Scrum conseguem integrar alinhamento estratégico ao engajamento dos colaboradores. Ferramentas como Lean StartupDesign Thinking incentivam a interação dos funcionários com o mundo real, a percepção do impacto do seu trabalho na vida das pessoas e a importância da experimentação no processo de aprendizado. E aceleradoras corporativas de projetos podem disseminar (e valorizar) o comportamento empreendedor dos empregados.

Por fim, transforme a organização em uma plataforma de inovação aberta. Estabeleça estratégias para novos negócios sinérgicos com startups, mesmo que criadas pelos melhores funcionários da organização. Se ele(a) for realmente excelente, é melhor mantê-lo(a) por perto…

Marcelo Nakagawa é Professor de Inovação e Empreendedorismo do Insper

 

Mensagem para uma sociedade que tem pressa, mas não sabe onde ir

29 de dezembro de 2017

Quem eu sou neste mundo? É um grande quebra-cabeça. Eu sabia quem eu era quando acordei nesta manhã, mas eu acho que mudei tantas vezes desde então. Quão confuso são todas estas mudanças para mim. Eu nunca tenho certeza o que serei de um minuto para outro.

Eu poderia contar as minhas aventuras, mas não há utilidade em voltar ao passado porque eu era uma pessoa diferente. Por isso, eu estou sempre atrasado pensando no futuro. Mas quando mais rápido eu vou, mais para trás eu fico.

Receio que eu não consiga me entender mais, porque eu não sou mais eu, se é que me entende. Sei que não sou o mesmo que era antes. Eu era muito mais. Mas perdi um pouco deste muito mais.

Perguntam-me para onde vou com tanta pressa. Pergunto de volta sobre qual caminho deveria seguir. Depende de onde quer chegar é a resposta. Digo que não sei. Então tanto faz o caminho que devo seguir é o conselho que recebo.

Sei no que está pensando. Mas não é isso, de maneira alguma. Ao contrário. Se era assim, podia ser; e se fosse assim, seria; mas como não é, não é. Isto é lógico.

Desta forma, neste mundo sem sentido, o que nos impede de inventarmos um? A imaginação é a única arma na guerra contra esta realidade.

Mas antes é preciso seguir uma regra: Pessoas que não pensam, não deveriam se pronunciar! As coisas que as pessoas mais querem saber, em geral, não tem nada a ver com suas vidas. Se começar a acreditar em tudo que aparecer, seus músculos de crença da sua mente se cansarão e você estará tão cansado que não terá forças para acreditar nas coisas verdadeiras mais simples. Se cada um cuidasse da sua própria vida, o mundo giraria mais rápido.

Por isso, comece a ler a instruções que a vida lhe dá e, imediatamente, será direcionado para a direção certa. A primeira é: um dos segredos mais profundos da vida é que tudo que vale mesmo a pena fazer é o que fazemos para os outros.

Em seguida, seja o que você parece ser. Ou se quiser algo mais simples: Nunca imagine a si mesmo não sendo algo que deveria parecer ser para os outros que era o que você era ou deveria ter sido, que não deveria ser diferente do que você vinha aparentando para eles de qualquer forma. Desta forma, você deve falar sempre o que quer dizer. Fale a verdade, pense antes de falar e anote-a depois.

Sabendo o caminho, entenderá a pressa. Pois aqui, como vê, você tem de correr o mais que pode para continuar no mesmo lugar. Se quiser ir a alguma outra parte, tem de correr no mínimo duas vezes mais rápido!

Acha que fiquei maluco? Acho que sim. Mas deixe me dizer algo: As melhores pessoas geralmente são. Mas neste caso, eu não sou estranho, esquisito, distante e nem mesmo louco. Apenas a minha realidade é diferente da sua. Mas se limitar suas ações na vida para algo que ninguém possa ver algum fracasso, você não terá vivido muito.

Ah… mais uma coisa: Eu geralmente me dou bons conselhos, mas raramente os sigo. Mas se você acreditar em mim, eu acreditarei em você! Combinado?

Tudo é divertido se puder rir disso. E sempre é hora do chá!

Todas as frases apresentadas acima foram escritas por Charles Lutwidge Dodgson entre 1862 e 1871 e aparecem em dois dos seus livros publicados ainda no Século XIX, na Inglaterra. Aqui elas foram reorganizadas, atualizadas e interconectadas em um novo texto. Por diversas razões, inclusive a de perder a sua própria cabeça, Dodgson utilizou o pseudônimo Lewis Carroll para publicar “Aventuras de Alice no País das Maravilhas” e “Através do espelho e o que Alice encontrou por lá” (Editora Zahar, 2013).

Além de escritor, professor, matemático, fotógrafo, desenhista e exercer atividades religiosas, Lewis Carroll foi um inovador criando aparatos para escrever no escuro durante a noite, técnicas de criptografia e até jogos que depois passaram a ser conhecidos como palavras-cruzadas e o Scrabble. Mas sua maior inovação foi Alice no País das Maravilhas e sua continuação Através do Espelho. Além do texto em si, estes livros são repletos de surpresas escondidas, várias delas matemáticas, que atualmente as startups chamam de easter eggs. As edições originais só não trouxeram mais inovações visuais como a página impressa invertida (para ser lida no espelho) porque eram inviáveis técnica ou economicamente.

Curiosamente, o primeiro livro de Alice também seguiu a trajetória do que hoje é vivenciada pelas startups. Carroll criou uma estória que contou para os filhos de um amigo. Este foi seu primeiro produto mínimo viável (MVP). Diante da aceitação, foi incentivado a colocá-la no papel. Fez um rascunho (um novo MVP), incluindo alguns desenhos e enviou para outro amigo, editor de livros, que contou a estória para seus filhos. Diante do novo sucesso e retornos que teve das várias crianças que ouviram a estória, refez a estória (e os desenhos) diversas vezes até chegar ao texto final.

Sabia que o livro precisa ser ilustrado diante de tantos conceitos imaginários e fantásticos e foi atrás de John Tenniel, o melhor desenhista da Inglaterra naquele momento para criar uma experiência de leitura incrível. Quando chegou ao mercado em 1865, Aventuras de Alice no País das Maravilhas foi um sucesso arrebatador, vendendo mais de um milhão de cópias rapidamente em todo o mundo.

Mais de 150 anos depois, não são apenas as inovações de Lewis Carroll que continuam atuais, mas as mensagens dos seus livros se mantêm imprescindíveis em uma sociedade que tem pressa, mas não sabe para onde ir.

Marcelo Nakagawa é Professor de Inovação e Empreendedorismo do Insper

O Jedi e o Empreendedor

18 de dezembro de 2017

Longa é a jornada do empreendedor. Difícil ela é, desistir você não deve.

Sou fascinado pela saga Star Wars, e desde criança tenho absorvido aprendizados e valores de vida nesses filmes, sendo assunto recorrente em casa e com as amizades, mesmo depois de tantos anos, e até já foi assunto meu de uma trilogia do Blog do Empreendedor, um par de anos atrás:

1.     Star Wars e o Surgimento do Empreendedor

2.     Star Wars e a Formação de Equipe

3.     Star Wars para Empreendedores – Manual de Uso

Como fã nerd, assisti a primeira sessão d’Os Últimos Jedi – muitas emoções, filme eletrizante -  e saí do cinema pensando em como esta fantasia estelar tem a capacidade de nos inspirar continuamente ao longo dos anos, no “uso da força” interior, com os aprendizados de Mestre Yoda (faça ou não faça, tentativa não há), e na busca de seguir seus sonhos e cumprir seu destino.

Duas lições d’Os Últimos Jedi:

- Junte um time de gente capaz. É recorrente nos filmes de Star Wars. Quando Rey aparece pela primeira vez no filme O Despertar da Força, ela estava sozinha num planeta perdido. Ao longo do filme ela vai se aliando a pessoas que formam um time leal e de características complementares, como BB8 e Finn. Assim como Luke fez no filme que lançou a série, formando o time clássico com a Princesa Leia, Han Solo, Chewbacca, R2D2 e C3PO.

- Encontre um mentor que possa te ajudar a chegar no próximo nível. A importância dos mentores em Star Wars é evidente, e no Os Últimos Jedi, quem finalmente assume a mentoria de Rey é o próprio Luke. Mesmo que os mentores que encontramos no dia a dia não sejam Jedi ou não tenham superpoderes, mesmo assim eles têm – no mínimo – 2 características: experiência (de vida e/ou de negócios) e vontade de passar o conhecimento adiante. Um mentor pode ajudar a entender os momentos difíceis e provocar a força interior.

Que a força esteja com você, empreendedor Jedi.

Ivan Primo Bornes – empreendedor e fundador da rede de rotisserias Pastifício Primo (www.pastificioprimo.com.brivan.primo@pastificioprimo.com.br

O empreendedor global

13 de novembro de 2017

De hoje a domingo, 35 mil eventos em 165 países comemoram a Semana Global do Empreendedorismo, a maior celebração mundial dos inovadores e criadores de emprego. A abertura estará a cargo do empreendedor serial sir Richard Branson.

Mais do que a grande mobilização em torno do tema, esta Semana do Empreendedor chama a atenção pela importância que assumiram aqueles que iniciam negócios, mesmo em países em conflito ou em crise.

O empreendedorismo é vibrante mesmo em regiões onde pode não ser esperado. Na China, ele vem promovendo uma verdadeira revolução na economia. Na Venezuela, em meio à turbulência política e econômica, o empreendedorismo está evoluindo por necessidade. Mesmo em países devastados pela guerra, como a Síria, existem bolsões de startups.

Isso prova que empreender ultrapassa diferenças políticas e geográficas: empreendedorismo de diversos países tem muito em comum, desde suas motivações a seus desafios. Um exemplo disso é o desemprego – principalmente o de jovens –, que vem sendo um motor pra iniciar negócios em quase todas as partes do mundo.

Por outro lado, em quase todos os países existe o desafio de espalhar geograficamente o empreendedorismo, que costuma ser um fenômeno urbano. A preocupação em diversas regiões é estimular o início de novos negócios em áreas e setores menos empresariais.

E, por fim, há a faca de dois gumes da tecnologia: ao mesmo tempo em que ela cria novas oportunidades de negócios e as espalha geograficamente, também está fazendo que estes novos negócios funcionem com cada vez menos trabalhadores. Ou seja, a tecnologia limita o impacto social das novas empresas.

De toda forma, a Semana Global do Empreendedor confirma o que se vem afirmando aqui nesta coluna semana após semana: os empreendedores são mais importantes do que nunca. E não importa em que idioma, nível político, regime econômico ou mesmo inclinação religiosa.

Empreender é a grande linguagem universal.

Ivan Primo Bornes – fundador da rede de rotisserias Pastifício Primo (www.pastificioprimo.com.br) ivan.primo@pastificioprimo.com.br

 

A empresa que todos os empreendedores deveriam conhecer não faz nada mais além do óbvio

10 de novembro de 2017

Uma boa empresa deveria vender muito. Considerando as vendas proporcionais por metro quadrado, esta tem vendido o dobro da segunda colocada. Uma boa empresa deveria ter clientes fiéis. 76% dos seus clientes lembram que fizeram a compra mais recente lá e indicariam a empresa para seus amigos e conhecidos, mantendo-a entre as favoritas do seu ultracompetitivo mercado há muitos anos. Uma boa empresa deveria fazer o bem para o seus clientes. Esta empresa vende majoritariamente alimentos naturais e orgânicos, premiums e gourmets e ainda consegue fazê-los mais baratos do que os similares da concorrência. Por isso, esta empresa tem fila na porta.

Na abertura da sua mais nova loja, no mês passado, as portas foram abertas às oito da manhã, mas as filas começaram a se formar duas horas antes. Uma boa empresa deveria ser um ótimo local de trabalho. Ela foi considerada a 16ª melhor empresa para trabalhar em todos os Estados Unidos no ano passado, pagando os maiores níveis salariais do seu setor e oferecendo os melhores benefícios. E há diversos relatos de colaboradores atuais e antigos sobre como trabalhar nesta organização mudou suas vidas. E depois de tudo isso, lá na última linha da demonstração do resultado, uma boa empresa precisaria ser lucrativa. E esta empresa é uma das mais rentáveis do setor varejista mundial. A empresa opera lojas pequenas, com poucas opções e com cerca de 80% dos itens sendo marca própria. Isto aumenta a eficiência, escala de compra, custos logísticos, tornando a empresa muito lucrativa e sem endividamento.

As empresas deveriam ser assim, mas não são. Por isso, deveriam conhecer um pouco mais sobre esta empresa, a Trader Joe’s. Mas as empresas também deveriam falar menos e fazer mais. Neste contexto, com quase 500 lojas, mais de 38 mil colaboradores e com faturamento estimado de 13 bilhões de dólares, pouco se conhece da TJ como é mais chamada pelos seus clientes e colaboradores. Seu fundador, Joe Coulombe, atualmente com 87 anos, vendeu a empresa há quase 40 anos. O grupo alemão que adquiriu a Trader Joe’s, manteve não só Joe a frente do seu negócio até se aposentar em 1988 como nunca mais interferiu na forma com que o criativo fundador gerenciava o negócio ou criava uniformes espalhafatosos com temas havaianos para sua equipe. Ele, por sua vez, passou a adotar o perfil discreto, quase invisível que era a principal característica do grupo alemão. A empresa, seus produtos, serviços e experiência de consumo é que devem se destacar! E desde então, seus executivos não aparecem na mídia, não palestram, não falam da empresa. Por ser de capital fechado, a Trader Joe’s não divulga seus números. A empresa também não faz nenhum tipo de propaganda, com exceção ao Fearless Flyer, seu tradicional panfleto de ofertas. A discrição chega à sede da matriz, localizada na cidade de Monrovia, Califórnia, que não tem nenhuma placa ou sinalização com o logo ou nome da TJ.

E mesmo com esta discrição absoluta, a Trader Joe’s consegue entregar uma experiência de consumo que só pode ser descrita com um termo: Uau! Mas o segredo do sucesso da TJ não é nenhum segredo e segue cinco lógicas absolutamente óbvias:

• Venda para pessoas educadas e inteligentes: A empresa foi fundada em 1958 com o nome de Pronto Market e era, basicamente, uma loja de conveniência. Em 1967, Joe Coulombe explicou em uma das suas raras entrevista que leu uma notícia em que era mencionado que 60% das pessoas estavam indo para a faculdade naquele momento. Ele pensou que pessoas mais bem educadas, naturalmente seriam mais exigentes e demandariam um serviço de varejo com produtos mais sofisticados, mas nem por isso pagariam mais caro (afinal, eram inteligentes). Daí veio a ideia de reformular todas as lojas que tinha e inspirado nos “mares do sul” e diversas ilhas famosas, lançou a primeira loja da Trader Joe’s, como algo que remetesse a um entreposto comercial sofisticado do Joe no Havaí. A obviedade é que é fácil vender e manipular clientes idiotas, mas os mais bem educados tendem sempre a exigir o melhor da empresa.

• Monte times pequenos e engajados: A lógica inicial é a mesma até hoje. Os colaboradores são chamados de tripulação. Cada loja tem um capitão. Os gerentes são chamados de First Mate, ou algo como imediatos. A seguir vêm os Merchants ou mercadores. Por fim, há o Crew ou membros da tripulação. A metáfora óbvia é que todos estão no mesmo barco, com poucos níveis hierárquicos e com todos sabendo suas funções, mas também atentos na execução de outras atividades para manter ou aumentar a velocidade do navio funciona!

• Mantenha sua tripulação sempre muito feliz: Encontrar um funcionário feliz ou muito feliz nas lojas da Trader Joe’s e sempre disposto a atendê-lo(a) excepcionalmente bem é uma constante. Para se chegar a este patamar, a TJ oferece os melhores salários, benefícios e condições de trabalho do mercado e total liberdade com responsabilidade. Está cansado, pode descansar. Com fome, pegue algo para comer. Precisa sair mais cedo ou chegar mais tarde. Tudo bem. Não se dá bem um chefe, bom… há vários outros para reportar. Em troca, a empresa quer ver o membro da tripulação entregar uma experiência de consumo UAU! Deve ser amigável, atencioso e divertido. Com todos!

• Ofereça poucas, mas sempre as melhores opções de produtos: A TJ tem uma variedade entre 4 a 5 mil opções enquanto seus grandes concorrentes chegam a oferecer 60 ou 70 mil. Mas cada produto ofertado é cuidadosamente concebido, produzido e embalado. Por se concentrar em uma camada exigente de consumidores, a Trader Joe’s acaba lançando diversos novos produtos que se tornam tendência de mercado depois como cervejas artesanais, iogurtes gregos ou alimentos integrais gourmets. Além disso, cerca de 80% dos itens são comercializados via marca própria. Com isso, a TJ consegue oferecer produtos muito diferenciados, mas com preços baixos.

• Nenhum cliente deve estar insatisfeito. Além do tratamento sempre cordial, da qualidade e criatividade dos seus produtos, a política de reembolso de clientes insatisfeitos da TJ é assustadoramente eficaz. Comprou um produto e não gostou? Mesmo já tendo consumido parte dele ou mesmo não tendo nota fiscal, a empresa reembolsa o valor. Sem questionamentos. Mas a empresa não faz isto pelo medo do impacto negativo de um cliente insatisfeito, mas por acreditar que precisa, de fato, vender algo de grande valor fortalecendo os laços de confiança.
Óbvio assim… há quase 60 anos.

Marcelo Nakagawa é Professor de Inovação e Empreendedorismo do Insper

Quero ser microfranqueado, EI, MEI ou Eireli? Não sei!!

7 de novembro de 2017

A dúvida já começa pela quantidade de nomes e siglas. Em seguida, vem o questionamento sobre as variáveis legais e tributárias, quem se responsabiliza pelo negócio e se vai envolver o patrimônio pessoal com o da empresa. Daí, aquela máxima que nossas tias diziam: “esta pessoinha quando montar um negócio próprio, o céu será o limite!” já era! Agora tem teto máximo para você faturar por sigla.

Na dúvida dessas questões anteriores, dá um Google que você vai encontrar mil explicações e espero que entenda. Mas, não é aí que mora o problema para escolher se você vai virar franqueado ou empreender individualmente!

Destrinche estes fatores na sua vida:

Expectativa em ter um negócio próprio; conhecimento sobre determinada área, setor ou assunto relevante para o mercado, neste momento; disponibilidade para se dedicar por dia, semana, mês e ano ao empreendimento; perfil para assumir o risco de um negócio próprio e o que isso significa; necessidade de compartilhar, presencialmente, ideias e assuntos X capacidade de trabalhar só, sem se sentir isolado ou perdido; habilidade para prospecção e vendas, assim como para entrega mais controle dos números – em uma dessas características você será mais forte, não se engane que você é linha de frente e bastidores com a mesma pegada, porque não dá para ser. Ou vende ou controla.

Feita esta autoanálise, falando a verdade para você mesmo, há de aparecer de uma a três opções de respostas para continuar a pensar em empreender, ou não. Não há nada definido ainda.
Vamos para análise de mercado e financeira: quanto você tem disponível para investir; como se mantém até que o negócio comece a dar dinheiro e depois a dar lucro; quais os concorrentes dessa proposta de negócio; qual o investimento para ter algo similar e melhor que eles; que perfil de clientes procuram por eles; o que eles fazem para atrair clientes; quanto custa este marketing, propaganda, mídia social, boca a boca e/ou panfletagem? Quanto você tem para investir, mesmo? E qual era o investimento imaginado para abrir algo parecido? Refaça as contas, por favor.

Digamos que deu tudo certo, na sua mente, até aqui!  – Vai montar em casa e trabalhar home office?

Autoanálise Capítulo 2 – consigo trabalhar em casa? tenho disciplina, cachorro ou crianças, sogra ou cônjuge, filhos adolescentes montando uma banda ou moro numa rua barulhenta demais? “Me sinto feliz e com qualidade de vida produzindo em casa” ou “este povo só fala isso para disfarçar que está desempregado e não tem pra onde ir?!” Pergunte-se tudo e ouça a verdade, porque é melhor entender antes de qualquer decisão que doa mais depois, do que assumir que todos somos empreendedores e nascemos para empresariar!

Quanto à decisão de ser microfranquia ou individual, são muitas outras perguntas e respostas que, hoje, você não teria paciência de me ler e pensar. Vamos por capítulos ou com pílulas de reflexão, para a decisão acertada!

Ana Vecchi é professora e pedagoga pela PUC-São Paulo, com especializações em administração de marketing pela Fundação Getúlio Vargas (SP), planejamento estratégico de marketing pela ESPM e MBA em varejo e franquias FIA/PROVAR. É professora universitária, instrutora e palestrante em associações e universidades. Co-autora do livro A Nova Era do Franchising.