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Blog do Empreendedor
O cotidiano de empreendedores como você
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Faça o teste: o quanto você é – ou não é – empreendedor?

24 de dezembro de 2018

 

Ivan Bornes *

Essa é a história do inquieto Thiago de Carvalho, de 35 anos, mestre em Ensino de Negócios pela New York University, country manager da Clinton Education e professor de empreendedorismo do Insper. Quando criança, foi diagnosticado com DDA (distúrbio de déficit de atenção) e o que poderia ter sido uma dificuldade se transformou num aprendizado de como lidar com a hiperatividade nos estudos e nos negócios.

Durante a estadia em Nova York, Thiago começou a pensar numa forma de organizar as diversas características do empreendedor. Assim surgiu a metodologia Quociente Empreendedor – ou Qemp (faça o teste gratuito clicando no link). Com a validação de especialistas em educação, ensino superior e empreendedores, hoje é uma startup que apoia o ensino de novos negócios, empreendedorismo e inovação. Confira abaixo a entrevista com Thiago.

Thiago, qual foi sua primeira experiência como empreendedor?

Quando eu estava na 7a série, em 1993, abriu uma loja que vendia computadores, perto de onde eu morava. Passei a fazer um bico lá, ajudando a montar PCs e depois eu mesmo passei a montar computadores em casa a pedido de amigos. Era uma época em que a internet tinha uns 500 sites – no mundo todo! – e a conexão era discada, com uns modens barulhentos. Eu ia de ônibus até a Santa Ifigênia e comprava as peças. Eu tinha 12 ou 13 anos, não imaginava isso como um negócio, era mais um hobby remunerado.

Agora você também é professor de empreendedorismo. Foi natural para você fazer essa escolha de carreira?

Sim e não! Eu era muito festeiro, perdi um ano da faculdade, o que me obrigou a mudar totalmente meu estilo de vida. Passei a ser um nerd, adorar bibliotecas e leitura, caso contrário não conseguiria terminar a faculdade de comunicação. Esse engajamento forçado me fez gostar tanto de aprender que depois da graduação fiz um mestrado em educação, em que pesquisei o processo de aprendizagem de empreendedores que receberam investimento de capital de risco. Também me tornei professor de empreendedorismo na mesma faculdade em que fiz uma pós-graduação em administração. Aliás, eu trabalho na Insper desde 2006, onde entrei como voluntário do centro de empreendedorismo.

E o seu lado empreendedor convive bem com o lado acadêmico?

Atualmente empreendo em uma área que me parece como um chamado. Eu me sinto extremamente confortável lidando com os desafios de quem quer abrir um negócio. É como se fosse um xadrez super sofisticado, mas não só com a matemática e a lógica desse jogo. Existe algo sem muita estrutura, que precisa ser descoberto conforme o negócio se desenvolve, especialmente algo que nasce do capital dos próprios empreendedores. Empreender hoje é diferente de empreender há 15 anos. Hoje é uma carreira. As pessoas se preparam, escolhem seguir esse caminho, hoje é possível ser empreendedor de forma organizada. Pesquisas mostram que os negócios seguintes de empreendedores tendem a durar mais que os negócios anteriores, pois empreendedores aprendem com os erros do passado.

“Para quem quer empreender no setor de educação, eu recomendo que só faça isso ao se associar com alguém da área”

Me fale do Qemp.

Em resumo, os empreendedores fazem uma avaliação online, e a ferramenta retorna uma avaliação científica dos pontos fortes e a melhorar do negócio. Não conheço nada parecido nos mercados nacional e internacional. Em cerca de 20 minutos, empreendedores recebem feedback personalizado, conseguem aprender sobre seus desafios e recebem um curso personalizado. Utilizamos esse método em startups, aceleradoras e grandes empresas interessadas em desenvolver o empreendedorismo corporativo.

São seis pilares no teste Qemp: controle e planejamento, dinâmica do mercado, aderência, perfil empreendedor, recursos e experiência. Por exemplo: é possível medir o quanto alguém controla e planeja, comparado com sua habilidade de identificar recursos ou o quanto entende da dinâmica do mercado em que atua ou planeja atuar. Além dos pilares, o teste também mede as dimensões pessoais. Ou seja, o que é dominante em relação ao projeto: inovação, análise, processos ou relacionamento.

A partir da avaliação, apresentamos objetivos de ação, adaptados conforme as respostas.

Para o empreendedor, os dias e as noites são bem diferentes do normal das pessoas. Como que você vive isso no dia a dia?

Durante uma época, cheguei a trabalhar por diversos dias das 4h às 23h. Era um trabalho intelectual pesado – montar um negócio em um setor ainda em construção -, isso significou um peso maior do que consegui carregar. Na virada de 2017 para 2018, tive diversos sintomas relacionados à síndrome do burnout. Após cerca de 10 meses de trabalho mais leve, vou lançar uma versão 2.0 do produto, o que significa que seremos, sem dúvida, a melhor ferramenta do mercado para o que ela se propõe.

Quais seriam tuas dicas aos empreendedores que estão chegando agora no teu setor?

Primeiro, gostaria de passar uma dica para quem quer empreender de forma geral: se está muito difícil vender ou construir um produto ou serviço, você está no caminho errado. Pare e repense tudo o que está fazendo, inclusive se deve continuar fazendo isso. Para quem quer empreender no setor de educação, eu recomendo que só faça isso ao se associar com alguém da área. Diferentemente de setores como varejo ou alimentação, por exemplo, o setor de educação é uma área em que poucas pessoas têm experiência.

Vejo muitos empreendedores engajados nessa área, mas que não fazem ideia do que estão fazendo. A vontade e a motivação de atuar na área da educação, que é fascinante, atrapalha a percepção sobre o que sabem ou não sabem desse setor. Outra dica para quem está começando é: se você gastou cerca de R$ 50 mil ou mais para começar um negócio e sua receita ainda não paga várias contas da empresa, considere que você também pode estar no caminho errado.

“Em diversas áreas, o Brasil está atrasado cerca de 30 a 40 anos em relação aos países considerados desenvolvidos. Em outros setores, está até mais atrasado”

Qual o futuro do Brasil?

Em diversas áreas, o Brasil está atrasado cerca de 30 a 40 anos em relação aos países considerados desenvolvidos. Em outros setores, está até mais atrasado. Dessa forma, será necessária uma ou duas gerações para que tenhamos alguns indicadores de primeiro mundo. O que me preocupa é que existem carreiras que não são ensinadas em faculdades, mas ganharam uma sofisticação imensa. Por exemplo, as carreiras do crime organizado e corrupção. Por mais que em diversos outros indicadores o Brasil venha a melhorar, como renda média, mortalidade infantil, alfabetização etc., em outros setores haverá pessoas em que a única razão de existir seja a de fazer mal aos demais.

O Brasil é atrasado da forma que é por causa de 200, 300 mil pessoas. Entre eles estão os principais líderes de quadrilhas, sejam quais forem, promotores de desigualdade e insegurança. Ainda assim, o Brasil é 99,9% bom. Meu papel está em fornecer ferramentas e oportunidades para quem quer seguir a carreira de empreendedor. Faço isso há 10 anos e continuarei por mais algumas décadas, no mínimo.

Acompanhe o trabalho de Thiago (thiago@qemp.com.br) e faça o teste do empreendedorismo no site do Qemp.

* Ivan Bornes (ivan@pastificioprimo.com.br) é empreendedor e fundador da rede de rotisserias Pastifício Primo (www.pastificioprimo.com.br)

Startup de conteúdo ao vivo, ClapMe mostra caminho de reinvenção

17 de dezembro de 2018

 

Ivan Bornes *

Esta é a história do empreendedor, sonhador e jornalista Filipe Callil, 29 anos, casado com Maria (de quem ele foi colega na faculdade de jornalismo), neto de libaneses e um dos fundadores da startup ClapMe, plataforma de vídeos – live e vod – para agências de publicidade e marcas, focada na criação, produção e execução de conteúdo transmitido ao vivo (streaming).

A ClapMe, como nos conta Filipe na entrevista a seguir, surgiu com a ambição de ser a “Netflix dos shows ao vivo”, mas após dificuldades no meio do caminho, em 2016 eles deram uma virada de mesa e se transformaram numa das maiores – senão na maior – empresa no Brasil que atende o mercado publicitário com conteúdo ao vivo.

Instalada na nova sede na Rua Fidalga – na badalada Vila Madalena – a ClapMe já transmitiu ao vivo mais de 2 mil eventos, tem mais de 250 mil usuários e 12 mil artistas cadastrados, além de uma grade de programas de humor, shows e entretenimento com interação ao vivo entre público, artistas e marcas.

Filipe Callil, Diego Yamaguti, Celso Augusto Forster e Felipe Imperio, sócios da ClapMe em espaço em reforma na sede na Vila Madalena. Foto: Giovani Cavalcanti

Como foi sua jornada de aprendizado antes do surgimento da ClapMe?

Cresci numa família de classe média e, desde pequeno, tive que aprender a me virar. Meus pais tiveram muitos momentos de crises financeiras. Tive que ver meu pai quebrar e recomeçar inúmeras vezes ao longo da vida. O meu primeiro “emprego” foi aos 13 anos de idade. Eu cuidava de uma lojinha de roupas e acessórios fitness que meu pai tinha na época dentro de uma academia de São Paulo. No primeiro ano de faculdade, voltei a trabalhar com meu pai em uma confecção. Ele era o gerente comercial da fábrica e eu trabalhava na estamparia.

Ainda no primeiro ano de faculdade, eu consegui arrumar o meu primeiro estágio como jornalista em uma assessoria de comunicação, a X Comunicação. Foi lá que conheci o Celso Augusto Forster, com quem anos depois fundei a ClapMe. Ele era o meu melhor amigo no trabalho, além de um “chefinho” mentor com quem eu tinha liberdade para falar sobre tudo, principalmente sobre rock’n roll. A paixão por música é o que nos uniu logo de cara.

E depois consegui finalmente meu estágio na TV Record – meu sonho era ser repórter de TV. Trabalhei na Record de 2009 a 2013, quando pedi demissão para focar 100% na ClapMe. Sou muito grato a tudo o que pude aprender na Record. Muito do que hoje aplico na minha empresa aprendi lá com os meus colegas de trabalho e ex-chefes.

 

“Ao escolher que você quer empreender, você irá privar a sua família de algumas escolhas. É uma decisão difícil e, nesse aspecto, muitas vezes egoísta também.”

 

Você sempre destaca a importância da família e, sobretudo, de sua mulher, Maria, no empreendimento. Como você avalia a importância do apoio familiar no sucesso do empreendedor?

Mais do que uma namorada e amiga, Maria foi a pessoa que, apesar de todas as incertezas, apostou comigo no sonho. Até 2016, ela pagava todas as contas praticamente sozinha. Até hoje ela paga muito mais conta do que eu (risos). Atualmente, a Maria trabalha na área de comunicação de uma grande multinacional. Quando eu contei para os meus pais que iria pedir demissão da Record para me dedicar a um projeto pessoal, eles acharam que eu não estava muito bem da cabeça – até pouco tempo atrás eles ainda achavam isso (risos). Mas sempre respeitaram minha decisão e tentaram me dar o suporte necessário dentro do que podiam. Com a Maria também não foi muito diferente. Mas ela ainda teve que sofrer mais as dores comigo.

Depois que fomos morar juntos, quando a empresa ainda não podia me pagar um pró-labore, era ela quem me dava todos os subsídios para que eu pudesse sobreviver. Desde o dinheiro para ônibus, roupas, comida, viagens etc. Com tudo isso, eu aprendi que empreender é uma decisão que, cedo ou tarde, irá influenciar na vida das pessoas que estão ao seu redor. Ao escolher que você quer empreender, você irá privar a sua família de algumas escolhas. É uma decisão difícil e, nesse aspecto, muitas vezes egoísta também. Mas sou muito grato à Maria por toda paciência e confiança que ela depositou em mim. Sem o apoio dela, com certeza a história teria sido muito pior.

Você estava com emprego bom, num grande grupo de mídia, já se encaminhando para ser repórter de TV. De onde veio essa vontade de empreender, que deixou todo mundo de cabelo em pé?

Eu já devo ter nascido empreendedor. Desde criança eu gostava de inventar coisas, eu preferia construir os meus brinquedos do que brincar com um pronto, compor músicas e fazer “rolos”. O meu primeiro violão foi fruto de um rolo que fiz, aos 11 anos de idade, com um vizinho: eu dei um patins que não me servia mais e ele me deu o violão. Essa era a época em que meus pais estavam mais apertados de dinheiro, então eu construía coisas ou fazias rolos para poder ter as coisas que eu queria.

Um pouco antes dessa época, quando eu tinha uns oito anos de idade, eu montei uma vara de pescar com ímã para pegar as moedas que caíam no ralo que tinha em frente à cantina do colégio. Era um fosso de uns 5 metros de altura. E eu ficava no recreio ou no final da aula pescando as moedas que caíam lá. Enfim, cresci querendo montar coisas, fazer coisas… Tive banda de rock na adolescência. Acredito que tudo isso fez com que a minha veia empreendedora florescesse.

E como surgiu a ClapMe?

Ainda na época da faculdade, eu dizia para os meus amigos de classe – inclusive para Maria – que um dia montaria um negócio. Não tinha ideia exatamente do que seria. Mas dizia que iria montar um negócio no mercado da música. O pessoal me achava meio doido, inclusive Maria. Até tentei arrumar uns sócios na faculdade, mas ninguém levou muito a sério. Quando eu estava no final da faculdade, já estagiando na Record, eu tentei montar a ClapMe com alguns amigos da Record. Não foi muito para a frente e acabei guardando a ideia na cabeça.

No final de 2011, quando estava em Ribeirão Preto prestes a voltar para São Paulo, conheci o Diego Yamaguti da Silva e o Felipe Imperio. Na época, eles estavam encerrando as operações da AdBees, uma plataforma de compras coletivas. Comentei com eles que tinha uma ideia ainda da época da faculdade: um palco virtual para artistas se apresentarem. Eles gostaram da ideia e começaram a me ajudar a tirá-la do papel. Decidimos virar sócios. Pouco tempo depois, ligamos pro Celso e convidamos ele para ser nosso sócio também.

 

“Para mim, ser empreendedor não é ter um bom diploma. Está mais ligado à personalidade da pessoa e ao modo como enxerga o mundo. Conhecimento qualquer um pode adquirir. Resiliência, não. E, para mim, resiliência é a principal virtude que um empreendedor precisa ter”

 

Como é o dia a dia da empresa?

Eu tendo a dizer que empreendedor não se constrói. Ou você é ou você não é. Toda empresa precisa ter pelo menos um sócio que seja realmente empreendedor. Tem gente que cria um negócio sem ter a veia empreendedora e, para o projeto evoluir, precisa encontrar um sócio que assuma esse protagonismo empreendedor. No caso da ClapMe, acredito que os quatro sócios tenham essa veia empreendedora. Dependendo do momento ou da situação, um dos quatro assume o protagonismo – e isso é muito bom para dividir o peso e as responsabilidades do negócio.

Na tua opinião, qual a principal característica de um bom empreendedor?

Para mim, ser empreendedor não é ter um bom diploma, conhecimento, bagagem, experiência – apesar de que tudo isso agrega valor e, muito provavelmente, fará com que você economize tempo na sua jornada empreendedora. Para mim, ser empreendedor está mais ligado à personalidade da pessoa e ao modo como enxerga o mundo. Conhecimento qualquer um pode adquirir. Resiliência, não. E, para mim, resiliência é a principal virtude que um empreendedor precisa ter.

Falando particularmente de mim, acho que o meu lado empreendedor nasceu muito antes da ideia – por mais que eu tenha começado a ClapMe sem ter a menor ideia prática ou teórica do que era empreender (risos). Se não tivesse sido a ClapMe, cedo ou tarde, teria sido outro negócio, outra ideia. Até hoje muito dos nossos acertos são com base nos erros que a gente cometeu lá atrás e que ainda cometemos.

Não somos empreendedores acadêmicos ou de “palco” (aqueles que vendem mais livros e palestras do que desenvolvem negócios). Eu e meus sócios somos empreendedores “graxa”, como costumamos dizer. Estamos construindo nossa empresa em cima de cada erro e acerto que cometemos. E isso dá um tesão danado, pois o desafio é constante.

 

“Investidor gosta disso: empreendedor que não desiste mesmo quando todo mundo já desistiu”

 

Para o empreendedor, os dias e noites são bem diferentes do normal das pessoas. Como é a tua rotina?

Eu não consigo mais separar trabalho de vida pessoal. Sei que isso pode até ser considerado errado. Mas é o modo como vivo a vida. E acaba tendo bônus e ônus. Ao mesmo tempo em que trabalho praticamente todas as horas/dias em que estou acordado, por outro outro lado tenho a flexibilidade de organizar a minha agenda da forma que melhor me convém. Posso fazer jiu-jítsu na hora do almoço, à tarde, à noite, o horário que quiser. Posso viajar no meio da semana. Posso fazer home-office quando quiser. Se acordo com dor de cabeça, posso cancelar todas as minhas reuniões do dia e dormir – não que alguma vez eu tenha conseguido de fato fazer isso (risos).

No começo era bem difícil. Porque eu não tinha dinheiro para poder fazer coisas com a Maria (jantares, cinema, viagens etc) nem tempo, pois tinha que trabalhar o máximo que aguentasse para mudar a situação. Mas, de fato, esse equilíbrio só vem com o tempo e com dinheiro. Hoje, eu e meus sócios já conseguimos nos organizar melhor para aproveitar também nossas famílias. Por exemplo: eu tenho um acordo com Maria de não usar o celular para trabalhar em viagens de férias. E tenho conseguido respeitar o acordo. Eu vou trabalhar todos os dias de bike elétrica – são 7 km entre Moema, onde moro, e a Vila Madalena, onde fica o escritório. Gosto de aproveitar o trajeto para pensar em novas ideias, observar a movimentação da cidade.

Quais são os planos de futuro para a ClapMe?

Estamos negociando mais um round de investimento – este será o nosso 4º round – para ampliar algumas linhas de negócio. Estamos inseridos dentro de um mercado (mídia/economia criativa) extremamente competitivo e com poucas barreiras de entrada. Então, acaba ganhando quem tem mais velocidade e melhor execução. Vale lembrar que a ClapMe precisou dar uma pivotada em 2016 para sobreviver.

No começo, queríamos ser uma plataforma de assinatura de conteúdos artísticos (peças, shows, etc)… uma espécie de “Netflix de shows ao vivo”. Por várias razões, o modelo acabou não tracionando. Decidimos guardar o modelo numa gaveta imaginária e decidimos ir atrás de onde estava o dinheiro desse mercado.

Acabamos nos tornando uma espécie de plataforma de conteúdos para agências de publicidade e marcas. Só em 2018, nós realizamos mais de 100 projetos com transmissões ao vivo com marcas. Indiscutivelmente, somos hoje a principal empresa que atende o mercado publicitário na criação, na produção e na execução de ativações com transmissão ao vivo.

Mas, há alguns meses, nós decidimos retomar o nosso modelo de negócios “raiz” – a assinatura de conteúdos – e estamos desenhando novas estratégias para conseguir colocar o modelo de pé.

 

“Dinheiro bom é o dinheiro dos clientes e não o dinheiro de investidor”

 

Muitos empreendedores que acompanham esta coluna tem curiosidade sobre a captação de investimentos. Como foi para vocês?

O curioso dessa história é que não estávamos buscando investimento quando começamos a negociar com eles. Havíamos acabado de ganhar o InovAtiva Brasil (um programa brasileiro de startups público e privado) e parte da premiação resumia-se a mentorias dessas alumnis de Harvard. Com isso, pudemos ser 100% transparentes com eles, contando sobre nossas dificuldades, falhas… E, depois de alguns meses, a proposta surgiu deles.

Foi um aprendizado muito legal: é muito melhor quando o investidor quer vocês do que o contrário. E de novo bato na tecla da resiliência. Tendo a acreditar que foi a nossa persistência – mesmo frente a diversos fracassos e incertezas – que chamou a atenção deles. Investidor gosta disso: empreendedor que não desiste mesmo quando todo mundo já desistiu.

Quero destacar quem são nossos investidores: Jump Brasil (aceleradora do Porto Digital, Recife), Triple Seven (fundo privado de investimento aqui de São Paulo) e HBS Brasil (Harvard Business School Brasil, comitê formado por alumnis de Harvard que investem em empresas de inovações). O investimento de HBS foi muito produtivo, pois trouxe pra dentro do negócio mais de 20 executivos de alto escalão. Diretores, VPs, Presidentes das maiores corporações globais (ambev, Itaú, IBM, Cielo etc). Só de ter a agenda de pessoas com esse gabarito para tomar um café e falar de negócios, o investimento já se justifica.

Que dicas pode dar aos empreendedores que estão chegando agora?

Vá atrás do dinheiro. Às vezes a ideia pode ser brilhante, escalável, sexy e ultra-inovadora. Mas ela não valerá de nada se você não tiver clientes. Dinheiro bom é o dinheiro dos clientes e não o dinheiro de investidor. Ache um modelo rápido de colocar de pé, mesmo que não seja o mais brilhante, escalável, sexy e ultra-inovador. Mas vai ser o modelo para fazer com que você, no futuro, possa desenvolver o outro modelo mais brilhante, escalável, sexy e ultra-inovador. Eu vi muita startup morrer porque os sócios ficaram insistindo em um modelo que não gerava receita. No começo você até se vira para manter a operação. Mas depois de dois, três anos… fica inviável.

Outra dica: não decida empreender por falta de opção e sim o contrário. Empreender é uma escolha! Tenho visto muitas pessoas que estão montando negócio porque perderam o emprego, por exemplo, e sem alternativa estão montando startups. Isso é ruim para a pessoa e também para o ecossistema. O mercado satura com um monte de startups mal administradas e sem visão de futuro.

Na tua opinião, qual o futuro do Brasil?

Ainda temos muito o que evoluir em relação a empreendedorismo no Brasil. A mudança talvez precise começar nas escolas. Como jornalista posso dizer que não aprendi nada na universidade sobre empreendedorismo. É importante fomentar o assunto nas universidades e gerar debates entre os alunos. Eu gosto muito de contribuir com o mercado de empreendedorismo. Sempre que posso, dou mentorias para novos empreendedores, participo de eventos de setor e afins. Em breve, espero ter condições para me tornar investidor.

Ivan Bornes (ivan@pastificioprimo.com.br) é empreendedor e fundador da rede de rotisserias Pastifício Primo (www.pastificioprimo.com.br)

Um case de sucesso no Terceiro Setor

12 de novembro de 2018


Esta é a história de Marcelo Nonohay, fundador e diretor executivo da MGN, empresa especializada na gestão de projetos para transformação social. Gaúcho, bom contador de histórias e que nas horas vagas faz aula de guitarra, Marcelo é mestre em administração pela conceituada Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), e membro Titular do Conselho Nacional do Voluntariado 2018/2019. Ele conta que a jornada empreendedora começou em 2006, apenas formado em Porto Alegre, e em 2010 desembarcou em São Paulo para colocar a MGN em abrangência nacional. Já deu palestras para mais de 15 mil executivos de empresas nacionais e internacionais, tornando-se uma referência nas áreas de voluntariado empresarial e educação.

Quando teve vontade de empreender?

Sempre tive um exemplo empreendedor dentro de casa. Antes mesmo de eu entender o que significa ser empreendedor eu via várias facetas do empreendedorismo. Tanto as coisas boas quanto as não tão boas em ser dono de um negócio próprio: paixão pelo que se faz e o orgulho pelas realizações; longas horas de trabalho e uma preocupação constante com o bem-estar dos funcionários; satisfação de clientes e a perenidade do negócio. Ser empreendedor sempre foi uma opção aberta, mas só virou uma realidade bem mais tarde. Nesta época eu já estava formado em administração e decidi fazer um mestrado. Neste período, além de um grande aprendizado acadêmico, pela primeira vez entendi que conseguiria viver sem ter um emprego formal e que eu poderia fazer um caminho diferente, pagar os custos e colher os frutos de uma vida mais independente. Foi nesse período que nasceu a MGN.

Olhando para atrás, houve uma inspiração especial?

Sim, na escola fiz parte de um programa que desenvolve empreendedorismo entre jovens com o trabalho de voluntários do mercado – a Miniempresa da Junior Achievement. Essa experiência foi transformadora, pois moldou em grande parte o meu negócio atual.

Primeiro apareceu o empreendedor ou a ideia?

No início eu achava que para ser um empreendedor de sucesso eu teria que ter uma ideia genial. É obvio que se você tem uma ideia genial e o mercado aprova, você está muito bem encaminhado. Mas entendo que nem todos os empreendedores terão uma ideia genial para começar. Olhando em retrospectiva, eu comecei fazendo o que sabia, explorando o que gostava e sempre muito aberto a aprender. Não criei a MGN a partir de uma ideia genial, mas hoje tenho certeza que o que ela faz é genial. Se me perguntassem há uns 15 anos se eu achava que uma empresa como a MGN poderia existir, eu diria que não.

Qual o foco de trabalho da MGN?

Nós trabalhamos com a gestão de projetos para a transformação social. Criamos esse guarda-chuva amplo, pois estamos envolvidos em projetos de voluntariado, educação e diversidade. Por isso, entendemos que nosso negócio sempre tem relação com algum tipo de transformação social que queremos ver na sociedade. Nem sempre tivemos esse foco exclusivo, no entanto. O começo de um negócio é sempre muito difícil. Por se tratar de um negócio de consultoria, também fizemos muitos trabalhos de planejamento: planos de negócios, planejamento estratégico e planos de marketing. Aproveitamos até hoje a experiência que adquirimos com esse tipo de trabalho. Muitos temas que desenvolvemos nessa época ainda aplicamos nos nossos projetos, como por exemplo empreendedorismo, sustentabilidade, inovação, gestão estratégica e pesquisa de mercado.

Como é que a família participa (ou não) no empreendimento?

A família do empreendedor sempre participa do seu negócio. No caso da MGN tenho membros da família que se envolvem de forma pontual em alguns trabalhos, de acordo com suas competências. Além disso, todos sofrem um pouco com as noites mal dormidas, assim como vibram com cada conquista.

E como é a rotina diária de uma empresa do Terceiro Setor?

Nosso cotidiano é bastante intenso. Por sermos uma empresa que presta serviço, é esperado que estejamos funcionando no horário comercial, mas como trabalhamos com muitos eventos, em especial de atividades de voluntariado empresarial, trabalhamos muitas noites e fins de semana, horários em que muitos programas de voluntariado corporativo realizam suas atividades. Para dar conta dessa demanda, zelamos por manter um ótimo clima organizacional, valorizamos a diversidade para que todos se sintam acolhidos e temos sistemas de bonificação para as lideranças e para quem trabalha em eventos. Além disso, o resultado do nosso trabalho sempre é carregado de muita satisfação pessoal, pois atuamos no que eu chamo de Economia do Bem. Para mim, esse conceito vai muito além das definições de Terceiro Setor ou Negócios Sociais. Aqui entram todas as formas de produção, trocas, consumo e descarte que propõem uma revisão das maneiras tradicionais.

Quais são os planos de futuro do negócio?

Nossos planos de futuro incluem a expansão concêntrica de negócios. Estamos explorando novos mercados onde podemos aplicar nossa expertise no Brasil e fora.

Se pudesse dar uma dica aos empreendedores que estão chegando agora no teu setor, qual seria?

Vejo que atuar no setor, seja por meio de uma Organização ou Negócio Social, ou até mesmo com uma consultoria é muito tentador para os jovens. Essa nova geração já chega ao mercado pensando em empreender com propósito. Todos querem fazer o que gostam. Não há mais espaço para ser infeliz no trabalho e fazer o bem nas horas vagas. O ponto é que empreender em qualquer setor, mesmo que seja para fazer o bem, não é fácil e não é para qualquer um. Às vezes me preocupa ver tantas pessoas se jogando no mercado sem nenhuma noção ou preparo. Mesmo em um negócio que é 100% ligado à realização pessoal do empreendedor, as dificuldades e a vontade de desistir baterão à porta. Tudo começa por autoconhecimento: a pessoa tem que estar disposta a viver a vida de empreendedor.

Qual o futuro do Brasil?

Embora seja um clichê, eu acredito que o Brasil tem um enorme potencial, um grande mercado consumidor, uma cultura rica, grande diversidade ambiental e social, algumas ilhas de excelência e um povo criativo. O problema é que para que esse potencial seja realizado, precisamos investir em educação com um pensamento de longo prazo. Vejo que a MGN dá uma contribuição, pois quando desenvolvemos know-how para dar mais efetividade e maior impacto ao investimento social privado, estamos trabalhando para construir um futuro melhor.

Saiba mais:

http://mgnconsultoria.com.br/

Ivan Primo Bornes (ivan@pastificioprimo.com.br) – empreendedor e fundador da rede de rotisserias Pastificio Primo (www.pastificioprimo.com.br).

 

A empreendedora dos azeites

31 de outubro de 2018

Vista interna da Rua do Alecrim, em Moema

Esta é a história de Iris Jönck, publicitária por formação, que decidiu empreender para fazer as coisas acontecerem pelas próprias mãos. Assim surgiu a Rua do Alecrim, uma loja online que oferece produtos de origem de diversos países e regiões diferentes do Brasil, e que virou ponto de encontro dos melhores azeites “de origem” do Brasil e do mundo. A Iris nos conta como foi sua evolução pessoal e profissional, como a ideia de uma loja online se transformou em loja física e os desafios e soluções encontrados nessa jornada.

Como tudo começou?
Sempre fui movida por desafios e sede de aprendizado, mas também sempre me deu muita satisfação ver os projetos acontecendo de verdade, saindo do planejamento e virando algo real. E acho que foram estes fatores que aos poucos foram me fazendo querer me dedicar mais a criar e fazer novas coisas acontecerem com minhas próprias mãos.Um momento importante, que me ajudou nessa guinada para o empreendedorismo, foi ter realizado um curso de pós-gradução em Tendências na Universidad Ramón Llul-Blanquerna, em Barcelona. Ali eu abri muito a cabeça, observando movimentos culturais e de comportamento que me ajudaram a enxergar um mundo com muito mais possibilidades de atuação do que as de um emprego tradicional em uma empresa ou ainda de uma agência de publicidade.A decisão de empreender, é claro, passou por uma conjunção de fatores e foi se desenhando a partir de inspirações e trocas entre mim e meu marido, que é meu sócio na vida e na empresa. O Arnaldo Comin é jornalista por profissão e sempre trabalhou como repórter e editor, sobretudo em jornais de economia e negócios. Nós dois sempre gostamos muito de viajar e sempre tivemos uma conexão muito forte com a cozinha e a gastronomia. Quando passamos nossa lua de mel na Turquia, a caixa de Pandora se abriu. O contato com aquele mundo de temperos e sabores caiu como uma bomba na nossa cabeça. Foi ali que tomou corpo a ideia de criar um negócio que resgatasse os valores gregários da cozinha, da gastronomia como elemento de união entre as pessoas e as culturas.

Primeiro apareceu a ideia ou a empreendedora?
Considerando o contexto, acho que a ideia precedeu a empreendedora. Nós queríamos trabalhar com um negócio que tivesse três elementos em comum: gastronomia, internet e o conteúdo forte para a construção da marca. Foi assim que nasceu a Rua do Alecrim. Alimentos com histórias para contar e um valor intrínseco para todas as pessoas que apreciam o que é especial. Nosso primeiro produto foram kits de presente temáticos por país: França, Itália, Espanha, Oriente Médio, assim por diante. Vinho, tempero e outros ingredientes típicos. Foi quando esbarramos logo de cara naquilo que seria a nossa marca registrada: os azeites. Vimos que era um produto super nobre, com uma riqueza cultural imensa, que não era muito bem trabalhado pelo varejo. Fomos conhecendo e nos apaixonando. Tanto que a nossa assinatura evoluiu para Rua do Alecrim Azeites e Gastronomia. Temos orgulho de oferecer em São Paulo uma das poucas lojas no mundo especializadas em azeites de origem. Mesmo em países produtores, como Espanha, Itália e Portugal, são raríssimas as lojas desse tipo. Do site, acrescemos para uma loja física no bairro de Moema, que se tornou uma “embaixada do azeite”. Fazemos um trabalho especial, e que muito nos orgulha, que é a promoção dos produtores artesanais brasileiros, uma nova geração que está começando a fincar raízes, literalmente, da olivicultura no País.

Iris em meio a oliveiras em Puglia, na Itália

Como é o estilo de vida de vocês, do pessoal ao profissional?
Nossa família é bem pequena. Somos só nós dois e, na verdade, a vida tão intensa do empreendedorismo adiou um pouco nossos planos de filhos. O desafio agora, por sinal, é conciliar as duas coisas: aumentar a família e os negócios ao mesmo tempo!  Depois de seis anos de negócios, a gente vai percebendo na prática um certo “paradoxo” do empreendedor: você fica muito imerso no seu mundo e vê que os seus amigos de sempre, principalmente aqueles que sempre viveram num esquema profissional mais tradicional, não acompanhar muito bem as suas opções de vida. E a agenda sempre tão carregada infelizmente te afasta um pouco da convivência. Por outro lado, ao empreender você agrega um monte de pessoas novas ao seu redor. Ainda mais quando o assunto é gastronomia. A gente trabalha muito, mas há a oportunidade de conhecer gente muito interessante e terminar um dia exaustivo de evento tomando um vinho feliz da vida com um degustador profissional ou um cozinheiro bacana. É a prova de como a boa comida aproxima as pessoas e expõe o nosso lado mais humano.

Quais são os planos de futuro do negócio?
Quem trabalhou com varejo nos últimos quatro ou cinco anos sabe como esse período foi difícil. No nosso caso, que trabalhamos predominantemente com produtores de origem do Mediterrâneo e alguns vinhos e azeites da América do Sul, o câmbio foi especialmente cruel. Isso nos levou a diversificar muito o negócio em busca de rentabilidade. Fomos do ecommerce puro com a ruadoalecrim.com.br para um híbrido com loja física, fora as vendas de brindes corporativos para empresas, que sempre foram muito importantes para o nosso resultado. Com o nosso crescimento muito grande no mercado de produtos italianos para pizzas e panificação, criamos em 2017 um segundo ecommerce, farinhasitalianas.com.br. Paralelamente criamos nossa marca própria de vinagres artesanais, azeite e temperos, além de ter iniciado no ano passado a importação direta de alguns rótulos de azeites de alto nível da Itália e da Espanha. Vale lembrar que sempre fizemos muitos cursos e workshops de azeites, pizzas, pães e vários outros temas de cozinha. É muita coisa!

Ao mesmo tempo, vemos que o nosso negócio precisa de escala para crescer: se trabalharmos com três ou quatro lojas, aumentando a importação direta e o investimento em marca própria, o negócio pode crescer bastante, tanto na revenda para o varejo quanto na comercialização direta ao cliente final. O objetivo para 2019, portanto, é estreitar o foco, priorizar as áreas de negócios com melhor potencial e conversar com gente do mercado que tenha interesse em investir conosco na expansão da empresa. Nosso desafio não difere de tantos bons empreendedores brasileiros: ter acesso a capital para crescer com o apoio de um parceiro estratégico que não aporte apenas dinheiro.

Se pudesse dar uma dica aos empreendedores que estão chegando agora
no seu setor, qual seria?
Pense leve. No ramo do varejo e da gastronomia é muito tentador ir aumentando o portfólio de produtos e serviços sem se dar conta. Assim como um restaurante que está sempre inventando pratos novos sofre com mais perdas de matéria-prima, tempo e pouco poder de negociação com ingredientes de baixo volume de uso ou de venda, no varejo acontece o mesmo. No caso do ecommerce, não menospreze os custos e o lado operacional. A tecnologia avançou muito desde que abrimos o negócio, há seis anos, mas vender pela internet é muito custoso, há muitos gargalos e pode levá-lo a muita perda, se os processos não estiverem muito bem montados e a equipe não for bem treinada. Além disso, o bom cliente de gastronomia dá valor à qualidade, à origem do produto e ao atendimento. Mas normalmente é bem informado e não abre mão do preço justo. É uma linha tênue. Por isso, a equipe precisa conhecer profundamente o seu produto e saber vender paixão. Comer e beber bem é um ato de indulgência. Com raríssimas exceções, nossos clientes são essencialmente pessoas que querem experimentar algo diferente e ser felizes. É uma compra por alegria e não por necessidade. Isso é o que dá mais prazer em ter um negócio como a Rua do Alecrim.

Qual o futuro do Brasil?
Pensar no futuro do Brasil não anima muito, para falar a verdade. Ao mesmo tempo em que me sinto muito preocupada com uma nova onda conservadora e de coação às nossas liberdades, não está muito claro se o País pretende realmente abraçar a causa do empreendedorismo e adotar uma agenda mais amigável ao investimento privado e ao livre mercado. Como empresária da gastronomia, acho que a melhor contribuição é ajudar no desenvolvimento dos produtores de origem, artesanais e orgânicos. O mundo está passando por uma revisão importante na forma como lida com a agricultura familiar e com a relação da alimentação com a vida em comunidade. O Brasil não pode ficar fora disso.

Conheça mais:
Rua do Alecrim Azeites e Gastronomia
Rua Normandia, 12 – Moema – São Paulo
eCommerce: www.ruadoalecrim.com.br e www.farinhasitalianas.com.br
Insta: @ruadoalecrim e @farinhasitalianas

 

Você seria recontratado para a sua função atual? Cinco automatizações para sempre responder sim para esta questão!

28 de setembro de 2018

Imagine uma situação hipotética caso esteja empregado atualmente e venha atendendo, pelo menos satisfatoriamente, as expectativas da organização: Considerando que ninguém o conhecesse na empresa, você seria contratado para exercer sua função atual? Você seria o profissional para não só fazer o que faz atualmente, mas contribuir com que a empresa consiga superar os grandes desafios que enfrentará nos próximos anos?

Se tiver plena certeza que seria contratado, quais são os principais desafios que as empresas do ramo em que atua estão enfrentando atualmente? Quais são as grandes disrupções que tornarão não só a sua empresa, mas também a sua função obsoleta? O que vem sendo exigido dos candidatos que concorrem a vagas semelhantes a sua? O que está acontecendo na sua empresa e nas outras do seu mercado que deveria saber? E se puder responder mais uma última questão: quais são os negócios mais inovadores do mundo no setor ou função que atua?

Manter-se atualizado é um desafio de qualquer profissional em qualquer área, função ou nível hierárquico, mas pode ser mais simples do que muitos imaginam se programar cinco automatizações.

Primeiro: passe a seguir no Linkedin todos os principais executivos das principais empresas do seu setor no Brasil e no mundo. É algo muito rápido, simples e passará a receber atualizações profissionais de postagens, shares e likes de quem pensa estrategicamente o mercado em que atua.

Segundo: domine o Google Alertas. Crie alertas com palavras-chave que descrevam a sua função e associe com outros termos como vaga, emprego, candidato, etc. Esta ferramenta do Google enviará uma mensagem para você sempre que algo novo com estes termos aparecer na web. Assim, também aprenda a utilizar os recursos combinatórios utilizando “e” (and) e “ou” (or), por exemplo. Neste caso, sempre poderá estar atento sobre as competências, habilidades e atitudes que as empresas estão buscando para preencher vagas como a sua. Também pesquise se a sua função evoluiu e aparece com outros termos. Crie outro alerta com os nomes das empresas concorrentes. Depois crie mais um alerta com termos que definem o seu mercado (tanto em português como em inglês) com os termos startup e milhões (e million, em inglês). Este alerta começará a trazer notícias de startups da sua área que estão recebendo investimento de “milhões” de reais ou dólares. Ficará impressionado com a quantidade de startups inovadoras que estão sendo investidas ao redor do mundo. Neste caso, é uma oportunidade para conhecer quais são as principais inovações disruptivas do seu mercado ou função.

Terceiro: newsletter é quase algo pré-histórico na internet, mas todas as principais publicações ainda oferecem este recurso. Defina quais são as três, quatro ou cinco publicações mais importantes do seu setor ou função, assine suas newsletter e tome o cuidado para que não caia na sua lista de mensagens não solicitadas na caixa de e-mails. Assine newsletters de eventos e cursos relevantes também. De vez em quando, aparecem boas oportunidades que você não deveria perder!

Quarto: descubra e participe de um ou dois grupos de Whatsapp ou Telegram que são os mais importantes da sua empresa, mercado ou função, deixando-os no silencioso. Há muita coisa inútil, mas é importante zapear de vez em quando para ter uma noção sobre o que está acontecendo. Também verifique se o aplicativo Blind (www.teamblind.com) já está sendo utilizado na sua empresa. É uma espécie de rádio peão anônima.

Quinta: por fim, aprenda, de uma vez por todas, a utilizar o aplicativo Flipboard (www.flipboard.com). É uma das formas mais agradáveis e práticas para se manter informado sobre seus temas preferidos e visualizar informações de outras fontes que utiliza com frequência.

Marcelo Nakagawa é Professor de Inovação e Empreendedorismo do Insper.

 

Minha veneração aos que empreenderam o empreendedorismo no Brasil

31 de agosto de 2018

Ainda no século passado, minhas primeiras transparências sobre empreendedorismo explicavam o que era isso. Era preciso citar Richard Cantillon, Jean-Baptiste Say até chegar ao pai do empreendedorismo moderno, Joseph Schumpeter e seu conceito de destruição criativa e o papel da inovação na evolução de negócios e da sociedade. Curiosamente, o termo empreendedorismo só entrou em boa parte dos dicionários brasileiros depois. Em um dos livros de Peter Drucker, entrepreneurship foi traduzido como “empresarização”.

Mas décadas depois, se o empreendedorismo se tornou tema comum em muitas rodas de conversa entre os brasileiros, isto se deve a muitos pioneiros que ficaram falando sozinhos durante muito tempo, pregando o evangelho no meio de um deserto de interessados.

Quem viveu a década de 1980, sabe porque este período é chamado de Década Perdida. Crise do Petróleo, estagnação econômica e inflação crescente. Foi Cruzado, Cruzado 2, Bresser e Verão. Talvez uma das poucas boas lembranças desta época tenha sido a Seleção Brasileira de 1982, de Valdir Perez, Leandro, Oscar, Luizinho e Junior- que mesmo assim, também perdeu. É neste período que devemos agradecer o trabalho de três malucos que fincaram as primeiras bases do empreendedorismo como o conhecemos atualmente. Em 1980, o Professor Ronald Degen criou a primeira disciplina de criação de novos negócios na FGV. Naquele momento, a ideia não era ruim, era insana e assim permaneceu por mais de 14 anos até a chegada do Plano Real, quando empreender um negócio próprio começou a se tornar não apenas viável como também algo desejado entre os alunos. No ano seguinte, em 1981, Clovis Meurer, outro pioneiro mais maluco ainda, fundou a CRP, a mais antiga operação de venture capital do Brasil. Se atualmente os VCs são venerados, naquele momento quase nenhuma empresa nascente prosperava, mesmo que vendesse abajures cor de carne. Mas Meurer se tornou o grande e querido pai do capital de risco brasileiro.

E se agora estamos vivenciando a era das startups, é preciso dar os créditos iniciais ao Professor Sylvio Rosa. Em 1984, ele liderou a fundação do ParqTec em São Carlos, a primeira incubadora de negócios de base tecnológica do Brasil. Pela primeira vez, alunos, recém-formados, professores e pesquisadores poderiam transformar suas pesquisas e tecnologias em soluções para o mercado.

A “década” perdida não acaba e avança até 1994, quando o País ganha estabilidade econômica. No que restou da década 1990, outras bases foram construídas. Em 1996, o Professor Silvio Meira com outros colegas da Universidade Federal de Pernambuco fundam o Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (CESAR). O CESAR é um dos melhores exemplos mundiais sobre como o empreendedorismo pode mudar uma região ao criar um polo de inovação como o Porto Digital em uma região degradada. O apoio ao empreendedorismo de alta tecnologia também ganha mais uma frente quando, em 1997, sob a liderança do Professor José Fernando Perez, a FAPESP lança o PIPE, o mais antigo e perene programa de capital semente do País. Na mesma época, outro professor, Fernando Dolabela começa a disseminar cursos de empreendedorismo em todo o País, culminando com o livro O Segredo de Luísa, um dos mais importantes best-sellers dos vinte últimos anos, lançado em 1999.

Na virada do século, três pioneiros começam a abrir novas frentes do empreendedorismo. Em 1999, Bob Wollheim assume a Starmedia no Brasil e desde então ele se reinventa a cada três ou quatro anos, empreendendo negócios e inovações diferentes. Um inquieto otimista criativo, Bob representa uma nova geração de empreendedores seriais que surgia no Brasil. Naquele mesmo momento, Marilia Rocca planejava algo que iria mudar definitivamente o jeito de empreender no País. Lançado em 2000, a Endeavor Brasil começou a transmutar empresários em empreendedores e empreendedores em exemplos a serem seguidos, replicados e multiplicados.

E termino a minha lista de pessoas que venero, não pela falta de exemplos, mas pelo tamanho do texto, com uma grande saudade do amigo Eduardo Bom Angelo. Mais do que presidente de grandes empresas, Bom Angelo foi um dos primeiros CEOs do País a incentivar o empreendedorismo e a inovação dentro das organizações. Seu livro, Empreendedor corporativo: a nova postura de quem faz a diferença, lançado em 2003, não é apenas atual, é cada vez mais imprescindível para o momento vivido atualmente pelas corporações.

E justamente agora que vemos tantos, mas tantos empreendedores de palco, é preciso também agradecer quem ajudou a construí-lo. Muito obrigado!

Marcelo Nakagawa é Professor de Inovação e Empreendedorismo do Insper.

 

Burger com sotaque italiano

20 de agosto de 2018

Esta é a história de Massimiliano Galise, o Max, italiano aventureiro que chegou ao Brasil em 2006, atrás do amor da vida, Luciana. Quando apareceu a oportunidade de empreender, decidiu realizar um antigo sonho familiar e, no começo do ano, abriu as portas do Galise Burger, no bairro Paraíso. Com estilo slow food, ele mesmo comanda a cozinha todos os dias, cuidando de cada detalhe, do compromisso “ultrafresh” e, claro, influência de sua família italiana nas receitas.

Aqui ele nos conta a sua jornada de vida e de empreendedor. “Os italianos são românticos e dramáticos ao mesmo tempo. Quero me despedir deste mundo cozinhando, como dizia aquela minha tia-avó napolitana que cozinhava tão bem e que tinha passado fome durante as duas grandes guerras. Se eu morrer, vou morrer cozinhando. Mas, antes disso, tenho caminho pela frente.”

Qual é sua história?
Sou nascido, criado e crescido na Itália até a tenra idade de 32 anos. Venho de um povoado de 17 mil pessoas, Saluzzo, no noroeste da Itália, no meio dos Alpes, bem na divisa com a França. Praticava muito alpinismo nos arredores do meu povoadinho. Montanhas, natureza… Em 2005 fui à Bolívia escalar um vulcão de 6 mil metros e lá conheci minha mulher, Luciana, que é brasileira.

Foi amor à primeira vista?
Bom…posso dizer que rapidamente voltei para a Itália para arrumar as malas e vender tudo porque depois daquele encontro tinha que seguir a Luciana! Hoje nossas filhas Teodora e Carmela tem 9 e 7 anos. Estou muito feliz…só me faltam os Alpes.

E a chegada ao Brasil?
Fiz de tudo nestes 12 anos de Brasil. Por exemplo, fui taxista por três anos, nesta cidade um milhão de vezes maior que a minha. Experiência boa e inesquecível. Um dia vou escrever um livro destas aventuras.

Desde quando você tem interesse pela gastronomia?
A minha família italiana (no caso eu, Mamma e Papá) não tinha incríveis condições econômicas. Não chorávamos, mas nunca fomos ricos. E sempre fizemos o que tinha que se fazer para “tirare avanti”, para irmos em frente de forma mais que digna. O sonho dos meus pais era, um dia, antes de morrer, abrir um pequeno restaurante. Os italianos são românticos e dramáticos ao mesmo tempo: antes de morrer… eu queria ter um restaurante e realizar este sonho da família. O restaurante tinha que ter 11 mesas, um número recorrente na cabalística de casa. E em casa cozinhávamos sempre. Sempre. Meu pai, minha mãe, eu. Viajávamos para o sul (o meu pai era de Pompei) e lá também todos cozinhavam e comiam. Existe um percurso culinário para ser desvendado na Itália, do norte ao sul. Sabores, temperos, mesclas, jeitos diferentes de preparar o mesmo prato que mudam em poucos quilômetros. E eu, desde criança, sempre em uma cozinha, entre norte e sul, querendo ajudar, querendo fazer…ou simplesmente roubando um gnocchi que tinha acabado de ser feito ou dando uma escapada na horta do tio para roubar um tomate direto do pé…E com aquela mordida,  descobrindo sabores maravilhosos. Não existia “não gosto disso ou daquilo”. Comia de tudo.

Quando apareceu o momento de empreender?
Bom, infelizmente em 11 de abril de 2011 minha mãe faleceu. Poucos anos depois o meu pai se juntou a ela. Era um dia 11 também. Como único filho herdei uma casa na Itália. Vendi a casa e decidi realizar o sonho dos meus pais: abrir o tal do restaurante de 11 mesas. Galise Burger é, portanto, o resultado do dinheiro que herdei, junto a vontade de investir o mesmo em algo que tivesse o sobrenome da família e que vingasse aquele sonho que meus pais não realizaram. O slogan da casa é “cucinando tutta la vita”, cozinhando a vida inteira.

Por que uma hamburgueria e não um restaurante mais italiano?
Apesar de uma vida de intensa prática em cozinhas caseiras, achei que não tinha suficiente experiência para abrir um restaurante, sabe…tipo de culinária italiana. E não tinha muuuito dinheiro para investir. Muitos pensam em burger como algo simples e básico. Talvez por alguns momentos também pensei isso, pelo menos antes de abrir. Creio sim que acreditei um pouco nisso. Hoje julgo o meu burger como algo que não faz parte da mesmice de muitos, e que porta a marca dos tempos e dos conhecimentos de vida e de viagens que fiz pela Itália e pelo mundo. O fato de procurar produtos orgânicos, de nunca congelar a carne que uso e de trabalhar exclusivamente com produtos de primeira, complica as coisas, ainda mais para quem abre pela primeira vez ao público e faz questão de estar na cozinha, na sala e no escritório da contadora. Tudo ao mesmo tempo, claro. Uma logística que poucos conseguem entrelaçar. Estou no começo: sete meses de porta aberta.

Como é a vida de um empreendedor?
O lado primata do empreendedor está no coração, claro, mas creio que esteja evoluindo conforme vejo crescer o meu espaço. Digamos que estamos caminhando de mãos dadas. Claro que não inventei o Galise sem pensar e sem ter convicção do produto que queria criar. Foi como um coquetel de ideias, sonhos, oportunidade e um pouco de loucura. Não escondo que o momento do Brasil, a casa muito nova e a primeira viagem no setor deixa tudo um pouco mais complicado: falo da minha vida  que mudou e também  do perfil econômico do negócio. Mas de verdade, penso que é isso que quero fazer até talvez um dia me aposentar..ou até morrer (rsrs).
Nestes dias, com a casa muito cheia e os pedidos que não paravam de chegar na minha cozinha, vivi um sentimento que talvez não saiba explicar: queria uma trégua, só um instante! Para tudo que estou me perdendo aqui! Mas ao mesmo tempo uma voz falasse assim “está tudo sob controle, você manda bem pra caramba, olha que linda a apresentação deste burger, já já acabam estes pedidos e você vai dar uma volta no salão, perguntando para os clientes se estão satisfeitos.” E eu adoro esta voltinha no salão, vendo as cabeças se mexendo em sinal de aprovação antes de eu perguntar qualquer coisa. Acho que é indispensável um pouco de loucura ou insensatez lógica e controlada para trabalhar na cozinha de um restaurante. Pelo menos é necessário ter a vozinha que fala com você mesmo. Como disse, os horários mudaram, e quando não estou cozinhando, penso. Penso nas novas receitas e (trabalho com um cardápio enxuto e que muda a cada 15 dias) nas possibilidades de modificar o espaço atendendo novas exigências que surgiram depois do primeiro semestre, e claro, nas finanças do empreendimento. A parte que gosto menos. Se você anda comigo na rua, eu estou sempre com pressa, vejo produtos novos, imagino, crio, não te escuto enquanto você fala de futebol e agora que percebo, estou a 10 metros pra frente de você. Os amigos se acostumaram. Acho. E gostam de como descrevo um prato que poderia ser feito por exemplo com aquela abóbora. Aliás, deixe eu anotar “abóbora” como um ingrediente de um futuro burger.

Como é a relação da família no empreendimento?
Inevitavelmente a família está envolvida: os meus horários malucos são o primeiro aspecto que mais revolucionaram a nossa rotina. As minhas filhas enlouquecem me vendo numa cozinha como profissional, e claro, queriam ajudar todas as vezes que jantam no Galise. Talvez sintam falta de cozinhar comigo, em casa, de domingo, assim como acontecia antes de abrir, quando juntos preparávamos gnocchi. Eu e minha mulher nos complementamos. Eu sou o sonhador, o impulsivo, aquele que não para. A Luciana é a parte lógica, o lado responsável do negócio. Eu me vejo hoje em uma deliciosa posição no ranking do Trip Advisor (8° lugar entre todos os restaurantes com 5* de SP) e quero subir mais e mais e mais… Ela fica mais de olho nas contas, ainda bem! De alguma forma, agradeço as minhas três mulheres pela paciência comigo!

Quais são os planos de futuro do negócio?
Para ser honesto, depois de sete meses de abertura, preciso recuperar o meu capital investido. Depois disso vou focar em um futuro mais longe. Não quero mais Galises. Talvez pense sim em um Galise com um espaço maior do que o atual, mas não estou pensando em franquias. Este negócio pertence a um sonho. E quero que permaneça, de alguma forma, ligado àquele sonho primordial. Mas poderia pensar em outra linha de produto. Um outro restaurante. Sei que tenho muitas coisas pra dizer e fazer para que as pessoas provem uma verdadeira cozinha italiana. Eu não frequento restaurantes italianos de São Paulo. Me perdoem, mas para um italiano o melhor restaurante é a casa da mamãe.

Se pudesse dar uma dica aos empreendedores que estão iniciando, qual seria?
Siga os sonhos, seja ousado, saia da mesmice, não crie um produto que já existe, seja único, e tenha ao seu lado alguém que te ama….e que de vez em quando te traz a realidade daquele boleto que está quase para vencer rsrsrs. Precisamos dos dois lados (o prático e o genial) para ter sucesso. Tenho certeza disso, e tenho certeza que preciso daquela minha Luciana pra me trazer, muitas vezes, de volta pro chão. E tenham respeito e paciência com a equipe: somos nós os malucos. Eles ajudam a realizar o que temos na cabeça e no coração. Se alguém um dia tem a receita para criar o dia de 28 horas eu topo uma sociedade para fazermos juntos. A todo sabor.

Qual o futuro do Brasil?
Venho de um país que viveu duas guerras mundiais (e não se saiu bem em nenhuma das duas) e que sempre acreditou na política do “ir pra frente”. “Avanti c’é posto” dizia meu pai: lá na frente sempre tem lugar. Mesmo que a situação econômica atual não seja a mesma da época de quando cheguei aqui, estou confiante no futuro do Brasil. Há muita coisa para ser criada e com certeza os jovens empreendedores podem ter muitas coisas para falar, demonstrando a criatividade, a força de vontade e muita atitude naquilo que criam. Os políticos deveriam ser cozinheiros, criando sempre algo de gostoso e que todos possam saborear, não? Se cada um se colocar como exemplo de renovação e criação de coisas boas e novas, o futuro estará se abrindo como uma flor de abobrinha. Aliás, boa ideia esta flor, para o meu burger vegetariano.

Serviço
Galise Burger
Fone: (11) 2372-0735
Rua Carlos Steinen 270, Paraíso, SP
Instagram: galise.galise
Facebook: Galiseburger

Ivan Primo Bornes (ivan@pastificioprimo.com.br) – empreendedor e fundador da rede de rotisserias Pastificio Primo (www.pastificioprimo.com.br).

Nem sempre a solução é o Franchising

8 de agosto de 2018

Eu diria que, 80% das consultas que recebo têm por objetivo comprar uma franquia ou montar uma franqueadora, como opção de investimento ou expansão de negócios. A atração pela ideia de Franchising está vinculada à ideia de que franquia soluciona problemas, quase como garantia de sucesso e, na dúvida sobre o que e como fazer, vamos de Franchising.

Coincidência, ou não, no último mês tratei do assunto com sete profissionais, executivos recém desligados das empresas e empresários que, depois de muito pensar, optaram pelo sistema que traz, de forma geral, números mais positivos que o PIB e outras métricas da economia.

Na insegurança da não recolocação, os executivos pensam em empreender, muitas vezes sem nunca ter pensado nisso antes e a compra de uma franquia surge como uma boia salva vidas. E a angústia vem com a quantidade de opções de negócios, com investimentos que vão de R$ 5.000 a milhões de reais, tipos e portes de empresas nos quais eles não se enxergam e não fazem ideia de por onde começar. É quando nos conhecemos.

O processo de análise desses executivos, pessoas com larga experiência profissional, tem que ser profundo, abrangente e, acima de tudo, muito responsável, porque, neste momento, o mais fácil é indicar uma franquia no setor que eles têm maior conhecimento e dentro do valor que têm para investir. #sqn! São estes os futuros franqueados que não dão certo, que se frustram, enlouquecem seus franqueadores e, no mais das vezes, fecham as portas de suas franquias.

A minha forma de ver e conduzir este processo, traz várias técnicas e práticas de mercado mas, conhecer todos os aspectos que envolvem o Sistema de Franchising, os envolvidos, o que pode significar para aquela pessoa à minha frente que está acostumada a ter uma estrutura empresarial, um crachá, o sobrenome corporativo, o ônus e o bônus de estar empregado, ter metas e contas a prestar a um superior, a mudança de ir para um PDV sozinho, abrir a porta e esperar poucos funcionários e alguns clientes chegar, sentindo-se uma ilha no meio de um corredor de shopping center e, mais isolado ainda, em uma rua comercial onde ninguém é de ninguém, não sabem que ele existe, como se chama e ele nem tem mais um crachá com seu nome e foto para fácil identificação.

Seu maior patrimônio é seu network e eles não lembram disso nem como usá-lo profissionalmente. Nestas horas serve só para marcar com os mais próximos, para desabafar.

No nosso trabalho, dos últimos 30 dias, três deles já se resolveram com o conhecimento que têm de mercado e que vai agregar demais em empresas que precisam de profissionais como eles. Um deles entrou empreendendo, outro se recolocou e o terceiro se tornou um credenciado. Nenhum deles precisou usar o capital reservado para investir. O quarto executivo está com duas opções de empresas para trabalhar e a forma de contratá-lo está sendo estudada por todos. Em breve ele vai escolher o que mais lhe agrada e atende suas expectativas e necessidade para viver, confortavelmente.

O que valeu nestes processos foi o olho no olho em nossas conversas, a fragilidade demonstrada e minha “gana” em acertar a melhor proposta, feita sob medida a cada um deles. Somado ao meu network, entender que cada um é único e há oportunidades para todos, que podemos ser o elo de uma corrente, que se abriu e precisa de uma ferramenta para unir novos elos que vão escolher fazer uma nova corrente.

No caso das empresas, os Planejamentos Estratégicos que desenvolvi, mostraram que a estrutura de duas delas, poderia escalar tendo as Franqueadoras como clientes delas e não definindo franquias como canal de vendas ou abertura de negócios. E, ontem, quando fiz a entrega de um dos projetos, o olhar de surpresa e os comentários de alívio, de “como não pensei nisso antes”, me fazem ter, cada vez mais, a certeza da responsabilidade que, nós, consultores de empresas, temos com as pessoas, com suas vidas e isto é muito mais que planilhas, CTR C / CTR V que tanto vejo, promessas mirabolantes, que o amor que tenho pelo que faço, me estimula a elaboração de projetos autorais únicos, de sucesso e clientes se tornam amigos, pra vida inteira. A cada mudança, estamos juntos novamente.

Ah! Não falei do 7º case, ainda não terminei, é uma startup que, do jeito que vinha estava mais para uma ONG, pois há uma preocupação social muito grande, mas precisamos fazer a engrenagem funcionar e faturamento conta nestas horas.

O idealismo não pode abafar a máquina e o capitalismo não pode destruir o ideal daqueles jovens. E, de novo, vamos criar uma franquia…Nada disso, vamos criar uma empresa sustentável e depois, daqui uns dois anos, decidiremos. Se é que eles vão aguentar esperar até lá, se um fundo de investimentos já não tiver comprado a startup. Falar em dois anos hoje, parece que estamos falando em dois séculos.

Vale, então, a reflexão: por melhor estratégia que seja para muitos e eu seja especialista no sistema, nem tudo é Franchising, sempre.

Ana Vecchi é professora e pedagoga pela PUC-São Paulo, com especializações em administração de marketing pela Fundação Getúlio Vargas (SP), planejamento estratégico de marketing pela ESPM e MBA em varejo e franquias FIA/PROVAR. É professora universitária, instrutora e palestrante em associações e universidades. Co-autora do livro A Nova Era do Franchising.

Porque tantas empresas internacionais estão indo embora do Brasil?

25 de junho de 2018

Porque tantas empresas internacionais estão indo embora do Brasil?

Há um ditado que afirma “ser empresário, no Brasil, não é para amadores”.

Algumas notícias recentes na mídia, de empresas internacionais encerrando operações no Brasil, me fazem pensar que o Brasil pode ser bastante cruel com os empresários profissionais também. Empresas de sucesso internacional tem tido dificuldades para se manter no jogo verde e amarelo.

Os sobreviventes – tanto empresas nacionais quanto internacionais – podem se considerar acima de média e sortudos – e realmente o são -  mas a dificuldade de prosperar no mercado brasileiro provoca algumas perguntas necessárias:

- Afinal, porque o Brasil é tão difícil?
- Será que no exterior, e com o mesmo esforço, a mesma empresa prosperaria mais e melhor?
- Quanto custa, no médio e longo prazo, ser um mercado difícil, complexo e instável?

Não tenho as respostas, mas quero acreditar que começar a fazer as perguntas pode fazer a gente a pensar em alguma solução.

É uma história conhecida que os executivos brasileiros são muito valorizados no exterior por causa da grande capacidade de adaptação e a trazer resultados mesmo em ambientes hostis. Isso diz muito de como o Brasil é hoje.

Cada vez que uma empresa fecha no Brasil, não são apenas os empregos que são perdidos, mas todo um giro da economia, aprendizado, os melhores profissionais migram, os que ficam precisam recomeçar.

Preparei uma lista de algumas destas noticias da midia:

Häagen-Dazs, junho de 2018 - a famosa marca de sorvetes comunica fechamento das oito lojas próprias
WalMart, junho de 2018 – vende 80% da operação no Brasil
Lush, maio de 2018 – a marca inglesa de cosméticos naturais encerra no Brasil e queima estoque
FNAC, julho de 2017 – vende para a Livraria Cultura. Recentemente a Cultura comunica o fechamento da icônica FNAC de Pinheiros
Garrett Popcorn, junho de 2017 – com menos de um ano de funcionamento, a rede de pipocas americana fechou as 2 lojas no Aeroporto de Guarulhos
Kirin, fevereiro de 2017 – a japonesa vende as operações no Brasil para a Heineken
Citibank, outubro de 2016 – o Citi é comprado pelo Itaú
HSBC, julho de 2016 – banco inglês vende toda a operação ao Bradesco
Cacao Sampaka, março de 2016 – a marca espanhola de chocolates fecha loja e vende tudo
Ladurée, março de 2016 – a famosa confeitaria francesa culpa a crise e fecha única loja no Brasil

E a lista vai e vai.

Sem dúvida a crise que passamos nos últimos anos deve ter sido um dos motivos finais, mas não acredito que seja o único. As grandes empresas sabem que as crises são passageiras, e dificilmente abandonam investimentos que foram criados com planejamento de longo prazo. Penso que, em algum momento, este pessoal se deu conta: o Brasil não é fácil, cuidado!

Ivan Primo Bornes (ivan@pastificioprimo.com.br) é empreendedor e fundador da rede de rotisserias Pastificio Primo (pastificioprimo.com.br)

Sobre pavões, papagaios e maritacas: Os foolturists e a Taxonomia de Bloom

4 de junho de 2018

- Fiz um curso incrível de futurismo… – diz o especialista, que explica que está criando um negócio que vai revolucionar a educação.

- OK. O que você aprendeu no curso? – pergunto.

- Um monte de coisas incríveis que vão revolucionar a sociedade… – responde.

- Como por exemplo? – pergunto novamente.

- O bitcoin! As criptomoedas são incríveis… – responde o tal empreendedor.

- OK… Então me fale mais sobre como imagina que será o impacto do blockchain… – questiono.

- Não, estou falando das criptomoedas…

- OK… então me fale da relação do blockchain com as criptomoedas – pergunto, já desanimado, pois o bitcoin é uma aplicação, talvez a mais conhecida, de blockchain.

- Poxa, você é um daqueles que não acreditam que as criptomoedas, que isto é uma fraude, não é? – questiona o revolucionário.

- Não é isso, eu só queria entender o que realmente aprendeu neste tal curso de futurismo… – respondo, já finalizando o bate-papo.

Futurista é uma destas novíssimas profissões ou funções que têm um papel importantíssimo em compreender para onde ruma a humanidade diante de tantas mudanças drásticas e rupturas nas inércias em que vivemos há mais de um século. A função em si não é nova, já que economistas executam este papel há muito tempo e organizações como a Rand Corporation foram criadas com essa finalidade ainda na década de 1940, após as intensas transformações trazidas pela 2ª Guerra Mundial. Mas em 2016, durante o World Economic Forum, em que a 4ª Revolução Industrial entrou definitivamente na agenda dos principais líderes públicos e empresariais, Marc Benioff, fundador e CEO da Salesforce, deu um dos principais conselhos do evento: “Todo país precisa de um Ministro do Futuro”.

E isso também é válido para organizações. Este futurista precisa não apenas recordar os conceitos, mas entendê-los profundamente, aplicá-los na prática, analisar seus efeitos, avaliar seus resultados e, principalmente, contribuir na criação deste novo futuro. Neste contexto, o futurista é mais próximo do sismologista que atua em parceria com o engenheiro civil no desenvolvimento de construções mais aptas a enfrentar terremotos. E mesmo atuando de forma tão minuciosa e científica, os sismologistas se sentem uma fraude quando não conseguem prever tsunamis ou outro desastre natural.

No momento em que se proliferam tantos autodeclarados especialistas destas novíssimas funções nas redes sociais e eventos, é cada vez mais difícil perceber quem é fraude e quem tem certeza de que sabe realmente o que está dizendo ou fazendo.

É neste momento que a Taxonomia de Bloom, organizada inicialmente pela equipe de educadores liderados pelo psicólogo Benjamin Bloom no final da década de 1940, pode ser útil para você priorizar seu investimento de tempo (e dinheiro) em pessoas que são realmente capazes de orientá-lo(a) na invenção do seu futuro. Nesta abordagem, a compreensão do aprendizado passa por domínios hierárquicos sobre a habilidade da pessoa a respeito de um assunto, do mais básico, que é apenas recordar e repetir o que “aprendeu” ao nível mais elevado, na versão original, que era avaliar seu “aprendizado”, recomendando ações. Posteriormente, os discípulos de Bloom, Lorin Anderson e David Krathwohl, revisaram a taxonomia, e incluíram um nível mais elevado, o de criar, inventar algo a partir do aprendizado.

Mesmo que a hierarquia de aprendizado possa ser questionada, ainda assim é importante avaliar – neste momento em que se proliferam tantos inovadores, futuristas ou disruptores – quem é pavão, que entende e até avança nos domínios de Bloom, mas se gaba por isso abrindo um rabo de penas coloridas que encantam plateias, de quem é papagaio, que só fica repetindo o que leu ou viu em algum evento, vídeo ou curso de curta duração. Em especial, fuja das maritacas, que fazem um barulho ensurdecedor sem nenhum embasamento epistemológico. Estes “foolturists” deveriam atrair apenas os 3Fs, termo utilizado nos Estados Unidos para designar family, friends and fools (tolos).

E de todos os que podem ser considerados especialistas, os melhores são os que se acham uma fraude. Mesmo sendo graduado em computação e física e PhD em ciência da computação pela Universidade de Utah, Ed Catmull afirma em seu livro que só por volta dos 60 anos conseguiu lidar com a insegurança em achar que era uma fraude. Quando mais você aprende, mais sabe que não sabe muitas coisas. E isto pode aumentar o medo do fracasso ou se libertá-lo para entender que não tem ou terá todas as respostas. E saber o que não sabe é só uma grande oportunidade de continuar aprendendo.

Quando ele conta essa passagem para os colaboradores da sua empresa, pergunta: “Quantos de vocês sentem que são uma fraude?” Todos na Pixar, a empresa que Catmull co-fundou e é presidente até hoje, levantam a mão!

Marcelo Nakagawa é Professor de Inovação do Insper, FIA, Fundação Vanzolini e Instituto Butantan.