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Blog do Empreendedor
O cotidiano de empreendedores como você
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Mensagem para uma sociedade que tem pressa, mas não sabe onde ir

29 de dezembro de 2017

Quem eu sou neste mundo? É um grande quebra-cabeça. Eu sabia quem eu era quando acordei nesta manhã, mas eu acho que mudei tantas vezes desde então. Quão confuso são todas estas mudanças para mim. Eu nunca tenho certeza o que serei de um minuto para outro.

Eu poderia contar as minhas aventuras, mas não há utilidade em voltar ao passado porque eu era uma pessoa diferente. Por isso, eu estou sempre atrasado pensando no futuro. Mas quando mais rápido eu vou, mais para trás eu fico.

Receio que eu não consiga me entender mais, porque eu não sou mais eu, se é que me entende. Sei que não sou o mesmo que era antes. Eu era muito mais. Mas perdi um pouco deste muito mais.

Perguntam-me para onde vou com tanta pressa. Pergunto de volta sobre qual caminho deveria seguir. Depende de onde quer chegar é a resposta. Digo que não sei. Então tanto faz o caminho que devo seguir é o conselho que recebo.

Sei no que está pensando. Mas não é isso, de maneira alguma. Ao contrário. Se era assim, podia ser; e se fosse assim, seria; mas como não é, não é. Isto é lógico.

Desta forma, neste mundo sem sentido, o que nos impede de inventarmos um? A imaginação é a única arma na guerra contra esta realidade.

Mas antes é preciso seguir uma regra: Pessoas que não pensam, não deveriam se pronunciar! As coisas que as pessoas mais querem saber, em geral, não tem nada a ver com suas vidas. Se começar a acreditar em tudo que aparecer, seus músculos de crença da sua mente se cansarão e você estará tão cansado que não terá forças para acreditar nas coisas verdadeiras mais simples. Se cada um cuidasse da sua própria vida, o mundo giraria mais rápido.

Por isso, comece a ler a instruções que a vida lhe dá e, imediatamente, será direcionado para a direção certa. A primeira é: um dos segredos mais profundos da vida é que tudo que vale mesmo a pena fazer é o que fazemos para os outros.

Em seguida, seja o que você parece ser. Ou se quiser algo mais simples: Nunca imagine a si mesmo não sendo algo que deveria parecer ser para os outros que era o que você era ou deveria ter sido, que não deveria ser diferente do que você vinha aparentando para eles de qualquer forma. Desta forma, você deve falar sempre o que quer dizer. Fale a verdade, pense antes de falar e anote-a depois.

Sabendo o caminho, entenderá a pressa. Pois aqui, como vê, você tem de correr o mais que pode para continuar no mesmo lugar. Se quiser ir a alguma outra parte, tem de correr no mínimo duas vezes mais rápido!

Acha que fiquei maluco? Acho que sim. Mas deixe me dizer algo: As melhores pessoas geralmente são. Mas neste caso, eu não sou estranho, esquisito, distante e nem mesmo louco. Apenas a minha realidade é diferente da sua. Mas se limitar suas ações na vida para algo que ninguém possa ver algum fracasso, você não terá vivido muito.

Ah… mais uma coisa: Eu geralmente me dou bons conselhos, mas raramente os sigo. Mas se você acreditar em mim, eu acreditarei em você! Combinado?

Tudo é divertido se puder rir disso. E sempre é hora do chá!

Todas as frases apresentadas acima foram escritas por Charles Lutwidge Dodgson entre 1862 e 1871 e aparecem em dois dos seus livros publicados ainda no Século XIX, na Inglaterra. Aqui elas foram reorganizadas, atualizadas e interconectadas em um novo texto. Por diversas razões, inclusive a de perder a sua própria cabeça, Dodgson utilizou o pseudônimo Lewis Carroll para publicar “Aventuras de Alice no País das Maravilhas” e “Através do espelho e o que Alice encontrou por lá” (Editora Zahar, 2013).

Além de escritor, professor, matemático, fotógrafo, desenhista e exercer atividades religiosas, Lewis Carroll foi um inovador criando aparatos para escrever no escuro durante a noite, técnicas de criptografia e até jogos que depois passaram a ser conhecidos como palavras-cruzadas e o Scrabble. Mas sua maior inovação foi Alice no País das Maravilhas e sua continuação Através do Espelho. Além do texto em si, estes livros são repletos de surpresas escondidas, várias delas matemáticas, que atualmente as startups chamam de easter eggs. As edições originais só não trouxeram mais inovações visuais como a página impressa invertida (para ser lida no espelho) porque eram inviáveis técnica ou economicamente.

Curiosamente, o primeiro livro de Alice também seguiu a trajetória do que hoje é vivenciada pelas startups. Carroll criou uma estória que contou para os filhos de um amigo. Este foi seu primeiro produto mínimo viável (MVP). Diante da aceitação, foi incentivado a colocá-la no papel. Fez um rascunho (um novo MVP), incluindo alguns desenhos e enviou para outro amigo, editor de livros, que contou a estória para seus filhos. Diante do novo sucesso e retornos que teve das várias crianças que ouviram a estória, refez a estória (e os desenhos) diversas vezes até chegar ao texto final.

Sabia que o livro precisa ser ilustrado diante de tantos conceitos imaginários e fantásticos e foi atrás de John Tenniel, o melhor desenhista da Inglaterra naquele momento para criar uma experiência de leitura incrível. Quando chegou ao mercado em 1865, Aventuras de Alice no País das Maravilhas foi um sucesso arrebatador, vendendo mais de um milhão de cópias rapidamente em todo o mundo.

Mais de 150 anos depois, não são apenas as inovações de Lewis Carroll que continuam atuais, mas as mensagens dos seus livros se mantêm imprescindíveis em uma sociedade que tem pressa, mas não sabe para onde ir.

Marcelo Nakagawa é Professor de Inovação e Empreendedorismo do Insper

O empreendedor global

13 de novembro de 2017

De hoje a domingo, 35 mil eventos em 165 países comemoram a Semana Global do Empreendedorismo, a maior celebração mundial dos inovadores e criadores de emprego. A abertura estará a cargo do empreendedor serial sir Richard Branson.

Mais do que a grande mobilização em torno do tema, esta Semana do Empreendedor chama a atenção pela importância que assumiram aqueles que iniciam negócios, mesmo em países em conflito ou em crise.

O empreendedorismo é vibrante mesmo em regiões onde pode não ser esperado. Na China, ele vem promovendo uma verdadeira revolução na economia. Na Venezuela, em meio à turbulência política e econômica, o empreendedorismo está evoluindo por necessidade. Mesmo em países devastados pela guerra, como a Síria, existem bolsões de startups.

Isso prova que empreender ultrapassa diferenças políticas e geográficas: empreendedorismo de diversos países tem muito em comum, desde suas motivações a seus desafios. Um exemplo disso é o desemprego – principalmente o de jovens –, que vem sendo um motor pra iniciar negócios em quase todas as partes do mundo.

Por outro lado, em quase todos os países existe o desafio de espalhar geograficamente o empreendedorismo, que costuma ser um fenômeno urbano. A preocupação em diversas regiões é estimular o início de novos negócios em áreas e setores menos empresariais.

E, por fim, há a faca de dois gumes da tecnologia: ao mesmo tempo em que ela cria novas oportunidades de negócios e as espalha geograficamente, também está fazendo que estes novos negócios funcionem com cada vez menos trabalhadores. Ou seja, a tecnologia limita o impacto social das novas empresas.

De toda forma, a Semana Global do Empreendedor confirma o que se vem afirmando aqui nesta coluna semana após semana: os empreendedores são mais importantes do que nunca. E não importa em que idioma, nível político, regime econômico ou mesmo inclinação religiosa.

Empreender é a grande linguagem universal.

Ivan Primo Bornes – fundador da rede de rotisserias Pastifício Primo (www.pastificioprimo.com.br) ivan.primo@pastificioprimo.com.br

 

A empresa que todos os empreendedores deveriam conhecer não faz nada mais além do óbvio

10 de novembro de 2017

Uma boa empresa deveria vender muito. Considerando as vendas proporcionais por metro quadrado, esta tem vendido o dobro da segunda colocada. Uma boa empresa deveria ter clientes fiéis. 76% dos seus clientes lembram que fizeram a compra mais recente lá e indicariam a empresa para seus amigos e conhecidos, mantendo-a entre as favoritas do seu ultracompetitivo mercado há muitos anos. Uma boa empresa deveria fazer o bem para o seus clientes. Esta empresa vende majoritariamente alimentos naturais e orgânicos, premiums e gourmets e ainda consegue fazê-los mais baratos do que os similares da concorrência. Por isso, esta empresa tem fila na porta.

Na abertura da sua mais nova loja, no mês passado, as portas foram abertas às oito da manhã, mas as filas começaram a se formar duas horas antes. Uma boa empresa deveria ser um ótimo local de trabalho. Ela foi considerada a 16ª melhor empresa para trabalhar em todos os Estados Unidos no ano passado, pagando os maiores níveis salariais do seu setor e oferecendo os melhores benefícios. E há diversos relatos de colaboradores atuais e antigos sobre como trabalhar nesta organização mudou suas vidas. E depois de tudo isso, lá na última linha da demonstração do resultado, uma boa empresa precisaria ser lucrativa. E esta empresa é uma das mais rentáveis do setor varejista mundial. A empresa opera lojas pequenas, com poucas opções e com cerca de 80% dos itens sendo marca própria. Isto aumenta a eficiência, escala de compra, custos logísticos, tornando a empresa muito lucrativa e sem endividamento.

As empresas deveriam ser assim, mas não são. Por isso, deveriam conhecer um pouco mais sobre esta empresa, a Trader Joe’s. Mas as empresas também deveriam falar menos e fazer mais. Neste contexto, com quase 500 lojas, mais de 38 mil colaboradores e com faturamento estimado de 13 bilhões de dólares, pouco se conhece da TJ como é mais chamada pelos seus clientes e colaboradores. Seu fundador, Joe Coulombe, atualmente com 87 anos, vendeu a empresa há quase 40 anos. O grupo alemão que adquiriu a Trader Joe’s, manteve não só Joe a frente do seu negócio até se aposentar em 1988 como nunca mais interferiu na forma com que o criativo fundador gerenciava o negócio ou criava uniformes espalhafatosos com temas havaianos para sua equipe. Ele, por sua vez, passou a adotar o perfil discreto, quase invisível que era a principal característica do grupo alemão. A empresa, seus produtos, serviços e experiência de consumo é que devem se destacar! E desde então, seus executivos não aparecem na mídia, não palestram, não falam da empresa. Por ser de capital fechado, a Trader Joe’s não divulga seus números. A empresa também não faz nenhum tipo de propaganda, com exceção ao Fearless Flyer, seu tradicional panfleto de ofertas. A discrição chega à sede da matriz, localizada na cidade de Monrovia, Califórnia, que não tem nenhuma placa ou sinalização com o logo ou nome da TJ.

E mesmo com esta discrição absoluta, a Trader Joe’s consegue entregar uma experiência de consumo que só pode ser descrita com um termo: Uau! Mas o segredo do sucesso da TJ não é nenhum segredo e segue cinco lógicas absolutamente óbvias:

• Venda para pessoas educadas e inteligentes: A empresa foi fundada em 1958 com o nome de Pronto Market e era, basicamente, uma loja de conveniência. Em 1967, Joe Coulombe explicou em uma das suas raras entrevista que leu uma notícia em que era mencionado que 60% das pessoas estavam indo para a faculdade naquele momento. Ele pensou que pessoas mais bem educadas, naturalmente seriam mais exigentes e demandariam um serviço de varejo com produtos mais sofisticados, mas nem por isso pagariam mais caro (afinal, eram inteligentes). Daí veio a ideia de reformular todas as lojas que tinha e inspirado nos “mares do sul” e diversas ilhas famosas, lançou a primeira loja da Trader Joe’s, como algo que remetesse a um entreposto comercial sofisticado do Joe no Havaí. A obviedade é que é fácil vender e manipular clientes idiotas, mas os mais bem educados tendem sempre a exigir o melhor da empresa.

• Monte times pequenos e engajados: A lógica inicial é a mesma até hoje. Os colaboradores são chamados de tripulação. Cada loja tem um capitão. Os gerentes são chamados de First Mate, ou algo como imediatos. A seguir vêm os Merchants ou mercadores. Por fim, há o Crew ou membros da tripulação. A metáfora óbvia é que todos estão no mesmo barco, com poucos níveis hierárquicos e com todos sabendo suas funções, mas também atentos na execução de outras atividades para manter ou aumentar a velocidade do navio funciona!

• Mantenha sua tripulação sempre muito feliz: Encontrar um funcionário feliz ou muito feliz nas lojas da Trader Joe’s e sempre disposto a atendê-lo(a) excepcionalmente bem é uma constante. Para se chegar a este patamar, a TJ oferece os melhores salários, benefícios e condições de trabalho do mercado e total liberdade com responsabilidade. Está cansado, pode descansar. Com fome, pegue algo para comer. Precisa sair mais cedo ou chegar mais tarde. Tudo bem. Não se dá bem um chefe, bom… há vários outros para reportar. Em troca, a empresa quer ver o membro da tripulação entregar uma experiência de consumo UAU! Deve ser amigável, atencioso e divertido. Com todos!

• Ofereça poucas, mas sempre as melhores opções de produtos: A TJ tem uma variedade entre 4 a 5 mil opções enquanto seus grandes concorrentes chegam a oferecer 60 ou 70 mil. Mas cada produto ofertado é cuidadosamente concebido, produzido e embalado. Por se concentrar em uma camada exigente de consumidores, a Trader Joe’s acaba lançando diversos novos produtos que se tornam tendência de mercado depois como cervejas artesanais, iogurtes gregos ou alimentos integrais gourmets. Além disso, cerca de 80% dos itens são comercializados via marca própria. Com isso, a TJ consegue oferecer produtos muito diferenciados, mas com preços baixos.

• Nenhum cliente deve estar insatisfeito. Além do tratamento sempre cordial, da qualidade e criatividade dos seus produtos, a política de reembolso de clientes insatisfeitos da TJ é assustadoramente eficaz. Comprou um produto e não gostou? Mesmo já tendo consumido parte dele ou mesmo não tendo nota fiscal, a empresa reembolsa o valor. Sem questionamentos. Mas a empresa não faz isto pelo medo do impacto negativo de um cliente insatisfeito, mas por acreditar que precisa, de fato, vender algo de grande valor fortalecendo os laços de confiança.
Óbvio assim… há quase 60 anos.

Marcelo Nakagawa é Professor de Inovação e Empreendedorismo do Insper

Quero ser microfranqueado, EI, MEI ou Eireli? Não sei!!

7 de novembro de 2017

A dúvida já começa pela quantidade de nomes e siglas. Em seguida, vem o questionamento sobre as variáveis legais e tributárias, quem se responsabiliza pelo negócio e se vai envolver o patrimônio pessoal com o da empresa. Daí, aquela máxima que nossas tias diziam: “esta pessoinha quando montar um negócio próprio, o céu será o limite!” já era! Agora tem teto máximo para você faturar por sigla.

Na dúvida dessas questões anteriores, dá um Google que você vai encontrar mil explicações e espero que entenda. Mas, não é aí que mora o problema para escolher se você vai virar franqueado ou empreender individualmente!

Destrinche estes fatores na sua vida:

Expectativa em ter um negócio próprio; conhecimento sobre determinada área, setor ou assunto relevante para o mercado, neste momento; disponibilidade para se dedicar por dia, semana, mês e ano ao empreendimento; perfil para assumir o risco de um negócio próprio e o que isso significa; necessidade de compartilhar, presencialmente, ideias e assuntos X capacidade de trabalhar só, sem se sentir isolado ou perdido; habilidade para prospecção e vendas, assim como para entrega mais controle dos números – em uma dessas características você será mais forte, não se engane que você é linha de frente e bastidores com a mesma pegada, porque não dá para ser. Ou vende ou controla.

Feita esta autoanálise, falando a verdade para você mesmo, há de aparecer de uma a três opções de respostas para continuar a pensar em empreender, ou não. Não há nada definido ainda.
Vamos para análise de mercado e financeira: quanto você tem disponível para investir; como se mantém até que o negócio comece a dar dinheiro e depois a dar lucro; quais os concorrentes dessa proposta de negócio; qual o investimento para ter algo similar e melhor que eles; que perfil de clientes procuram por eles; o que eles fazem para atrair clientes; quanto custa este marketing, propaganda, mídia social, boca a boca e/ou panfletagem? Quanto você tem para investir, mesmo? E qual era o investimento imaginado para abrir algo parecido? Refaça as contas, por favor.

Digamos que deu tudo certo, na sua mente, até aqui!  – Vai montar em casa e trabalhar home office?

Autoanálise Capítulo 2 – consigo trabalhar em casa? tenho disciplina, cachorro ou crianças, sogra ou cônjuge, filhos adolescentes montando uma banda ou moro numa rua barulhenta demais? “Me sinto feliz e com qualidade de vida produzindo em casa” ou “este povo só fala isso para disfarçar que está desempregado e não tem pra onde ir?!” Pergunte-se tudo e ouça a verdade, porque é melhor entender antes de qualquer decisão que doa mais depois, do que assumir que todos somos empreendedores e nascemos para empresariar!

Quanto à decisão de ser microfranquia ou individual, são muitas outras perguntas e respostas que, hoje, você não teria paciência de me ler e pensar. Vamos por capítulos ou com pílulas de reflexão, para a decisão acertada!

Ana Vecchi é professora e pedagoga pela PUC-São Paulo, com especializações em administração de marketing pela Fundação Getúlio Vargas (SP), planejamento estratégico de marketing pela ESPM e MBA em varejo e franquias FIA/PROVAR. É professora universitária, instrutora e palestrante em associações e universidades. Co-autora do livro A Nova Era do Franchising.

Mais que clientes, receitas, cabelos… empreendedores estão perdendo sua saúde

7 de novembro de 2017

Não só no Brasil, mas em todo o mundo, criou-se o mito do empreendedor super-herói. Estes aparecem sempre sorridentes, poderosos, bem sucedidos, confiantes, sábios, visionários, ainda que, em alguns casos, a sua empresa ou vida pessoal esteja um caos. “Se não der certo, eu pivoto…” – diz com pleno domínio do startupês, linguagem dos empreendedores mais atualizados. Mas nem sempre é possível pivotar a queda de cabelo, a pressão alta ou as poucas horas de sono, principalmente quando as estatísticas apontam que parcela majoritária das empresas nascentes quebra nos primeiros cinco anos.

Mas como os empreendedores são tratados como um super-herói, quase ninguém fala da sua saúde. Contudo, ele também é vulnerável. Por isso, o artigo escrito por Larry Alton para a revista norte-americana Inc. é tão importante. Nele, Alton apresenta as aflições pessoais mais comuns entre os empreendedores, até entre os mais bem sucedidos, e que abalam seriamente a sua saúde. São elas:

• Dores nas costas: Dores lombares, nas costas, pescoço não prevalecem apenas em empreendedores. Mas a intensidade de preocupações e a quantidade de horas em uma postura errada diante do computador ou celular só intensificam as estatísticas.

• Problemas com a visão: Dez, quinze ou mais horas trabalhando. Boa parte olhando para uma tela de computador ou do celular. Em algum momento, a Síndrome de Visão de Computador (CVS) aparece na timeline do empreendedor.

• Insônia: Quando se diz que o empreendedor trabalha 24 X 7, isto não é uma mera metáfora. Muitos chegam próximo disso e quando vão para a cama, dormem mal. Se não bastasse a quantidade de trabalho, o sono ainda é afetado pela pilha crescente de preocupações e deteriorado pela quantidade de café ingerida diariamente.

• Hipertensão: Que o empreendedor precisa ter coração forte, todos sabem. Mas mesmo sendo forte, é preciso escutá-lo periodicamente. Pressão alta de vez em quando, faz parte da rotina empreendedora, mas sempre pode ser sinal de alguma doença importante.

• Enxaqueca: Quem tem sabe como isto implode sua capacidade de trabalho. Ter que ficar parado com tantas urgências para resolver é uma das piores torturas para qualquer empreendedor. E se não for a enxaqueca, pode ser a gastrite…

• Obesidade: Por mais que o espelho diga todas as manhãs que está acima do peso, muitos empreendedores continuam tendo uma vida sedentária, alimentando-se mal e dormindo pouco.

• Ansiedade: A rotina do empreendedor é naturalmente intensa e diversas novas decisões precisam ser tomadas todos os dias. Para Alton, isto pode favorecer crises de ansiedade. Nosso problema é que o Brasil é recordista mundial em pessoas com transtornos de ansiedade, segundo a OMS. Quase 19 milhões de brasileiros são diagnosticados clinicamente como ansiosos.

• Disfunção sexual: E como se não pudesse piorar…

• Depressão: Apesar de exigir diagnóstico clínico, o número de pessoas que sofrem com a depressão tem disparado no Brasil. A pesquisa mais recente da Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que há, pelo menos, 11,5 milhões de casos registrados no país.

• Vícios: Em alguns casos, Alton explica que se tenta combater a enorme carga de pressão do empreendedor com algum tipo de consumo crítico de alguma substância, desde o café, cigarro ou álcool aos entorpecentes proibidos.

Mesmo que as aflições pessoais dos empreendedores ainda não recebam tanta atenção, elas estão presentes na sua vida pessoal. Por isso, é preciso lembrar algo óbvio: todas têm tratamentos!

Para o empreendedor ser um super-herói (e é de fato dado às dificuldades que enfrenta) precisa ser forte. Mas antes disso, deve estar saudável.

Marcelo Nakagawa é Professor de Inovação e Empreendedorismo do Insper

 

Como o problema habitacional se tornou uma oportunidade de negócio de impacto social

2 de novembro de 2017

O sonho de contribuir para que 100% dos brasileiros possam viver com dignidade e poder de escolha tem norteado a atuação da Artemisia há mais de uma década. Quando analisamos os componentes que formam uma vida digna e segura, a questão habitacional se mostra intrinsecamente ligada à qualidade de vida e à saúde da população de menor renda. Os números revelam que o déficit qualitativo é de 15,6 milhões de moradias – de acordo com a Fundação João Pinheiro e Ministério das Cidades. Em contrapartida, o déficit habitacional é de 6,1 milhões de habitações, de acordo com a Fundação João Pinheiro. No Brasil, embora a maioria das ações do poder público se concentre na construção de novas unidades, o problema da qualidade das casas é duas vezes maior.

Na realidade, maior do que a falta de moradias é o contingente de pessoas vivendo em condições precárias; situação que impacta na saúde de milhares de famílias, no absenteísmo e na frequência escolar. Grande parte dessa situação de precariedade habitacional atinge famílias com rendimento de até três salários mínimos. As projeções não mostram um futuro animador: em 2030, 40% da população mundial deverá viver em moradias precárias.

Mas, como esse cenário se torna uma oportunidade para empreender um negócio de impacto social? Os empreendedores do Vivenda – negócio acelerado pela Artemisia em 2013 – enxergaram o enorme potencial de impacto social e de lucro ao oferecer à população de baixa renda reformas habitacionais de baixo custo, de forma rápida e não burocrática, para que o cliente possa, em 15 dias, ter o projeto e a reforma concluída. A empresa já concluiu mais de 600 reformas, atendeu mais de 2.200 pessoas e instalou mais de 5 mil metros quadrados de revestimento em reformas subdivididas por kits: banheiro, cozinha, sala, quarto e área de serviço. Uma solução que desenvolve com os clientes não apenas os planos técnicos, mas as formas de pagamento que caibam no orçamento dessas famílias, chegando a parcelar o serviço em até 30 vezes.

Antes e depois de um dos serviços prestados pela Vivenda

Fernando Assad, um dos empreendedores do Vivenda, costuma dizer que a casa é mais do que a necessidade primitiva do abrigo; ultrapassa a necessidade de segurança física básica. A casa é uma plataforma do desenvolvimento humano, psicológico e de transformação social. A questão habitacional está ligada à saúde pública. Como? Basta pensar que a falta de ventilação trazida por uma simples janela gera um impacto negativo na saúde, sobretudo problemas respiratórios em crianças, ligados à umidade. As mães e pais, diante da saúde precária dos filhos, muitas vezes faltam ao trabalho – colocando em risco o emprego. A criança, por sua vez, falta à aula. A ida ao posto de saúde ou pronto-socorro sobrecarrega o SUS. Ou seja, desventuras em série associadas à insalubridade habitacional.

Na Artemisia, acreditamos que os desafios ligados ao tema habitação constituem oportunidades para que negócios de impacto social sejam desenvolvidos. Os empreendedores do Vivenda estão desbravando esse caminho e mostrando que é possível ganhar dinheiro e mudar o mundo, melhorando a vida de centenas de pessoas.

* Maure Pessanha, coempreendedora e diretora-executiva da Artemisia, organização pioneira no fomento e disseminação de negócios de impacto social no Brasil.

As pontes empreendedoras entre a Sicília e o Brasil

30 de outubro de 2017

Estou finalizando minha viagem pelos quatro cantos da Sicília, conhecendo empreendedores do agronegócio e da gastronomia nesta ilha que – faz milênios – é um extraordinário hub de cultura e arte de diversas civilizações antigas. Ao mesmo tempo, temos tantos pontos em comum com o Brasil – muito mais do que poderia imaginar. É curioso ver que, mesmo separados pela distância geográfica, o “mindset” do empreendedor tem sempre muita semelhança: a busca constante de fazer dar certo, um sonho, uma visão, e muito trabalho.

Para contextualizar que não é moleza empreender por aqui: um relatório econômico de 2015 da Comunidade Europeia aponta a Sicília com 22% de taxa de desemprego (piora de 61% entre 2009 e 2015) e o menor PIB regional da Itália e um dos piores da Europa. Por outro lado, a Sicília apresenta alto potencial no agronegócio, no turismo e na pesca.

Destaco mais dois exemplos dos novos empreendedores que estão mostrando novas formas de criar valor e liderando as novas gerações:

Caseificio Occhipinti. Nascido dentro da tradição, no coração das montanhas Iblei, Giuseppe Occhipinti transformou completamente há 3 anos o pequeno laticínio familiar. Modernizou a apresentação de produtos, rótulos, investiu na agricultura biológica e faz a produção diariamente com leite da região. Hoje, o laticínio produz clássicos como o queijo Ragusano DOP, com até 48 meses de maturação, até a ricota embalada num cesto de vime, resgatando uma embalagem como era feita há centenas de anos. Na visita ao porão, estão armazenados centenas de queijos de valor inestimável. Cada queijo tem um número, uma história, e Giuseppe o pega no “colo” pra nos mostrar, como se fosse um filho.

Note di Zafferano. Angelo Liali é mais um exemplo do novo – e jovem – empreendedor siciliano, que já viajou o mundo e fez a volta ao perceber o valor escondido na terra dos ancestrais. Enquanto muitos dos amigos já migraram para as grandes cidades, ele fez o caminho de retorno em busca de cultivos de alto rendimento e qualidade, para se posicionar de forma destacada no mercado internacional. A empresa combina alta tecnologia com agricultura biológica na região de Giarratana, com foco em especiarias, em especial a açafrão. O mais bacana é a visão de marketing, com uma pegada que une o antigo, a credibilidade do produto, com uma comunicação moderna e atrativa. Abertos a contatos para trazer seus produtos ao Brasil!

Todos estes jovens empreendedores sicilianos reforçaram minha crença de que vale a pena investir tempo e energia em produzir alimentos de qualidade, apostar na reinvenção de ofícios históricos da gastronomia e, principalmente, resgatar as tradições alimentares, modernizando a forma que transmitimos o valor de produto e processo. Como fazemos no Pastifício Primo – continuamos no caminho, e vem muita gente junto!

Ivan Primo Bornes – fundador da rede de rotisserias Pastifício Primo (www.pastificioprimo.com.br) ivan.primo@pastificioprimo.com.br

A escova de dente do Google e outras ideias para tornar sua empresa melhor

27 de outubro de 2017

“O empreendedor quando vê uma cobra, vai lá e a mata!” – explica Romeo Busarello, um grande amigo de longa data e colega de trabalho. “Mas a grande empresa, quando vê uma cobra, cria um comitê de cobra…” – finaliza seu irônico raciocínio sobre como as grandes organizações operam atualmente.

Em algum momento, as grandes empresas se perderam em reuniões (ou nas várias mensagens apenas para agendar uma), títulos e cargos, processos e KPIs e outras idiossincrasias corporativas e desaprenderam a fazer o que precisa ser feito de forma eficaz.

Neste sentido, boa parte dos empreendedores mais bem sucedidos acaba inventando soluções simples que parecem toscas em uma primeira análise, mas que guardam uma profunda sabedoria quando os resultados chegam. Empreendedores e executivos de organizações de qualquer porte podem aprender muito com quem “mata a cobra e mostra o pau”, por mais polêmico que possa parecer agora esta expressão popular do passado.

Se reuniões ineficazes se tornaram uma praga na sua organização, considere as práticas de Steve Jobs, da Apple, e Michael Bloomberg, da Bloomberg News. Jobs costumava fazer suas reuniões mais importantes caminhando. Alguns estudos apontam que isto pode ser uma boa solução, pois ativa os dois lados do cérebro, acentuando a capacidade de resolução criativa de problemas. Bloomberg, por sua vez, fazia as reuniões da sua equipe com todos de pé. Este incômodo incentivava a objetividade dos presentes e inibia os que falavam mais do que o necessário.

E nestas reuniões, cada um sai com uma meta para cumprir. Bloomberg pedia para que os que estavam nesta situação que trocassem o relógio para o pulso da outra mão, até que entregassem o que tinha sido combinado. Experiente trocar seu relógio de braço só para entender a eficácia deste método. Mas como as pessoas trabalham em equipes, Jeff Bezos, da Amazon, criou a Regra das duas pizzas. O tamanho ideal para uma equipe realmente funcionar é aquela que pode ser alimentada com duas pizzas. Mais do que isso, a improdutividade começa a aumentar, acredita.

Mas é preciso achar as pessoas certas para o time. Todos os empreendedores bem sucedidos acabam criando sua própria receita para isto, caso contrário não seriam o que são. Isto vai desde Tomas Edison, fundador da General Electric, que não empregava ninguém que colocasse sal na comida antes de experimentá-la, pois queria pessoa que testassem suas criações antes de coloca-las em prática, passando pelo Comandante Rolim Amaro, que não contratava ninguém que comesse devagar, pois entendia que pessoas assim não pensavam rápido, até chegarmos à fórmula PSD – Poor, Smart, Deep desire to get rich (“pobres, espertos, com muita vontade de ficar rico”), utilizada pelo Jorge Paulo Lemann na identificação de talentos para as diversas empresas das quais é acionista.

Sam Walton, do Walmart, também tinha suas manias. Em um caderno anotava todas as noites algum exemplo de por que sua empresa tinha sido melhor do que ontem. Um dia poderia ser um excelente atendimento que fez a um cliente, no outro, uma boa negociação de preço de um item com o fornecedor. No final do ano, tinha anotado mais de 300 melhorias. Com isto, sua empresa se destacava mais do que qualquer outra.

Mark Zuckerberg, do Facebook, também é sempre muito autêntico nas suas abordagens. Uma das mais conhecidas e copiadas pelo seu time é impor-se uma única e grande meta pessoal anual. Em vez de fazer diversas promessas, que já serão esquecidas no dia 2 de janeiro, Zuckerberg mira uma só por ano. A deste, é visitar todos os estados norte-americanos para conhecer as pessoas pessoalmente. Combustível para discussões para quem faz isto digitalmente.

E entre todas as soluções práticas inventadas pelos empreendedores, a de Laércio Cosentino, da Totvs, é a mais gostosa. Na sede da empresa,  mantém uma cozinha na qual ele mesmo pilota as panelas enquanto recebe clientes e parceiros. É uma das formas mais inteligentes e saborosas de criar vínculos com as pessoas.

Mas depois de um bom almoço ou jantar, em algum momento, virá a necessidade de escovar os dentes. É aqui que entra o teste da escova de dentes defendida por Larry Page, co-fundador do Google. Para se tornar um produto da empresa, a ideia precisa ser uma solução “escova de dentes”, ou seja, algo que se precisa usar uma ou duas vezes por dia, pelo menos, e que torna a sua vida melhor.

Por isso, se você criou um comitê achando que iria resolver o problema facilmente e agora coisa está ficando russa, vale o ensinamento de uma amiga minha de lá: Нет ничего на свете проще, чем взять и усложнить себе жизнь. Ou não há nada no mundo que seja mais fácil do que tornar a vida mais difícil.

Marcelo Nakagawa é Professor de Empreendedorismo e Inovação do Insper e Coordenador de área – Pesquisa para Inovação – da FAPESP

A nova Sicília empreendedora

23 de outubro de 2017

Estou na metade do meu giro na Sicilia, dando a volta nesta ilha cheia de história, mezzo férias com toda a família e mezzo trabalho, bem do jeito que eu gosto. Coloquei especial foco em conhecer as pequenas cidades e os pequenos produtores de alimentos, e tenho observado com curiosidade e interesse a dinâmica do pequeno empreendedor da ilha. Nas pequenas cidades, a minha primeira impressão é que praticamente todos são donos de algum negócio, estabelecidos há gerações: o dono da padaria, o dono do laticínio, o dono do restaurante, e assim por diante. Os funcionários do negócio são basicamente a própria família.

Giuseppe Occhipinti, preparando queijos DOP em Ragusa

Eu fiquei imaginando que isso pode ter um lado bom e um lado ruim. O lado bom é que os filhos já nascem com uma certa garantia de trabalho, no negócio da família, e não precisam construir um negócio do zero. Pode ser bastante confortante, e mesmo que pareça estranho para muitos de nós, é algo muito comum aqui – e na Europa em geral. O lado ruim é que existe muito pouco espaço para novos empreendedores ou, pelo menos, para empreender fora da área de atuação daquela família. A demanda de trabalho e serviços nas cidades pequenas é escassa, são povoados que não tem turismo, e por isso é tão comum, numa família grande muitos filhos migrarem em busca de oportunidades na cidade grande, ou em outros países. Me parece que é muito similar com o que acontece nas cidades pequenas do interior do Brasil.

Ao mesmo tempo, fui impactado pela descoberta de uma outra Sicília, de pensamento moderno, uma galera que eu defino na vanguarda da gastronomia, conectada com o mundo, atuando de forma a valorizar a terra e o conhecimento ancestral. Este pessoal não está mais pensando no mercado local, e sim no mercado mundial, e mesmo que pareça óbvio, não é fácil encontrar um lugar no mundo competitivo da gastronomia, e eles estão conseguindo. Ao encontrar novas soluções de se apresentar no mercado, agregando valor ao trabalho local, estão criando um modelo de prosperidade a ser seguido pelos novos jovens empreendedores da ilha.

No meio das montanhas, as azeitonas da Calaforno


Agrobiologica Calaforno Angelica
(www.locandaangelica.it).
No meio das montanhas, no qual cheguei através de um caminho sinuoso de difícil acesso, nos recebe Salvatore Angelica, jovem empreendedor de 25 anos que é o “guardião” de mais de 7 mil oliveiras “soltas” nos vales ao redor. A paisagem milenar, silenciosa, com muitas pedras e com oliveiras enormes, contrasta com o que vejo ao entrar no edifício de manipulação e produção: é um laboratório, máquinas novas, tudo extremamente limpo, organizado, amplo (eu, que sou um apreciador dos métodos de produção artesanal, fiquei emocionado), unindo a última tecnologia a um dos rituais mais antigos da humanidade: colher azeitonas na mão e prensar para extrair o azeite. Salvatore me mostra a diferença entre os vários tipos de azeitonas, e como as cores de suas azeitonas são 100% naturais, sem corantes. Descemos no deposito onde são feitas a salmouras em temperatura controlada, tudo impecável. Acima de tudo, Salvatore mostra o orgulho da terra, do produto que ele faz e conhece a fundo. Mas com uma visão agressiva de apostar no mercado internacional através dos selos da produção biológica.

Nossa visita à Chocolate Sabadi

Chocolate Sabadi (www.sabadi.it). Conheci este pessoal na feira Summer Fancy Food em New York, e agora pude finalmente conhecer a pequena e moderna fábrica bio-artesanal em Módica. Esta cidade é reconhecida no mundo todo pelos chocolates trabalhados a baixa temperatura, o que traz um paladar único e os torna muito mais saudáveis. Como reinventar a roda do chocolate? Pois aqui um jovem empreendedor chamado Simone Sabaini está mostrando como se faz, através da comunicação inteligente, com um packaging cheio de bom humor e personalidade. O slogan da empresa é “slowliving” (que pode ser traduzido como “viver lentamente” fazendo alusão ao “slow food”). É bom destacar que a Sabadi tem 5 prêmios consecutivos de melhor chocolate de Módica – o que não é pouca coisa – e trabalha com selos orgânicos e bios. Como o Simone diz, viver na Sicília é uma escolha, e desta pequena cidade no interior, e com uma pequena equipe, os chocolates vão para o mundo todo!

Ivan Primo Bornes – fundador da rede de rotisserias Pastifício Primo (www.pastificioprimo.com.br) ivan.primo@pastificioprimo.com.br

A pergunta que só 6% entre os mais inteligentes sabem responder

20 de outubro de 2017

É o MBA mais caro do mundo. O investimento total estimado para os dois anos de dedicação integral do aluno é de, no mínimo, R$ 700 mil. É também o mais exigente. A média da nota do GMAT, prova que avalia conhecimentos de matemática, lógica, inglês e rapidez de pensamento, dos aprovados neste programa em 2016 foi de inacreditáveis 737 pontos, a mais elevada entre todos os programas de MBA do planeta.

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E mesmo diante do custo e da dificuldade, cerca de oito mil pessoas se inscrevem para participar do processo seletivo deste curso. A média dos outros nove MBAs mais demandados do mundo é de cinco mil interessados. Considerando estes aspectos, o MBA da Escola de Negócios da Universidade de Stanford é, de longe, o mais difícil de passar no mundo. De cada 100 inscritos, apenas seis entram. A média dos outros nove MBAs mais concorridos é de 17%.

O preço pode não explicar a dificuldade em ser aprovado em Stanford. Outras escolas de negócio renomadas cobram quase o mesmo valor. E pelo menos dois terços dos aprovados recebem algum apoio financeiro para bancar o curso. Tampouco o GMAT. A média dos outros nove MBAs mais demandados do mundo é apenas um pouco mais baixa: 724 pontos. Assim, uma boa parte dos mais bem aprovados nas outras também passaria na Escola de Negócios de Stanford se o GMAT fosse o principal critério.

A maior dificuldade em passar está na temida e muito conhecida questão da redação. Há duas dissertações. A segunda é bastante fácil de ser respondida: Por que Stanford? Não é preciso dar muitas explicações do interesse em estudar na universidade que é o centro do Vale do Silício. Mas o desafio da vida é encontrar algo para primeira pergunta, que é simples mas que responde pelo seu passado, presente e futuro:

O QUE É MAIS IMPORTANTE PARA VOCÊ E POR QUE?

Há mais de 13 anos que a Universidade de Stanford mantém esta questão que faz os interessados buscarem uma resposta dentro de si. Em boa parte das pessoas esta resposta sequer existe. Esses errantes já desistem no rascunho resposta. Afinal, o que é mais importante para você e por que?

Alguns responderiam que a família é a coisa mais importante. Além de ser algo óbvio, a universidade diria: Ótimo, concordamos. É melhor ficar com ela. Outros responderiam: dinheiro. E novamente, a resposta se limitaria a então é melhor escolher outra instituição. Dos 25 principais programas de MBA do mundo, Stanford ocupa a última posição quando o assunto é sair empregado na formatura e o salário médio de um recém-MBA seu não é o maior.

Stanford mantém a pergunta, pois sabe que muitas pessoas nunca pararam para pensar sobre o que é realmente importante para elas e daí vivê-las intensa e verdadeiramente. São errantes, zumbis que se alegram, cada vez mais, com emojis, kkkk, likes e shares. Que vivem vidas alheias e seguem pessoas inteligentes que pensam da mesma forma. E ao serem questionadas sobre o que é realmente importante, perceberão, de forma trágica, que é o seu perfil em alguma rede social, pois é lá que gasta a maior parte do seu tempo. Mas aí vem a parte final da pergunta que traz um vazio existencial: Por que?

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Assim, de todas as dicas disponíveis para dar uma boa resposta para a pergunta que não é da Escola de Negócios de Stanford, mas da sua vida, a mais impactante foi dada no discurso de formatura mais popular de todos os tempos, a do Steve Jobs, justamente para os formandos em Stanford em 2005: “Seu tempo é limitado. Assim não perca seu tempo vivendo a vida de outra pessoa. Não seja ludibriado por dogmas, que é o resultado do pensamento dos outros. Não permita que o barulho da opinião dos demais cale a sua própria voz. E o mais importante: tenha a coragem de seguir seu coração e intuição. Eles, de alguma forma, já sabem o que você realmente quer se tornar”.

É muito provável que muitos procurarão, mas não encontrarão uma resposta e, consequentemente, não entrarão neste MBA. Mas só fazer com que a pessoa acorde para si mesma e busque seu verdadeiro propósito de vida já fará com que a Escola de Negócios de Stanford cumpra a sua missão: Transforme vidas. Transforme organizações. Transforme o mundo.
Por isso, esta é pergunta do MBA da sua vida: O que é realmente importante para você e por que?

Marcelo Nakagawa é coordenador de área – Pesquisa para Inovação – da FAPESP