Blog


Blog do Empreendedor
O cotidiano de empreendedores como você
Twitter Facebook Orkut
Aumentar texto Diminuir texto

Para empreendedor, o equilíbrio na vida está na gestão do desequilíbrio

14 de janeiro de 2019

 

Ivan Bornes *

Essa é a história fascinante de Flávio Peralta, vice-presidente da MultiCrédito – considerada a maior plataforma de análise de crédito, antifraude e big data para varejo do Brasil – e apaixonado pela atitude positiva. Flávio é hiperativo, curioso, inquieto e escolheu ser empreendedor dentro da empresa que o contratou, onde entrou como vendedor, na filial de Porto Alegre, para hoje ser sócio e VP instalado em São Paulo.

Além de desenvolver produtos e ideias, Flávio viaja o Brasil montando equipes comerciais, palestrando e motivando pessoas em busca de resultados. E ainda escreve o blog Energia para Voar e compartilha frases e pensamentos no site Pensador.

“Os motivos para você agir não estão lá fora, eles estão dentro de você. Olhe para dentro, sinta e decida o que precisa mudar, o que vai fazer para ter a vida que escolheu”

Flávio Peralta (no canto inferior à esq.) com equipe de treinamento. Foto: Flávio Peralta

 

Flávio, me fale um pouco do exemplo familiar nas suas escolhas.

Venho de uma família de empreendedores, meu pai e meu tio eram donos de uma distribuidora de bebidas em Bagé (RS), onde eu nasci. Conheci desde sempre uma empresa por dentro e o comportamento de um empreendedor em casa, naquela época sem compreender qual o impacto, mas vivenciando as ausências e urgências. Sempre acreditei que o modelo seria ter uma empresa, criar empregos, fazer as escolhas, ter flexibilidade, autonomia para decidir e ajudar outros a construir suas vidas.

E você começou a empreender cedo?

Eu segui o mesmo ramo da família, com distribuição de bebidas, e para aproveitar a cadeia de transporte abri uma distribuidora de alimentos – o que hoje pode ser considerado como loja de conveniência – usando o estoque. Depois, aproveitando esses negócios, abri com um sócio um fast-food que, pela inovação na forma de trabalho e atendimento, rendeu um prêmio “homem do ano” em Bagé. Isso aos 22 anos. Foi me dando mais motivação. Ainda tive uma serigrafia e um estúdio fotográfico.

O que o empreendedor faz de diferente?

Eu acredito que o empreendedor tem a capacidade de visualizar uma ideia e a transformar em negócio. O empreendedor possui em seu DNA uma vontade maior de mover as coisas à sua volta, tem uma inquietude com status quo e uma disposição para correr riscos maiores, se for para transformar uma visão em algo que funcione. É possível sentir na conversa e no contato com um perfil empreendedor que tudo pode ser uma oportunidade para mudar algo que já existe, melhorar ou criar algo melhor.

“Quando me perguntam sobre o equilíbrio na vida de um empreendedor, eu costumo dizer que ‘o equilíbrio está na gestão do desequilíbrio’. Gerenciar o desequilíbrio é fazer escolhas o tempo todo sobre onde depositar energia e atenção”

Como a família se encaixa no dia a dia puxado de viagens e reuniões?

A família é uma parte importante da vida do empreendedor, o apoio, o porto onde o empreendedor recarrega suas energias para continuar a saga de construir algo melhor. E, se for inserida nos negócios, deve ser de forma profissionalizada.

Como são os dias e as noites de um empreendedor corporativo?

Quando me perguntam sobre o equilíbrio na vida de um empreendedor, eu costumo dizer que “o equilíbrio está na gestão do desequilíbrio”. Ou seja, como empreendedor seu dia possui mais do que 24 horas, as viagens são intermináveis, algumas horas de lazer viram negócios e muitas noites de reflexão viram conversa em família. Portanto, gerenciar o desequilíbrio é fazer escolhas o tempo todo sobre onde depositar energia e atenção de tempos em tempos. Como diz um amigo: “work hard and have fun” (trabalhe duro e divirta-se).

Quais são os planos para o futuro?

Hoje nossa empresa atua no mercado de crédito ajudando outras empresas a crescerem e a desenvolverem seus negócios. De forma direta e indireta, estamos fomentando e apoiando o desenvolvimento de empreendedores, seja um empresário que quer vender mais, seja um consumidor que quer realizar um sonho, pois garantimos que as vendas sejam seguras e proporcionamos ingresso no mercado para quem não é “bancarizado”.

No futuro, vamos continuar a desenvolver soluções para o crescimento das vendas e segurança aos nossos clientes, por outros meios e outras tecnologias, pois há um enorme espaço para inovar na área de fintechs, insurtechs e creditechs.

Quais dicas você dá aos que estão chegando agora?

Acredite na ideia que você está vendo e desenvolva um plano. Teste seus argumentos, seu produto. Vá a campo, mesmo que o mundo à sua volta continue a chamar você de “louco”. Estude e busque conhecimento para cuidar dos seus pontos fracos. Avalie os riscos e, principalmente, parta para a ação! O trabalho nunca acaba, sempre poderá ser melhor.

Qual o futuro do Brasil?

Acredito que o crescimento do Brasil deverá acontecer com o desenvolvimento do empreendedorismo, pois novas tecnologias, conhecimento disponível, visão de parceria e ambientes colaborativos, somados a novas leis e aos incentivos econômicos, criam o melhor ambiente para o empreendedor desenvolver a sua visão diferente do mundo.

“Quando surgirem os obstáculos, encare-os como desafios para alcançar a sua meta. Se necessário, mude a sua direção, mas não a decisão de conquistá-la”

 

* Ivan Bornes (ivan@pastificioprimo.com.br) é empreendedor e fundador da rede de rotisserias Pastifício Primo

O superocupado não é o novo herói, é o novo estúpido. E preciso me lembrar disso o tempo todo

11 de janeiro de 2019

Marcelo Nakagawa *

Eu tinha prometido à minha filha Stella, de seis anos, que a buscaria na escola levando sua bicicleta e ela voltaria para casa pedalando. Ela sempre volta de carro pois meus sogros, normalmente, a buscam. Era uma promessa simples de ser cumprida pois a distância não passa de 500 metros. Stella sempre me cobrava a promessa e eu sucessivamente explicava que papai estava ocupado, mas tentaria na próxima semana. Passaram-se mais de três anos até a semana em que me dei conta de que aquela era a última da Stella naquela escolinha. Ela mudaria de escola. E a nova, de ensino fundamental e médio, era muito mais longe, já em outro bairro de São Paulo, impossibilitando a volta com sua bicicletinha.

Com tantas reuniões, aulas e outros compromissos já agendados, eu só poderia cumprir minha promessa na quinta ou sexta-feira daquela última semana. Mas no último dia seria inviável pois também deveria trazer todo o restante do material que ela utilizou durante o ano. Era pesado e volumoso. Depois de ter perdido mais de 700 oportunidades nos últimos anos, agora só restava um dia para cumprir minha promessa: a última quinta-feira que ela teria aula na sua escola de ensino infantil. Eu me sentia péssimo em “não ter tido tempo”…

Não avisei a Stella de que a buscaria de bicicleta na quinta-feira. Queria fazer uma surpresa. Mas minha mãe, que nos visitava naquela semana, sem saber da surpresa, avisou-a na noite anterior. Stella brilhou de felicidade e nem conseguiu dormir direito. Acordou cedo e já foi me perguntar se ela voltaria mesmo de bicicleta da escola para casa. “É claro!” – respondi meio chateado com o anúncio da não mais surpresa. Pelo que a conheço, Stella deve ter falado com todos os seus amiguinhos, professores e funcionários da escola de que voltaria de bicicleta para casa.

Mas naquela quinta-feira choveu… E choveu muito em São Paulo! Se eu já me sentia mal anteriormente, agora me achava o pior pai do mundo.

Neste momento, eu lembrei de uma parábola que foi um soco no estômago da minha paternidade.

Certa vez um mestre convidou seus discípulos para uma reflexão. No encontro, colocou uma jarra de vidro na mesa. Da sua sacola, retirou um saco com pedras grandes e colocou uma a uma dentro da jarra até não caber nenhuma. Perguntou para seus discípulos se a jarra estava cheia. Sim foi a resposta unânime. Então, o mestre pegou um saco com pedras menores e o virou cuidadosamente sobre a jarra. As pedrinhas foram ocupando os espaços vazios que ainda restavam. Mais uma vez, perguntou se a jarra estava cheia. Sim foi a resposta agora não tão unânime. Em seguida, o mestre tirou um saco de areia e o esparramou pelo jarro e refazendo a mesma pergunta. Agora seus discípulos já estavam divididos. Mas o mestre continuou sua demonstração e tirou uma garrafa de água da sacola e encheu a jarra com o líquido. “O que esta demonstração significa?” – perguntou o mestre. “Não importa quanto atarefado você esteja, sempre será possível fazer mais.” – responde um dos discípulos. “É uma forma de enxergar o mundo…” – responde. “Mas se não colocar as pedras grandes primeiro, não conseguirá colocá-las depois. E as grandes coisas são aquilo que valorizaremos no final da nossa vida como nossa família, nossos amigos, nossa saúde e nossos sonhos realizados. O resto encontrará seu espaço…” – finalizou o mestre.

Em relação semelhante de mestre e discípulo, Bill Gates ficou chocado quando viu a agenda em papel que Warren Buffett usava (e ainda usa). “Eu tinha cada minuto agendado do meu tempo e acreditava que as coisas só funcionavam assim…” – explicou Gates. “Mas a verdade é que ele (Buffett) é tão cuidadoso com seu tempo que há dias em que ele não coloca nada na sua agenda…” – continua. Gates se deu conta que é você quem controla o seu tempo e ter uma agenda lotada em cada minuto do seu tempo não é uma indicação de seriedade. “As pessoas começam a querer o seu tempo e é a única coisa que você mesmo não consegue comprar. Isto quer dizer que eu posso comprar qualquer coisa que queira, basicamente, mas não consigo comprar tempo.” – diz Buffett. E explica que tempo é o seu bem mais precioso e por isso mesmo precisa ter muito cuidado em vivê-lo com o mesmo elevado nível de preciosidade.

Assim saí de casa para buscar a Stella com a sua bicicletinha em uma mão e um guarda-chuva na outra. Quando coloquei o pé na rua, a chuva parou, como por milagre. Stella voltou pedalando feliz da vida para casa. E eu pensando que Deus é pai também.

* Marcelo Nakagawa é pai da Stella e da Helen, professor de empreendedorismo e inovação do Insper, FIA, Fundação Vanzolini e Instituto Butantan, coordenador de inovação da FAPESP, consultor de inovação de algumas grandes corporações e tenta ser tão rico em tempo precioso quanto Warren Buffett

Startup de conteúdo ao vivo, ClapMe mostra caminho de reinvenção

17 de dezembro de 2018

 

Ivan Bornes *

Esta é a história do empreendedor, sonhador e jornalista Filipe Callil, 29 anos, casado com Maria (de quem ele foi colega na faculdade de jornalismo), neto de libaneses e um dos fundadores da startup ClapMe, plataforma de vídeos – live e vod – para agências de publicidade e marcas, focada na criação, produção e execução de conteúdo transmitido ao vivo (streaming).

A ClapMe, como nos conta Filipe na entrevista a seguir, surgiu com a ambição de ser a “Netflix dos shows ao vivo”, mas após dificuldades no meio do caminho, em 2016 eles deram uma virada de mesa e se transformaram numa das maiores – senão na maior – empresa no Brasil que atende o mercado publicitário com conteúdo ao vivo.

Instalada na nova sede na Rua Fidalga – na badalada Vila Madalena – a ClapMe já transmitiu ao vivo mais de 2 mil eventos, tem mais de 250 mil usuários e 12 mil artistas cadastrados, além de uma grade de programas de humor, shows e entretenimento com interação ao vivo entre público, artistas e marcas.

Filipe Callil, Diego Yamaguti, Celso Augusto Forster e Felipe Imperio, sócios da ClapMe em espaço em reforma na sede na Vila Madalena. Foto: Giovani Cavalcanti

Como foi sua jornada de aprendizado antes do surgimento da ClapMe?

Cresci numa família de classe média e, desde pequeno, tive que aprender a me virar. Meus pais tiveram muitos momentos de crises financeiras. Tive que ver meu pai quebrar e recomeçar inúmeras vezes ao longo da vida. O meu primeiro “emprego” foi aos 13 anos de idade. Eu cuidava de uma lojinha de roupas e acessórios fitness que meu pai tinha na época dentro de uma academia de São Paulo. No primeiro ano de faculdade, voltei a trabalhar com meu pai em uma confecção. Ele era o gerente comercial da fábrica e eu trabalhava na estamparia.

Ainda no primeiro ano de faculdade, eu consegui arrumar o meu primeiro estágio como jornalista em uma assessoria de comunicação, a X Comunicação. Foi lá que conheci o Celso Augusto Forster, com quem anos depois fundei a ClapMe. Ele era o meu melhor amigo no trabalho, além de um “chefinho” mentor com quem eu tinha liberdade para falar sobre tudo, principalmente sobre rock’n roll. A paixão por música é o que nos uniu logo de cara.

E depois consegui finalmente meu estágio na TV Record – meu sonho era ser repórter de TV. Trabalhei na Record de 2009 a 2013, quando pedi demissão para focar 100% na ClapMe. Sou muito grato a tudo o que pude aprender na Record. Muito do que hoje aplico na minha empresa aprendi lá com os meus colegas de trabalho e ex-chefes.

 

“Ao escolher que você quer empreender, você irá privar a sua família de algumas escolhas. É uma decisão difícil e, nesse aspecto, muitas vezes egoísta também.”

 

Você sempre destaca a importância da família e, sobretudo, de sua mulher, Maria, no empreendimento. Como você avalia a importância do apoio familiar no sucesso do empreendedor?

Mais do que uma namorada e amiga, Maria foi a pessoa que, apesar de todas as incertezas, apostou comigo no sonho. Até 2016, ela pagava todas as contas praticamente sozinha. Até hoje ela paga muito mais conta do que eu (risos). Atualmente, a Maria trabalha na área de comunicação de uma grande multinacional. Quando eu contei para os meus pais que iria pedir demissão da Record para me dedicar a um projeto pessoal, eles acharam que eu não estava muito bem da cabeça – até pouco tempo atrás eles ainda achavam isso (risos). Mas sempre respeitaram minha decisão e tentaram me dar o suporte necessário dentro do que podiam. Com a Maria também não foi muito diferente. Mas ela ainda teve que sofrer mais as dores comigo.

Depois que fomos morar juntos, quando a empresa ainda não podia me pagar um pró-labore, era ela quem me dava todos os subsídios para que eu pudesse sobreviver. Desde o dinheiro para ônibus, roupas, comida, viagens etc. Com tudo isso, eu aprendi que empreender é uma decisão que, cedo ou tarde, irá influenciar na vida das pessoas que estão ao seu redor. Ao escolher que você quer empreender, você irá privar a sua família de algumas escolhas. É uma decisão difícil e, nesse aspecto, muitas vezes egoísta também. Mas sou muito grato à Maria por toda paciência e confiança que ela depositou em mim. Sem o apoio dela, com certeza a história teria sido muito pior.

Você estava com emprego bom, num grande grupo de mídia, já se encaminhando para ser repórter de TV. De onde veio essa vontade de empreender, que deixou todo mundo de cabelo em pé?

Eu já devo ter nascido empreendedor. Desde criança eu gostava de inventar coisas, eu preferia construir os meus brinquedos do que brincar com um pronto, compor músicas e fazer “rolos”. O meu primeiro violão foi fruto de um rolo que fiz, aos 11 anos de idade, com um vizinho: eu dei um patins que não me servia mais e ele me deu o violão. Essa era a época em que meus pais estavam mais apertados de dinheiro, então eu construía coisas ou fazias rolos para poder ter as coisas que eu queria.

Um pouco antes dessa época, quando eu tinha uns oito anos de idade, eu montei uma vara de pescar com ímã para pegar as moedas que caíam no ralo que tinha em frente à cantina do colégio. Era um fosso de uns 5 metros de altura. E eu ficava no recreio ou no final da aula pescando as moedas que caíam lá. Enfim, cresci querendo montar coisas, fazer coisas… Tive banda de rock na adolescência. Acredito que tudo isso fez com que a minha veia empreendedora florescesse.

E como surgiu a ClapMe?

Ainda na época da faculdade, eu dizia para os meus amigos de classe – inclusive para Maria – que um dia montaria um negócio. Não tinha ideia exatamente do que seria. Mas dizia que iria montar um negócio no mercado da música. O pessoal me achava meio doido, inclusive Maria. Até tentei arrumar uns sócios na faculdade, mas ninguém levou muito a sério. Quando eu estava no final da faculdade, já estagiando na Record, eu tentei montar a ClapMe com alguns amigos da Record. Não foi muito para a frente e acabei guardando a ideia na cabeça.

No final de 2011, quando estava em Ribeirão Preto prestes a voltar para São Paulo, conheci o Diego Yamaguti da Silva e o Felipe Imperio. Na época, eles estavam encerrando as operações da AdBees, uma plataforma de compras coletivas. Comentei com eles que tinha uma ideia ainda da época da faculdade: um palco virtual para artistas se apresentarem. Eles gostaram da ideia e começaram a me ajudar a tirá-la do papel. Decidimos virar sócios. Pouco tempo depois, ligamos pro Celso e convidamos ele para ser nosso sócio também.

 

“Para mim, ser empreendedor não é ter um bom diploma. Está mais ligado à personalidade da pessoa e ao modo como enxerga o mundo. Conhecimento qualquer um pode adquirir. Resiliência, não. E, para mim, resiliência é a principal virtude que um empreendedor precisa ter”

 

Como é o dia a dia da empresa?

Eu tendo a dizer que empreendedor não se constrói. Ou você é ou você não é. Toda empresa precisa ter pelo menos um sócio que seja realmente empreendedor. Tem gente que cria um negócio sem ter a veia empreendedora e, para o projeto evoluir, precisa encontrar um sócio que assuma esse protagonismo empreendedor. No caso da ClapMe, acredito que os quatro sócios tenham essa veia empreendedora. Dependendo do momento ou da situação, um dos quatro assume o protagonismo – e isso é muito bom para dividir o peso e as responsabilidades do negócio.

Na tua opinião, qual a principal característica de um bom empreendedor?

Para mim, ser empreendedor não é ter um bom diploma, conhecimento, bagagem, experiência – apesar de que tudo isso agrega valor e, muito provavelmente, fará com que você economize tempo na sua jornada empreendedora. Para mim, ser empreendedor está mais ligado à personalidade da pessoa e ao modo como enxerga o mundo. Conhecimento qualquer um pode adquirir. Resiliência, não. E, para mim, resiliência é a principal virtude que um empreendedor precisa ter.

Falando particularmente de mim, acho que o meu lado empreendedor nasceu muito antes da ideia – por mais que eu tenha começado a ClapMe sem ter a menor ideia prática ou teórica do que era empreender (risos). Se não tivesse sido a ClapMe, cedo ou tarde, teria sido outro negócio, outra ideia. Até hoje muito dos nossos acertos são com base nos erros que a gente cometeu lá atrás e que ainda cometemos.

Não somos empreendedores acadêmicos ou de “palco” (aqueles que vendem mais livros e palestras do que desenvolvem negócios). Eu e meus sócios somos empreendedores “graxa”, como costumamos dizer. Estamos construindo nossa empresa em cima de cada erro e acerto que cometemos. E isso dá um tesão danado, pois o desafio é constante.

 

“Investidor gosta disso: empreendedor que não desiste mesmo quando todo mundo já desistiu”

 

Para o empreendedor, os dias e noites são bem diferentes do normal das pessoas. Como é a tua rotina?

Eu não consigo mais separar trabalho de vida pessoal. Sei que isso pode até ser considerado errado. Mas é o modo como vivo a vida. E acaba tendo bônus e ônus. Ao mesmo tempo em que trabalho praticamente todas as horas/dias em que estou acordado, por outro outro lado tenho a flexibilidade de organizar a minha agenda da forma que melhor me convém. Posso fazer jiu-jítsu na hora do almoço, à tarde, à noite, o horário que quiser. Posso viajar no meio da semana. Posso fazer home-office quando quiser. Se acordo com dor de cabeça, posso cancelar todas as minhas reuniões do dia e dormir – não que alguma vez eu tenha conseguido de fato fazer isso (risos).

No começo era bem difícil. Porque eu não tinha dinheiro para poder fazer coisas com a Maria (jantares, cinema, viagens etc) nem tempo, pois tinha que trabalhar o máximo que aguentasse para mudar a situação. Mas, de fato, esse equilíbrio só vem com o tempo e com dinheiro. Hoje, eu e meus sócios já conseguimos nos organizar melhor para aproveitar também nossas famílias. Por exemplo: eu tenho um acordo com Maria de não usar o celular para trabalhar em viagens de férias. E tenho conseguido respeitar o acordo. Eu vou trabalhar todos os dias de bike elétrica – são 7 km entre Moema, onde moro, e a Vila Madalena, onde fica o escritório. Gosto de aproveitar o trajeto para pensar em novas ideias, observar a movimentação da cidade.

Quais são os planos de futuro para a ClapMe?

Estamos negociando mais um round de investimento – este será o nosso 4º round – para ampliar algumas linhas de negócio. Estamos inseridos dentro de um mercado (mídia/economia criativa) extremamente competitivo e com poucas barreiras de entrada. Então, acaba ganhando quem tem mais velocidade e melhor execução. Vale lembrar que a ClapMe precisou dar uma pivotada em 2016 para sobreviver.

No começo, queríamos ser uma plataforma de assinatura de conteúdos artísticos (peças, shows, etc)… uma espécie de “Netflix de shows ao vivo”. Por várias razões, o modelo acabou não tracionando. Decidimos guardar o modelo numa gaveta imaginária e decidimos ir atrás de onde estava o dinheiro desse mercado.

Acabamos nos tornando uma espécie de plataforma de conteúdos para agências de publicidade e marcas. Só em 2018, nós realizamos mais de 100 projetos com transmissões ao vivo com marcas. Indiscutivelmente, somos hoje a principal empresa que atende o mercado publicitário na criação, na produção e na execução de ativações com transmissão ao vivo.

Mas, há alguns meses, nós decidimos retomar o nosso modelo de negócios “raiz” – a assinatura de conteúdos – e estamos desenhando novas estratégias para conseguir colocar o modelo de pé.

 

“Dinheiro bom é o dinheiro dos clientes e não o dinheiro de investidor”

 

Muitos empreendedores que acompanham esta coluna tem curiosidade sobre a captação de investimentos. Como foi para vocês?

O curioso dessa história é que não estávamos buscando investimento quando começamos a negociar com eles. Havíamos acabado de ganhar o InovAtiva Brasil (um programa brasileiro de startups público e privado) e parte da premiação resumia-se a mentorias dessas alumnis de Harvard. Com isso, pudemos ser 100% transparentes com eles, contando sobre nossas dificuldades, falhas… E, depois de alguns meses, a proposta surgiu deles.

Foi um aprendizado muito legal: é muito melhor quando o investidor quer vocês do que o contrário. E de novo bato na tecla da resiliência. Tendo a acreditar que foi a nossa persistência – mesmo frente a diversos fracassos e incertezas – que chamou a atenção deles. Investidor gosta disso: empreendedor que não desiste mesmo quando todo mundo já desistiu.

Quero destacar quem são nossos investidores: Jump Brasil (aceleradora do Porto Digital, Recife), Triple Seven (fundo privado de investimento aqui de São Paulo) e HBS Brasil (Harvard Business School Brasil, comitê formado por alumnis de Harvard que investem em empresas de inovações). O investimento de HBS foi muito produtivo, pois trouxe pra dentro do negócio mais de 20 executivos de alto escalão. Diretores, VPs, Presidentes das maiores corporações globais (ambev, Itaú, IBM, Cielo etc). Só de ter a agenda de pessoas com esse gabarito para tomar um café e falar de negócios, o investimento já se justifica.

Que dicas pode dar aos empreendedores que estão chegando agora?

Vá atrás do dinheiro. Às vezes a ideia pode ser brilhante, escalável, sexy e ultra-inovadora. Mas ela não valerá de nada se você não tiver clientes. Dinheiro bom é o dinheiro dos clientes e não o dinheiro de investidor. Ache um modelo rápido de colocar de pé, mesmo que não seja o mais brilhante, escalável, sexy e ultra-inovador. Mas vai ser o modelo para fazer com que você, no futuro, possa desenvolver o outro modelo mais brilhante, escalável, sexy e ultra-inovador. Eu vi muita startup morrer porque os sócios ficaram insistindo em um modelo que não gerava receita. No começo você até se vira para manter a operação. Mas depois de dois, três anos… fica inviável.

Outra dica: não decida empreender por falta de opção e sim o contrário. Empreender é uma escolha! Tenho visto muitas pessoas que estão montando negócio porque perderam o emprego, por exemplo, e sem alternativa estão montando startups. Isso é ruim para a pessoa e também para o ecossistema. O mercado satura com um monte de startups mal administradas e sem visão de futuro.

Na tua opinião, qual o futuro do Brasil?

Ainda temos muito o que evoluir em relação a empreendedorismo no Brasil. A mudança talvez precise começar nas escolas. Como jornalista posso dizer que não aprendi nada na universidade sobre empreendedorismo. É importante fomentar o assunto nas universidades e gerar debates entre os alunos. Eu gosto muito de contribuir com o mercado de empreendedorismo. Sempre que posso, dou mentorias para novos empreendedores, participo de eventos de setor e afins. Em breve, espero ter condições para me tornar investidor.

Ivan Bornes (ivan@pastificioprimo.com.br) é empreendedor e fundador da rede de rotisserias Pastifício Primo (www.pastificioprimo.com.br)

O lado obscuro do empreendedorismo: investidores que assediam empreendedoras

30 de novembro de 2018

O prelúdio é quase sempre o mesmo. De um lado, uma empreendedora em busca de investimento ou com muitas dúvidas a respeito do seu negócio. Do outro, alguém que se diz investidor ou mentor e que se mostra muito solicito em ajudá-la. Na maioria dos casos, é uma ótima coincidência. Mas em alguns casos, uma perigosa armadilha.

Cecilia conta que precisava de um investimento urgente para a sua startup ou teria que demitir todos os seus 26 funcionários. Sabendo disso, um investidor convidou-a para um jantar em um restaurante sofisticado. Escolheu um vinho de cerca de 20 mil reais. Ela disse que perdeu a conta de quantas vezes o investidor encheu, gentilmente, a sua taça. Em dado momento, ele tocou sua perna, inclinou-se para beijá-la, dizendo que queria cuidar dela. Assustada, foi ao banheiro e ligou para um amigo pedindo para buscá-la. O assédio, narrado pela CNN, ocorreu em Nova Iorque, mas é cada vez mais comum em todo o mundo com o crescimento acelerado de negócios fundados e liderados por mulheres ao redor do mundo.

Os empreendedores lidam com muitos desafios, mas dinheiro e dúvidas sobre como proceder estão no topo da lista. Para os negócios de maior potencial de crescimento sempre há, neste caso no bom sentido, assédio dos investidores. E um número crescente de especialistas benevolentes tem se voluntariado para mentorar esses empreendedores. Mas, como em todos os mercados, há os aproveitadores (muito) mal-intencionados que, nesta situação, se candidatam para ajudar as empreendedoras fragilizadas por dívidas ou dúvidas em busca de outros tipos de “retornos”.

No caso do ecossistema de empreendedorismo, a presença deste tipo de comportamento tem sido bastante alta. Cerca de 20% das empreendedoras apoiadas pela venerada aceleradora de startups Y-Combinator dos Estados Unidos ou 25% das empreendedoras britânicas pesquisadas pelo jornal The Telegraph foram assediadas pelos investidores. No Brasil, ainda não há levantamentos a este respeito, mas muitas empreendedoras já passaram por situações assim.

Em evento sobre inovação ocorrido na Câmara Americana de Comércio em São Paulo em junho deste ano, uma das empreendedoras relatou o desconforto ao perceber que o investidor não estava interessado na sua startup, mas em sair com ela. Mas antes, ele tinha encenado todo o ritual típico de investidor.

Outra empreendedora, neste caso, minha aluna, com startup ainda em fase inicial relatou que um investidor entrou em contato com ela por WhatsApp explicando que tinha interesse em investir R$ 30 mil, mesmo sem conhecê-la pessoalmente, convidando-a para sair.

Mas a relação entre investidores/mentores e empreendedoras não se limita apenas ao gravíssimo assédio sexual. Em outra situação em que a startup era liderada por um empreendedor e uma empreendedora, o investidor só se dirigia ao empreendedor, mantendo a empreendedora em uma constrangedora situação de acompanhante.

Para evitar os (pseudo) investidores e mentores, não apenas as empreendedoras, mas qualquer pessoa em busca de apoio, é necessário pesquisar antecipadamente o currículo no Linkedin e levantar referências com conhecidos em comum dessas pessoas que dizem querer ajudar. Ser, parecer e manter o alto nível de profissionalismo é o desejado pelas duas partes quando bem-intencionadas, certo? Jantares a dois com bebidas alcoólicas ou encontros particulares em ambientes privados, para quê? Almoços e cafeterias em equipe são muito mais produtivas e alegres, não é mesmo? Viagens à trabalho (não é preciso lembrar dos quartos separados…) foram previstas para trabalhar e muito. Ninguém está lá para curtir a cidade.

E mesmo assim, se tudo der errado, denuncie! Nos Estados Unidos, vários investidores foram denunciados e isto tem criado um novo ambiente, muito mais próspero e saudável para o empreendedorismo.

Marcelo Nakagawa é Professor de Inovação e Empreendedorismo do Insper.

 

O texto que é a redenção para os empreendedores que fracassam todos os dias

23 de novembro de 2018

Empreendedores, em geral, tem outros dons além de construírem grandes negócios. Steve Jobs tinha a oratória, Laércio Cosentino da Totvs, cozinha, e Ben Horowitz, escreve muito bem.

Talvez não conheça Horowitz, a Opsware, empresa que fundou e depois vendou para HP por US$ 1,6 bilhão em dinheiro, seu fundo de investimentos, a Andreessen Horowitz, que já investiu em outrora startups como Facebook, Instagram e Airbnb ou ainda seu livro (Martins Fontes, 2017).  Mas ele não é excelente no contexto literário, mas por escrever por e para muitos empreendedores ao redor do planeta.

Seu texto é a redenção para os empreendedores que fracassam todos os dias. Enquanto muitos que querem empreender ficam ludibriados com mensagens do caminho fácil e inspirador de serem independentes, Horowitz fala pelos que estão na luta, liderando suas empresas todos os dias. “O difícil não é sonhar grande, é acordar suando frio no meio da noite quando o sonho vira pesadelo.” – diz.

É com estes pequenos detalhes que se tornam imensidões para os empreendedores, que ele escreve um dos textos mais “socos no estômago” do seu livro (pág. 67):

Sobre a luta

A luta é aquele momento em que você se pergunta por que fundou a empresa.

A luta é aquele momento em que as pessoas lhe perguntam por que você não desiste, e você não sabe o que responder.

A luta é aquele momento em que os funcionários pensam que você está mentindo, e você começa a pensar que eles talvez tenham razão.

A luta é aquele momento em que a comida perde o gosto.

A luta é aquele momento em que você não acredita mais que deva ser o diretor executivo da sua empresa. É aquele momento em que você está nadando em águas demasiado profundas, mas, ao mesmo tempo, sabe que ninguém pode substituí-lo.

A luta é aquele momento em que todos pensam que você é um idiota, mas ninguém o demite.

A luta é aquele momento em que suas dúvidas sobre sua capacidade começam a se transformar em ódio por você mesmo.

A luta é aquele momento em que você está conversando com alguém, mas não ouve nenhuma palavra que lhe é dita, pois só tem ouvidos para a luta em si.

A luta é aquele momento em que você gostaria de parar de sentir dor, é infelicidade.

A luta é aquele momento em que você sai de férias para parar se sentir melhor, mas acaba se sentido pior.

A luta é aquele momento em que, rodeado de gente, você se sente sozinho. A luta não tem piedade.

A luta é o território das promessas descumpridas e dos sonhos despedaçados. É o suor frio, uma sensação tão forte de queimação no estômago que você tem a impressão de que vai cuspir sangue.

A luta não é um fracasso, mas a causa de um fracasso, em especial para os fracos – para os fracos, sempre.

A maioria das pessoas não é forte o suficiente.

Todos os grandes empreendedores, de Steve Jobs a Mark Zuckerberg, passaram pela luta. Todos eles lutaram, de modo que você não está sozinho. Mas isso não significa que você vá vencer. Talvez não vença. É por isso que o nome do que estou falado é “a luta”.

É na luta que nasce a grandeza.

Marcelo Nakagawa é Professor de Empreendedorismo e Inovação do Insper.

Livros (agora e ainda por muito tempo) forjam os melhores empreendedores

16 de novembro de 2018

Se há algo que une os empreendedores mais bem sucedidos ao redor do mundo é a paixão pelos livros. Não como bibliófilos ou bibliomaníacos, mas como pessoas que querem e buscam aprender continuamente e encontram nos livros uma forma organizada, conveniente, eficiente e, muitas vezes, inspiradora de estudar algumas horas em uma agenda atribulada aquilo que demoraria semanas, anos ou mesmo uma vida inteira.

Por isso, a sugestão de um livro de um empreendedor bem sucedido implica em um resumo de sua sabedoria aprendida, muitas vezes, à custa de muitos fracassos e erros, e também de vitórias e acertos, que quase sempre não conhecidos pelo grande público. Mas, por outro lado, a sugestão diz respeito a questões específicas que podem não ter valor imediato. Quando Bill Gates publica sua lista de livros (www.gatesnotes.com/books), as vendas disparam nas livrarias. Mas o que Bill sugere nem sempre é útil para os mortais usuários de word, excel e powerpoint. Afinal, Bill Gates, aos sete anos, já tinha lido todos os 21 volumes de World Book Encyclopedia (equivalente a Barsa ou Enciclopédia Britânica) e, desde então, nunca mais parou de devorar livros. O mesmo vale para Elon Musk, o celebrado empreendedor da Tesla, SpaceX e SolarCity. Ele demorou “bem mais tempo” que Gates, pois só terminou de ler a coleção completa da Enciclopédia Britânica aos 10 anos, passando a ler cerca de 10 horas por dia durante toda a sua adolescência.

Mas não é a quantidade mas a qualidade da leitura que importa. E isto será sempre uma percepção pessoal, sendo sua compreensão e aplicação algo intrínseco àquele momento do indivíduo em particular.  Por isso, encare as listas de sugestões de livros exatamente como é: uma lista de sugestões.

A nova geração de startupeiros mais bem sucedida ao redor do mundo sempre coloca dois livros na lista entre os mais recomendados. De Zero a Um, de Peter Thiel e O Lado Difícil das Situações Difíceis de Ben Horowitz. Para quem vai empreender em qualquer negócio, mas principalmente uma startup inovadora e de base tecnológica, tanto Thiel como Horowitz mostram o lado real e nada romântico do empreendedorismo. E o resumo dos dois livros é o mesmo: eu avisei!

Entre os empreendedores mais famosos e lendários, a lista de livros que mais impactaram suas vidas se divide em obras filosóficas, que guiaram o seu modo de pensar ao longo do tempo e publicações instrucionais, que orientaram a sua forma de agir.

Entre as obras filosóficas, a primeira e mais importante influência em Steve Jobs foi o livro Autobiografia de Um Iogue escrito pelo guru indiano Paramahansa Yogananda. Jobs conheceu a obra aos 17 anos e passou a lê-lo anualmente até falecer. Dizem que era o único livro no seu iPad e os convidados para o seu funeral receberam a publicação como seu último presente. Yogananda pregava a simplicidade fortemente observada nas criações da Apple.

Outra obra também filosófica é Enéadas escrita pelo filósofo Plotino e publicada por volta de 270 d.C. Plotino é quase desconhecido no Brasil se não fosse pela constante referência que Luiz Antônio Seabra, co-fundador da Natura, dá quando explica como surgiu o conceito da Natura no momento em que a fundou em 1969. A visão holística, integrada e sustentável que consolidou na empresa, explica Seabra, é o resultado direto da inspiração que Plotino trouxe para a sua vida como um todo.

Neste contexto de influências filosóficas na gestão de empresas também entra o livro A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen, escrito pelo filósofo alemão Eugen Herrigel, que foi ao Japão aprender a técnica milenar do arco e flecha. Durante meses aprendeu a respirar, ouvir o ambiente, escutar o coração sem atirar nenhuma flecha sequer. Para um ocidental que buscava praticidade e objetividade, aquilo foi uma tortura insana. Só depois que aprendeu a se conhecer, ouvir o ambiente e se comprometer, literalmente, de corpo e alma, começou a atirar. Esse é um livro constantemente indicado por Meyer Nigri, o fundador da Tecnisa.

A lista poderia ser enorme, mas termino com um livro de ciência exata que, para Elon Musk, também é filosófico.  Vários livros o influenciaram como o Guia do Mochileiro das Galáxias, mas foi em Estruturas: Ou porque as coisas não caem, do professor de ciência dos materiais e biomecânica J. E. Gordon, que Elon Musk passou a utilizar os conhecimentos de física nos negócios.

A lista de publicações instrucionais que influenciaram fortemente grandes empreendedores é ainda maior. Bill Gates explica que mesmo depois de mais de 20 anos de ter recebido a sugestão do seu amigo Warren Buffet, o livro Aventuras Empresariais, escrito por John Brooks, continua sendo o mais importante que leu em sua vida pois narra diversas situações empresariais de empresas reais que são grandes lições para qualquer tipo de negócio. Se este livro fala de erros, o livro preferido de Jeff Bezos, Made in America, escrito por Sam Walton, fundador do Walmart, fala de acertos e da importância da austeridade e também da inovação no desenvolvimento de grandes negócios. O livro de Sam Walton também marcou fortemente o início da vida empresarial de Jorge Paulo Lemann e Beto Sicupira, que escreveram o primeiro prefácio da edição em português.

Para finalizar, dois livros bastante úteis para o momento atual das empresas. O primeiro lida com a formação de equipes integradas e alto desempenho. Os 5 Desafios das Equipes, escrito pelo consultor Patrick Lencioni, é a ótima sugestão de Edgard Corona, o fundador da SmartFit para este desafio. E em momentos em que muitas organizações precisam reduzir custos e aumentar receitas, o livro Dobre seus Lucros, do consultor Bob Fiffer, é sempre lembrado como o único livro que Marcel Herman Telles, empreendedor da AB-Inbev, enviou para todos os diretores das empresas do Grupo 3G mais de uma vez.

Por mais que as tecnologias de inteligência artificial avancem e as comunicações digitais proliferem, os (bons) livros, agora e por muito tempo, ainda forjarão os melhores empreendedores.

Marcelo Nakagawa é Professor de Inovação e Empreendedorismo do Insper.

 

Corporações e startups: os dez erros iniciais (e fatais) que os empreendedores mais cometem

12 de novembro de 2018

Por mais que pareça uma grande novidade, o interesse de grandes corporações por startups está em sua quinta onda mundial e na terceira no Brasil. Em outros momentos, as grandes empresas já tinham percebido as oportunidades em interagir, fechar parcerias e investir em startups. E, como nas ondas anteriores, executivos e empreendedores retornam ao início da jornada e precisam desenvolver conhecimentos para aumentar a eficácia neste tipo de relação.

Muitos erros são cometidos e, desta forma, há inúmeras oportunidades de melhorias pelas duas partes. Entre algumas das falhas críticas que muitos empreendedores cometem logo no início da relação estão:

Não estudar (previamente) a corporação. Mas o que a empresa de vocês faz mesmo? Pergunta o empreendedor para a banca de executivos que iria ver a sua apresentação. Nem todos os empreendedores são tão estúpidos assim, mas boa parte não faz seu dever de casa prévia e adequadamente. Estudar o histórico da empresa, sua atuação, concorrentes, estratégia e, principalmente, seus desafios (lembre-se de que ela não tem problemas… tem desafios ou objetivos estratégicos!) é o mínimo que se espera de alguém que se propõe a ser um parceiro estratégico da companhia.

Não pesquisar e identificar quem são os executivos que participarão da reunião. Estamos só esperando o CEO da empresa para começar? Questiona o empreendedor ao rapaz de camisa polo, jeans e sapatênis que está ao seu lado na mesa de reunião. Se essa é a sua preocupação, já podemos começar. – Responde o rapaz ao empreendedor que ainda não entende o sarcasmo. Nas corporações mais modernas, que aderiram à informalidade nas relações, é impossível para um forasteiro saber quem é quem na hierarquia organizacional, mesmo porque, o CEO se mistura ao seu time, não apenas fisicamente, mas em opiniões e discussões. Custa pouco pedir antecipadamente a lista de quem estará presente e pesquisar no Linkedin. Mas sai muito caro não saber com quem está falando na firma.

Não identificar qual é o desafio da corporação que sua startup resolve. Nem tinha me tocado que minha startup poderia resolver o problema dessa corporação desse jeito… – Relata o empreendedor. Muitos empreendedores se cegam fascinados pela inovação que estão desenvolvendo e não conseguem vislumbrar que sua solução seria muito útil em outros desafios empresariais aparentemente desconexos.

Não identificar rapidamente qual executivo irá ajudar a bater a meta. Não existe relação grande empresa e startup. O que há são executivos se relacionando com empreendedores. Se nenhum executivo entender que a startup o(a) ajuda a bater meta, a relação não irá adiante.

Portar-se arrogantemente como empreendedores e não executivos. É um paradoxo. A corporação diz querer inovar com startups, mas seus executivos buscam uma solução segura que não arrisquem seus empregos e a empatia é imediata quando o empreendedor também age e se porta como um executivo.

Não contextualizar e caracterizar a (grande) vantagem competitiva que se consolidará pela parceria. Ah, inclusive já atendemos seu principal concorrente! Diz o orgulhoso empreendedor tentando demonstrar que sua solução já foi validada pelo mercado. E depois, na saída reclama: Acho que eles não entenderam a solução…

Chamar mais a atenção do que a solução da sua startup. Roupa amassada, camiseta velha, jeans sujo, saia muito curta, computador com adesivos polêmicos, piadas inoportunas, cheiro de suor e até falta de higiene bucal. Não tudo isso ao mesmo tempo e (ainda bem) são exceções.

Não entender a lógica da PoC. Fechar uma parceria com uma startup é, em boa parte dos casos, um enorme risco não só para a imagem da corporação (que pode chegar a bilhões de reais) mas para o executivo que toma a decisão. Quando se contrata um grande fornecedor e o projeto dá errado, a culpa é do fornecedor. Quando se contrata um pequeno provedor, a culpa é de quem? Por isso, as grandes corporações criam uma fase de prova de conceito (que muitos empreendedores odeiam) em que a startup será validada em diversos aspectos, inclusive o comprometimento e a capacidade de execução dos empreendedores e a escalabilidade da solução.

Não compreender que a corporação é rica, mas o departamento é pobre. As grandes empresas que faturam milhões ou bilhões de reais podem parecer imponentes, mas seus departamentos sobrevivem de orçamentos restritos aprovados no ano anterior. Cada real gasto foi previsto e enxugado até o último centavo possível. Por mais que o contrato seja celebrado com a grande empresa, o recurso sairá de um departamento com orçamento de média ou até pequena empresa.

Não (saber) lidar com o jogo do Fácil-Sim. A negociação entre corporação e startup é finalizada, invariavelmente, com um sim ou um não. Este sim ou não pode ser fácil ou difícil. Não raro, a solução inovadora, escalável, disruptiva vislumbrada pela startup para a corporação será um difícil sim ou, mais provavelmente, um difícil não. A “empresa” até entente o potencial de inovação, mas o “executivo” não arriscará seu bônus do ano e até sua carreira nesta “aposta”. Cabe ao empreendedor levar a negociação para uma proposta simples, barata e com pouco risco para a empresa. Esta é a solução Fácil-Sim que será validada na PoC. Uma vez dentro da corporação, já tendo validado a solução e a capacidade de execução, aí sim, aquela solução inovadora, escalável, disruptiva começará a fazer mais sentido.

Mas de todas as falhas cometidas pelo empreendedor na sua relação com a corporação, as mais graves são as que ocorrem depois: dizem que não aprenderam nada com o processo, reclamam da perda de tempo e ainda não expandem sua rede de relacionamentos.

Marcelo Nakagawa é Professor de Inovação e Empreendedorismo.

Um case de sucesso no Terceiro Setor

12 de novembro de 2018


Esta é a história de Marcelo Nonohay, fundador e diretor executivo da MGN, empresa especializada na gestão de projetos para transformação social. Gaúcho, bom contador de histórias e que nas horas vagas faz aula de guitarra, Marcelo é mestre em administração pela conceituada Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), e membro Titular do Conselho Nacional do Voluntariado 2018/2019. Ele conta que a jornada empreendedora começou em 2006, apenas formado em Porto Alegre, e em 2010 desembarcou em São Paulo para colocar a MGN em abrangência nacional. Já deu palestras para mais de 15 mil executivos de empresas nacionais e internacionais, tornando-se uma referência nas áreas de voluntariado empresarial e educação.

Quando teve vontade de empreender?

Sempre tive um exemplo empreendedor dentro de casa. Antes mesmo de eu entender o que significa ser empreendedor eu via várias facetas do empreendedorismo. Tanto as coisas boas quanto as não tão boas em ser dono de um negócio próprio: paixão pelo que se faz e o orgulho pelas realizações; longas horas de trabalho e uma preocupação constante com o bem-estar dos funcionários; satisfação de clientes e a perenidade do negócio. Ser empreendedor sempre foi uma opção aberta, mas só virou uma realidade bem mais tarde. Nesta época eu já estava formado em administração e decidi fazer um mestrado. Neste período, além de um grande aprendizado acadêmico, pela primeira vez entendi que conseguiria viver sem ter um emprego formal e que eu poderia fazer um caminho diferente, pagar os custos e colher os frutos de uma vida mais independente. Foi nesse período que nasceu a MGN.

Olhando para atrás, houve uma inspiração especial?

Sim, na escola fiz parte de um programa que desenvolve empreendedorismo entre jovens com o trabalho de voluntários do mercado – a Miniempresa da Junior Achievement. Essa experiência foi transformadora, pois moldou em grande parte o meu negócio atual.

Primeiro apareceu o empreendedor ou a ideia?

No início eu achava que para ser um empreendedor de sucesso eu teria que ter uma ideia genial. É obvio que se você tem uma ideia genial e o mercado aprova, você está muito bem encaminhado. Mas entendo que nem todos os empreendedores terão uma ideia genial para começar. Olhando em retrospectiva, eu comecei fazendo o que sabia, explorando o que gostava e sempre muito aberto a aprender. Não criei a MGN a partir de uma ideia genial, mas hoje tenho certeza que o que ela faz é genial. Se me perguntassem há uns 15 anos se eu achava que uma empresa como a MGN poderia existir, eu diria que não.

Qual o foco de trabalho da MGN?

Nós trabalhamos com a gestão de projetos para a transformação social. Criamos esse guarda-chuva amplo, pois estamos envolvidos em projetos de voluntariado, educação e diversidade. Por isso, entendemos que nosso negócio sempre tem relação com algum tipo de transformação social que queremos ver na sociedade. Nem sempre tivemos esse foco exclusivo, no entanto. O começo de um negócio é sempre muito difícil. Por se tratar de um negócio de consultoria, também fizemos muitos trabalhos de planejamento: planos de negócios, planejamento estratégico e planos de marketing. Aproveitamos até hoje a experiência que adquirimos com esse tipo de trabalho. Muitos temas que desenvolvemos nessa época ainda aplicamos nos nossos projetos, como por exemplo empreendedorismo, sustentabilidade, inovação, gestão estratégica e pesquisa de mercado.

Como é que a família participa (ou não) no empreendimento?

A família do empreendedor sempre participa do seu negócio. No caso da MGN tenho membros da família que se envolvem de forma pontual em alguns trabalhos, de acordo com suas competências. Além disso, todos sofrem um pouco com as noites mal dormidas, assim como vibram com cada conquista.

E como é a rotina diária de uma empresa do Terceiro Setor?

Nosso cotidiano é bastante intenso. Por sermos uma empresa que presta serviço, é esperado que estejamos funcionando no horário comercial, mas como trabalhamos com muitos eventos, em especial de atividades de voluntariado empresarial, trabalhamos muitas noites e fins de semana, horários em que muitos programas de voluntariado corporativo realizam suas atividades. Para dar conta dessa demanda, zelamos por manter um ótimo clima organizacional, valorizamos a diversidade para que todos se sintam acolhidos e temos sistemas de bonificação para as lideranças e para quem trabalha em eventos. Além disso, o resultado do nosso trabalho sempre é carregado de muita satisfação pessoal, pois atuamos no que eu chamo de Economia do Bem. Para mim, esse conceito vai muito além das definições de Terceiro Setor ou Negócios Sociais. Aqui entram todas as formas de produção, trocas, consumo e descarte que propõem uma revisão das maneiras tradicionais.

Quais são os planos de futuro do negócio?

Nossos planos de futuro incluem a expansão concêntrica de negócios. Estamos explorando novos mercados onde podemos aplicar nossa expertise no Brasil e fora.

Se pudesse dar uma dica aos empreendedores que estão chegando agora no teu setor, qual seria?

Vejo que atuar no setor, seja por meio de uma Organização ou Negócio Social, ou até mesmo com uma consultoria é muito tentador para os jovens. Essa nova geração já chega ao mercado pensando em empreender com propósito. Todos querem fazer o que gostam. Não há mais espaço para ser infeliz no trabalho e fazer o bem nas horas vagas. O ponto é que empreender em qualquer setor, mesmo que seja para fazer o bem, não é fácil e não é para qualquer um. Às vezes me preocupa ver tantas pessoas se jogando no mercado sem nenhuma noção ou preparo. Mesmo em um negócio que é 100% ligado à realização pessoal do empreendedor, as dificuldades e a vontade de desistir baterão à porta. Tudo começa por autoconhecimento: a pessoa tem que estar disposta a viver a vida de empreendedor.

Qual o futuro do Brasil?

Embora seja um clichê, eu acredito que o Brasil tem um enorme potencial, um grande mercado consumidor, uma cultura rica, grande diversidade ambiental e social, algumas ilhas de excelência e um povo criativo. O problema é que para que esse potencial seja realizado, precisamos investir em educação com um pensamento de longo prazo. Vejo que a MGN dá uma contribuição, pois quando desenvolvemos know-how para dar mais efetividade e maior impacto ao investimento social privado, estamos trabalhando para construir um futuro melhor.

Saiba mais:

http://mgnconsultoria.com.br/

Ivan Primo Bornes (ivan@pastificioprimo.com.br) – empreendedor e fundador da rede de rotisserias Pastificio Primo (www.pastificioprimo.com.br).

 

Ah… e tem mais uma coisa: Inovação é meio, se não, será o fim

2 de novembro de 2018



Nas memoráveis apresentações anuais dos lançamentos da Apple conduzidas por Steve Jobs, a plateia aguardava ansiosa pela parte final em que Jobs fazia uma pausa e anunciava: Ah… e tem mais uma coisa! Os presentes no auditório urravam com este aviso. A maior e mais secreta inovação da Apple seria apresentada em alguns segundos. Sigilo, foco no cliente e vendas maiores do que no período anterior eram cuidadosamente orquestrados por todos na empresa e aquele momento não era o fim, mas o meio para se construir mais um ano memorável.

Ser inovador ou algo ainda pior, parecer inovador, tornou-se um mantra entre muitos líderes executivos. Suas organizações lançam iniciativas pomposas, contratam consultores com discursos rasos com teor bombástico e apocalíptico, começam a pregar inovações radicais e exponenciais e divulgam todas as suas intenções, passos e projetos de inovação nas redes sociais pois querem parecer inovadores. Seus concorrentes mais tolos irão correr para lançar iniciativas ainda mais pomposas, com consultores (agora internacionais) ainda mais bombásticos e apocalípticos e a briga por quem cospe mais longe se acirrará. Porém, seus concorrentes mais inteligentes adorarão saber quais são as estratégias de inovação do competidor que publica tudo na internet.

Como inovação se tornou um fetiche de muitas corporações, a primeira questão que, quase sempre, levantam é como inovo? Crio uma aceleradora de startups como meu concorrente ou lanço um laboratório de inovação como o outro fez? Faço um hackathon ou uma sessão de design thinking? Levo a área de inovação da empresa para um coworking ou construo um próprio?

Essas dúvidas são inócuas quando há uma questão anterior que direcionará todas as outras: Por que inovar? Muitas corporações não têm a mínima noção sobre como responder esta pergunta. Nos casos mais grotescos, a resposta implícita é porque meu concorrente está inovando. A melhor resposta deveria estar associada à construção de um futuro mais próspero para a empresa em um ambiente de negócio cada vez mais caótico, incerto e tecnológico. Em casos mais graves e urgentes, a resposta diz respeito a própria sobrevivência da companhia.

 

Muitas corporações não sabem por que querem (ou precisam) inovar pois seus dirigentes enxergam o futuro olhando para o passado e seus executivos concentram-se em garantir o bônus do ano. E estão racionalmente corretos. Em 2007, a Nokia rumava para ser a primeira corporação a atingir um bilhão de clientes com seus telefones celulares inovadores. Sua participação de mercado era maior do que a somatória de todos os demais concorrentes. Ela se preparava para ocupar a China, o maior mercado emergente do mundo. E seu concorrente mais inovador ainda era pequeno e tinha um peculiar nome de fruta. Se fosse executivo da Nokia naquele momento teria certeza de que a empresa estava no caminho correto e saberia qual fruta era essa.

Pouco mais de uma década depois, muitos sabem o que aconteceu com a Nokia e têm certeza absoluta do nome da fruta. Mas em uma década, diversas outras corporações do mundo se tornaram Nokias. Como muitas ainda não sabem disso, acreditam que a inovação é um fim em si mesma, por isso, gostam de alardear publicamente suas iniciativas de inovação. Mas as empresas mais inovadoras do mundo, segundo o ranking publicado pela revista Fast Company, como a Apple, Netflix, Tecent e Amazon não divulgam iniciativas, mas “acabativas” de inovação quando a concorrência já foi deixada nitidamente para trás.

Organizações e executivos que não percebem que a inovação é um meio, encontrarão, invariavelmente, seu fim, pois não entregarão os resultados esperados por qualquer companhia: aumento de vendas, redução de custos, incremento do valor ou fortalecimento do seu propósito de existir.

Ah… e tem mais uma coisa: A fruta que a Nokia achava que era sua concorrente inovadora não era uma maçã, mas uma amora.

Marcelo Nakagawa é Professor de Inovação e Empreendedorismo do Insper

De advogado a chef de cozinha e empreendedor

23 de outubro de 2018

Esta é a história de Thiago Benetton Gil, chef de cozinha e idealizador da Burger Happens, no bairro da Vila Mariana, uma hamburgueria que começou minúscula em 2016, na garagem do prédio da família, e que mesmo após uma ampliação, continua pequena – e lotada. O cardápio tem apenas três burgers fixos e um burger inédito a cada semana, o que significa que desde a abertura foram produzidas mais de 100 diferentes receitas. Este ano, o negócio dobrou de tamanho.  “De uma garagem, passamos agora para duas garagens” brinca o Thiago.

O que te levou a deixar a profissão de advogado e empreender na gastronomia?

Desde pequeno me imaginava em uma cozinha, sendo dono de um restaurante, mas sempre soube que seria um sonho muito difícil de realizar. Ninguém na minha família trabalhou em restaurante ou teve um negócio próprio no ramo alimentício e esse fato só contribuiu para dificultar a realização do meu sonho. Me formei em Direito, pós-graduei, passei na OAB e comecei a estudar para prestar concursos, mas sabia que não era aquilo que me faria feliz. Após a frustração com os resultados de alguns concursos, fui morar em Berlim, na Alemanha. Naquele país eu comecei a ver que um negócio pequeno poderia ser mais interessante do que um negócio grande e que algo pequeno funcionaria melhor, pois eu conseguiria ter maior controle administrativo. Porém, continuava sem dinheiro para tanto.

Na Europa, trabalhei em cozinhas e aprendi muito com minhas experiências. Voltei ao Brasil, não consegui me encaixar no ramo gastronômico e voltei às atividades jurídicas. Após um ano de trabalho eu consegui juntar dinheiro para investir em um negócio. Minha avó, de surpresa, me ofereceu uma pequena garagem no prédio construído pelo meu bisavô. Eu pensei muito, fiz muitas contas e decidi abrir minha hamburgueria. Todos me perguntaram por que hambúrguer e a resposta é simples: era o que o espaço me permitia fazer, era o que meu dinheiro podia pagar e era uma das técnicas culinárias que eu mais dominava. Então finalmente consegui realizar meu sonho.

Primeiro apareceu a hamburgueria que forçou você a virar empreendedor? Ou primeiro apareceu o empreendedor que saiu procurando um negócio?

Na verdade as duas coisas. Eu sempre quis empreender, mas não sabia direito como e não tinha condições financeiras. Depois, as oportunidades surgiram, coube no meu orçamento e eu me dediquei de corpo e alma pra fazer o negócio acontecer.

Como é que a família participa do empreendimento?

Minha família tem uma participação muito importante no meu negócio. Minha irmã hoje se tornou minha sócia, meus pais nos apoiam demais e sempre que podem nos ajudam aqui. Na verdade, eu só contei que ia abrir minha hamburgueria 15 dias antes de inaugurar, porque sabia que eles teriam medo por mim. Hoje em dia meus pais sonham meu sonho comigo, sempre me ajudam muito, dão conselhos e criticam quando necessário e sempre ficam muito felizes com nosso sucesso. Tenho certeza de que eles se orgulham demais de mim e, agora, da minha irmã.

Para o empreendedor, os dias e noites são bem diferentes do “normal” das pessoas. Como você vive isso?

Realmente essa é a parte mais complicada de empreender. Já tive diversos problemas por conta dos meus horários, normalmente as pessoas não entendem que não podemos deixar o negócio. Já deixei de ir a casamentos e aniversários, já deixei de confraternizar com amigos e família, já perdi um relacionamento por conta da falta de tempo, porém hoje em dia estou conseguindo me adaptar e me acostumar com essa vida. Tenho uma namorada maravilhosa que me entende e que me apoia, tenho minha família que sempre me ajuda e me incentiva, tenho amigos e familiares que fazem confraternizações aqui na hamburgueria pra que eu possa participar, enfim, infelizmente acabo abdicando um pouco da minha vida pessoal, mas faço isso porque amo meu trabalho e minha rotina. Mais pra frente, quando meu restaurante estiver andando sozinho, eu vou sentir falta da correria da operação e do calor da cozinha.

Quais são os planos de futuro do negócio?

Eu não abri o Happens pra fechar ou pra colocá-lo nas mãos de outras pessoas. Quero consolidar a base e quero abrir filiais em locais estratégicos, tenho vontade de vender o Happens como minha marca com roupas e acessórios, já pensei em abrir uma barbearia com o mesmo nome, tenho vontade de expandir o negócio com outras frentes como pizza, cozinha vegana, bistrô… Mas também tenho vontade de voltar à Europa… Isso não significa que eu teria que fechar meus empreendimentos, pelo contrário, quero mantê-los funcionando para que tenha condições de viajar pra estudar, pra aprimorar meus conhecimentos e para enobrecer meus cardápios.

Se você pudesse dar uma dica aos empreendedores que estão chegando agora no teu setor, qual seria?

Não tenham medo de empreender! Tudo e todos farão e falarão de tudo pra que você não abra seu negócio, mas se é seu sonho e se você tem condições de bancar seu empreendimento, faça! Sem medo! Você só vai saber se valeu a pena se você arriscar!

Qual o futuro do Brasil?

Essa é uma pergunta muito difícil de responder. Espero que o Brasil se torne um país de menos impostos e mais oportunidades. Espero que diminuam as burocracias e que aumentem o respeito ao empreendedorismo. Espero que eu consiga prosperar mais e mais com meu negócio e com a minha marca. Espero poder empregar mais pessoas e poder fazer com que as pessoas que me visitam saiam sempre satisfeitas e felizes. Minha contribuição será sempre uma cozinha de qualidade pra que as pessoas esqueçam seus problemas na primeira mordida.

Burger Happens
Rua Alcindo Guanabara, 27, Vila Mariana
Fone: (11) 3578-2613
Insta: @burgerhappens
Facebook: /burgerhappens

Ivan Primo Bornes (ivan@pastificioprimo.com.br) – empreendedor e fundador da rede de rotisserias Pastificio Primo (www.pastificioprimo.com.br)