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Blog do Empreendedor
O cotidiano de empreendedores como você
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Cannoli para tubarões – o empreendedor que sobreviveu ao Shark Tank

23 de abril de 2018

O sonho de ser empreendedor é uma força da natureza, difícil de ser contida, que nos faz dar mil voltas até encontrar o seu curso. Hoje apresento uma entrevista muito divertida e enriquecedora com o empreendedor Alexandre Caliman, jornalista, publicitário, vespista e – acima de tudo – orgulhoso dono, junto com a esposa Mônica, da empresa Cannoli do Calimano.

No filme “O Poderoso Chefão”, o mafioso diz “Leave the gun, take the cannoli” (“Deixe a arma, pegue os ‘cannoli’”). Os cannoli são um dos doces mais conhecidos da Itália, originários da Sicília, onde eram presença obrigatória nas festividades das comunidades rurais e no carnaval. Hoje fazem parte do dia a dia das ruas e das confeitarias de toda a Itália. As receitas de cannoli chegaram ao Brasil junto com os imigrantes.

Assista o vídeo do Alexandre preparando a sua receita “secreta” na cozinha de casa.

Entre as várias aventuras que o negócio do cannoli vem proporcionando, Alexandre e Mônica foram selecionados em 2017 a participar na segunda temporada do reality show Shark Tank Brasil, onde apresentaram o projeto de investimento de transformar a fábrica “caseira” num negócio de grande porte. Mesmo não conseguindo convencer os “tubarões”, os doces foram um sucesso, e Alexandre levou para casa um grande aprendizado.

1. Qual o teu histórico profissional e como isso culminou na vontade de empreender?

Cara, meu histórico profissional é meio maluco e se confunde com a minha história de vida, porque eu sempre trabalhei, desde os 13 anos. Não porque precisava ajudar a família ou porque meus pais me obrigaram a isso. Mas porque eu queria!

Comecei como balconista em uma locadora de vídeo, e isso me deu uma muita noção de atendimento ao público. Sempre fui fã dos filmes clássicos e dos filmes de ação da época… fiquei uns 3 anos nessa locadora, vi muito filme, fiz muita sinopse e atendi muita gente do bairro, que virou minha amiga.

Bom, depois disso acabei indo trabalhar com meu pai na gráfica e aí aprendi com ele, e com a equipe toda, o valor da excelência nos processos. Ver a produção, acompanhar meu pai na gestão e também ajudar no dia a dia sendo uma espécie de “faz tudo” da gráfica me fez entender como é importante um empreendedor saber e já ter feito tudo o que é feito na sua própria empresa. Meu pai começou como contínuo numa gráfica, foi impressor, trabalhou em todas as áreas, foi vendedor e depois de, sei lá, 20 anos, resolveu abrir a própria empresa – que durou algumas décadas até ele adoecer e morrer bem novo, com 48 anos. Ele, Luiz Caliman, era uma força da natureza trabalhando, um líder nato. E era apaixonado por artes gráficas. Muitas vezes o vi saindo do papel de “dono da empresa” pra virar impressor, acabamentista ou tipógrafo, junto da equipe. Foram uns 4 ou 5 anos que passei ao lado dele que me inspiram até hoje.

Daí, com uns 20 anos fui trabalhar em shopping, fui estoquista, caixa e vendedor. Passei por uma loja de roupas e outra de sapatos. Nas duas, aprendi que um cliente, na maioria das vezes, entra pra comprar um item, mas se o trabalho for feito de forma apaixonada e correta, a gente convence ele a levar mais uns 3 ou 4 e ainda lhe agradecer no final.

Em 1999  me formei em Jornalismo (aos 25 anos) e aí fui trabalhar numa grande empresa. Já comecei sendo editor de quadrinhos, na Abril Jovem e agradeço ao universo por isso: terminei uma faculdade de jornalismo, mas fui trabalhar mais uma vez com coisas que amava, as HQ’s de super-heróis. Lá foram 3 anos de um aprendizado completamente diferente do anterior. Vi que numa empresa grande, só sobrevive quem está disposto a “se anular por um bem maior”… não tem espaço pra grandes ideias, não existem grandes possibilidades para arriscar. É tudo controlado pela instituição e a gente consegue, às vezes, colocar uma ideia própria em prática… é tudo muito mais político, mais engessado, mais hierarquizado. Mas foram anos incríveis também. Daí saí pro mundo da internet – lembra da bolha? Participei do portal Zip.net como editor, passei pelo UOL e, quando a bolha da internet estourou, acabei me tornando um redator publicitário.

Há uns 5 anos, talvez pela famigerada crise da meia idade, percebi que só a publicidade não me completaria pessoalmente e comecei a pensar em fazer algo relacionado a outra paixão que tenho na vida: a Itália e tudo o que está relacionado a este país. Sempre gostei de cozinhar e, modéstia a parte, sempre cozinhei bem. Foi então que, por hobby comecei a fazer os cannoli. Mas logo, virou empreendimento. E aí tudo começou a se mover diferente, pra um caminho bacana que, eu acredito, vai me levar ainda bem longe!

2. Você teve algum perrengue que serviu de aprendizado?

Tive. E foi com os próprios cannoli. Em 2014, depois do auge da onda dos food trucks, a gente (eu e a minha sócia e esposa, a Mônica) resolvemos abrir uma pequena loja em um strip mall do bairro (na Casa Verde) onde os eventos de food truck eram feitos com sucesso. Depois de 4 meses, fechamos. Não por falta de público, nem por conta de má gestão, mas por uma incompatibilidade de objetivos entre nós e os donos do pequeno shopping. Na verdade, eles só queriam a gente lá (e todos os outros que alugaram suas lojas) para não ficarem sem renda até a venda da propriedade. Claro que a gente não sabia dessa intenção deles e quando descobrimos, resolvemos cortar relações. Nesse episódio, aprendi que muitos fatores, além da qualidade do seu produto, bom atendimento e esforço pessoal, podem influenciar no seu negócio. Como por exemplo: o caráter dos donos do imóvel que a gente aluga pra montar um empreendimento.

E o maior aprendizado nesse caso foi o seguinte: não acredite “somente na palavra” de ninguém, faça contratos e especifique tudo nesses contratos. É o tal negócio… todo mundo é amigo, até as coisas começarem a ficar estranhas. Não estou dizendo que a gente deva desconfiar, nem que devemos ser pessoas rudes no trato e nas negociações. Acreditei, acredito e sempre vou acreditar nas pessoas, na gentileza e nos relacionamentos harmoniosos. Digo isso por uma questão de precaução mesmo e, vou usar outra frase feita pra exemplificar tudo isso: “o combinado nunca é caro”.

Aprendi que pesquisar antes sobre as pessoas, conversar com quem já fez negócios com elas, observar por um tempo antes de fechar negócio pode fazer a diferença na vida de um empreendedor e evitar algumas dores de cabeça.

3. A vontade de empreender veio antes ou depois do cannoli?

Creio que os cannoli surgiram de uma vontade absurda e contida que eu já tinha de empreender. Os doces (que pra mim são como joias) foram só a manifestação dessa vontade.

4. Como o empreendimento afetou a rotina da família?

Putz… senta que lá vem história… hehehe. Mudou tudo! Completamente tudo na nossa rotina. Eu continuo trabalhando como redator e a Mônica tem agora a dupla função de cuidar dos filhos e também dos cannoli (ela é quem coordena a produção, faz as compras, o financeiro e um montão de outras coisas). Esse apoio e a dedicação da Mônica com os cannoli são fundamentais pra boa saúde do negócio e da família. Sem ela, nada existiria, nem os cannoli, nem a família. Acho até que pra ser mais justo, a gente deveria chamar Cannoli da Monica, não do Calimano (risos). Acredito que vem dela toda a organização e a capacidade de conciliar a família com os negócios. Se dependesse só de mim, o foco estaria todo o tempo no trabalho. Mas quando eu estou “viajando” muito, deixando a família meio de lado, ela vem, me dá um puxão de orelha e me coloca no eixo de novo. Na prática, tentamos sempre estar o mais organizado possível para cumprir uma agenda. Procuramos sempre fazer tudo em família, quando é possível. No último evento que participamos, por exemplo, no Shopping Pátio Higienópolis, levamos os filhos com a gente. Enquanto trabalhávamos, eles comiam. E o Vito, 9, até que ajudou um pouquinho. A Giulia só curtiu o evento mesmo (risos).

5. Qual o teu ponto forte como empreendedor?

Ah… a vontade de fazer o melhor sempre, de não desistir. Também acredito muito na minha capacidade de comunicação com os clientes e no conhecimento que tenho do meu produto.

6. Conta um pouco de como foi a aventura do Shark Tank, como coisas legais  que aconteceram.

Foi uma experiência incrível. Primeiro porque eu achava que nunca seria chamado para participar, fiz um vídeo e me inscrevi muito despretensiosamente. Depois, porque o processo todo, do dia em que te ligam até o dia da gravação, é muito intenso. A gente fica imaginando como vai ser a vida se os tubarões toparem o negócio ao mesmo tempo que se prepara pra não fazer feio em frente às câmeras, ensaia o pitch umas 300 vezes por dia, conversa sobre a proposta umas 350 vezes, refaz os planos umas mil vezes… e aí quando vamos ver, já foi… E é muito bacana isso, como tudo o que tira a gente da zona de conforto. Foi muito legal conhecer os bastidores, ter contato com o pessoal da produção, todos muito ágeis e profissionais e gente fina (até hoje vendo cannoli pra alguns deles). É bem bacana ver como um programa de TV é feito e ficar cara a cara com os empreendedores considerados como alguns dos melhores traz pra gente uma confiança, um sentimento de que nada é impossível.

7. Qual o maior desafio enfrentado (e superado) até hoje com o Cannoli?

Creio que é o desafio que vamos ter que encarar sempre: a perda de um cliente. Esse ano, deixamos de atender a um restaurante que era nosso cliente desde o início do negócio. Foram quase 4 anos juntos e, como eles reformaram a cozinha e criaram uma estação dedicada a doces, passaram a fabricar seus próprios cannoli. Isso gerou um impacto negativo no início do ano, mas a gente superou encontrando um cliente ainda melhor, que compra mais do que esse restaurante e tem uma relação de parceria incrível com a gente!

8. Qual foi a maior besteira que você já fez? Alguma coisa que você teria feito diferente?

A gente tende a ter memória seletiva e esquecer as mancadas, mas algumas delas não esquecemos porque justamente nos ajudam e nos ensinam. Uma dessas foi quando eu, na ânsia de atender a tudo e a todos, aceitei fazer 4 eventos simultâneos em um final de semana. Foi uma loucura, correria. Saímos atrás de gente pra trabalhar, produzimos o dobro, nos enchemos de expectativas e 2 dos 4 eventos não tiveram nem a metade do público estimado. Deu tudo certo, graças ao nosso esforço, mas no final, não tivemos o retorno financeiro que imaginávamos. Chegamos à conclusão de que às vezes é melhor selecionar com calma quais eventos devemos participar, fazer contas imaginando o pior cenário e, só então assumir ou não uma responsabilidade. Resumindo, às vezes a gente ganha mais dando uma descansada e uma pensada nos próximos passos ao invés de sair como um trator querendo conquistar tudo!

Saiba mais do Cannoli do Calimano
Site:  cannolidocalimano.wordpress.com
Instagram:  instagram.com/cannolidocalimano
Facebook:  facebook.com/cannolicalimano

Ivan Primo Bornes (ivan@pastificioprimo.com.br) – empreendedor e fundador da rede de rotisserias Pastificio Primo (www.pastificioprimo.com.br)

Organizações caórdicas: como um gerente de uma pequena organização reuniu milhares de concorrentes para criar um negócio de US$ 300 bilhões

20 de abril de 2018

Talvez não conheça Dee Hock, mas muito provavelmente carrega a empresa que ele fundou em sua carteira. Em 1968, ele era um gerente mediano de um banco norte-americano também mediano, o National Bank of Commerce. Como sempre teve um comportamento empreendedor, ficava imaginando oportunidades para o banco em que trabalhava. Naquele ano, sugeriu que passassem a oferecer algo que outros milhares de instituições já faziam nos Estados Unidos: lançar um cartão de crédito.

O conceito de cartão de crédito já era antigo, do Século XIX mas só em 1958, o Bank of America, um dos principais do país, conseguiu criar um negócio bem sucedido, o Bank Americard. Hock encarregou-se de tentar associar seu banco a este cartão. Mas quando analisou mais detalhadamente o setor, descobriu que apesar do Bank America card ser o maior, havia milhares de iniciativas semelhantes. E que todas ficavam brigando entre si, oferecendo exatamente o mesmo serviço e incorrendo com inúmeros custos desnecessários. Além disso, os sistemas eram lentos e falhavam constantemente o que geravam dores de cabeça constantes para os bancos e seus clientes, além de ser um parque de diversões para fraudadores.

Neste contexto, Hock teve uma ideia óbvia do ponto de vista do mercado consumidor, mas absurdamente idiota considerando àquela concorrência confusa. Por que não reunir todos os cartões sob uma mesma iniciativa, aumentando a capilaridade e eficiência do setor? Mas para os bancos que atuavam no setor vinha a questão: por que eu vou me juntar ao meu concorrente, entregando minha infraestrutura e, principalmente, meus clientes já que, apesar das dificuldades, estou ganhando dinheiro? E para o Bank of America, a questão era ainda mais difícil de responder: por que eu, líder absoluto de mercado, preciso me juntar a milhares de nanicos que sequer considero como concorrentes?

Dee Hock não só conseguiu responder estas questões como convenceu 21 mil instituições, começando pelo Bank of America, a se juntarem a ele em um mesmo e único negócio.

Em seu livro “Nascimento da Era Caórdica” (Ed. Cultrix, 2000), Hock explica como fundou a Visa, a empresa de meios de pagamento avaliada atualmente em cerca de US$ 300 bilhões. Para explicar como conseguiu transformar concorrentes em parceiros, ele definiu um novo conceito: caórdico. Ou em mais palavras, como prosperar colocando ordem em algo que é naturalmente caótico.

O conceito de organização caórdica volta a ganhar importância neste momento em que o mercado é caracterizado pelo surgimento de inúmeras startups, sendo que o todo e cada uma se forma em meio a um caos. E por organizações de maior porte que começam a entrar em situação de caos dado a falta de engajamento dos seus colaboradores, a dinâmica confusa do mercado e o surgimento de inúmeros concorrentes.

Para quem está em meio a um caos e mesmo assim busca prosperar seguindo alguma ordem, uma reflexão sobre os ensinamentos difundidos por Hock pode ser muito útil neste momento. Ele que explica que as organizações caórdicas:

São baseadas em claros princípios e propósitos verdadeiramente compartilhados;

São auto organizadas e geridas no todo e nas partes;

Existem para fortalecer as partes;

São empoderadas pelas partes periféricas e unificadas em uma essência central;

São duradouras em propósito e princípios, mas maleáveis em forma e função;

Distribuem de forma equitativa poderes, direitos, responsabilidades e recompensas;

Combinam harmonicamente cooperação e competição;

Aprendem, adaptam-se e inovam em cada ciclo de expansão;

Liberam e amplificam a ingenuidade, a iniciativa e a reflexão pessoal;

Integram-se e incentivam a diversidade, a complexidade e a mudança;

Beneficiam-se ao harmonizar de forma construtiva o conflito e o paradoxo;

Restringem e incorporam de forma discreta métodos de comando e controle;

São compatíveis com os valores humanos e ambientais;

Por fim Hock defende que as organizações deveriam ser invisíveis. “São os resultados e não a estrutura ou gestão que deveriam aparecer!” – explica.

Marcelo Nakagawa é Professor de Inovação e Empreendedorismo do Insper

Como conseguir dinheiro para empreender?

19 de abril de 2018


Foto: Getty Images

Para empreender é necessário ideias, contatos, pessoas, técnica e dinheiro. Muitas vezes o entusiasmo e a sorte nos ajudam a começarmos um negócio, mas sem dinheiro é sempre mais difícil e improvável que a futura empresa cresça e se desenvolva de forma sustentável. Qual a melhor opção para conseguirmos recursos financeiros?

Há algumas opções para captarmos, mas lembre-se: dinheiro no Brasil é bastante caro e escasso. Intuitivamente tendemos a imaginar que os recursos de financiamentos bancários são mais caros. Na teoria financeira, captar financiamentos é mais barato do que captar recursos de investidores. Investidores tendem a perceber mais riscos e apesar de não cobrarem juros, pedem relevantes participações societárias e exigem condições para o aporte. Além de ser mais caro, captar de investidores nos obriga a adequarmos nosso modelo de gestão de acordo com os padrões de governança exigidos.

A melhor opção de captação de recursos nem sempre é a mais barata. Para captar recursos é importante analisar os riscos envolvidos e as exigências associadas, além de avaliar qual o percentual da companhia que se está disposto a vender, bem como quanto de poder é preciso abrir mão.

Dependendo da fase de desenvolvimento que a empresa estiver, ela pode acessar diferentes investidores ou financiadores. O nível de maturidade da companhia é diretamente relacionado ao seu nível de risco, o que determina que tipo de investidor aceitaria este nível de risco e qual seria sua exigência de participação ou mesmo de rigor em termos de governança. Desta forma, quanto mais nova ou arriscada a companhia for, provavelmente maior será a participação que o investidor exigirá para investir.

Novos negócios que estão começando agora
Negócios ou projetos que estão começando tendem a ser mais arriscados por estarem ainda em fase de estruturação, em prova de conceito, em desenvolvimento de protótipos e em formação do time. Neste momento de maior risco, os investidores tenderiam a exigir participações bem altas do capital para investir, o que pode inviabilizar a captação, uma vez que os empreendedores podem perceber que não vale colocar todo seu esforço para ficar com poucas ações.

Nesta fase inicial é preferível usar recursos financeiros da reserva pessoal dos empreendedores, ou partir para captar recursos das suas famílias e dos seus amigos, especialmente dos amigos mais ricos. Muitos empreendedores até vendem seus carros ou seus bens para investir na ideia.

Outra forma interessante para captar é acessar recursos de agências de fomento públicas como a Fapesp, Finep e CNPQ. Estas agências têm geralmente linhas de apoio a empreendedores para a fase de pesquisa, mas requerem um projeto. O processo de captação costuma ser longo e um pouco burocrático, mas as linhas são de ótima qualidade e às vezes são até a fundo perdido.

A opção por fazer um financiamento coletivo
Outra opção interessante para a fase inicial são os chamados financiamentos coletivos, o que os americanos chamam de crowdfunding. Este tipo de captação se dá por intermédio de plataformas online, onde o empreendedor publica seu projeto na web e investidores diversos fazem pequenos aportes.

A ideia é que uma quantidade grande de investidores, geralmente pessoas físicas, invistam pequenos valores, mas coletivamente totalizem a necessidade de recursos que o empreendedor precisa para o seu projeto. É importante que o projeto seja bem estruturado, que mostre os objetivos a serem atingidos com os recursos e qual o retorno esperado para o investidor. As plataformas mais famosas aqui no Brasil são o Kikante, Kria e Catarse.

Outra forma de captar em fases iniciais é buscar recursos com os chamados “anjos”. Geralmente são investidores que já empreenderam ou são executivos, que além de prover recursos, se tornam mentores conselheiros dos empreendedores nos quais investem.

A idéia principal é conseguir destes anjos não só dinheiro, mas idéias, orientação na formação da empresa e até mesmo indicações de pessoas e negócios. Os anjos são investidores arrojados que assumem bastante risco, mas geralmente exigem participações altas das companhias ou dos projetos. Alguns dos principais grupos de anjos são os seguintes: Anjos do Brasil, Eqseed e a Gávea Angels. Estima-se que existam mas de cem mil investidores anjo no Brasil.

Muitos empreendedores em fase inicial costumam fazer trocas de participação acionária com o desenvolvimento de parte do projeto. Por exemplo: trocar uma parte do projeto pelo desenvolvimento de um sistema, processo, teste ou mesmo pela simples participação de um mentor importante que poderia abrir portas ou mesmo atrair futuros clientes. Os laboratórios de tecnologia, as chamadas “fábricas de sistemas”, as aceleradoras ou mesmo as incubadoras muitas vezes fazem este papel.

Como fazer quando a empresa tem um pouco mais de experiência
Uma vez que a empresa foi formada e já conseguiu uma certa tração nas vendas, as portas dos fundos de investimentos começam a se abrir. Existem diversos tipos de fundos: venture capital, growth capital e private equity. Nesta fase procure pelos fundos de venture capital pois eles que geralmente investem em empresas em fase inicial. Costumam buscar qualquer tipo de idéia inovadora, especialmente as que têm tecnologia e patentes associadas. Fatores como diferenciação, inovação e potencial de crescimento são altamente desejados por este tipo de investidor.

Apesar de arriscado, captar financiamento de bancos pode ser uma opção boa em fases iniciais das companhias. É certamente mais barato do que captar de investidores, apesar de termos que pagar compulsoriamente os juros e em algum momento o principal. O risco de começarmos a empresa com financiamentos é maior, porém, não exige alto nível de governança e o empreendedor mantem todas as suas ações.

Neste momento, as taxas de juros no Brasil estão em patamares baixos, o que pode ser bem atrativo. Porém, tome muito cuidado com os financiamentos. Procure buscar financiamentos de longo prazo, com carência de pagamento e se possível, com juros subsidiados pelos bancos estatais, como o BNDES e o Desenvolve SP. Um dos maiores impeditivos é que o banco provavelmente exigirá garantias reais. Alguns empreendedores às vezes optam por fazer um financiamento com garantia de seus imóveis, o que é geralmente uma forma mais barata de conseguir recursos, com um prazo bastante grande para o pagamento do principal.

Uma certeza: será preciso tomar dinheiro emprestado para empreender
De uma forma geral, captar recursos é algo absolutamente imprescindível para iniciar um negócio. A captação pode ser a chave para acelerar o desenvolvimento da empresa, mas pode ser um desastre se não captarmos os recursos com a linha certa, do investidor mas adequado e nas condições que realmente tragam confiança para o desenvolvimento de forma sustentável.

Procure investidores que tragam não somente dinheiro para a empresa, mas que também contribuam com outros fatores, como gestão, clientes e tecnologia. E lembre-se: quem tem que escolher o investidor são os empreendedores e não o inverso, por que no final das contas, quem empreende é quem tem paixão pelo negócio e está apostando tudo. Seja exigente com quem for se associar, pois esta relação deve ser de longo prazo e se for mal sucedida, pode comprometer o seu futuro.

Ricardo Mollo (Especial para o Estado) – É empreendedor, CEO da Brain Business School e PhD candidate na University of London.

Feiras para empreendedores e a chance de fazer escolhas mais acertadas, desde que se queira

17 de abril de 2018

Foto: Leandro Martins / Ricardo Yoithi Matsukawa - ME

Tive a oportunidade de, mais uma vez, palestrar na Feira do Empreendedor organizada pelo SEBARE e gosto muito do contato com as pessoas que vão nos assistir, com sede de informações, da dica sobre a melhor franquia ou negócio para investir, quais os cuidados que devem tomar para não caírem em roubadas e os passos para o sucesso.

Acredito que meu papel seja orientar para abrirem os olhos e possibilitar que façam as escolhas mais corretas e, para tanto, é preciso mostrar o que pode dar errado, uma vez que já estão em um auditório para ouvir sobre os conceitos e boas práticas do Franchising, pois gostam do tema e estão pensando em investir, de alguma forma, na “formula mágica da garantia do sucesso” – a qual não existe.

Até aí normal, nenhuma novidade.

Mas, o que por um lado é interessante – situações recorrentes – as mesmas dúvidas, a mesma ansiedade pelo sonho do negócio próprio, o mesmo desconhecimento, a admiração por quem conhece tanto o mercado e o comportamento das empresas, assim como os riscos de empreender e alerta sobre eles, por outro lado me incomoda, muito, o fato de que, por mais que apresentemos o viés negativo ou perigoso de investir em quem sabe tão pouco quanto os que estão, ali sentados, assistindo as palestras, ainda assim estas pessoas querem ouvir aquilo com o que estão sonhando.

Vamos aos fatos para exemplificar. À medida que vou apresentando o que torna o Franchising uma estratégia que possibilita riscos menores a quem investe, exemplifico com o que não pode ser feito, o papel das partes, o que é um Franqueador amador, a legislação, tudo que aquele momento permite mostrar, ou até mesmo escancarar, para que não percam o dinheiro que foi tão difícil de juntar. Às vezes, a poupança de uma vida inteira está à nossa frente, nestas palestras e nossa responsabilidade é enorme, se bem me entendem.

Olhos arregalados, mãos nas testas, a cutucada na pessoa ao lado: “ufa, quase me meti numa dessas”, sorrisos tensos ou aliviados, o dedo indicador que levanta e abaixa na dúvida se perguntam ou não, pois não querem ouvir que não deveriam comprar uma ou outra franquia que já está se mostrando inadequada, pelos motivos expostos. Mas, e o sonho? O ideal de ser empreendedor, de ser dono do próprio nariz, de não ter que dar satisfação a mais ninguém, o status de dono e a admiração da família e amigos torna, muitos deles ali à minha frente, míopes e reféns de seus ideais.

A troca de olhar, comigo, pede que sejamos cúmplices, que eu entenda que, com ele ou com ela, será diferente. O sorriso suave e doce sela um acordo tácito de que vou ouvir falar do sucesso deles, já que querem meu contato para contarem tudo que deu certo, ao contrário do que aconteceu com os outros. “Eles” é que não eram tão bons ou a franqueadora deles era pior que esta que escolheram. Vão crescer juntos e fazer uma história diferente de todas aquelas que, em igual situação, quebraram, faliram, sumiram do mercado e puseram a culpa no perfil dos franqueados que não era bom.

Houve quem chegou e falou forte ou duro até, que tinha resolvido todas as dúvidas e aberto os olhos e que não iriam tirar um centavo daquele bolso, sem que provassem o profissionalismo, a estrutura, o conhecimento e domínio do negócio. Que alívio! Dois ou 3 a cada 50. E muitos outros, ainda querendo pós palestra me convencer com todos os argumentos e documentos, da fria que iriam entrar. Agora, mais conscientes inclusive.

Bom seria que, muitos desses franqueadores, estivessem ali conosco ou já tivessem feito seus exames de consciência e da responsabilidade que têm com estas pessoas e suas famílias, mas quero crer que têm o mesmo sonho de se tornarem a maior e melhor franqueadora do Brasil, se espelham nos melhores, mas desconhecem o longo e árduo caminho que percorreram.

De qualquer forma, faço meu papel de buscar conscientizar de que somos responsáveis pelas nossas escolhas e que, para escolher o melhor parceiro a investir, não é preciso abrir mão de seus sonhos, apenas o cuidado de não torná-los pesadelos.

Ana Vecchi é professora e pedagoga pela PUC-São Paulo, com especializações em administração de marketing pela Fundação Getúlio Vargas (SP), planejamento estratégico de marketing pela ESPM e MBA em varejo e franquias FIA/PROVAR. É professora universitária, instrutora e palestrante em associações e universidades. Co-autora do livro A Nova Era do Franchising.

Atletas Empreendedores

16 de abril de 2018

Segundo dados da PEGN, o Brasil é o 5º maior mercado mundial do setor de alimentos e bebidas saudáveis. Mesmo assim, ainda é um mercado carente de opções, em especial para as pessoas com foco em treinamento físico – e não apenas atletas profissionais, mas também uma enormidade de atletas amadores – que ao longo da semana gostam de comer alimentos que tenham propriedades funcionais que ajudem a alcançar uma melhor performance.

Neste contexto, os amigos de corrida Rogério Silva Pereira e Pedro Catalani enxergaram uma oportunidade de empreender vinda da própria necessidade de cuidar da própria alimentação, e em 2016 surge a Cozinha de Atleta, com 8 receitas de pratos prontos congelados, sem conservantes e low carb.

Como todo empreendedorismo “mãos na massa”, esta história é cheia de lições inspiradoras e práticas que o sócio Rogério me contou nesta entrevista:

Conte um pouco da história profissional de vocês.

Nasci em São Paulo e levo no sangue a herança empreendedora da mãe. Aos 18 anos ingressei na faculdade de Administração de Empresas e logo iniciei a carreira em uma multinacional de Telecomunicações, onde atuei até março de 2017. Em 2014, paralelamente ao emprego na multinacional e ao MBA em Gestão Estratégica de Negócios, conciliei tempo e investimento financeiro numa tentativa de atuar com a revenda de roupas jovens num bairro nobre de São Paulo. Era o ápice da crise econômica e os resultados iniciais foram minguantes, o que levou a optar pelo encerramento da atividade e evitar maiores prejuízos. O sangue empreendedor continuava a correr, no final de 2016, resolvi entrar de cabeça na Cozinha de Atleta. Após o desligamento da multinacional, passei a me dedicar 100% do tempo ao projeto de alimentação saudável. Tenho certeza de que este trabalho será um divisor de águas na minha vida profissional, afinal hoje consigo gerar emprego e levar saúde a qualquer pessoal que quer se alimentar bem. O Pedro também nasceu em São Paulo e acompanhou desde criança as aventuras empreendedoras de seu pai. Com formação de técnico em eletrônica e engenharia elétrica, o Pedro possui muito conhecimento técnico na área de tecnologia. Em 2010 aceitou um desafio para iniciar o departamento de projetos de uma empresa americana de ramo de merchandising que estava se estabelecendo no Brasil. Em 2012 uma nova proposta lhe fez assumir atividades realmente executivas quando foi convidado a abrir e erguer a filial brasileira de uma outra agência americana de merchandising. O Pedro sempre comentou que havia oportunidade a todo momento passando em nossa frente e que só assim iriamos conseguir chegar a um determinado êxito profissional.

Como é iniciar um negócio com um amigo?

Não temos uma amizade de longa data, porém unidos pelo esporte (corrida de rua), sempre estamos juntos, conversando sobre diversos assuntos. Um dos assuntos recorrentes, são as oportunidades e tudo o que ocorre ao nosso redor. Posso dizer que o esporte foi o embrião, onde aprendemos juntos a superar desafios que, quando parecia difícil, o outro surgia para apoiar e mostrar uma forma diferente. De certa forma somos muitos parecidos, afinidades são mil, mas acredito que merecem destaque ter uma comunicação direta, tratar tudo com objetividade e ser honesto. Acreditamos que levando a honestidade como principal valor, vamos conseguir ter uma empresa e um país melhor.

Amizade atrapalha o negócio?

Acho que ainda não tivemos problema com isso, mesmo que, vira e mexe, consigamos fazer nossas coisas como amigos. Conseguimos separar a hora de trabalho e amizade, talvez o equilíbrio de saber separar as coisas seja fundamental para este tipo de situação.

Primeiro veio a ideia ou a vontade de empreender?

A vontade de empreender já existia no sangue dos dois, só faltava uma ideia inovadora. O estalo aconteceu com um questionamento que fiz durante uma de nossas corridas: por que essa academia bem aqui na nossa frente não oferece alimentos dos quais os alunos realmente precisam, a exemplo de batata doce e frango? Poderiam usar máquinas automáticas refrigeradas pra isso. Parece tão simples de resolver! Começamos a fazer pesquisas de mercado a respeito disso e na medida em que as pesquisas foram evoluindo, criávamos confiança e iniciamos naturalmente a construção de uma linha própria para atender ao que ansiávamos.

A vida mudou depois de começar a empreender?

Pelo lado da família e amigos continua muito igual, eles sempre nos apoiaram e chegaram a participar de muita coisa dentro da empresa. Neste sentindo posso dizer que melhorou, descobrimos e damos mais valor a cada opinião, cada detalhe, cada ajuste que, mesmo simples, estão ligados a levar a uma empresa mais organizada. Sobre a rotina, hoje posso dizer que o dito popular é verdade. “Quando você trabalha para você, trabalha muito mais”. Ainda não conseguimos adequar as rotinas que tínhamos antes. Lembro que saíamos para correr quase todos os dias, até com a opção de correr em lugares diferentes espalhados pela cidade, coisa que hoje acontece com certa dificuldade.

Como é o dia a dia?

Não temos medo de trabalho duro, não pensamos duas vezes se é preciso varrer o chão ou fechar um contrato. Somos treinados (pela vida e por livros) na boa comunicação, sabemos conversar e respeitar desde o morador de rua até o presidente de uma grande corporação. Ambos tem boa educação familiar que faz certos sentimentos como ética e transparência se tornarem naturais e até facilitam em tomada de decisões. Boa instrução acadêmica: eu sou administrador com MBA e o Pedro é engenheiro elétrico com MBA, ambos com profundo conhecimento em gerenciamento de projetos, portanto a forma de pensar dos dois é parecida e isso facilita demais.

Qual é o destaque da Cozinha de Atleta?

Acreditamos que a empresa tem como ponto forte a ideia inovadora: praticidade na utilização de ingredientes funcionais. Cada produto foi pensado para ter a opção de ser consumido frio, onde o cliente pode abrir e consumir o produto em qualquer lugar, sem a necessidade de talher ou aquecimento. A marca cresce a cada dia! Conseguimos fazer boas parcerias, inclusive levar o produto a outras regiões e Estados. A distribuição é algo que ainda precisamos evoluir, precisamos desenvolver novos negócios para ter uma malha mais eficaz com um custo menor ao cliente.

Qual foi o maior desafio até agora?

Acredito que foi ajustar os 8 produtos para uma embalagem única, com uma formatação que atenda o mercado de forma prática. Tivemos que dar alguns passos para trás e desenvolver com um fornecedor especializado em embalagens para superar o desafio de ter uma caixa de forma única para atender todos os produtos. Recordo que, no dia em que pegamos alguns produtos na mão, já na reta final de desenvolvimento, colocamos na embalagem que achávamos que era ideal e descobrimos que estávamos longe de um produto ideal para o mercado. Voltamos a diversos supermercados e fomos olhar embalagem por embalagem pra consolidar pontos positivos e negativos até chegar num consenso de formato que temos hoje.

Teriam feito alguma coisa diferente?

Tudo tem dado muito certo e creditamos isso à nossa confiança em Deus. Não acreditamos em coincidências e até os maiores problemas que enfrentamos pensamos que, de alguma forma, vêm para o nosso bem. Posso citar um exemplo: no início, pensávamos que nossa maior dificuldade seria conseguir convencer varejistas a comprarem nossos produtos, sendo assim usamos de todas as nossas técnicas para que nossos primeiros revendedores comprassem as maiores quantidades possíveis. Resultado: um desses clientes não soube trabalhar com os produtos, deixou tudo em geladeira. Decidimos fazer a troca de 48 caixinhas que estavam estragando na gôndola da loja. Depois disso criamos estratégias para trabalhar o sell-out, ajudar nossos clientes a fazer o produto sair da gôndola deles. Hoje quando (raramente) nos perguntam se trabalhamos com permuta ou troca não hesitamos em responder: pra que se nós vamos te ajudar a vender tudo que comprar?

Para saber mais:
Site http://cozinhadeatleta.com.br
E-mail: faleconosco@cozinhadeatleta.com.br
Facebook: CozinhadeAtleta
Instagram: @CozinhadeAtleta
Ivan Primo Bornes (ivan@pastificioprimo.com.br) – empreendedor e fundador da rede de rotisserias Pastificio Primo (www.pastificioprimo.com.br)

Alta taxa de mortalidade de restaurantes

9 de abril de 2018

Aproximadamente 50% dos empreendimentos em gastronomia fecham em 2 anos.  Ao contrário do que muita gente pensa, trabalhar com comida definitivamente não é um negócio para amadores. Ao mesmo tempo, parece ser um dos que mais atraem marinheiros de primeira viagem – com resultados previstos.

A gastronomia está ligada ao lúdico, ao criativo, ao charme, ao artista dentro de cada um de nós. Elementos românticos, familiares e culturais são influência importante para investir em cozinha. Está conectado ao epicurismo, ao prazer da vida, à saúde, ao lazer, às viagens. E o maior de todos os perigos, o canto da sereia: parece fácil.

Tampouco podemos esquecer muitas das complexidades extras do setor, quando comparado com outros negócios:

- Alta perecibilidade da matéria prima e impacto na gestão de taxas de desperdício

- Questões de saúde pública, higiene, manipulação de alimentos

- Necessidade intensa de mão de obra

- Falta de mão de obra profissional na base de auxiliares

- Custo de aluguel elevado em pontos de alta visibilidade

- Margens apertadas e variáveis por sazonalidade

- Licenças, permissões e alvarás específicos

- Necessidade de alto comprometimento do dono (horas de trabalho)

Ao olhar ao meu redor, vendo tantos lugares que tinham excelente potencial, agora fechados, me fez listar alguns casos comuns de fracasso.

1) O restaurante tem gastronomia ótima, o dono/cozinheiro é genial… mas um péssimo administrador. Não sabe calcular o preço do prato: ou cobra caro demais ou barato demais. Fluxo de caixa é algo de outro mundo, assim como questões trabalhistas podem ficar esquecidas. O resultado é previsível.

2) O dono é um excelente administrador, leva a conta de cada centavo. Mas não sabe a diferença entre uma carne de qualidade e uma de segunda linha, troca um queijo caro por outro mais barato sem saber – ou entender – o impacto que isso traz na qualidade do prato e na percepção do cliente. Assim, os clientes começam a fugir e, provavelmente, o restaurante entra a fazer cada vez mais promoções, investe no Grupon e similares. Já imaginamos onde isso vai parar.

3) Dois donos, sendo um ótimo administrador e outro um cozinheiro genial. Combinação perfeita, só que… desentendimentos de sócios são muito comuns, e cachorro com dois donos, morre de fome.

4) Outro caso comum: o chef de cozinha é genial, prepara pratos maravilhosos, mas é um cretino no relacionamento com sua equipe, com fornecedores ou até mesmo com clientes. Rapidamente tudo vira um inferno.

5) E ainda tem o fator sorte. Imagina que vc fez o dever de casa, se preparou bem, estudou fluxo de caixa, gastronomia, mercado, cardápio, margens, equipe nota dez… e errou o ponto. Ferrou. Já aconteceu comigo. O imponderável também faz parte da equação.

Ou seja, não basta com ser um ótimo gestor, é necessário também conhecer de produto e gostar de serviço. Um bom plano de negócios, com a devida expectativa de capital de giro, é fundamental. Uma pitada de sorte não vai fazer mal.

A maioria das pessoas ilusiona que trabalhar na gastronomia é ficar o dia todo cozinhando para os amigos e tomando vinho. A realidade é bem outra, e valendo os 99% transpiração e 1% de diversão.

Ivan Primo Bornes (ivan@pastificioprimo.com.br) – empreendedor e fundador da rede de rotisserias Pastificio Primo (www.pastificioprimo.com.br)

Em muitos casos, a única pessoa que ganha com pesquisas acadêmicas é dono da loja de Xerox

9 de abril de 2018

Em 2011 quando recebeu o Prêmio Nobel de Química, Dan Shechtman iniciou seu discurso explicando quem em 8 de abril de 1982 ele estava sozinho na sala de microscopia eletrônica quando identificou um padrão que iniciou a área de pesquisa sobre os quasicristais, uma estrutura considerada impossível durante séculos e que tem aplicações em sistemas complexos de painéis solares aos rotineiros revestimentos antiaderente das panelas. E terminou seu mais importante pronunciamento até então defendendo que deveria, como cientista, promover a educação, o pensamento racional e a tolerância, encorajando e educando nossa juventude para que se tornem empreendedores tecnológicos. Só assim a ciência avança para a criação de um mundo melhor.

Neste momento, enquanto alguns desenvolvem pesquisas científicas publicando dissertações e teses em que a única pessoa que ganha com isso é do dono da loja de fotocópias, é importante refletir sobre a própria fundação da Xerox.

Como muitas histórias épicas de empreendedores, Chester Carlson começou a trabalhar muito cedo, aos 8 anos, para ajudar seus pais. No início do Século XX, ambos tinham contraído tuberculose, impossibilitando-os de trabalhar continuamente. Mas o que poderia ser algo muito ruim, isso marcou a vida de Carlson para sempre já que uma das formas que arranjou para ganhar dinheiro foi trabalhar na pequena gráfica da escola da cidade. Lá aprendeu técnicas de impressão, leu biografias de grandes líderes como Thomas Edison e aprendeu como a tecnologia pode impactar a vida das pessoas. “Trabalhar depois da escola foi uma necessidade que tive quando era criança” – explicou muito anos depois – “mas isto aumentou meu interesse em tecnologia e como isto torna possível o desenvolvimento da sociedade”.

Com muitas dificuldades financeiras, conseguiu se formar em física no Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech) em 1930, no início da Grande Depressão Econômica. Diz ter pedido emprego para mais de 80 empresas até ser aceito pela Bell Telephone Laboratories, onde passou a trabalhar como assistente de um advogado que escrevia patentes. O interesse pelo seu trabalho fez com que voltasse à faculdade, agora aos 30 anos, para cursar direito à noite na Escola de Direito de Nova Iorque. Com a necessidade de datilografar diversas cópias das patentes que elaborara e dos documentos na faculdade de direito e aproveitando seus conhecimentos científicos e tecnológicos, Carlson começou a pesquisar técnicas de replicação de documentos que iam além do mimeógrafo e do papel carbono ainda durante a faculdade.

Com os resultados da sua pesquisa, conseguiu depositar o primeiro pedido de patente em 1937 sobre uma técnica de reprodução de documentos utilizando princípios de luz e componentes químicos secos. Sua pesquisa sobre reprografia continuou a evoluir nos próximos anos, mas Carlson percebeu que, apesar de dominar a tecnologia, não conseguiria transformá-la em algo que pudesse ser útil para a sociedade. Com isto em mente, passou a celebrar parcerias para levar sua invenção ao mercado até conseguir fechar um contrato, tornando-se sócio da Haloid Company, uma empresa já estabelecida que comercializava soluções de reprografia. Para diferenciar a tecnologia desenvolvida por Carlson, a Haloid passou a chamar o processo de xerografia, integrando os termos gregos xeros (seco) com grafia (escrita).

Nos anos seguintes, a xerografia ou simplesmente xerox, que começou com um projeto de pesquisa do então aluno e pesquisador Chester Carlson, tornou-se referência da categoria do produto reprodução de documentos, incentivando a criação de inúmeros pequenos negócios como àqueles serviços prestados para mestrandos, doutorandos e outros pesquisadores.

“Você se torna vitorioso no momento em que começa a criar algo que tenha valor para as pessoas”. – explica Chester Carlson. Mas o valor da sua pesquisa não deveria ser apenas o que paga de reprografia.

Marcelo Nakagawa é Professor de Inovação e Empreendedorismo do Insper

Os bons movimentos ao redor do Franchising

4 de abril de 2018

De tempos em tempos os modelos de gestão de empresas franqueadoras são questionados, novas gerações são definidas em função de evolução não do Sistema em si, mas da forma como os franqueadores se relacionam com seus franqueados, fazem a gestão de suas redes franqueadas, implementam ferramentas e mudanças acontecem provocadas pelas necessidades de melhores resultados e/ou do grau de satisfação das partes.

O que se via do estilo Mc Donald’s de ser, o Business Format Franchising (BFF), na década de 90 no Brasil, mais ou menos algo como “manda quem pode, obedece quem tem juízo”, foi a forma de criar-se um modelo formatado e padronizado, rígido, baseado em processos, procedimentos e KPI’s, no que os americanos são impecáveis e que possibilitou a expansão do negócio e da marca pelo Mundo. Inspirou e ensinou milhares de marcas de todos os setores a se estruturarem em busca do mesmo sucesso e retorno de capital investido.

Com este modo de gerenciar redes e por não estabelecer um relacionamento transparente porém impositivo e de cobranças, onde franqueados carecem de reconhecimento pelo seu trabalho, nascem as Associações de Franqueados com foco em exigir direitos de “donos”, afinal de contas são empresários que investiram em marcas, que detêm um sistema de gestão, que eles tem o direito de usufruir, comercializar produtos e serviços e lucrar. E que não querem mais ser punidos pelos procedimentos errados de seus funcionários, até porque os das franqueadoras não são deuses perfeitos. Cometem seus erros, igualmente. E tem mais, o que lhes foi vendido, também, foi satisfação, realização profissional, reconhecimento: o intangível.

Em um cenário de números, KPI’s, resultados, estatísticas e gráficos, o dia a dia de uma operação franqueada, com regras rígidas operacionais e gerenciais, imprescindíveis para que haja escala – um dos grandes atributos do Franchising, assim como exista padrão em todos os aspectos percebidos e reconhecidos como necessários pelos consumidores, o intangível pode ser esquecido ou não valorizado por aqueles que só pensam em lucro, ganho, rendimento, em operações matemáticas. Elas são vitais a qualquer negócio, mas para franqueados e funcionários o que mais importa, no mais das vezes e reflete nos resultados, é o relacionamento – que não se traduz em números.

É o propósito da empresa, os valores e princípios que estão representando e dos quais se orgulham, é saber (e não apenas sentir) que tenham voz ativa e são ouvidos por seus franqueadores e equipes, que têm algo a mais a passar às suas equipes que as incentive a promover uma experiência especial aos clientes em seus PDVs, pois querem acolher clientes e não simplesmente vender, vender, vender. Percebem-se colaborando com o crescimento da rede, da empresa e construindo uma marca sustentável, perene.

A tecnologia ajudou bastante a incorporar e facilitar a flexibilidade nesta cultura, mais aberta, de gestão de redes franqueadas, com as intranets no início da mudança e hoje com os smartphones possibilitando toda comunicação e decisões em tempo real. O EAD e immersive learning possibilitam treinar e compartilhar conhecimento muito mais rápido em todo território nacional, nos principais objetivos do negócio, para melhorar continuamente e com foco na geração de valor para todos os envolvidos com cada marca, citando apenas o que há de mais básico.

Este é o franchising sustentável e, verdadeiramente, de sucesso que meu amigo entusiasta Pedro Mello está implantando com sua marca Open Franchise e, como tudo que o Pedro faz, transparente, limpo, com amor, para o bem de todos e com riqueza de adjetivos positivos!

Siga em frente Pedroca e inspire muitos, que o Bom Franchising super agradece, assim como nós “da velha guarda” temos feito, também, a exemplo do que o nosso querido Ricardo Young, fez no Yázigi, semeou e vem inspirando centenas de empresários e empreendedores.

Ana Vecchi é professora e pedagoga pela PUC-São Paulo, com especializações em administração de marketing pela Fundação Getúlio Vargas (SP), planejamento estratégico de marketing pela ESPM e MBA em varejo e franquias FIA/PROVAR. É professora universitária, instrutora e palestrante em associações e universidades. Co-autora do livro A Nova Era do Franchising.

Acelerando os negócios de impacto social da quebrada e cruzando a ponte

3 de abril de 2018

Um dos protagonistas do movimento que tirou o Jardim Ângela da lista dos lugares mais violentos do mundo, Marcelo Rocha – conhecido como DJ Bola – é um parceiro antigo da Artemisia. Em 2000, no bairro da zona sul da cidade de São Paulo, esse empreendedor da quebrada criou A Banca, uma produtora musical, cultural e social que se transformou em um polo de debate cultural, ações de conscientização política, educação e saúde. A iniciativa também ajudou a lançar vários músicos e colocou São Paulo na vanguarda do hip-hop. Nas palavras do DJ Bola, “A Banca quebrou as próprias barreiras para dialogar e se relacionar com as pessoas do outro lado da ponte”.

Em 2008, após o processo de aceleração conduzido pela Artemisia, A Banca se estruturou juridicamente. Do início das atividades para cá são mais de 130 eventos gratuitos em espaços públicos, mais de 120 grupos musicais e 45 mil pessoas beneficiadas diretamente. Mais de 25 escolas públicas e privadas já receberam intervenções educacionais promovidas. Pioneiro em fazer conexões de impacto, Bola é incansável na busca por romper as barreiras invisíveis – culturais, sociais e econômicas. E, mais uma vez, temos a alegria de sermos parceiros.

No ano passado, A Banca lançou – com o apoio da Artemisia e do Centro de Empreendedorismo e Novos Negócios da Fundação Getulio Vargas (FGVCenn) – a Aceleradora de Negócios de Impacto Social da Periferia. Dos 51 negócios inscritos, foram selecionados cinco para um processo de aceleração de quatro meses. Ao final do ciclo, os empreendedores e empreendedoras podem receber até R$ 20 mil de capital-semente para investir no negócio. Com atuação nos distritos Jardim Ângela (M’Boi Mirim), Capela do Socorro e Campo Limpo (Capão Redondo), os selecionados têm em comum a forte intencionalidade de causar uma transformação significativa na sociedade a partir do sonho de criar negócios relevantes para a quebrada.

Boutique Kriola – marca focada em resgatar a identidade e autoestima da população negra –; Empreende Aí, negócio que dissemina a educação empreendedora na quebrada; Ecoativa, programa de gestão ambiental que desenvolve intercâmbios e vivências; Jovens Hackers, escola com aulas de programação e cultura maker robótica; e Editora Selo Povo editora com um catálogo formado por autores da periferia são os negócios selecionados e geridos, respectivamente, pelos empreendedores Michelle Fernandes, Luís Henrique Coelho e Jennifer Rodrigues, Jaison Pongiluppi, Arthur Gandra e Ferréz.

Nos próximos meses, as organizações envolvidas vão botar em prática um sonho em comum: potencializar o desenvolvimento de negócios de impacto social na periferia com soluções voltadas para endereçar desafios sociais e ambientais. Além de apoiar, queremos também incentivar o surgimento de novos negócios de impacto dentro das periferias, que hoje representam uma parcela pequena do ecossistema.

Uma nova geração de negócios de impacto só será efetiva se a população das periferias brasileiras for protagonista na geração de negócios que solucionem seus problemas sociais. Nas diversas comunidades do nosso país, existem empreendedoras e empreendedores com soluções de alto potencial de gerar impacto positivo que, com suporte adequado, podem escalar e transformar a vida de milhares de pessoas. Seremos incansáveis no trabalho de criar pontes entre empreendedoras e empreendedores acelerados provenientes de realidades distintas.

Maure Pessanha, coempreendedora e diretora-executiva da Artemisia, organização pioneira no fomento e disseminação de negócios de impacto social no Brasil.

Gentileza Gera Gentileza

3 de abril de 2018

Tenho abordado o assunto da Inteligência Emocional diversas vezes e com vários enfoques – na aventura, no Jedi, na montanha e no fracasso, por exemplo.

Hoje quero compartilhar com você o meu entusiasmo por esta habilidade social – que sim, a literatura especializada garante que pode ser desenvolvida e melhorada e que muitas vezes é deixada em segundo plano – já que ser empreendedor é lidar com pessoas o tempo todo.

Também chamado de QE (quociente emocional), para mim é certamente um dos elementos mais importantes para obter sucesso em qualquer empreitada e, sabendo disso, dedico bastante tempo ao aprendizado humilde e demorado destas capacidades – e acredite, não é nada fácil.

Na antiga Grécia, em 400 a.c. Platão diz que todo aprendizado tem uma base emocional. Hoje parece uma ideia óbvia, mas na época isso foi muito revolucionário e influenciou tudo e todos a partir desse ponto.

Nos anos 1930, o psicometrista Edward Lee Thorndike começa a definir o conceito de “inteligência social” como a capacidade de se dar bem com as outras pessoas, com uma função utilitarista.

Se passam 50 anos e, em 1983, um psicólogo chamado Howard Gardner escreve um livro chamado Estruturas da Mente, onde elabora uma teoria que afirma que as pessoas tem 7 tipos de inteligência (inteligência visual/espacial, inteligência musical, inteligência verbal, inteligência lógica/matemática, inteligência interpessoal, inteligência intrapessoal e inteligência corporal/cinestética).

Em 1990 os psicólogos Peter Salovey e John Mayer divulgam uma teoria e usam pela primeira vez a expressão Inteligência Emocional, que definem como “…a capacidade de perceber e exprimir a emoção, assimilá-la ao pensamento, compreender e raciocinar com ela, e saber regulá-la em si próprio e nos outros.”

Mas foi o californiano Daniel Goleman que “lacrou” o assunto e ganhou notoriedade com o livro best-seller Inteligência Emocional em 1995, colocando um holofote definitivo sobre a importância da “…capacidade de identificar os nossos próprios sentimentos e os dos outros, de nos motivarmos e de gerir bem as emoções dentro de nós e nos nossos relacionamentos.”

Para Goleman, a inteligência emocional é a maior responsável pelo sucesso ou insucesso dos indivíduos, inclusive indicando que a maioria das situações de trabalho é envolvida por relacionamentos entre as pessoas. E, desse modo, pessoas com qualidades de relacionamento humano, como afabilidade, compreensão e gentileza, têm mais chances de obter o sucesso.

Parece fácil, não? Mil livros, muitos cientistas pesquisando o assunto, e mesmo assim nenhum resultado é garantido!

Pois é, o QE é muito, mas muito difícil de adquirir – provavelmente a jornada de uma vida inteira. Um bom começo me parece ser praticar todos os dias com as pessoas que estão ao nosso redor – quem sabe um básico bom dia ao vizinho de casa? No supermercado? À pessoa ao seu lado no metrô? Como dizia o Profeta: Gentileza Gera Gentileza. E eu complemento: Gentileza Gera Inteligência Emocional.

Ivan Primo Bornes (ivan@pastificioprimo.com.br) – empreendedor e fundador da rede de rotisserias Pastificio Primo (www.pastificioprimo.com.br)