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Sobre pavões, papagaios e maritacas: Os foolturists e a Taxonomia de Bloom

4 de junho de 2018

- Fiz um curso incrível de futurismo… – diz o especialista, que explica que está criando um negócio que vai revolucionar a educação.

- OK. O que você aprendeu no curso? – pergunto.

- Um monte de coisas incríveis que vão revolucionar a sociedade… – responde.

- Como por exemplo? – pergunto novamente.

- O bitcoin! As criptomoedas são incríveis… – responde o tal empreendedor.

- OK… Então me fale mais sobre como imagina que será o impacto do blockchain… – questiono.

- Não, estou falando das criptomoedas…

- OK… então me fale da relação do blockchain com as criptomoedas – pergunto, já desanimado, pois o bitcoin é uma aplicação, talvez a mais conhecida, de blockchain.

- Poxa, você é um daqueles que não acreditam que as criptomoedas, que isto é uma fraude, não é? – questiona o revolucionário.

- Não é isso, eu só queria entender o que realmente aprendeu neste tal curso de futurismo… – respondo, já finalizando o bate-papo.

Futurista é uma destas novíssimas profissões ou funções que têm um papel importantíssimo em compreender para onde ruma a humanidade diante de tantas mudanças drásticas e rupturas nas inércias em que vivemos há mais de um século. A função em si não é nova, já que economistas executam este papel há muito tempo e organizações como a Rand Corporation foram criadas com essa finalidade ainda na década de 1940, após as intensas transformações trazidas pela 2ª Guerra Mundial. Mas em 2016, durante o World Economic Forum, em que a 4ª Revolução Industrial entrou definitivamente na agenda dos principais líderes públicos e empresariais, Marc Benioff, fundador e CEO da Salesforce, deu um dos principais conselhos do evento: “Todo país precisa de um Ministro do Futuro”.

E isso também é válido para organizações. Este futurista precisa não apenas recordar os conceitos, mas entendê-los profundamente, aplicá-los na prática, analisar seus efeitos, avaliar seus resultados e, principalmente, contribuir na criação deste novo futuro. Neste contexto, o futurista é mais próximo do sismologista que atua em parceria com o engenheiro civil no desenvolvimento de construções mais aptas a enfrentar terremotos. E mesmo atuando de forma tão minuciosa e científica, os sismologistas se sentem uma fraude quando não conseguem prever tsunamis ou outro desastre natural.

No momento em que se proliferam tantos autodeclarados especialistas destas novíssimas funções nas redes sociais e eventos, é cada vez mais difícil perceber quem é fraude e quem tem certeza de que sabe realmente o que está dizendo ou fazendo.

É neste momento que a Taxonomia de Bloom, organizada inicialmente pela equipe de educadores liderados pelo psicólogo Benjamin Bloom no final da década de 1940, pode ser útil para você priorizar seu investimento de tempo (e dinheiro) em pessoas que são realmente capazes de orientá-lo(a) na invenção do seu futuro. Nesta abordagem, a compreensão do aprendizado passa por domínios hierárquicos sobre a habilidade da pessoa a respeito de um assunto, do mais básico, que é apenas recordar e repetir o que “aprendeu” ao nível mais elevado, na versão original, que era avaliar seu “aprendizado”, recomendando ações. Posteriormente, os discípulos de Bloom, Lorin Anderson e David Krathwohl, revisaram a taxonomia, e incluíram um nível mais elevado, o de criar, inventar algo a partir do aprendizado.

Mesmo que a hierarquia de aprendizado possa ser questionada, ainda assim é importante avaliar – neste momento em que se proliferam tantos inovadores, futuristas ou disruptores – quem é pavão, que entende e até avança nos domínios de Bloom, mas se gaba por isso abrindo um rabo de penas coloridas que encantam plateias, de quem é papagaio, que só fica repetindo o que leu ou viu em algum evento, vídeo ou curso de curta duração. Em especial, fuja das maritacas, que fazem um barulho ensurdecedor sem nenhum embasamento epistemológico. Estes “foolturists” deveriam atrair apenas os 3Fs, termo utilizado nos Estados Unidos para designar family, friends and fools (tolos).

E de todos os que podem ser considerados especialistas, os melhores são os que se acham uma fraude. Mesmo sendo graduado em computação e física e PhD em ciência da computação pela Universidade de Utah, Ed Catmull afirma em seu livro que só por volta dos 60 anos conseguiu lidar com a insegurança em achar que era uma fraude. Quando mais você aprende, mais sabe que não sabe muitas coisas. E isto pode aumentar o medo do fracasso ou se libertá-lo para entender que não tem ou terá todas as respostas. E saber o que não sabe é só uma grande oportunidade de continuar aprendendo.

Quando ele conta essa passagem para os colaboradores da sua empresa, pergunta: “Quantos de vocês sentem que são uma fraude?” Todos na Pixar, a empresa que Catmull co-fundou e é presidente até hoje, levantam a mão!

Marcelo Nakagawa é Professor de Inovação do Insper, FIA, Fundação Vanzolini e Instituto Butantan.