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Pais e filhos: A pior derrota da Nike e o mais amargo café da Starbucks

11 de agosto de 2017

Logo será o Dia dos Pais e o meu presente como pai e filho encontra-se em três publicações que talvez tornem outros mais atentos ao seu presente.

Trem Bala (Editora Voo, 2017) é uma linda versão em livro da música homônima da cantora Ana Vilela. O livro-música sintetiza as mensagens dos dois livros seguintes em mensagens que de tão óbvias são pouco praticadas.

Segura teu filho no colo… Em uma das passagens da sua biografia (A Marca da Vitória, Sextante, 2016), Phil Knight, co-fundador da Nike explica seu sentimento de culpa quando entrava em casa e seus filhos iam encontrá-lo perguntando onde papai estava. Com frequência, Phil respondia que estava com os amigos, o que os deixavam confusos já que sua esposa explicava que papai estava trabalhando. Em 1976, quando a Nike lançou seus primeiros calcados infantis, Matthew, o filho mais velho, na época com 14 anos disse que jamais usaria Nikes enquanto vivesse. “Era sua maneira de expressar a raiva que sentia das minhas ausências…” – explica Phil em seu livro. “Muitas vezes prometi que ia mudar. Muitas vezes disse a mim mesmo: vou passar mais tempo com os meninos. Muitas vezes mantive a promessa por algum tempo. Então, caía de novo na velha rotina.” – desabafa. E complementa: “Na sua jornada para encontrar a si mesmo, Matthew abandonou faculdade. Experimentou, explorou, rebelou-se, discutiu, fugiu. Nada funcionou.” Até que um dia, mergulhando com os amigos no Caribe, Matthew decidiu descer mais do que todos e a quase 50 metros de profundidade, puxou o bocal da sua máscara de mergulho que se conectava ao cilindro de oxigênio….

Sorria e abrace teus pais enquanto estão aqui…Howard Schultz, empreendedor da Starbucks, conta em seu livro (Dedique-se de Coração, Elsevier, 1999) que tinha sete anos quando seu pai fraturou o tornozelo. Ele era motorista de caminhão e sempre reclamava que tinha o pior emprego do mundo. Mas agora, sem poder trabalhar, sentia falta da ocupação, humilhando-se para conseguir algum dinheiro emprestado. Já moravam em um bairro muito pobre em Nova Iorque e agora não tinham renda, plano de saúde, dinheiro da multa rescisória e sua mãe ainda estava grávida de sete meses. “Às vezes, no meio da noite, o telefone tocava e minha mãe insistia que eu atendesse. Se fosse algum cobrador, ela pedia para dizer que meus pais não estavam em casa.” – Lembra Howard. Aquilo o marcou para a sempre. Nunca iria ser como seu pai: “Meu pai nunca foi um bom provedor para a família. Ele sempre ficava pulando de emprego em emprego em diversos trabalhos braçais, sempre reclamando do sistema. Ele nunca teve um plano para a sua vida.” – lamenta.

Mas exatamente um dia antes de sair de casa para cruzar o país e se juntar a uma pequena cafeteria chamada Starbucks, seu pai foi diagnosticado com câncer e com apenas mais 12 meses de vida. No hospital, ao lado da sua mãe, que escondia o choro, seu pai o aconselhou a seguir seu grande sonho: “Vá para Seattle. Você e sua esposa tem uma nova vida para começar lá! Nós podemos cuidar das coisas aqui.” – aconselhou seu pai. Naquele momento, Howard entendeu o amor e o esforço que o seu pai sempre tinha feito pela sua família.

Após o falecimento do seu pai, Howard encontrou um velho amigo de infância que conseguiu explicar sua relação com seu pai: “Se o seu pai tivesse alcançado o sucesso, talvez você não tivesse esta determinação que tem.” Mesmo não tendo consciência e até mesmo o criticando veladamente, seu pai tinha sido sim sua grande inspiração: “Eu finalmente lidei com a decepção e aprendi a respeitar a memória do que meu pai era, em vez de ficar lamentando sobre o que ele não foi. Ele sempre fez o melhor que pode. E faleceu antes que pudesse disser isto a ele.”

Doze anos depois, em 1994, quando Howard Schultz foi convidado pelo Presidente Bill Clinton para uma reunião na Casa Branca, ele só pensava em uma coisa: “Eu gostaria que meu pai estivesse aqui comigo. Mas sabia que, de alguma forma, ele estava lá.”

Por isso, a música da Ana Vilela toca tantas pessoas, pois lembra “que a vida é trem-bala, parceiro, e a gente é só passageiro prestes a partir.”

Marcelo Nakagawa é Professor de Inovação e Empreendedorismo do Insper