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Quantas ideias ruins são necessárias para se chegar a uma boa ideia?

20 de fevereiro de 2015

Marcelo Nakagawa é professor de empreendedorismo do Insper

Henry e Nick não se conheceram. Mas eles se reconheceriam se Henry pudesse estar de volta para o futuro.

Ainda menino, Henry era apaixonado pela mecânica. Gostava de conhecer o funcionamento das coisas. Aos dez anos já consertava relógios e aos quinze já ganhava um bom dinheiro com isso. Com seu gosto pela mecânica, nada mais natural que seguisse carreira na área. Trabalhou como operador de máquinas e depois como engenheiro em várias empresas. Criou um protótipo de um quadriciclo movido a um motor a combustão e conseguiu investidores para lançar sua primeira empresa, a Detroit Automobile Company. Mas os automóveis produzidos eram muito ruins e a empresa fechou dois anos depois. No mesmo ano, fundou sua segunda empresa que novamente durou apenas dois anos. Só na terceira empresa, que levava seu sobrenome, Henry Ford teve sucesso. Mas não pense que foi em um passe de mágica. O primeiro modelo da Ford Motor Company foi o “A”, que fracassou. Lançou então o Modelo B, um vexame em vendas. E tome letras do alfabeto até chegar ao mítico, icônico e vitorioso Modelo T.

E por ter tido tantos fracassos, todos públicos, o pensamento de Henry Ford, eternizado por uma de suas frases, vai além de qualquer manual de autoajuda: “Fracasso é simplesmente a oportunidade de começar de novo, agora, de forma mais inteligente”.

Mas a história de Henry Ford já foi escrita. Mas a do Nick está acontecendo agora e mesmo assim, já deveria ser contada e recontada para todos os jovens, inclusive aquele que está dentro de nós.

Nascido na Inglaterra, aos nove anos, Nick D’Aloisio ganhou seu primeiro notebook. Enquanto seus amigos ficavam horas navegando na internet, ele criava filmes e cursos usando o iMovie. Como ia bem na escola e tinha uma vida normal com qualquer outra criança, os pais o apoiaram quando o menino quis mudar o Final Cut Express, Final Cut Pro, até chegar no Autodesk Maya.

Aos doze anos, Nick ficou maravilhado com os aplicativos que poderiam ser baixados no seu iPhone. Ao perguntar para um atendente da loja da Apple como poderia incluir aplicativos no seu smartphone, ninguém soube explicar. Mas para não perder a viagem, Nick pediu para que o pai comprasse o livro “C for Dummies”, um guia de programação para iniciantes.

Aprendeu a programar sozinho e quando a Apple abriu sua App Store, Nick já estava pronto para programar seu primeiro aplicativo: o FingerMill, uma esteira de corrida virtual para os dedos. Se não entendeu a ideia do menino, pense em uma imagem de uma esteira de corrida, dessas de academia de ginástica, em que seus dedos fazem o papel das pernas de um corredor. Se ainda assim, não acreditou que alguém pudesse ter uma ideia dessas, veja este vídeo gravado pelo Nick. O próprio criador chamou seu aplicativo de uma “perda de tempo e dinheiro”. Mas sua surpresa veio um mês depois, quando descobriu que só naquele primeiro dia, seu FingerMill tinha feito algo como R$ 350 em vendas. Nada mal para um garoto de 12 anos, comentou depois.

Mas este fracasso/sucesso inicial deu motivos para que Nick continuasse a colocar seus aplicativos no mercado. Lançou o Touchwood, um aplicativo que mostrava a imagem de uma madeira e ao usuário tocar na imagem de madeira ouvia um som de… madeira.

Depois, veio então a ideia de criar o Facemood, um aplicativo que mostrava o humor dos seus amigos que estavam conectados no Facebook e SongStumblr, aplicativo que indicava quais músicas estavam sendo ouvidas na internet em uma determinada região geográfica. Foram três anos de fracassos sucessivos.

Mas aos 15 anos, quando estava estudando para uma prova na escola, percebeu a frustração de acessar várias páginas com conteúdos irrelevantes. Deveria haver uma forma de acessar um resumo da página antes de acessá-la, lê-la inteira para só no final descobrir que foi um tempo perdido. Deste problema veio a ideia do Trimit, um aplicativo que resumia páginas da internet em textos de 140, 500 ou 1.000 caracteres. Finalmente tinha encontrado uma ideia que se tornou um sucesso. Rebatizada como Summly, sua empresa foi comprada pelo Yahoo! por US$ 30 milhões em 2013, quando Nick tinha 17 anos.

E como Nick entende todos os seus fracassos anteriores? “Isto era incrível… Era intrigante. Todas as vezes que eu desenvolvia um aplicativo eu aprendia um pouco mais” – resume.

No final, todas as suas ideias são boas desde que consiga aprender alguma coisa com elas.