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Porque os líderes de mercado demoram tanto a reagir às startups

5 de agosto de 2016

Semana passada meu querido Yahoo! foi vendido à empresa de telecomunicações Verizon. Querido porque foi e é minha principal conta de e-mail e porque sua trajetória inicial é um daqueles exemplos de contos de fadas do empreendedorismo, pois nasceu em um dormitório na Universidade de Stanford em 1994, tornou-se referência em startup e inspirou milhares (se não milhões) de pessoas a acreditar que é possível criar coisas incríveis e ficar bilionário com um computador e conhecimento de programação.

E o Yahoo! cresceu e se tornou líder dominante do mercado de buscas. Obscureceu Lycos, Infoseek, Excite, HotBot, AskJeeves, AllTheWeb, WebCrawler e até o venerado Altavista. Da liderança nasceu uma grande corporação mundial com dezenas de escritórios, milhares de funcionários e burocracias complexas. Os fundadores Jerry Yang e David Filo se afastaram do negócio e executivos assumiram de olho no valor de mercado da empresa já que o Yahoo! abriu seu capital na bolsa de valores Nasdaq em 1996, apenas dois anos depois de ter nascido.

Em 1998, quando o Yahoo! já tinha se estabelecido como gigante mundial da internet, dois estudantes de Stanford entraram em contato para vender a tecnologia que estavam desenvolvendo nos seus estudos. Pediam cerca de US$ 1 milhão para repassar a solução e finalizarem o doutorado. Terry Semel, então CEO do Yahoo! na época, não aceitou a oferta de Larry Page e Sergey Brin. Com a negativa, os estudantes decidiram continuar com o seu negócio, o Google, que atualmente vale cerca de meio trilhão de dólares. O Yahoo! viria a declinar outra oferta… a de comprar o Facebook por US$ 1 bilhão. Atualmente, a rede social vale 300 vezes mais.

Agora, o Yahoo! é repassado por US$ 4,8 bilhões, menos da metade do valor do Dropbox, Pinterest e Spotify.
Mas a trajetória do Yahoo! (e tantas outras grandes empresas) serve de alerta para todas as outras líderes de mercado, inclusive as que não são baseadas em tecnologia da informação – muitas startups valem mais do que seus concorrentes “tiozões”, incluindo Uber em relação às locadoras de carros, AirBnB em relação aos hotéis, WeWork em relação às empresas de escritórios.

A letargia das empresas líderes já foi explicada pelo professor Clayton Christensen em seu livro ‘O Dilema do Inovador’, publicado em 1997. Mesmo conhecido, o diagnóstico apresentado na publicação precisa ser lembrado e relembrado de tempos em tempos.

No entendimento do Prof. Christensen, as empresas líderes perdem as grandes inovações:

1. Porque empresas líderes ouvem seus clientes! É fascinante esta constatação, pois é um contrassenso para a maioria das empresas que entendem que as empresas deveriam ouvir sim (e sempre) seus clientes. Isto é uma verdade, mas só traz melhorias incrementais. Nenhum cliente da Avis pediria algo parecido com o Uber, por exemplo.

2. Porque empresas líderes calculam detalhadamente o tamanho do mercado e seu crescimento! Outra contradição, pois faz sentido calcular o tamanho de mercado de uma oportunidade de negócio. Mas o Hotel Hilton e qualquer outro especialista não teria condições de estimar o tamanho de mercado do AirBnB naquela época.

3. Porque empresas líderes investem onde o retorno é mais alto! É mais uma obviedade. Por isso que a Regus continua a investir em escritórios perfeitos, de alto padrão e serviços impecáveis, afinal a margem daqueles escritórios “aquários” oferecidos pelo WeWork são muito baixas.

4. Porque empresas líderes dominam grandes mercados! De todas as constatações do Prof. Christensen, esta é a mais trágica para a empresa líder já que ela se torna alvo não só das concorrentes existentes, mas agora de várias startups que querem derrubá-la.

Mas não é a liderança que faz com que as grandes empresas não percebam as startups como ameaças, é a arrogância.

Marcelo Nakagawa é professor de Empreendedorismo e Inovação do Insper e Diretor de Empreendedorismo da FIAP.