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Por que os mais sábios mestres empreendedores são discípulos?

9 de junho de 2017

Empreendedorismo é uma crença, uma religião, é uma sabedoria prática. É acreditar que consegue fazer algo maior e melhor do que é agora. É crescer um negócio, mas antes disso, se desenvolver pessoalmente. É fazer mais do que 100% da sua capacidade a cada dia do ano e ao final dele ter avançado tanto exponencialmente que tudo mais parece pequeno. E é justamente nessa fase que muitos empreendedores de sucesso se perdem, pois, de repente, se veem sozinhos. E suas pequenas dúvidas começam a demonizá-los, minando sua capacidade de empreender e, principalmente, de inovar.

Historicamente, é justamente neste momento que os mais sábios mestres empreendedores se tornam discípulos e identificam outros que possam orientá-los. Steve Jobs teve uma longa relação com o monge zen budista Kobun Chino Otogawa, talvez o único que conseguia acalmar, pelo menos momentaneamente, e direcionar seus demônios existenciais. “A jornada é a recompensa”, o primeiro slogan da Apple, foi uma das principais e mais constante orientação que Kobun passava à Jobs.
Dessa forma, a relação dos empreendedores com seus mestres, quase literalmente, “uma filosofia Jedi assim é”. E há inúmeros exemplos desta relação Jedi e Padawan.

No início da Nike, por exemplo, a presença do respeitado treinador Bill Bowerman como sócio e mentor, deu a segurança psíquica para que Phil Knight continuasse a aumentar, cada vez mais, o ritmo de crescimento da sua empresa de calçados esportivos. E quando a Nike já era uma gigante do setor e que Bowerman já não estava presente, Knight ia até ao Japão se aconselhar com o Masaru Hayami, presidente da Nissho Iwai, que também era seu principal parceiro financeiro e comercial. Em uma das passagens, Knight reclama da sua grande dificuldade em lidar com os funcionários. Enquanto caminhavam pelo jardim da casa de Hayami, este aponta para um bambuzal e diz: Vê aqueles pequenos bambus ali? No ano que vem, quando voltar, estarão trinta centímetros mais altos.  O fundador da Nike observou, concordou com a cabeça pensativo e entendeu a lição. Passou a cultivar talentos internos e nunca mais se queixou do seu time de colaboradores.

Outra passagem de orientação filosófica empreendedora ocorre com Yvon Chouinard, fundador da empresa de roupas Patagonia. “Em determinado momento, decidimos que precisávamos de uma nova perspectiva”, explica. Ele e sua diretoria entraram contato com o Michael Kami, que havia orientado grandes empresas. Antes de ajudá-los, Kami pediu para que explicassem por que estavam no mundo dos negócios. Assim, Chouinard contou a trajetória de sucesso da empresa, do sonho em um dia ter dinheiro para velejar pelos mares do sul à procura da onda perfeita e, principalmente, o interesse em ajudar o mundo a utilizar os recursos de forma sustentável. Para este último objetivo, achava que era necessário ganhar dinheiro para então doá-lo para ONGs.

“Provavelmente estão se enganando a si mesmos sobre porque estão no mundo dos negócios… Tudo isso me parece uma monte de besteiras. Se estão pensando seriamente em dar dinheiro aos outros, deveriam vender a empresa por cerca de US$ 100 milhões, guardar uns US$ 2 milhões para vocês e colocar o resto em uma fundação, investindo o principal e doando US$ 6 a 8 milhões todos os anos. E se venderem a empresa para o comprador certo, provavelmente continuariam o trabalho de vocês porque tem um ótimo apelo publicitário”, explicou Kami.

“Foi como se o mestre Zen tivesse golpeado nossas cabeças com seu bastão, mas em vez de ver a luz, estávamos mais confusos do que nunca”, comenta Chouinard. Algum tempo depois ele percebeu que a consciência daquela (des)orientação do seu mestre foi algo fundamental para tornar a Patagonia uma das empresas que mais crescem, que está entre as mais admiradas, as mais inovadoras, em um dos melhores locais de trabalho e para mães trabalharem nos Estados Unidos.

“Até que você torne o inconsciente em consciente, aquele irá direcionar a sua vida e você irá chamá-lo de destino”, reforça Jerry Colonna ao repetir a frase de Carl Jung, atualmente um dos mestres mais venerados dos principais líderes da nova geração de empreendedores dos Estados Unidos.

Marcelo Nakagawa é Professor de Inovação e Empreendedorismo do Insper