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Política não é futebol

3 de abril de 2017

Obviamente política e futebol são áreas de interesse humano bem diferentes entre si. A semelhança deveria ficar restrita a algumas cores em bandeiras – e só.

Mas, mesmo assim, vemos muitas pessoas tratando POLÍTICA com a paixão e a falta de discernimento de um hooligan. Cegos de fanatismo e com apaixonada certeza absoluta – que só o futebol (e outros esportes de massa) nos dá – é fácil perder o respeito ao próximo, do amigo, do vizinho, de qualquer um que tenha uma mínima dúvida ou alguma opinião diferente.

No futebol, as coisas são simples: um time contra tudo e contra todos. O que importa são os 3 pontos e o título. E quando adotamos um time de futebol, geralmente é uma escolha pro resto da vida, carregada com um simbolismo afetivo, muitas vezes influenciados pelas pessoas queridas ao nosso redor que nos deram de presente nossa primeira camiseta de time. Enquanto torcedores, defendemos a qualquer custo as cores da equipe. E se o juiz marca penalidades, o xingamos, mesmo quando sabemos que o juiz está certo – vimos no replay, mas isso não importa, mentimos descaradamente. No futebol, levar vantagem e obter resultados faz parte das qualidades de um bom jogador. Só a vitória interessa, não importa como. Espinafrar o derrotado é um bônus.

Já na política, as coisas são bem mais complicadas: são muitos interesses legítimos a serem integrados e encaixados de forma conciliadora. Precisamos fazer as coisas do jeito correto, para nosso próprio bem. Deveríamos ter orgulho de mudar de ideia sempre que percebermos que nossos políticos já não nos representam. Praticar a constante flexibilidade de ponto de vista. Encontrar pontos de convergência com as pessoas que pensam diferente. Na política, o diálogo deveria ser a grande qualidade que devemos procurar nos protagonistas que elegemos. É essencial que nossos representantes consigam transmitir e defender seu programa político com clareza e, no final do dia, que também saibam escutar o que o outro propõe. E que negocie, e negocie bem – e todos sabemos que uma boa negociação somente ocorre quando todas as partes são incluídas e cada uma cede um pouco. Vitória, na política, deveria ser quando encontramos o caminho do meio, o equilíbrio das forças. Ou seja, na política deveríamos ter orgulho de buscar sempre o empate.

Toda divergência política é positiva, saudável e nos leva a ajustar nossa sociedade, sempre e quando se saiba que, no final do dia, vamos compartilhar a mesma mesa, o mesmo bairro, a mesma cidade e o Brasil. Dá um trabalhão, e não deveria ser fácil mesmo. Acredito que devemos dar prioridade a todo pensamento que construa o diálogo. E descartar todo pensamento que nos empurre para o litigio, ou aponte o dedo procurando culpados fáceis.

Por isso, somente devemos ter medo – e combater – os totalitários. Os radicais que não admitem a diferença de pensamento, os que não dialogam, os que querem nos empurrar goela abaixo as suas ideias como as únicas corretas – quando sabemos que nunca vai existir tal coisa de um único ponto de vista perfeito para tudo e para todos. Estes totalitários são justamente os que querem nos confundir, tratando política como se fosse futebol: todos os que não pensam igual são inimigos. Estas pessoas são, de fato, o grande perigo para a democracia.

Sem entender (e aceitar) que, antes de mais nada, somos todos do mesmo time – mesmo não concordando com as ideias do colega de equipe – o Brasil não vai sair do lugar. Enquanto isso não acontecer, estamos todos condenados num “dia da marmota”, atrasando nossa própria história num loop infinito.

Ivan Primo Bornes – fundador do Pastifício Primo - ivan.primo@pastificioprimo.com.br