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Para a inovação superar a tentação do canto da sereia

23 de fevereiro de 2015

Menta90 (Marcelo Pimenta), é professor de inovação da ESPM e criador do Laboratorium

Esses dias recebi uma mensagem do nosso editor, Daniel Fernandes.

Tenho a sugestão de um post na linha desconstruindo a inovação porque a Atari que era um fenômeno na década de 80 morreu. O que deu de errado do ponto de vista empreendedor e da inovação?

Fiquei pensando muitos dias na resposta. Pois além da Atari, também a Olivetti, a Parmalat e muitas outras marcas de sucesso morreram. A Sony semana passada anunciou a saída do mercado de eletroeletrônicos. E há uma resposta simples: elas não perseguiram a inovação constante. Quem se acomoda vai ficar comendo pó da concorrência, simples assim. Tanto que muitas empresas (como a 3M, Natura, IBM, Google, GE, Apple, Samsung, Unilever só para citar alguns exemplos) já incorporam práticas de inovação como regra. Hoje, elas não observam, elas criam o futuro.

Mas achei que a resposta simples talvez não fosse suficiente. Acho que a pergunta mais relevante é – se então, as empresas JÁ SABEM que precisam inovar, por que a grande maioria ainda não inova? Todos os dados estão claros e divulgados – inovar dá lucro, gera valor, é o caminho para a sustentabilidade / perenidade… Por que a maioria se acomoda? Pareceu-me que essa, sim, era a verdadeira indagação do nosso prezado editor. E para respondê-la não queria apenas me ater ao esperado…

Foi ai que me caiu nas mãos, para releitura, O Auto-Engano, de Eduardo Giannetti. Sempre fui fã desse livro. Quem me apresentou foi Sérgio Storch e em 2006 devorei pela primeira vez – e depois fiz repetidas leituras de trechos. E foi num momento desses de releitura que tive o insight:  talvez a resposta seja que o empresário não pode se deixar levar pelo canto da sereia… O canto da acomodação.  De permanecer na zona de conforto do sucesso momentâneo para evitar o desconhecido.  Para compreender o poder do canto da sereia, peço licença para usar das palavras do Giannetti:

“As sereias eram criaturas sobre-humanas: ninfas de extraordinária beleza e de um magnestismo sensual. Viviam sozinhas numa ilha do Mediterrâneo, mas tinham o dom de chamar a si os navegantes, graças ao irresistível poder de sedução de seu canto. Atraídos por aquela melodia divina, os navios costeavam a ilha, batiam nos recifes submersos na beira-mar e naufragavam. As sereias então devoravam impiedosamente os tripulantes. O litoral da ilha era um gigantesco cemitério marinho no qual estavam atulhadas as incontáveis naus e ossadas tragadas por aquele canto sublime desde o início das eras”.

Bingo! O sucesso causa a acomodação – e esse é o canto que seduz e faz paralisar. O empresário evitar mudar pois tudo está indo bem. Mas o mundo está mudando, o consumidor está mudando… E quem não cria o novo, acaba sucumbindo… O que deu de errado do ponto de vista empreendedor e da inovação? Algumas empresas quando alcançam a liderança  acharam que o sucesso seria eterno. Esse é o canto da sereia que seduz e inebria.

Assim que passou a euforia da descoberta da metáfora, fiquei pensando. Mas qual a saída? Como vencer essa tentação? Encontrei uma resposta no próprio Giannetti, onde ele diz que existem duas soluções conhecidas. “Uma delas foi a encontrada, no calor da hora, por Orfeu, o incomparável gênio da música e da poesia na metodologia grega”, que conseguiu cantar mais alto que as sereias, desviando a atenção da tripulação na passagem sem perigo pela ilha.

“A outra solução foi a encontrada e adotada por Ulisses no poema homérico. Ao contrário de Orfeu, o herói da Odisséia não era um ser dotado de talento artístico sobre-humano”. Sem saber cantar, Ulisses pediu a seus marinheiros que tampassem seus ouvidos com cera – e depois o amarrassem ao mastro, de ouvidos limpos, de forma que conseguisse ouvir o canto irresistível, mas nada fazer para sucumbir. Conta a história que Ulisses quase enlouqueceu, mas conseguiu tanto experimentar ouvir o canto, como sobreviver ao desafio.

Portanto, há solução. Buscar diferenciais, testar alternativas, desenvolver talentos, ser criativo – esse é o caminho para não sucumbir. Mas há que ser pró-ativo para não deixar-se seduzir pois o sucesso é o canto da sereia que encanta e acomoda.

PS – Os trechos citados do Auto-Engano, são da edição da Companhia de Bolso, numa edição de 2005 e estão nas páginas 178 e 179 do livro. #ficaadica

10 Comentários Comente também
  • 23/02/2015 - 13:23
    Enviado por: Denilson Rezende

    Talvez depois de 7 PLANOS ECONÔMICOS, 9 zeros a menos na moeda, tablita, congelamentos, empréstimo compulsório, Hiperinflação, roubo da poupança, etc,etc não tenha sobrado $$ para investir. Talvez ???

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    • 25/02/2015 - 07:58
      Enviado por: Daniel Fernandes

      É Denilson, talvez… Mas lembre-se que mesmo com essa conjuntura, empresas como a Zynga e a Rovio Mobile (criadora do Angry Birds), apenas para citar duas do segmento de jogos digitais, nasceram e se tornaram gigantes. Ou seja, o cenário econômico interfere, mas não é determinante.

      Marcelo Pimenta

  • 23/02/2015 - 13:59
    Enviado por: César

    Não acha que atrelar sucesso à inovação é meio simplista? Do contrário a Nintendo seria campeã de vendas, a Microsoft não venderia uma licença de Office sequer e a Intel só fabricaria chips Itanium. Mas no mercado de videogames, consoles tradicionais – apenas com maior poder de processamento – lideram; no mercado corporativo os dinossauros como Microsoft, Oracle e IBM dominam vendendo sempre as mesmas coisas que sempre venderam; para o consumidor final, qualquer coisa que a Apple criar vende (e olha que ela quase faliu) e a Intel, maior fabricante de processadores do mundo tem que pagar para outra empresa pela tecnologia usada em seus chips (a boa e velha arquitetura x64 – ninguém queria a “inovação” do Itanium).

    Ah! E a Parmalat se deu mal por causa de escândalos financeiros, não é? E sobre a Atari, bem… leia sobre o “crash de 1983 da indústria de videogames”. Inovação (ou a falta dela) foi certamente é uma das causas, mas longe de ser o motivo principal.

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  • 23/02/2015 - 15:06
    Enviado por: Radoico Câmara Guimarães

    O artigo não deveria ter incluído a marca Parmalat… Ainda existe leite Parmalat à venda e sua redução de participação no mercado se deveu mais a escândalos de falsificação de produto, acusações de lavagem de dinheiro e outras barbaridades que circularam na mídia há uma década, verdadeiras ou não.

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  • 23/02/2015 - 17:34
    Enviado por: Wilson

    Tenho dúvidas se essa história de ser inovador é a solução. Gostaria de lembrar que a Microsoft não é um primor de inovação. Pelo que me sei o que ela faz bem é observar o que os “inovadores” criam e depois aproveitar bem. Browser da Netscape, máquina virtual do Java e IDE para desenvolvimento de software são bons exemplos. A Microsoft não criou nenhum deles mas aproveitou bem essas ideias e ampliou o seu negócio. Um caso oposto é da IBM, que podemos até considerar uma empresa inovadora que gastava bilhões em pesquisa (com dúzias de prêmios Nobel) e desenvolvimento, desenvolvia tecnologia, inovava em produtos e quase quebrou quando surgiu a onda do DOWNSIZING. Na década de 90 deu uma guinada, se reinventou e sobreviveu. Isso tudo nos leva a pensar que inovação é importante, mas não é o mais importante. Antes de falar que ela é solução para sobreviver seria bom saber a relação entre o número de inovações que deram certo e o número de inovações que deram errado. A maioria de nós só vê e aplaude inovações que funcionam mas nem ficamos sabendo daquelas que falham. Fica a dica… veja o complemento das coisas.

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    • 25/02/2015 - 07:59
      Enviado por: Daniel Fernandes

      Se algo é considerado inovação pressupõe que é um sucesso, êxito. Senão seria uma invenção, uma teste, uma novidade, não uma inovação. E ser inovador não significa ter sido o pioneiro. Inovador é aquele que cria novidades/novos modelos para atender/superar as expectativas do cliente. São muitos os exemplos de produtos que são hoje líderes pois aprenderam com os erros de quem tentou antes (Facebook e Google são dois exemplos). Lembre-se não existe inovação que dá errado, se deu errado é porque foi um teste e não uma inovação. Para saber mais sobre o conceito de inovação, sugiro a leitura do manual de Oslo que define e classifica o termo – o documento é gratuito e está disponível em português no site da Finep – http://download.finep.gov.br/imprensa/manual_de_oslo.pdf.

      Marcelo Pimenta

  • 24/02/2015 - 00:34
    Enviado por: Amarildo Coelho

    Acho que a você está mal informado ou não pesquisou a respeito, a marca Parmalat foi Top of Mind pela 15 vez o ano passado na categoria Leite UHT, o fato dela estar ainda na cabeça do consumidor mostra que ainda está bem viva.

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    • 25/02/2015 - 07:59
      Enviado por: Daniel Fernandes

      Obrigado Amarildo pelo comentário. Mas a Parmalat foi citada como exemplo de empresa que já foi líder de mercado e hoje enfrenta dificuldades para se manter, você pode acompanhar a trajetória aqui – http://pt.wikipedia.org/wiki/Parmalat.

      Marcelo Pimenta

  • 27/02/2015 - 11:02
    Enviado por: TULIO SEVERO JR

    Marcelo, não é só isso!
    O que acontece é mais do isso! O desenvolvimento de uma empresa, principalmente as grandes, demanda muitas atividades e controles, não é fácil coordenar para que todas as necessidades inerentes a mesma funcionem bem para aquele produto que é a vaca leiteira, toda empresa fica focada em fazer , remar, e ir na direção das metas e objetivos, de forma obcecada!! Sem o qual perde espaço para a concorrência, é por isso que a Microsoft perdeu a corrida da internet, dos browsers, é por outro lado, por isso que a Dell se deu bem com os PC’s sob medida…, temos na familia uma empresa com 600 funcionários 30 escritorios no Brasil que atendem mais de 500 representantes, e qualquer inovação que se apresente demanda que as pessoas envolvidas disponham de tempo para ela, e tempo esta muito escasso num mundo em franco crescimento aonde ainda há muito espaço para crescer. É isso que faz com que as empresas percam oportunidades novas, é o foco e a obstinação para não perder o mercado atual, ja consolidado e não deixar de crescer aonde já domina!!
    Pelo contr’rio, não é deitar na comodidade de estar no conforto do território conquistado, porque esse conforto inexiste, se você desviar atenção e tirar o pé do acelerador, vai chegar ter que gastar muita energia para voltar a posição que estava!.
    Qual a solução?. A solução são muitas, mas citarei duas: Criar um departamento de inovação e prototipagem que seja independente, mas formado de pessoas que conhecem muito a empresa, ou seja, eles terão de ser substituidos, pode ser mais cara e menos efetiva se sua empresa não MUITO persistente!. E outra, é passar a promover hackatons e desafios de startups, que permite que gente de fora enxergue soluções fora da caixa para seus problemas, esse colaboração ja é oferecida pelo programa do CircuitoStartup.com para muitas empresas no Brasil.

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    • 02/03/2015 - 09:09
      Enviado por: Daniel Fernandes

      Muito bem colocado Tulio, obrigado pela contribuição. Achei bastante pertinente suas colocações.

      Marcelo Pimenta

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