Blog


Blog do Empreendedor
O cotidiano de empreendedores como você
Twitter Facebook Orkut
Aumentar texto Diminuir texto

Organizações que precisam inovar: quando a vaca sagrada foi ou está indo para o brejo…

10 de agosto de 2018

Nesta semana, vimos mais uma empresa tradicional, icônica e referência de mercado anunciar a demissão de centenas de funcionários e descontinuar diversos produtos. Isto está longe de ser uma novidade e ela pode se juntar à Kodak, Nokia, Polaroid, Blockbuster, Barnes & Noble e tantas outras.

Para organizações que precisam inovar radicalmente, das muitas opções do início acaba restando apenas uma e a menos óbvia, a princípio: matar a sua vaca sagrada. Pelo menos é o que sugere uma parábola contada em vários países.

Esta é a minha versão: conta-se que certa vez, o mestre e seu discípulo foram recebidos com muita hospitalidade por uma família que vivia em um sítio e que só empobrecia. “Tiramos todo o nosso sustento desta vaca”, explicou o pai apontando para um velho animal. “Seu leite é a nossa fonte de proteína e quando sobra, vendemos o excedente na cidade…”disse.

Assim que a visita terminou e saíram do sítio, o mestre ordenou ao seu discípulo que voltasse, e na calada da noite, levasse a frágil vaca da pobre família para o brejo. “Mas Mestre, além de criarmos uma nova gíria, a vaca irá morrer, pois não terá forças para sair de lá!”, avisou o discípulo. Mas o Mestre estava irredutível. Muito contrariado e triste, o discípulo cumpriu a ordem.

Anos depois, como o peso na consciência não passava, o discípulo voltou para se retratar. Mas ao chegar tomou um susto. Viu uma residência confortável, bons carros na garagem e uma família saudável e feliz. “O que aconteceu?”, perguntou ao mesmo sitiante.

Há alguns anos nossa vaca foi para o brejo e, infelizmente, a perdemos. Sem opções, tivemos que aprender novas habilidades para o nosso sustento e descobrimos que tínhamos oportunidades muito maiores no nosso terreno. Passamos a tirar leite de pedra e isto deu muito certo!”, explicou. “Mais uma nova gíria…”, pensou o discípulo, mas entendeu a lição do seu Mestre.

Esta parábola representa a trajetória de organizações que ousaram aniquilar seus principais produtos antes que o mercado cuidasse, certamente, disso.

A IBM, muito provavelmente, faria parte da lista das empresas apresentadas no início deste artigo se não fosse a coragem, a capacidade visionária e a liderança de Louis Gerstner Jr. No início da década de 1990, a Big Blue definhava tentando vender mainframes e outros computadores de grande porte. Muitos apostavam que a gigante da tecnologia iria quebrar. Foi Gerstner que percebeu que o mercado migrava para compra de serviço e não aquisição de ativo e pivotou o modelo de negócio da organização para esta nova lógica. Recentemente, a IBM pivotou novamente, posicionando-se no mercado de inteligência artificial e outras novas tecnologias disruptivas.

Outra virada histórica, quase do mesmo porte da feita pela IBM, foi conduzida por Antonie Roux ao transformar a Naspers, um grupo que, apesar de ser líder de mercado em mídia tradicional na África do Sul, era pequeno internacionalmente em 2001, em um dos principais grupos internacionais, com valor superior a US$ 100 milhões atualmente, ao apostar no crescimento da importância das mídias digitais em países emergentes, notadamente a China.

Enquanto as empresas tradicionais têm dificuldade em mudar, isto quando são incapazes de eliminar suas vacas sagradas, novas startups que passam a líderes de mercado já nascido na condição de empresas líquidas, que conseguem se reinventar a cada cinco ou dez anos. A Netflix que começou alugando DVDs pelo correio, migrou para streaming e agora criou um sistema integrado de geração de conteúdo baseado em análise de dados, tem conseguido sair mais forte quando decide abandonar sua vaca leiteira anterior. “As empresas dificilmente morrem por moverem-se muito rápido, mas frequentemente desaparecem por serem muito lentas…” – lembra Reed Hasting, fundador da Netflix.

Andy Grove, que foi o grande responsável por inúmeras reinvenções da Intel durante mais de duas décadas, tendo a coragem de matar inúmeras vezes o seu produto anterior com um novo muito melhor, sempre dizia que “companhias ruins são destruídas pelas crises, boas empresas sobrevivem, mas as grandiosas saem muito melhores!

E a Editora Abril sempre foi uma empresa grandiosa para mim!

Marcelo Nakagawa é Professor de Inovação e Empreendedorismo do Insper.