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O papel do empreendedorismo de impacto social na luta pela igualdade racial

17 de maio de 2018

Diáspora Black/Divulgação Facebook

Há 130 anos, o Brasil reafirmava juridicamente que deveria romper com uma das mais brutais atrocidades humanas: a escravidão. Em mais de um século temos avançado, vagarosamente, na direção de uma sociedade igualitária; os números mostram que devemos tornar célere essa construção de uma nova sociedade. Pesquisa do Instituto ETHOS mostra que os negros ocupam apenas 4,7% dos cargos executivos e 6,3% dos postos de gerência nas 500 maiores empresas do Brasil; no caso das mulheres, os números mostram que elas ocupam 0,4% e 1,6%, respectivamente – embora a população negra represente 55% dos brasileiros. Estimativa do Instituto Locomotiva aponta que os negros movimentaram R$ 1,6 trilhão em 2017.

De acordo com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), 51% dos empreendedores brasileiros são negros, mas apenas 29% deles empregam ao menos uma pessoa – sinal das barreiras de crescimento e discriminações enfrentadas por essa parcela da população no campo do empreendedorismo. Há muito espaço para crescer e muito a se fazer para mudar esse cenário desigual. Na Artemisia, temos acompanhado uma nova geração de negócios de impacto social que representam a força e a vontade de brasileiras e brasileiros que querem fortalecer a cultura negra por meio de produtos e serviços. Carlos Humberto, Antonio Pita e André Ribeiro, cofundadores da Diaspora.Black, e Adriana Barbosa – empreendedora da Feira Preta que recebeu o título de Most Influential People of American Descent (MIPAD), em 2017 – são exemplos do enorme potencial do afroempreendedorismo no Brasil.

Vivenciar a cultura negra por meio de roteiros turísticos, hospedagens e experiências culturais afrocentradas é a proposta da Diaspora.Black. Na Rota da Liberdade – circuito de quilombos e fazendas do Vale do Paraíba – o visitante pode refazer o percurso da afirmação. Na rota Quilombo da Fazenda, em Ubatuba, o turista participa de rodas de conversa sobre a memória local; produz estampas em tecido; dança o jongo; e degusta receitas tradicionais com a farinha que ele mesmo produz. Esses são exemplos de experiências oferecidas pela plataforma brasileira que reúne anfitriões e viajantes interessados no turismo de impacto social – que promove cultura, estudos e lazer ao mesmo tempo que gera impacto econômico positivo.

Esses empreendedores de negócio de impacto social acreditam que o fomento ao turismo é um grande catalisador da circulação econômica na comunidade negra. A startup reúne, em uma única plataforma, iniciativas e serviços focados na cultura negra em diferentes cidades para aproximá-las de viajantes conectados. Em menos de um ano de operação já está presente em 70 cidades – com mais de 2.000 usuários cadastrados. Vale lembrar que, nos Estados Unidos, esse mercado movimentou em 2016, US$ 48 bilhões com a venda de produtos, serviços, viagens.

Adriana Barbosa, por sua vez, criou o maior evento de cultura negra da América Latina há 16 anos. O evento já recebeu 120 mil participantes, 700 expositores, 600 artistas e 4 milhões de reais em circulação monetária. A primeira edição foi realizada na praça Benedito Calixto, em São Paulo. O evento reúne empreendedores negros que focam seus negócios nas demandas de consumidores negros. É a maquiagem para a tonalidade de pele, são as roupas de estilo afro ou os produtos que ressaltam os cachos. Segundo Adriana, à medida que a população negra começou a declarar a identidade, essa demanda começou a surgir. Formada em gestão de eventos, Adriana começou a atuação profissional na área de Comunicação, com trabalhos em emissoras de rádio, produtoras de TV e gravadoras. Percebeu que, enquanto a economia brasileira se desenvolve, também se desenvolve o poder de compra dos afrodescendentes. Com isso em mente, com pouco mais de 20 anos de idade criou a maior feira negra do Brasil. A Feira Preta é o espelho vivo das tendências afro-contemporâneas do mercado e das artes, além de ser o espaço ideal para valorizar iniciativas afroempreendedoras de diversos segmentos.

A Artemisia só está começando nessa jornada; temos muito a aprender, refletir e fazer. Mas tem sido uma honra e uma fonte profunda de aprendizado colaborar com o desenvolvimento e expansão dos negócios que ajudam o Brasil a avançar nas questões de raça e de gênero – temas urgentes no campo do empreendedorismo no Brasil e no mundo. Essas iniciativas trazem para cada brasileiro a dignidade de viver em um país que não deve se conformar com as injustiças e desigualdades. Que isso seja lembrado não apenas em 13 de maio, mas em todos os dias das nossas vidas.

Maure Pessanha, coempreendedora e diretora-executiva da Artemisia, organização pioneira no fomento e disseminação de negócios de impacto social no Brasil.