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O negócio americano que tem Google e GM como investidores e que jamais daria certo no Brasil

25 de julho de 2014

Marcelo Nakagawa é professor de empreendedorismo do Insper

Você deixa seu carro no estacionamento do aeroporto e pega o seu voo dando início a sua viagem de dois dias. Aí vem um sujeito esperto, pega o seu carro e o usa durante o tempo em que você está fora. Quando você volta, seu carro está lá, do mesmo jeito que deixou no estacionamento, que, por sinal, cobrará um valor bem menor já que o seu carro não ficou mesmo estacionado por dois dias.

No dia seguinte, você vai trabalhar com seu mesmo carro. Deixa no seu estacionamento de costume e… vem outro espertinho, pega o seu carro, o usa durante o dia inteiro e também o deixa do mesmo jeito e no mesmo local antes que você saia do seu trabalho. Você pega o carro e vai para casa, mas antes recebe o aviso do depósito de algo como R$ 70 na sua conta paga pelo outro espertinho que usou seu carro neste dia.

É isso o que ocorre normalmente com os clientes da RelayRides.com aqui nos Estados Unidos, onde me encontro hoje. Boston é linda em julho, mas o inverno de 2010 estava destruindo o bom humor de Shelby Clark, na época, aluno do MBA de Harvard. Enquanto ia de bicicleta pegar um carro que tinha alugado, ficava se perguntando por quê passava por tantos carros que não estavam sendo utilizados. E ficou com isso na cabeça. Suas pesquisas iniciais indicaram que um carro ficava estacionado, em média, 23 horas por dia e que havia 1,2 carro para cada motorista nos Estados Unidos. Havia muita ociosidade dos automóveis.

Não havia um jeito de ter acesso a esses carros particulares e fazer com que seus donos ainda recebessem por isso? Será que as pessoas querem ter carros ou meios de locomoção eficientes, principalmente em Boston que tem um trânsito intenso nos horários de picos de manhã e no final da tarde?

São essas duas perguntas que orientaram a criação da RelayRides.com, um serviço online onde proprietários de veículos colocam seus carros para locações curtas e pessoas que precisam se locomover sem depender do transporte público podem ter acesso a automóveis pagando até um terço de uma tarifa de locação normal. A empresa começou em Boston, depois São Francisco e agora atua em todo o país.

Desde 2010, já recebeu cerca de US$ 44 milhões de investidores como Google e General Motors, que chancelam o potencial do negócio. Esses investidores apostam na tendência mostrada por Jeremy Rifkin, autor do livro “A Era do Acesso” (Makron Books) a mais de dez anos atrás, quando previu que o mais importante no futuro não seria a posse mas o acesso a um bem ou serviço.

Mas mesmo assim, todos os brasileiros a quem mencionei o caso da RelayRides foram unânimes no inicio dos seus comentários: “Isso não daria certo no Brasil…”

Mas por quê não daria certo? Porque ninguém teria coragem de deixar que um desconhecido use algo seu, principalmente, um bem tão caro Porque teriam medo do carro não voltar e se voltar, vier sem algo, como o popular estepe. Porque se ocorrer algum sinistro o seguro não vai cobrir e adicionalmente irá aumentar o valor da apólice na próxima renovação. Porque o carro pode voltar com algum riscadinho, sujo ou até com cheiro de sei lá o que… Porque o carro pode não ser devolvido no horário e local combinado. Foram algumas das argumentações dadas para explicar porque a RelayRides não teria sucesso…. nos Estados Unidos.

Enquanto pensarmos pequeno, continuaremos a ser do tamanho que achamos que somos.