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O maior show da terra vai acabar e ninguém se importa com isso

20 de janeiro de 2017

Era janeiro de 2010 e lá estava eu tendo uma das experiências da minha lista de pequenas coisas que gostaria de fazer na vida. A luz se apaga, os tambores rufam e os holofotes miram um senhor com fraque colorido no centro do palco que anuncia:
“Senhoras e senhores, meninos e meninas, crianças de todas as idades, preparem-se para o Maior Show da Terra…”.

E em seguida entram elefantes, palhaços, motoqueiros, caubóis, tigres, malabaristas, cavalos, equilibristas. Estava feliz ali, pois estava vendo a história. Mesmo depois de tanto tempo, hoje, ainda lembro do Sr. Silva, anunciado como o homem mais forte do mundo. Enquanto ele levantava vários pesos, eu ficava me perguntando se ele era brasileiro com este sobrenome. Depois vieram os elefantes que dançavam, os tigres eu ficavam sentados e ainda tinha os leões. Não me lembro do domador colocando sua cabeça na boca do felino, mas me recordo dele dando um beijo no nariz do rei da floreta. De repente as luzes se apagam e roncos de motores são ouvidos.

É o grande momento do Globo da Morte e dos motoqueiros que arriscavam suas vidas girando um contra o outro naquela gaiola. Um, dois, três, quatro motoqueiros. Eu olhava aquilo e dizia para mim mesmo: Nossa, como isto é… igual… Já tinha visto aquilo, pelo menos, umas quatro vezes em circos brasileiros. Tudo aquilo era o verdadeiro circo e ao mesmo tempo “um” circo: pejorativo, banal, caricata, monótono.

Mas tinha feito questão de ir ao show do Ringling Bros. and Barnum & Bailey Circus porque eles criaram o circo como o conhecemos. Tudo o que veio depois foram suas cópias. Mas a estória do Maior Show da Terra é fantástica. Ainda no final do Século XIX, não havia muitas opções de diversão nas cidades norte-americanas, e em 1875, Phineas Taylor Barnum e amigos reuniram atrações que viajavam pelos Estados Unidos. Isto incluía pessoas que dominavam algum truque com mágica, animais, principalmente africanos como leões e elefantes e até curiosidades bizarras como a mítica Sereia de Fiji, um mórbido dorso de macaco costurado a um corpo de peixe. Com o sucesso do show de Barnum, novos clones surgiram, repetindo sua receita e incluindo novas atrações. Mas em vez de competir, Barnum optou por se juntar a outro concorrente e assim surgiu a Barnum & Bailey Circus em 1882, que depois foi comprada pelos irmãos Ringling em 1919, surgindo a Ringling Bros. and Barnum & Bailey Combined Shows. Surgia aí o Maior Show da Terra que virou referência mundial do que era o circo.

Mas a arrogância de acreditar ser o maior show da Terra fez com que o Ringling Bros parasse no em 1919. Boa parte do show que vi em 2010, de certa forma, era o mesmo daquele de quase um século atrás. Conhecer pessoalmente o circo fazia parte da minha lista de desejos porque sabia que aquilo era um museu. Era a representação de um tipo de entretenimento míope que iria deixar de existir em algum momento. Aquele circo não percebeu que não estava no negócio de circo, mas de entretenimento de famílias. Por isso, passou a ter concorrência de filmes logo no início do século XX, depois de parques de diversões, televisão, internet e agora smartphones. Mas insistiu e se manteve no negócio de circo, com seus leões, tigres, macacos e o famigerado globo da morte.

Nesta semana, o Ringling Bros anunciou que o Maior Show da Terra vai deixar de existir. Queda vertiginosa nas receitas e custos crescentes impedem que a tenda fique de pé, mesmo com toda a força do Sr. Silva. É uma pena. Mesmo com os absurdos dos animais utilizados nos shows, muitos irão se lembrar dos momentos de alegria que tiveram com seus pais, comendo pipoca e rindo do medo que tinham dos palhaços quando ia a um circo, qualquer circo, na infância.

Mas a notícia do fechamento do Ringling Bros não pegou de surpresa a maioria das pessoas que entendem que o circo tradicional é algo do passado, do século passado. Fazer os mesmos truques durante tanto tempo já virou, no sentido figurado, um circo. Ninguém mais aguenta isto.

Mas o que impressiona é quantidade de negócios atuais que continuam achando que fazem “o maior show da Terra” nos segmentos em que atuam e não percebem seus clientes bocejando do outro lado. Estes negócios se desaparecessem, ninguém sentiria falta…

Marcelo Nakagawa é Professor de Empreendedorismo e Inovação do Insper