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O maior intrapreneur que o Brasil já teve

6 de agosto de 2018

A recente notícia do acordo comercial que a Boeing e a Embraer pretendem fazer mostra claramente que o setor de grandes aeronaves civis se reconfigura para um claríssimo duopólio, dado que o consórcio europeu Airbus assumiu o controle da canadense Bombardier há menos de um ano atrás. A notícia também leva a uma reflexão: como o Brasil, infelizmente com um histórico relativamente escasso de vanguarda tecnológica, conseguiu gerar a Embraer, terceira maior fabricante de jatos comerciais do mundo, com mais de 8.000 aeronaves comercializadas em seus quase 50 anos de história?

Alguns nomes particularmente se destacam dentre os milhares que se dedicaram à construção e ao sucesso da Embraer. O engenheiro mecânico Mauricio Botelho foi talvez o maior responsável pelo percurso e posicionamento da Embraer nas últimas duas décadas. Tendo assumido a Presidência da empresa em 1995, conduziu uma reorganização pós-privatização e capitaneou o lançamento dos jatos da família ERJ-145 (para até 50 passageiros), cujo projeto havia se iniciado em 1989. O conhecimento tecnológico então gerado possibilitou o desenvolvimento dos modelos das séries 170 e 190, lançados em 1999 (para 70 a 90 passageiros), e mais recentemente das séries 195 e 175, para até 122 passageiros.

A fundação da Embraer, entretanto, se deu 30 anos antes disso, em 1969, por iniciativa do Governo Federal e sob a liderança do engenheiro aeronáutico Ozires Silva, após alguns anos à frente da equipe que projetou o primeiro avião turboélice da empresa, o Bandeirante. O brilhante e gentil Coronel Ozires é formado pelo ITA, Instituto Tecnológico de Aeronáutica, e um capacitado piloto militar e aeronaval. Ao resgatarmos a fundação da Embraer e a própria formação de Ozires Silva, nos deparamos então com o ITA e com a organização ao qual esse esteve vinculado desde sua origem, o CTA, ou Centro de Tecnologia Aeronáutica.

Nesse ponto, chegamos a um personagem fundamental na história da Embraer: Casimiro Montenegro, nascido em Fortaleza em 1904. Em 12 de junho de 1931, realizou o vôo inaugural do Correio Aéreo Militar, que veio a se tornar posteriormente o Correio Aéreo Nacional (CAN). Frequentou a primeira turma do curso de Engenharia Aeronáutica na antiga Escola Técnica do Exército, atual IME – Instituto Militar de Engenharia, onde se graduou em 1941.

Realizou visitas ao MIT – Massachusetts Institute of Technology, nos anos de 1943/1944, e daí criou a visão de desenvolver uma instituição similar no Brasil, com o objetivo de formar profissionais e dominar a tecnologia aeronáutica. Com o apoio do chefe do Departamento de Engenharia Aeronáutica do MIT, Richard Habert Smith, desenvolveu as diretrizes da nova instituição. No restante da década de 1940, Montenegro se dedicou totalmente à construção de seu sonho em São José dos Campos, ganhando confiança de seus superiores para ter grande autonomia. Essa mesma confiança que gerava foi responsável pela contratação de um corpo docente altamente qualificado, com professores vindo de vários países para conduzirem as aulas no ITA, instituição idealizada e fundada por Montenegro.

O Marechal do Ar Casimiro Montenegro ocupou a direção do CTA por longos períodos até 1965, e sua visão, determinação e atitudes na liderança do ITA viabilizaram e foram condição sine qua non para a criação da Embraer. morreu em 2000, aos 95 anos de idade. Pensando em empreendedorismo, ou mais especificamente em intraempreendedorismo – a postura e atitude empreendedora que acontece dentro de uma grande organização já estabelecida – é um grande exemplo que vemos em Montenegro em relação à sua organização de origem, a Aeronáutica. É um desses heróis que o Brasil teima em esquecer e pouquíssimo reverenciar, apesar de sua história, exemplo e legado absolutamente admiráveis.

Fabio De Biazzi é Doutor em engenharia de produção pela Poli-USP, conselheiro do Grupo Rede Amazônica, consultor, professor do Insper, diretor da Brain Business School e autor do livro “Lições essenciais sobre Liderança e Comportamento Organizacional”.