Blog


Blog do Empreendedor
O cotidiano de empreendedores como você
Twitter Facebook Orkut
Aumentar texto Diminuir texto

O instinto e o coração na tomada de decisões

7 de janeiro de 2019

Ivan Primo Bornes *

Esta é a história de Bia Job e Helô Hervé, duas empreendedoras de Porto Alegre inspiradas – e inspiradoras – que depois de 18 anos atuando com publicidade e moda, decidiram pivotar radicalmente as relações de trabalho em busca de uma vida mais plena. Assim surgiu uma marca própria de roupas confortáveis, a 2B, e uma loja física e colaborativa, ALOJA, num dos endereços mais bacanas da capital gaúcha.

Fazer a entrevista com a Bia e a Helô foi uma delícia, pois elas transmitem energia positiva e felicidade até quando falam dos perrengues que passaram, além de me contarem das peripécias que enfrentaram ao seguir o instinto e o coração na tomada de decisões. Eu fiquei profundamente impactado pela sabedoria e gentileza delas. Espero poder transmitir a todos os leitores da coluna um pouco desta aula de vida e de valores fundamentais. Desejo que vocês aproveitem, se inspirem e se divirtam tanto quanto eu.

Heloisa Herve e Bia Job, sócias e criadoras da ALOJA e da marca de roupas 2B. Créditos: Bia Job

Me contem um pouco de vocês duas.

Helô: começando pelo mais relevante, eu sou de Libra, com ascendente em Libra e Lua em Libra. Bia é Escorpião, ascendente em Câncer e Lua em Touro. ‘Zodiacamente’ falando, é um caos. Mas, como diria Levy Moshe, “o caos completo é, ironicamente, um tipo de perfeição”.

Bia: a Helô nasceu em 1962 e eu em 1965, um péssimo ano para os vinhos – considerado um dos anos de piores safras da história – mas que se justifica pelo nascimento de uma grande apreciadora do produto! Ou seja, a natureza focou em produzir uma grande consumidora.

Essa foi a melhor abertura de entrevista que já tive! Vocês se apresentaram maravilhosamente. E como vocês se conheceram?

Helô: em comum, nenhuma das duas sabia o que queria ser quando crescer . A título de informação, a dúvida persiste até hoje (risos). Fizemos vários vestibulares, mudamos de curso universitário, viajamos, moramos fora, com ênfase para Bia que ficou quatro anos em Israel – a artimanha do destino é tamanha que quem tem cara de judia sou eu!!! A Bia fez carreira no teatro e eu escrevia, e se tivesse Netflix na época, iria ser roteirista de série – com certeza.

Bia: acabamos formadas em publicidade, com pós-graduação, especializações e tudo que tínhamos direito. Nós duas sempre amamos o conhecimento e a curiosidade sempre nos moveu. Na minha escolha tardia pelo curso de comunicação, calhou de eu ser aluna da Helô e deu match (na era pré-Tinder) e estamos juntas desde então.

E como começaram a empreender?

Bia: eu nunca tive um trabalho formal, mas sempre trabalhei e sempre criei minhas oportunidades de negócios. A Helô depois de alguns empregos formais dentro e fora da área de publicidade, acabou abrindo sua própria empresa.

Helô: eu queria ser minha própria chefe. Mas se for pensar bem, bem mesmo, não é que eu quisesse ser apenas minha própria chefe, mas sim ter muitos chefes, e vi nos clientes uma forma disso se realizar.  A Bia começou a trabalhar comigo e criamos um projeto diferente de tudo, na época, uma agência de publicidade tipo boutique, focada em moda. Atendemos algumas contas realmente grandes e ganhamos bastante dinheiro na época. Foi um “oceano azul” que durou 18 anos, até que descobrimos que éramos boas em gerar negócios e péssimas em gerir negócios. E com o ‘fim’ do mercado da comunicação, decidimos fechar a agência há 4 anos.

E como é a dinâmica de vocês trabalhando juntas?

Bia: antes de montarmos a empresa juntas, montamos uma cumplicidade, coisa fundamental para uma sociedade. Cumplicidade é um efetivo essencial para as sociedades darem certo. Não tivemos um insight empreendedor, a coisa foi acontecendo e dando certo, crescendo sem um plano ou um objetivo claro. Os objetivos que lançamos são para a vida e não para os negócios, pois a vida está um pouco acima dos negócios e quebrar a primeira empresa nos deu a dimensão disso.

Helô: é um desafio, estamos 24 horas juntas. E aqui vale novamente a máxima que hoje rege a nossa vida: os negócios fazem parte da nossa vida, mas a nossa vida é muito maior do que isso. O grande investimento tem de ser no que acreditamos e enfiar os negócios nisso, jamais confundir sucesso ou fracasso financeiro com sucesso ou fracasso pessoal. Empresas dão certo e dão errado e a vida continua, só fique atento e jamais se iluda, tenha o pé bem no chão e a cabeça nas nuvens.

Bia: nunca se iluda, achando que o negócio é a sua vida. Tivemos sorte em aprender isso perdendo o negócio da publicidade e seguindo com a vida.

Na opinião de vocês, o empreendedor nasce ou se forma?

Bia: uma coisa é certa, tu nasces empreendedor. Não adianta. Tá no DNA. Ou é ou não é! Empreendedor é uma coisa dentro da pessoa que a faz olhar as oportunidades e se não as enxergar, inventa.

Helô: tem empreendedor de oportunidade, aquele que surfa na onda, pois enxergou a onda. E tem o outro que vai e faz.

Bia: a crise mostrou que empreendedorismo é uma capacidade do ser humano que floresce mesmo soterrada em uma cultura absurda da estabilidade da carteira assinada. Da crise, surgiram grandes empreendedores.

Vocês já deram voltas e voltas no mundo e nos negócios. Qual é a visão de vocês sobre empreender?

Helô: perfil empreendedor, na nossa opinião, são pessoas irrequietas, curiosas, que amam novidades e que, para o bem ou para o mal, são pessoas ótimas em gerar e ruins em gerir. O empreendedor, para nós, é uma pessoa generalista por natureza.

Ou seja, o empreendedor precisa saber um pouco de tudo?

Helô: entendemos o empreendedor de sucesso com a seguinte fórmula 200%:
+ 50% inventivo, aquela pessoa que tira algo do nada
+ 25% criativo, aquela pessoa que pega duas coisas nada a ver e as mistura, fazendo algo novo
+ 25% inovador, pega algo que já existe e melhora
+ 100% ‘viola no saco’, humildade, pois se começa a “se achar”, o empreendedor se perde.
Isso dá um empreendedor, uma pessoa que precisa ser 200%.

Me falem do aprendizado dos últimos anos, do que é importante na vida de vocês.

Helô: quando fizemos nossa primeira viagem de negócios pela nossa empresa (a que quebrou), nos olhamos e falamos em voz alta: tomara que esta seja a primeira de milhares. E realmente aconteceu. Mas posso aqui usar a frase sábia da minha Vó Tina: as malas viajam, mas não aproveitam nada. Cada minuto da nossa vida tem de ser aproveitado, se for viajar a trabalho, VIAJE.

Bia: pelo número de horas que passamos alimentando as redes sociais, deixamos a vida morrer de fome, isso acontece não pelo trabalho, mas por esquecer da vida. Hoje a Aloja, nossa loja colaborativa, é nossa atividade onde vivemos o trabalho de forma simples, como aprendemos a viver nossa vida.

Helô: uma coisa que vale ressalva: saímos do mundo corporativo que vivíamos com a agência de propaganda e começamos a fazer feiras autorais. Este movimento depurou não só nossa humildade como também as nossas amizades e reforçou a ideia de jamais confundir sucesso financeiro com sucesso pessoal. Pois três anos de feiras nos enriqueceram muito mais do que 30 anos de mundo corporativo.

Quais são os planos de negócios para o futuro?

Bia: o plano de futuro é viver um dia de cada vez e aprender com os nossos clientes.

Helô: nosso modelo de negócio atual é sem amarras, e temos três frentes bem claras:
1. Nossa marca de roupas – a 2B (que tem esse nome pois é o Plano B de nós duas) – focadas em coisas que gostamos de fazer e são confortáveis
2. Aloja – é uma loja física, colaborativa, de bairro, com 14 marcas autorais, atendida somente pelas duas bonitas aqui, e cuja curadoria se deu em feiras que participamos. Juntamos um pessoal que é nosso cúmplice neste empreendimento, que sem dúvida veio para ficar no que hoje entendemos de varejo.
3. Participação em feiras autorais – divulgamos a nossa marca própria e também nossa loja física, captamos novos colaboradores e nos divertimos muito!

Bia: esta é a nossa contribuição, não só para o Brasil, mas para o planeta. Sermos felizes, honestos e incentivarmos produtos e negócios feitos por gente feliz e honesta.

Se pudesse dar uma dica aos empreendedores que estão chegando agora, qual seria?

Bia: o nosso conselho para qualquer empreendedor é o mesmo que Al Pacino deu para seu gato de estimação no filme Perfume de Mulher: When in doubt… fuck (quando estiver em dúvida, trepe). Faça menos planos e siga sua intuição.

 

Saiba mais
ALOJA – Av. Cel. Lucas de Oliveira, 265 – Porto Alegre – Bairro Moinhos de Vento
www.sitealoja.com.br
www.instagram.com/alojalucasdeoliveira

 

* Ivan Primo Bornes (ivan@pastificioprimo.com.br) – empreendedor e fundador da rede de rotisserias Pastificio Primo (www.pastificioprimo.com.br)