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O empreendedor mais fracassado de todos os tempos? O amargo sucesso de John DeLorean.

2 de março de 2018

Quase todos conhecem a sua maior criação, mas poucos sabem que a trajetória de John DeLorean culminou com um dos mais humilhantes fracassos públicos de todos os tempos. Enquanto muitos empreendedores fracassam anonimamente, Delorean deixou o mundo aturdido em 19 de outubro de 1982 ao tentar salvar seu negócio da falência.

Antes de empreender seu próprio negócio, John já tinha entrado para a história como um dos principais executivos da indústria automobilísticas de todos os tempos. Muito antes de ter se tornado o mais jovem diretor da GM, ele já havia construído uma carreira de muito sucesso desde o seu primeiro emprego como vendedor de seguros de vida, aos 23 anos.

Formado em Engenharia Industrial, criou um sistema de venda de seguros para engenheiros que atingiu cerca de US$ 9 milhões (em valores atuais) em apenas nove meses em 1949, tornando-o muito rico em pouco tempo. Atrás de novos desafios, aceitou uma vaga de trabalho na Chrysler, iniciando uma das carreiras mais bem-sucedidas de todos os tempos.

Da Chrysler, aceitou uma posição superior na Packard Motor Company e depois na divisão Pontiac da General Motors. Foi na GM que John liderou alguns dos projetos de maior sucesso da companhia em todos os tempos, como os carros esportivos Pontiac GTO e Firebird e os sedãs Pontiac Grand Prix e Chevrolet Vega. Sua carreira, sempre marcada por vitórias, tornou DeLorean cada vez mais arrogante e narcisista. Uma de suas namoradas lembra que ganhou de presente de Natal, certa vez, um conjunto de fotos pessoais de John DeLorean em várias poses.

Em 1973, aos 48 anos, quando perdeu a chance de se tornar presidente da GM, DeLorean pediu demissão para criar sua própria empresa automobilística que produziria o carro do futuro. Era a sua forma de jogar na cara da sua ex-empregadora que ele era o visionário da companhia.

O início da DeLorean Motor Company (DMC) foi avassalador. O design do primeiro (que se tornaria o único) carro da empresa foi elaborado pelo italiano Giorgetto Giugiaro, o mais lendário designer automobilístico de todos os tempos. O motor seria um dos mais leves e potentes do mercado. A carroceria, de alumínio, reduziria drasticamente o peso do carro. Leveza e potência tornariam o veículo muito rápido e incrivelmente econômico, pois na década de 1970, o mundo vivia sua primeira crise de petróleo. O projeto visionário associado ao seu prestígio pessoal permitiu que John Delorean conseguisse captar quase US$ 1 bilhão (em valores atuais) de investidores-anjo, bancos e principalmente do governo britânico, que o convenceu a montar a fábrica da Irlanda e assim gerar mais de 2 mil empregos.

Diante de tanta badalação e apoio, John manteve todas as suas regalias como alto executivo de uma grande montadora, inclusive seu salário anual de US$ 2 milhões (em valores atuais) e estrutura operacional semelhante, mesmo sendo uma startup. As pré-vendas do DMC-12, número que remetia ao preço pelo qual se poderia comprar o carro (US$ 12 mil), dispararam mesmo que a empresa ainda não tivesse sequer uma linha de montagem. Os entusiastas de DeLorean acreditaram no slogan dos anúncios da empresa: Viva o seu sonho!

Mas seu sonho começou a se tornar pesado com o início da fábrica. O local não dispunha de uma cadeia de fornecimento próxima, o que depois veio a encarecer severamente a produção. A linha de montagem não conseguia atender as especificações a ponto das portas do carro não fecharem adequadamente e o carro produzir muito barulho. O motor teve que ser trocado em função da falência do primeiro fornecedor. O carro, que era para ser leve e veloz, se mostrou justamente o contrário, pesado e lento. E o pior, a empresa só conseguiu entregar as primeiras encomendas em 1981, mais de três anos depois do prometido.

Os prejuízos da DMC aumentaram em escala exponencial. A pá de cal na empresa foi o preço final do carro: US$ 25 mil, mais do que o dobro do anunciado. O alto custo de produção, a valorização da libra esterlina e os impostos britânicos criaram uma armadilha financeira que aumentava o prejuízo a cada carro enviado para o mercado norte-americano. Se tudo isso ainda não representava o inferno para John Delorean, os Estados Unidos entraram em recessão econômica nesse ano.

Por tudo isso, no final do ano seguinte, o sonho de John tinha falido. Em 23 meses de operação, a fábrica produziu cerca de nove mil veículos. Mas seu prestígio tinha sido aniquilado para sempre cerca de um mês antes. Em 19 de outubro de 1982, John DeLorean foi filmado tentando vender 27 quilos de cocaína em um hotel em Los Angeles, alegando que precisava levantar algum capital para manter seu sonho empresarial vivo.

Anos depois, John aceitou, de certa forma, o seu fracasso: “Eu acabei vivendo uma vida que não era verdade. A coisa mais trágica é que você começa a acreditar na sua própria visão de mundo. Eu confesso que me tornei muito egocêntrico. Você acredita que é onipotente e é cercado por pessoas que falam o que você quer ouvir e não a verdade”.

Em 1985, três anos depois de ter caído em desgraça, o diretor de cinema Robert Zemeckis estava gravando o filme De Volta para o Futuro, no qual o jovem Marty McFly se alojava em uma geladeira transformada em uma máquina do tempo. Com receio de que as crianças fizessem o mesmo em casa, trocou o eletrodoméstico por um carro que representava, na sua percepção o sonho de consumo de qualquer um no futuro: Um DMC-12. Em carta ao diretor do filme, Jon DeLorean agradeceu:  Obrigado por manter meu sonho vivo!

Marcelo Nakagawa é Professor de Inovação e Empreendedorismo do Insper e tem um DMC-12. Em miniatura, mas tem.