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O Acre quer mostrar que não é o fim do Brasil, mas o começo

27 de julho de 2015

Governo, Sebrae e IFAC lideram esforços para estimular o ecossistema empreendedor

Marcelo Pimenta é jornalista e professor de inovação da ESPM. Saiba mais em www.faceboook.com/menta90

Foi a paixão por Machu Picchu e a curiosidade de conhecer sua namorada do Orkut que levaram Thiago Cabral a sair de Santa Catarina para visitar Rio Branco, no Acre. O ano era 2009. Com uma bagagem acadêmica construída no sul e com vontade de mudar de vida, ele encontrou solo fértil para encarar novos desafios, descobrir novas áreas de negócios, talvez  comércio exterior. E decidiu fincar raízes: a namorada virou esposa e ele tem um menino acreano de dois anos. Esse ano, a família aumentou,  Thiago agora cuida também de uma startup de cinco meses. “Sempre tive um sonho de fazer um negócio diferente, de fazer algo apaixonante. Foram muitas tentativas, estudos e também muitos fracassos, com muito aprendizado” conta ele, que resolveu se juntar aos programadores Petros Barreto e o Yuri Royer, para levar adiante o Busca Peças, um serviço online que aproxima compradores das lojas de auto-peças, que surgiu durante o Startup Weekend Rio Branco, ano passado. “Eu mesmo tive que rodar durante um dia inteiro, mais de 10 auto-peças para achar a lanterna do meu carro. Hoje temos em nossos cadastros mais de 85 lojas no estado do Acre, mais de 48 oficinas mecânicas e estamos em crescimento constante de vendas”. Já faturando, ele conta que hoje estuda a forma de expansão do negócio, ou por meio de franquias, ou por meio de representantes e está ajustando o modelo de negócio para que funcione em outras cidades.

Fred Tavares é de Campina, na Paraíba. Mas estava em Curitiba quando foi convidado  para dar aulas em Rio Branco, há 10 anos. Professor do ensino médio, percebeu a dificuldade de ter a atenção dos alunos que ficavam a aula toda tentando usar o celular. Foi daí que ele teve a ideia de fazer do limão uma limonada, pensou numa forma de utilizar a tecnologia para incentivar os alunos a estudar os conteúdos do ENEM. Assim surgiu o Katsu, aplicativo para reforço escolar.  “Estudei e preparei os aplicativos como apoio pedagógico” diz ele, que organizou quase mil exercícios em 15 aplicativos, que já somam mais de 470 mil downloads. Esse resultado gerou demanda para desenvolver sites e aplicativos para outros clientes,. As oportunidades viraram negócios e Tavares decidiu deixar a sala de aula para se dedicar ao novo trabalho.  “Este é o último mês que trabalho no colégio. Agora pretendo me dedicar apenas a minha startup, procurar investidores e negociar a implantação do aplicativo direto com as escolas ”, conta ele.

Alunos usam em sala de aula os aplicativos que já somam mais de 470 mil downloads

Para incentivar que negócios como o do Fred e do Thiago cresçam – e que outros sejam criados no Acre -  o Sebrae e a Secretaria de Ciência e Tecnologia lançaram, conjuntamente, um edital que vai selecionar as dezesseis melhores startups do Estado, premiando com mentoria e 20 mil reais em dinheiro. As inscrições podem ser feitas aqui. “Nossa visão é que esse investimento feito em pessoas físicas vai retornar como benefício para a economia do estado” defende a Secretária de Ciência e Tecnologia, Renata Souza.  A motivação é a “visão de ampliar o Acre para além do conceito de florestania (cidadania com qualidade de vida na floresta) e empreender o estado com foco no desenvolvimento e industrialização, em um modelo no qual economia e índices sociais caminhem de mãos dadas”.  Renata respondeu minhas perguntas num e-mail bem detalhado, citando várias ações que está desenvolvendo para incentivar o empreendedorismo, além das startups e do investimento em bambu (já citado aqui).   “Meu legado é a desmistificação de que o estado do Acre é o fim do Brasil, ele é, sim, o começo”, diz ela, entusiasmada.

Chama a atenção o ritmo com que as ações de fomento a inovação e ao empreendedorismo estão acontecendo no Estado.  Na semana passada (dia 23/07) aconteceu o Workshop: Parque Tecnológico – Uma realidade para o Acre, com o objetivo de definir as ações para  tirar do papel o protocolo já assinado que trata da criação de Habitats da Inovação – com a implantação de incubadoras de empresas, proteção da produção intelectual gerada no Estado e apoio à criação dos Centros Vocacionais Tecnológicos, para capacitação da comunidade.

Workshop para criação do Parque Tecnológico do Acre reuniu todo ecossistema de inovação

Começou no sábado, dia 25/07,  a Expoacre – Feira de Entretenimento e Negócios do Acre. O Sebrae está também presente nesse evento que reúne muito da economia criativa: artes, economia solidária, gastronomia e tecnologia.  “O Sebrae e o governo do Acre investem na economia criativa pois essa é a vocação desse estado” acredita Alex Lima, coordenador de projetos no Sebrae-AC.  E ele conta que esse trabalho já foi iniciado há alguns anos – e por isso começa a mostrar seus primeiros frutos. “Trabalhamos com o conceito de Economia Criativa muito antes da palavra existir ou entrar na moda. A Rede Acreana de Cultura iniciou em 2005 um processo de associação institucional (10 instituições que trabalhavam ações em economia da cultura). Esta Rede auxiliou na ampliação das ações e na viabilização de recursos do estado, além disso, muito antes do Ministério da Cultura falar em SNIIC (Informações e Indicadores Culturais), os gestores do Acre rodavam mostrando o Cadastro Cultural feito no estado em 2008: mapeamento de todos os saberes e fazeres culturais e seu posicionamento no PIB”.

Ele acredita que o edital de apoio de startups será um impulso no projeto. “Minha perspectiva é ter nos próximos dois ou três anos o nome ACRE como pauta do cenário nacional, desta vez com Startups e Economia Digital. Já temos algumas empresas iniciando este processo, por conta disso conseguimos novos recursos para trabalhar ações de gestão e mercado nos próximos três anos. Além disso, um grande gol foi marcado recentemente, que é a ampliação e fortalecimento de uma rede Amazônica de projetos para Startups dentro do SEBRAE, apoiada em primeira mão pelo SEBRAE Nacional e que visa colocar as empresas e produtos da Amazônia em um contexto internacional”.

Visitantes do stand do Sebrae na ExpoAcre se divertem em ação que une tecnologia e interação social

O Instituto Federal do Acre (IFAC), junto com a Universidade Federal do Acre (UFAC), vem buscando completar esse tripé: poder público, academia e mercado. É na UAFC que acontece em 21 e 22 de outubro a Expociência, exposição de projetos de ciência, tecnologia e inovação que faz parte da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia.  E o Instituto Federal do Acre se prepara para receber em dezembro quatro mil jovens estudantes pesquisadores no X Connepi, Congresso que tem como foco a pesquisa aplicada e a inovação tecnológica. Uma das atividades preparatórias ao evento é o programa IFAC Empreendedor, que vai certificar gratuitamente servidores e estudantes em uma metodologia que ensina como transformar pesquisa aplicada em negócios.

“O Acre certamente é o lugar das oportunidades. A disseminação de uma cultura empreendedora é imprescindível. O empreendedorismo proporciona um elevado grau de realização pessoal. As pessoas são recompensadas pelo prazer que encontram no trabalho” acredita Rosana Santos, reitora do IFAC e uma das idealizadoras do projeto. Ela é agrônoma, nascida e graduada em Rio Branco, e escolheu São Paulo para fazer sua especialização, mestrado e doutorado. “Fiquei fora do Acre sete anos, mas decidi voltar para poder partilhar o que tive a oportunidade de receber, nunca perdi de vista minhas origens, sempre trabalhei com pesquisas aplicadas com enfoque social”. E acredita no poder transformador do empreendedorismo. “Ser empreendedor é criar ambientes mentais criativos, transformando sonhos em riqueza. Buscar soluções passa a ser o grande desafio à mente inquieta, que tem como maior recompensa o reconhecimento de seu esforço. O IFAC se estabelece no estado fortalecendo no nosso aluno o pensamento empreendedor”.

E assim, longe das capitais e dos holofotes, o Acre vem mostrando como é possível estimular um ecossistema de inovação. Com vontade, iniciativa e ações concretas, fortalecendo a vocação criativa de uma região. Aliando pesquisa, tecnologia e sustentabilidade para gerar riqueza e desenvolvimento econômico.