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Novas fronteiras da gestão: Mindfulness cresce (não só) entre empreendedores

7 de julho de 2017

Quando os iPhones, iPads, MacBooks e outras criações de Steve Jobs se juntarem ao Apple I, Macintosh, iMac nos museus da tecnologia ao redor do mundo, Steve Jobs ainda continuará atual e visionário. E isto ocorrerá porque o seu maior legado não foram suas criações ao lado do seu xará Wozniak, mas a sua forma não só de compreender, mas de dominar a natureza humana, em especial, a sua.

Em um dos depoimentos para a sua biografia escrita por Walter Isaacson, Jobs explica que “se você apenas sentar e observar, verá quão inquieta é a sua mente. Se tentar acalmá-la, isto só ficará pior. Mas se ao longo do tempo, conseguir acalmá-la, quando conseguir, haverá então espaço para ouvir coisas muito sutis. É quando sua intuição começa a florescer e você começa a ver coisas de forma mais clara que estejam no presente”.

Esta capacidade, que muitos julgam extraordinária no co-fundador da Apple, na verdade, o próprio Jobs atribuía às práticas de meditação que realizava desde os 19 anos quando visitou a Índia pela primeira vez.

Mas Steve Jobs praticava a meditação do jeito tradicional, que até hoje enfrenta diversos preconceitos. Ia a mosteiros, tinha um mestre zen budista e lia, relia e seguia a autobiografia do mestre iogue Yogananda, a ponto de presentear com este livro os que participaram do seu próprio funeral. Marc Benioff, fundador da Salesforce, que foi à missa de Jobs (e ganhou a autobiografia), sabia que, mais que tudo, aquilo era o verdadeiro legado que Jobs gostaria que fosse passado para a frente.

E Benioff adotou o meditação como um dos pilares da sua vida pessoal e também executiva a ponto de incluir salas de meditação em todos os andares da nova sede da sua badalada empresa em San Francisco, Califórnia, e passou a defender o papel do Mindfulness, um termo mais moderno que integra práticas de meditação, compaixão e reflexão, e que direcionam seus praticantes ao estado de atenção plena explicado por Steve Jobs.

O professor Jon Kabat-Zinn, um dos pioneiros desta prática nesta versão mais “ocidentalizada”, explica o “Mindfulness é a consciência que surge quando se presta atenção, propositalmente, no momento atual, sem nenhum julgamento, como se a sua vida dependesse disso porque é a atenção que nos permite direcionar nossas vidas em uma direção ou outra e – conscientemente – saber o que está acontecendo, ou o que não sabemos, e encontrar formas para termos uma relação mais inteligente com as coisas que realmente estão impactando nossas vidas.” Além de Benioff, Richard Branson (Virgin), Sergey Brin (Google), Jack Dorsey (Twitter, Square), Jeff Weiner (Linkedin) e vários outros empreendedores passaram a não só praticar técnicas de Mindfulness como também a incentivá-las em suas empresas. O Google foi além e transformou uma atividade interna em uma startup (Search Inside Yourself) só para disseminar o Mindfulness para outras grandes empresas.

Em um momento em que tantas pessoas estão tão angustiadas por tanto de tudo, o simples fato de parar, mesmo que por alguns minutos por dia, para meditar ou apenas respirar profundamente, tem sido visto com muita boa vontade por um número crescente de empreendedores e também por executivos de organizações de todos os portes. E esta prática é defendida em diversos estudos compilados pela professora e pesquisadora da Universidade de Stanford, Emma Seppala, que explica que CEOs de organizações de qualquer tamanho deveriam meditar pois isto fortalece a resiliência, desenvolve a inteligência emocional, aumenta a criatividade, melhora os relacionamentos e ajuda na concentração e determinação do foco dos seus esforços.

Outras organizações já entenderam que o Mindfulness não contribuiu apenas para o desenvolvimento da alta direção, mas da empresa como um todo. O grupo de seguros Aetna, um dos líderes mundiais em seu segmento, por exemplo, estima que já economizou mais de US$ 2 mil por colaborador em plano de saúde e percebeu um aumento de produtividade individual de mais de US$ 3 mil desde que começou a implementar programas de Mindfulness.

O ponto mais alto do Mindfulness nas organizações se deu em 2016, quando foi o tema que contrapôs a discussão da Quarta Revolução Industrial no Fórum Econômico Mundial. Quando todos estavam maravilhados (ou preocupados) com as novas disrupções tecnológicas, alguém intuía que apenas as pessoas com consciência plena podem dar sentido as suas vidas. Não é elementar, meu caro Watson?

Marcelo Nakagawa é Professor de Inovação e Empreendedorismo do Insper