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Mais uma vez: rosa não é cor de menina e azul não é cor de menino

6 de janeiro de 2017

“Papai, uma coisa que eu percebi nas propagandas é que as coisas de menina são rosa e as coisas de menino são azuis…” – comenta minha filha Helen, de 7 anos, enquanto olha, despretensiosamente, para a televisão. “E você acha que existe cor de menino e cor de menina?” – pergunto, também sem muito interesse para não influenciar na resposta. “Acho que não…” – Helen responde. “Menina pode usar azul?” – pergunto. “Sim…” – responde rápido.  “E menino, pode usar rosa?” – continuo o nosso bate-papo.   “Sim.” – Helen responde tranquilamente. “Todos podem gostar da cor que quiser…” – complementa, voltando a prestar atenção na TV.

Depois que me tornei pai de duas filhas, a questão do empoderamento feminino se tornou muito mais importante e presente na minha vida. Assim, choca como as meninas ainda são tratadas pelas empresas que vendem o mundo “cor-de-rosa” para as pequenas que antigamente queriam Barbies e agora estão viciadas em Shopkins. E pelos pais que aceitam isto e alguns (muitos) que até incentivam, mesmo que inconscientemente, o estilo de vida consumista (e fútil) de Barbie (e agora Shopkins).

Por isso, a comparação das capas das revistas Girl´s Life e Boy´s Life de setembro do ano passado, mais uma vez, esquentou a discussão sobre como educamos meninos e meninas. Na revista dos meninos, a chamada: “Explore seu futuro. Astronauta, artista, bombeiro, chef? Veja aqui como ser o que quiser ser”. E fotos de satélite, avião, computador, microscópio, caminhões, chapéu de bombeiro para ilustrar a chamada.

E os atrativos da capa da revista das garotas? A atriz e cantora de séries da Disney, Olivia Holt, também muito conhecida por fazer propaganda dos brinquedos de “meninas” como Bratz e Littlest Pet Shop (pais de garotas sabem quem são) e chamadas como: A moda outono que irá amar. Acorde bonita. O cabelo dos seus sonhos. Uma lista de coisas para as pessoas amarem o seu jeans.

Se cada uma das capas forem mostradas individualmente e separadamente para diferentes públicos, poucos se incomodarão pois o “mundo é assim”. Há coisas de “meninos” e de “meninas”… O choque vem quando as capas são colocadas lado a lado e percebemos que a diferença vai muito além dos brinquedos (carrinhos x bonecas), brincadeiras (que sujam x que não sujam), direitos e deveres em casa (ficar jogando videogame x ajudar na limpeza, não tomar banho x banho + lavar cabelo + secar + pentear) ou cores (azul x rosa). O choque mais incomodo é sobre o futuro das meninas ou sobre o presente das mulheres que vemos atualmente: submissão, violência, funções domésticas, diferença de salários, posições de liderança nas empresas, presença reduzida em áreas que produzem ou utilizam satélites, aviões, computadores, microscópios, caminhões, chapéu de bombeiro (lembra-se da capa da Boy´s Life?), entre tantas frentes de batalhas das iniciativas de empoderamento feminino que tentam agora igualar séculos de princesas indefesas e ingênuas sendo salvas por príncipes encantados.

Mas este empoderamento não precisa ser feito apenas por negócios inclusivos como a Impulso Beta, que faz isto em empresas, Mulheres na Computação ou Rede Mulher Empreendedora. Muitas organizações e empreendedores já perceberam a demanda de pais como eu e estão criando negócios que também empoderam meninas e as libertam deste viciante mundo pink.

Mas as oportunidades só estão no início para os que acreditam que é preciso parar de generalizar o mundo em vida de “menino” ou de “menina” e começar a preparar pessoas melhores para um mundo melhor, independente se tudo será azul ou rosa na vida delas.

Enquanto os meus pensamentos estão no futuro da minha filha, ela desliga a televisão e vem me perguntar sobre o novo filme de Star Wars. Falo que é sobre uma moça com nome difícil, Jyn Erso, que lidera um movimento contra o Darth Vader. Helen fica curiosa e pergunta quando iremos assistir…

“Que a força esteja com você, filha” – penso enquanto respondo que iremos ver Rogue One semana que vem…

Marcelo Nakagawa é pai da Helen e da Stella e também Professor de Empreendedorismo e Inovação do Insper, Vanzolini, FIA, Instituto Butantan.