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Hype Economy: A insustentável superficialidade da fumaça colorida

15 de dezembro de 2017

O termo hype tem sido associado a coisas legais, novidades ou modernidades que deveríamos prestar atenção. No dicionário Merriam-Webster, o termo, como adjetivo, é definido como algo excelente ou bacana.  Esta referência ainda cita que esta definição é mais recente, sendo utilizada desde 1989. Hype ainda é algo que é promovido de forma extravagante ou artificial para ganhar notoriedade. Mas curiosamente, a definição principal, utilizada desde 1931, segundo o Merriam-Webster, está relacionada com ilusão, engano ou ainda fingimento, simulação.

Neste contexto, hype talvez seja um termo ideal que realmente representa diversos temas, negócios, eventos, treinamentos, especialistas e novas fontes de conhecimento, que, de repente se tornaram… hype, criando uma economia própria.

Hype como algo importante ou legal deve sempre ser estudado, analisado e, se for útil, planejado, implementado e avaliado. A Quarta Revolução Industrial apresenta uma enxurrada de novas tecnologias que estão inquietando muitos C-Levels das empresas. Toda semana aparece um cavaleiro do apocalipse amaldiçoando a sua empresa que ainda não iniciou sua transformação digital. Se não bastasse ter que pensar no futuro disruptivo do seu negócio com base em big data, internet das coisas, automação ou inteligência artificial, ainda precisa fazê-lo com o custo e velocidade de uma startup e com a perspectiva do design thinking na experiência do usuário, tudo isso, com analytics em todas as frentes. Dos fabricantes de cimento e trading de grãos às startups unicórnios mais valorizadas ao redor do mundo, quem não precisa considerar estas novas regras de negócio?

É aqui que entra o hype promovido de forma extravagante ou mesmo, maliciosamente, artificial. Diante das drásticas mudanças de comunicação e comportamento das pessoas e empresas e velocidade e teor das destas alterações, boa parte das empresas precisa inovar. Mas o “analfabetismo” digital de muitos executivos os tornam vulneráveis a vendedores de soluções milagrosas. Isto já havia acontecido no passado com soluções de Knowledge Management (KM) e depois Business Intelligence (BI), mas agora os desafios são mais numerosos, complexos e exponenciais. Uma decisão errada de plataforma de inbound marketing pode sangrar seriamente o caixa de muitos negócios. Some-se a isto o design centrado no usuário, a jornada do consumidor, a Geração Y e a valorização do propósito de vida de cada colaborador. A roupa nova do rei é sempre o hype da semana até que alguém mais lúcido aparecer e questionar: O conceito de Retorno sobre o Investimento (ROI) também (ainda) é algo hype?

Por isso, antes de embarcar em qualquer hype, estude para não ser traído pelo desejo de também ser isto de forma superficial e insustentável. O número de “especialistas” em temas hype disparou na última década. Dizem conhecer profundamente bitcoin, big data, design thinking, cloud, mas quando se entra em questões mais profundas, a nuvem se torna fumaça colorida de fogos de artificio. Assim, antes de entrar em um embate com sua rede de contatos a respeito do valor do bitcoin, estude profundamente blockchain e a evolução do seu uso. Antes de alardear os benefícios do Big Data, analise a qualidade das bases de dados da sua empresa e tire o pó dos seus livros de estatística. Se possível, pesquise como Sam Walton, fundador do Walmart já acreditava e aplicava estes conceitos ainda na década de 1970. E antes de colar post-its coloridos e dizer que isto é a última tendência em Design Thinking, apaixone-se pela antropologia e, especial a etnografia. Neste campo, deleite-se com sua aplicação ainda em 1870, quando Jacob Davis criou a calça jeans considerando a experiência de uso pelos mineiros de ouro na Califórnia para depois patenteá-la junto com Levi Strauss.

A história da Levi´s ainda é intrigante, pois é a própria metáfora de qualquer onda hype. Muito mais pessoas perderam dinheiro no hype da Grande Corrida ao Ouro no Velho Oeste Americano no Século XIX. Quem ganhou foram os vendedores de ferramentas como calças jeans e picaretas.

Agora, na corrida ao ouro digital do Século XXI, é preciso tomar cuidado justamente com os… picaretas que tentam vender fumaça colorida a preço de ouro.

Marcelo Nakagawa é Professor de Inovação e Empreendedorismo do Insper.