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Guia canadense mostra como chegou, de fato, a vez dos negócios de produtos naturais

28 de janeiro de 2019

 

Por Ivan Bornes *

O Canadá é um país conhecido por seu enorme tamanho (é o segundo maior do mundo), por ter dois idiomas oficiais (inglês e francês) e pela excelente qualidade de sua educação. Também apresenta indicadores de qualidade de vida e cidadania de dar inveja: na pesquisa divulgada recentemente pelo US News & World Report, que faz um ranking dos 80 melhores países do mundo, o Canadá ficou em terceiro lugar em 2019, perdendo apenas para a Suíça e o Japão.

Estou fazendo essa apresentação para destacar devidamente o impacto nacional causado pela atualização, em meados de 2018, do conceituado Guia de Alimentação do Canadá (Canada’s Food Guide, acesse o PDF aqui), o que não é pouca coisa se tratando de um país desta qualidade.

Era a primeira revisão em 10 anos deste que é o manual de orientação e ensino sobre alimentos na educação pública, lembrando que o Canadá tem uma das melhores educações do mundo. O guia sempre foi e é referência para todos os refeitórios de escolas, empresas, restaurantes e residências, até mesmo para a indústria da alimentação e as redes de supermercados.

Cenouras sortidas. Foto: Amanda Perobelli/Estadão

O lançamento do guia atualizado rapidamente virou manchete também pela ousadia das mudanças que o governo fez, batendo de frente contra o lobby das grandes indústrias de carne, laticínios e cereais. Transformou a antiquada pirâmide de alimentos, removendo várias comidas antes consideradas fundamentais, como também indicou a importância da forma como os alimentos são consumidos, indicando mudanças de hábitos.

Eu, que trabalho com gastronomia e defendo valores de saudabilidade, fiquei emocionado ao ver o impacto positivo na mídia e na sociedade que este assunto está tendo, com o cuidado que o governo tem para influenciar de forma tão positiva a saúde pública. Tomara que o Canadá possa inspirar nossos governantes aqui no Brasil.

As novidades já estão presentes nas salas de aula, onde os alunos, em vez de olharem uma pirâmide com desenhos de comidas separados por grupos e cores, agora irão aprender sobre informações nutricionais, a entender o que significam os dados que aparecem nas etiquetas de ingredientes e, assim, a não serem vítimas do marketing industrial.

O guia anterior dava ênfase aos grupos de ingredientes e não diferenciava os alimentos industrializados dos naturais. Já o novo guia destaca a diferença entre o industrial e o natural. Então, o trigo deixa de ser vilão. Mas um cereal carregado de açúcar e aromatizantes, que antes era considerado saudável, agora ganha um sinal de alerta.

Imagem do guia de alimentação do Canadá. Foto: Reprodução

Outro ponto de mudança são as bebidas. No guia antigo, o leite e os sucos tinham um papel destacado. Já sabemos – até mesmo aqui no Brasil – que muitos dos sucos naturais estão entupidos de açúcar. E os leites e seus derivados, como achocolatados, também não são mais uma referência saudável. O novo guia destaca a importância da água pura. O objetivo explícito do governo canadense é combater a obesidade e o aparecimento de diabetes tipo 2, que são considerados uma epidemia.

As carnes ainda fazem parte do novo guia, é verdade, mas existe um apelo para que deixem de ser consumidas. É dado grande destaque para o consumo de proteínas vegetais (feijões, lentilhas, nozes, massas, sementes, soja). E, para desencorajar mais ainda o consumo de carnes, é feita uma relação entre o consumo de proteína animal com o impacto no ambiente, o uso de recursos naturais, os desperdícios e as emissões de poluentes da indústria do alimento em geral.

“As escolas estão orientadas a ajudar os alunos a desenvolver o aprendizado de cozinha, para as crianças serem cidadãos mais conscientes”

Agora vem uma parte muito bacana: há um enorme destaque para a forma e o tempo que passamos comendo. É recomendado comer mais demoradamente, buscando o prazer do paladar, colocando atenção aos sabores e desfrutando o momento com as pessoas que estão ao nosso redor. São citados estudos e pesquisas que comprovam, por exemplo, que as crianças de famílias que jantam juntas têm melhores notas na escola. Não faltam recomendações para deixar celular e controle remoto de lado na hora do jantar.

A minha parte favorita – pois é uma crença que sempre fez parte da filosofia do meu negócio, o Pastifício Primo – é o capítulo que trata sobre a importância de preparar mais alimentos em casa. O objetivo desta orientação é que as pessoas tenham maior controle sobre o uso de sal, açúcar, gordura e a qualidade dos ingredientes. As escolas estão orientadas a ajudar os alunos a desenvolver o aprendizado de cozinha, pensando em 15 anos à frente, para as crianças serem cidadãos mais conscientes do alimento que comem.

O que diz o pôster do guia:

Coma bem. Viva bem

Coma uma variedade de alimentos saudáveis a cada dia

Tenha muitos vegetais e frutas

Escolha grãos integrais

Coma proteínas

Escolha água para beber

Comer bem é mais do que as comidas que você come

Esteja atento a seus hábitos de comer

Cozinhe com mais frequência

Desfrute da comida

Coma acompanhado de outras pessoas

Leia os rótulos e a informação nutricional

Limite o consumo de comidas com muito sal, açúcar ou gordura saturada

Tenha cuidado com a publicidade de alimentos

 

* Ivan Bornes (ivan@pastificioprimo.com.br) é empreendedor e fundador da rede de rotisserias Pastifício Primo