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Eu só queria uma pizza

21 de janeiro de 2016

Eu só queria uma pizza.

Sábado passado, decidimos, eu e minha mulher, evitar a noite confusa de São Paulo. Não queríamos pensar em um restaurante para ir. Não queríamos chegar lá e encontrar filas. Queríamos ficar em casa, comer uma (boa) pizza e experimentar uma nova cerveja de Barcelona que compramos recentemente. Decisão tomada, peguei o carro e dirigi com ela até uma pequena e simpática pizzaria delivery do bairro.

Ela, a pizzaria, abriu as portas idealizada por um amigo de um amigo nosso com uma proposta interessante. Vender pizzas que fossem mais elaboradas – como a que se chama ‘alho negro’ e a que faz homenagem a uma das primeiras pizzarias da cidade e se chama ‘castelões’. Entra mês, sai mês, e a diferenciação de mercado não surtiu o efeito esperado – suspeito que as pessoas, os consumidores, pensaram: ‘Se é para comer uma pizza mais elaborada, isso tem de fazer parte do ritual de sair para comê-la em um restaurante, não em um domingo à noite enquanto espero o Fantástico começar.’

Uma pena.

Depois de alguns meses adiando o inevitável, o delivery foi vendido e quem o assumiu foram dois empreendedores que deveriam estar à frente de uma startup, criando o novo Facebook, a nova Netflix. Onde mais, afinal, você esperaria a sua pizza no balcão escutando Smiths? Hipsters que tinham algo a dizer: colocaram wi-fi, mantiveram os meus sabores preferidos no cardápio – castelões e alho negro – e popularizaram as pedidas com versões mais tradicionais das redondas.

Aparentemente não deu certo. Antes do último sábado, havia ido até a pizzaria no começo de dezembro e não os vi mais por lá. Havia dois novos empresários. Calculei o óbvio e posso estar errado: eles, os hipsters, também ‘passaram o ponto’. Não liguei para o assunto, levei a pizza para casa e, como todos nós, fui me deprimir em frente da televisão esperando o Fantástico começar, acabar e a inevitável segunda-feira chegar.

O que nos leva ao último sábado.

Cheguei no balcão e fiz a pedida certa: meia alho negro e meia castelões.

O rapaz, muito atencioso, anotou o pedido e sacramentou: fica pronta em dez minutos. Fomos, eu e minha mulher, esperar na porta da pizzaria, onde há algumas mesinhas em que você pode até se servir do seu pedido por lá mesmo se desejar. Dez minutos, quinze minutos, vinte minutos e nada da pizza. Ficamos preocupados quando ouvimos o rapaz do balcão gritar com o pizzaiolo: ‘Não,  o pesto (de alho negro) não vai na castelões. Vai na outra’. Mantivemos nossa fé, mas confesso que fiquei com uma pergunta na cabeça: eles não sabem produzir a pizza que está no cardápio?

Não sabiam. Mais vinte minutos de espera e nos entregam a pizza. Agradecem nossa compreensão. Mas não resistimos. Abrimos ali mesmo a caixa para verificar se algum milagre ocorrera e o pedido estava certo. Não estava. A alho negro, que leva pesto de alho negro e nozes, não tinha nem uma coisa nem outra. Tinha queijo e tomate-cereja (?!?!). O pesto, de manjericão, estava espalhado pela castelões, que trazia linguiça de javali praticamente crua.

Não poderíamos aceitar. Pedi para devolverem o dinheiro. Devolveram. Confesso. Fiquei com pena do rapaz no balcão, que tem tudo para ser o novo dono da pizzaria, completamente perdido diante de um simples pedido de pizza. ‘Ele não sabe fazer a pizza que está no cardápio’, minha mulher disparou depois no carro, de volta para casa.

‘É, não sabe’, respondi. E pensei: ‘Eu só queria uma pizza’.

Daniel Fernandes é editor do Estadão PME