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Empreendedores do bem: não façam mal a si mesmos!

5 de maio de 2017

Eu realmente acredito, defendo e, na medida do possível, pratico o lema da Artemísia Negócios Sociais: Entre ganhar dinheiro e mudar o mundo, fique com os dois! Há muitos anos, a entidade vem apoiando, de forma pioneira, um tipo de empreendedorismo que ganha força entre as pessoas atendem ao chamado de Mahatma Gandhi: Seja a mudança que você quer ver no mundo.

São pessoas que se incomodam com as desigualdades, preconceitos, ineficiências, malefícios ou outro efeito negativo para o mundo em que vivemos, reagem e criam negócios para resolver, ou pelo menos minimizar, o impacto desses problemas. Mas o resultado final, quase sempre, é um retumbante fracasso, pois esses empreendedores, involuntariamente, desenvolvem seus próprios males, que serão os causadores desse triste destino.

O primeiro mal é o da abdicação. Isso é identificado quando o idealismo inicial do(a) empreendedor(a) começa a ser questionado pelo(a) próprio(a) quando ele(a) se dá conta de que o conceito mais elementar de qualquer negócio não é o propósito pessoal ou a missão do negócio, mas fluxo líquido de caixa da empresa. É neste momento que descobrem que o Powerpoint era uma teoria utópica e o Excel é a mais dura realidade. E que a Pirâmide das Necessidades de Maslow funciona para pessoas físicas e… jurídicas, já que a necessidade mais básica é a fisiológica do fluxo líquido de caixa positivo para a empresa e… para o empreendedor. Sem isso, as outras necessidades não se caracterizam. E lembra daquela necessidade de mudar o mundo? Pois é, está lá no topo, no ponto mais alto da pirâmide. E isso só é descoberto depois, com uma felicidade que, paradoxalmente, gera um pouco de tristeza. Por que isso ocorre? A quase totalidade dos empreendedores do bem admira e muitos se inspiram no trabalho e negócios do economista Muhammad Yunus. Por este motivo, começam a empreender seguindo o seu lema: Ganhar dinheiro é uma felicidade. Mas fazer outras pessoas felizes é uma felicidade maior ainda. E invariavelmente, estes empreendedores conseguem fazer outras pessoas felizes e assim, também se sentem muito felizes… Até analisar o fluxo (negativo) de caixa da sua empresa naquele mês.

Nesse contexto, entre ganhar dinheiro e mudar o mundo, ganhar dinheiro vem na frente em função de uma inevitável questão de matemática (financeira). Não adianta inverter a Pirâmide de Maslow…  Ela cairá com o peso das contas da empresa e dos empreendedores. Idealismo não paga a conta da farmácia quando precisar comprar medicamentos para um simples resfriado. Tampouco aquela reportagem em que foi destaque ou prêmio de empreendedorismo que ganhou pagará seus débitos. Por isso, ganhe dinheiro e não se sinta mal por isso. Poderia até cobrar menos e impactar mais pessoas? Talvez sim. Mas quanto dessa visão não mina, criando armadilhas para você e o seu negócio? Neste momento, analise a visão de Yvon Chouinard, fundador da Patagonia, uma das empresas que, quase sempre, se posiciona entre as mais sustentáveis, admiradas e melhores para se trabalhar no mundo:  Negócios precisam de lucros para sobreviver. Mas quanto menos lucro tiver, menos terá para distribuir e menor será o número de empresas que acreditarão que tem uma missão que vale ser replicada.

O segundo mal é o do estrabismo estratégico, já que outra frustração dos empreendedores do bem é sobre o crescimento da sua empresa, ou em suas palavras, todo mundo gosta mas ninguém quer comprar ou como é difícil vender… Mais uma vez esse tipo de empreendedor sofre pois percebe que está fazendo o bem para as pessoas mas quase ninguém se importa com isso (pelo menos do ponto de vista comercial). É difícil aceitar ou mesmo até entender, mas os empreendedores do bem, quase sempre, resolvem um “não-problema” dos clientes. Há empreendedores que resolvem o problema da geração de renda para população mais pobre, problemas de preconceitos de gênero, idade, raça, destinação de lixo e resíduos, violência em determinada região, educação de crianças carentes, entre diversos problemas sérios do mundo. Se por um lado, são problemas “da sociedade”, por outro, não são de ninguém em específico. Desta forma, não espere que o cliente compre da sua empresa “apenas” porque você está ajudando o mundo a ser melhor. Os mais atentos já perceberam que precisam ter um olho no problema do mundo e outro na necessidade do cliente. E os mais visionários entendem este mal e já o superaram. Novamente, Yvon Chouinard é muito tranquilo e esclarecido a este respeito: Só 10% das pessoas compram pelas nossas atitudes. Os outros 90% compram porque gostam da cor, do estilo. Se você esperar que o cliente vá pedir para sua empresa ser mais sustentável, espere sentado.

O terceiro mal é o do ativismo depressivo agressivo. Não raro, o empreendedor do bem começa a subir o tom e ampliar o leque das suas críticas a respeito das causas em que acredita. Se defende os “pobres”, começa a atacar os “ricos”. Também podem começar a se isolar ou a interagir apenas com outros que pensam da mesma forma. Isso não apenas o(a) afasta de amigos e conhecidos mas, principalmente, de potenciais clientes e parceiros.

E se tudo isto não bastasse, ainda há o mais tóxico de todos os males que o empreendedor do bem pode criar para si próprio: recusar-se ou sentir-se incapacitado em ser gestor, executivo do seu negócio. É nesse momento que muitos desistem. Fazer o bem para os outros pode fazer muito mal a si próprio. E é justamente nesta situação que o apoio da Artemísia se torna ainda mais importante. Assim, entre a Artemísia, ganhar dinheiro e mudar o mundo, fique com os três!

Marcelo Nakagawa é Professor de Empreendedorismo do Insper e Diretor de Empreendedorismo da FIAP.

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