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Empreendedor de si mesmo: Da Brasilândia para Harvard

10 de fevereiro de 2017

A Disneylândia é uma terra de fantasia, mas a Brasilândia é a terra da realidade. Na terra de Walt Disney, seu sonho se realiza. Mas na terra do jovem Gilmar Cintra, seu sonho se torna estatística. Uma triste estatística.

Mas estatísticas tristes também podem contar belas histórias que merecem ser celebradas porque todos nós, queiramos ou não, somos Brasilândia.

Uma das coisas mais legais das mesas redondas é que a pessoa mais importante presente não fica na cabeceira, e neste caso, nem mesa havia. Mas lá estava eu na “mesa redonda” organizada pela Prefeitura de São Paulo no último Campus Party. Quase do meu lado, o secretário de Trabalho e Empreendedorismo da cidade, Eliseu Gabriel, entre outras autoridades municipais e mais sete jovens que estavam desenvolvendo projetos para melhorar a cidade de São Paulo. Um aplicativo de monitoramento de árvores, uma solução de gestão de atendimento jurídico para pessoas de baixa renda, uma plataforma de orientação de carreira para jovens e um rapaz magrinho com uma camiseta de Harvard que falava da sua solução de comunicação para pessoas que sofrem de paralisia.

Explico que trabalho no Insper e o jovem da camiseta, com o ar um pouco tímido, fala para os presentes: “Eu precisava de um dinheiro para comprar um kit Arduino… daí o professor Vinicius Licks, que é do Insper, não é?… tira 800 reais e me dá… acho que ele não sabe como isto mudou a minha vida…”

Quando termina o evento, vou lá pedir para tirar uma foto com o rapaz para enviar para o meu amigo e também para entender como ele conheceu o Licks. Meio sem jeito, Gilmar Cintra conta que nasceu e ainda mora na Brasilândia, um bairro da periferia da cidade de São Paulo. Explica que os jovens da região não sonham já que lidam uma com uma dura realidade desde que nascem. Mas ele se achava estranhamente diferente dos seus colegas. Quando criança era fanático pela série O Mundo de Beakman e sonhava em ser cientista. As pessoas que o conheciam riam do seu sonho. Estudar, virar cientista? Para alguém que vive na Brasilândia?

Com muito esforço, anos depois, Gilmar passou em ciência da computação em uma faculdade privada da Zona Norte de São Paulo. Não era o que queria, pois sempre sonhou em estudar na USP, mas pelo menos estava estudando. E aí sua mãe falece… Sua principal apoiadora não veria seu cientista da Brasilândia se formar…

Mas mesmo em algum outro lugar, ela continuou apoiando seu filho. Com era funcionária pública, Gilmar passou a receber uma pequena pensão que dava para custear a faculdade ou… para pagar um cursinho para tentar entrar na USP. O que uma mãe que acredita no filho aconselharia?

Gilmar foi fazer o cursinho e passou na USP, mas em meteorologia, uma das últimas opções que escolheu. Em vez de se abater, ficou feliz, pois pelo menos, tinha entrado em uma instituição que quase ninguém da sua região tinha sequer tentado prestar. Para ganhar uns trocados, se tornou monitor de experimentos científicos da universidade e logo depois, arranjou um emprego na AsterDomus, uma curiosa empresa que tem um planetário inflável itinerante. Com isso, conheceu várias cidades brasileiras e aprofundou seus conhecimentos em ciências. Enquanto isso tentava chegar mais próximo do seu sonho. Até que pouco tempo depois, conseguiu ser transferido para o tão aguardado curso de Ciência da Computação da Universidade de São Paulo.

Quando atingiu o seu sonho, colocou na cabeça que gostaria ir para Harvard. Como ainda precisa terminar a graduação, o mais próximo que conseguiu foi um emprego no escritório da universidade em São Paulo, onde trabalha atualmente.

Mas, pelo menos, já conseguiu ir até aos Estados Unidos. O pessoal do escritório brasileiro se mobilizou. Jason Dyett, o chefe do escritório brasileiro da época, pediu para que sua mãe hospedasse Gilmar lá e o jovem cientista sonhador da Brasilândia foi para Harvard, tocar o sapato da estátua de John Harvard, uma tradição dos alunos da universidade em busca de boa sorte.

Aquela conversa com conversa com o Gilmar estava sendo a melhor coisa que tinha me acontecido nos últimos meses diante de tantas, tantas notícias ruins do Brasil que recebemos todos os dias. Em meio a tanta corrupção, decapitações, desemprego, havia alguém na Brasilândia que mostrava que, apesar de tudo, continuava sonhando. Mas precisava ir embora em função de outro compromisso…. É uma pena que haja tão poucos que têm a coragem de empreender a si mesmos como o Gilmar. – pensei. É uma triste estatística em nossas brasilândias.

E Gilmar, agora falava com mais coragem do seu novo sonho: fazer doutorado no MIT.

Neste momento lembrei de que a Brasilândia e a Disneylândia coexistem em nós. “Todos os nossos sonhos podem se tornar realidade – se tivermos a coragem de persegui-los”. – dizia Walt Disney.

Marcelo Nakagawa é Professor de Inovação e Empreendedorismo do Insper

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