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Em muitos casos, a única pessoa que ganha com pesquisas acadêmicas é dono da loja de Xerox

9 de abril de 2018

Em 2011 quando recebeu o Prêmio Nobel de Química, Dan Shechtman iniciou seu discurso explicando quem em 8 de abril de 1982 ele estava sozinho na sala de microscopia eletrônica quando identificou um padrão que iniciou a área de pesquisa sobre os quasicristais, uma estrutura considerada impossível durante séculos e que tem aplicações em sistemas complexos de painéis solares aos rotineiros revestimentos antiaderente das panelas. E terminou seu mais importante pronunciamento até então defendendo que deveria, como cientista, promover a educação, o pensamento racional e a tolerância, encorajando e educando nossa juventude para que se tornem empreendedores tecnológicos. Só assim a ciência avança para a criação de um mundo melhor.

Neste momento, enquanto alguns desenvolvem pesquisas científicas publicando dissertações e teses em que a única pessoa que ganha com isso é do dono da loja de fotocópias, é importante refletir sobre a própria fundação da Xerox.

Como muitas histórias épicas de empreendedores, Chester Carlson começou a trabalhar muito cedo, aos 8 anos, para ajudar seus pais. No início do Século XX, ambos tinham contraído tuberculose, impossibilitando-os de trabalhar continuamente. Mas o que poderia ser algo muito ruim, isso marcou a vida de Carlson para sempre já que uma das formas que arranjou para ganhar dinheiro foi trabalhar na pequena gráfica da escola da cidade. Lá aprendeu técnicas de impressão, leu biografias de grandes líderes como Thomas Edison e aprendeu como a tecnologia pode impactar a vida das pessoas. “Trabalhar depois da escola foi uma necessidade que tive quando era criança” – explicou muito anos depois – “mas isto aumentou meu interesse em tecnologia e como isto torna possível o desenvolvimento da sociedade”.

Com muitas dificuldades financeiras, conseguiu se formar em física no Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech) em 1930, no início da Grande Depressão Econômica. Diz ter pedido emprego para mais de 80 empresas até ser aceito pela Bell Telephone Laboratories, onde passou a trabalhar como assistente de um advogado que escrevia patentes. O interesse pelo seu trabalho fez com que voltasse à faculdade, agora aos 30 anos, para cursar direito à noite na Escola de Direito de Nova Iorque. Com a necessidade de datilografar diversas cópias das patentes que elaborara e dos documentos na faculdade de direito e aproveitando seus conhecimentos científicos e tecnológicos, Carlson começou a pesquisar técnicas de replicação de documentos que iam além do mimeógrafo e do papel carbono ainda durante a faculdade.

Com os resultados da sua pesquisa, conseguiu depositar o primeiro pedido de patente em 1937 sobre uma técnica de reprodução de documentos utilizando princípios de luz e componentes químicos secos. Sua pesquisa sobre reprografia continuou a evoluir nos próximos anos, mas Carlson percebeu que, apesar de dominar a tecnologia, não conseguiria transformá-la em algo que pudesse ser útil para a sociedade. Com isto em mente, passou a celebrar parcerias para levar sua invenção ao mercado até conseguir fechar um contrato, tornando-se sócio da Haloid Company, uma empresa já estabelecida que comercializava soluções de reprografia. Para diferenciar a tecnologia desenvolvida por Carlson, a Haloid passou a chamar o processo de xerografia, integrando os termos gregos xeros (seco) com grafia (escrita).

Nos anos seguintes, a xerografia ou simplesmente xerox, que começou com um projeto de pesquisa do então aluno e pesquisador Chester Carlson, tornou-se referência da categoria do produto reprodução de documentos, incentivando a criação de inúmeros pequenos negócios como àqueles serviços prestados para mestrandos, doutorandos e outros pesquisadores.

“Você se torna vitorioso no momento em que começa a criar algo que tenha valor para as pessoas”. – explica Chester Carlson. Mas o valor da sua pesquisa não deveria ser apenas o que paga de reprografia.

Marcelo Nakagawa é Professor de Inovação e Empreendedorismo do Insper