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Blog do Empreendedor
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Desisti do Brasil… E eu vou falar o quê?

5 de outubro de 2018

Eu já sabia que ele tinha se mudado para os Estados Unidos. Tinha me avisado que estava criando uma empresa lá. Ele fora meu aluno e tinha criado uma empresa muito bem-sucedida no Brasil. Por acaso, duas semanas atrás, eu tinha conversado com um funcionário de uma empresa que revendia seus produtos: Esse produto é muito bom! Vende muito aqui! – disse o rapaz.

Fiquei muito feliz com este depoimento espontâneo.

Então, quando ele me enviou um WhatsApp dizendo que estava no Brasil e queria tomar um café comigo, arranjei um espaço na agenda e o encontrei no mesmo dia.

Gostaria de receber algumas dicas suas sobre como empreender nos Estados Unidos? – disse ele.

Como assim? – perguntei. Sou que aprendo com você! Eu só organizo e repasso para outras pessoas o que aprendo com empreendedores como você… – continuei.

Não, é que estou começando do zero lá e gostaria de receber algumas dicas. – explica.

Depois de ter discutido alguns aspectos do seu mercado nos Estados Unidos, conversado sobre algumas startups que estão fazendo muito sucesso e ficado de repassar alguns contatos na sua área, noto que não aparentava estar tão feliz indo para os Estados Unidos, o maior mercado do mundo.

E ele explica que decidiu repassar sua empresa no Brasil após inúmeras decepções, humilhações e insegurança física no país. E ele começou a listar…

Certa vez, enviei uma carga para o Rio Grande do Sul, e como é obrigatório arcar com o imposto antes, paguei cerca de 10 mil reais. Mas chegando lá, a empresa não quis receber a carga porque o pedido ainda não havia sido processado pelo sistema deles. O caminhão teve que voltar. Mas depois, na segunda tentativa, tive que pagar um novo imposto antecipado porque a data havia sido alterada. Pedi o estorno dos 10 mil reais iniciais, mas dois anos depois, nada foi depositado ainda.

Em outro caso, o comprador de um grande cliente me chamou para uma reunião às sete da manhã. Os funcionários nem haviam chegado, e ele, muito agressivamente, disse que precisava bater a meta de redução de custos e já tinha tirado o nosso produto do mercado e só recolocaria se reduzíssemos drasticamente nossos preços.

Essa mesma empresa (que agora diz que ajuda empreendedores) pagava só uma parte das vendas que tínhamos feito. Se vendêssemos um milhão de reais, ela pagava 700 ou 800 mil. Poderíamos processá-la e aí, além de ter a chance de não receber os 200 ou 300 mil devidos, ainda perderíamos mais de um milhão em vendas.

E isso acontece toda a semana… Certa vez, enviei uma pequena carga de uns mil reais para uma distribuidora. No dia e horário combinado, havia várias outras entregas atrasadas e o motorista teve que esperar três dias e dormir na cidade. Gastei quase quatro mil reais para, depois, tentar receber mil reais.

E se não bastasse o governo, os clientes, ainda tem os funcionários. Um antigo funcionário desviou mais de 300 mil reais. Ele descobriu a senha do banco e fazia pequenas transferências para um laranja, mas forjava extratos e controles. Como você nunca sabe quanto o cliente está, de fato, depositando, quanto e quais impostos estão sendo pagos, ou pior, sendo pagos novamente, o controle financeiro da empresa é sempre uma grande dor de cabeça. Por isso, tínhamos contratado o melhor profissionais entre os mais de 40 que entrevistamos. Mas um dia, o gerente do banco ligou dizendo que a conta estava negativa. Como assim negativa, se tínhamos dinheiro lá. Quando descobri, liguei para o advogado que alertou que, em nenhum momento, era para acusar o funcionário. Em casos assim, além de, talvez, não conseguir reaver o dinheiro, ainda seria processado pelo funcionário e teria que indenizá-lo. Naquela noite, o funcionário entrou no escritório, limpou sua mesa e todos os dados do seu computador e nunca mais apareceu para trabalhar… Ele sabe tudo da minha vida. Eu tenho família, filhos pequenos…

Mas e nos Estados Unidos? – pergunto.

Lá a palavra vale. O que combinado é cumprido. Se digo que falei com tal pessoa no dia anterior e vim para fazer uma entrega, eles acreditam. Todos os pagamentos são eletrônicos e o que está na nota fiscal é pago integralmente. Se há algum problema no valor, é possível enviar uma nota fiscal com valor negativo e o ajuste é feito instantemente.  E se faz alguma coisa errada, você é preso. A lei funciona…

Despeço-me dele, combinando de visitá-lo logo!

Marcelo Nakagawa é Professor de Empreendedorismo e Inovação