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Blog do Empreendedor
O cotidiano de empreendedores como você
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5 dicas para mulheres empreendedoras

26 de novembro de 2018

Com apenas 28 anos, Raffaella Marchese é economista e fundou a CódigoKid, rede de escolas de robótica e programação em 2017. De lá para cá, a empresa conta com 30 unidades abertas pelo País e 50 em processo de inauguração. Para 2019, os planos são ainda mais promissores, e a rede estima faturar mais de R$ 20 milhões. Raffaella também dedica parte de seu tempo a estudar e estimular o empreendedorismo feminino, e assim ela me passou cinco dicas para mulheres que querem começar a empreender.

1. Organize-se: Para empreender de forma mais tranquila, será necessário organizar algumas áreas. A vida de uma empreendedora costuma ser cheia. As atividades costumam não ter fim. Você precisa ser sua própria líder e saber onde quer chegar. As pessoas costumam te chamar e querer respostas suas a todo instante. Se você cair nesse ciclo vicioso, perceberá que em pouco tempo pessoas estarão fazendo sua agenda, você não terá objetivos claros, os quais percorrer e em vez disso, estará sempre “apagando o fogo” das situações emergentes que trazem para você. Suas economias não terão destino pré-determinado para investimento e custo da operação e o estresse e frustração baterão em sua porta. Antes que eles cheguem, adote práticas claras de organização. Tenha conhecimento e controle muito bem suas finanças, determine os objetivos e metas da empresa sempre pensando no custo da sua operação, bem como nos seus investimentos. E tenha os pés no chão para qualquer nova aquisição ou melhoria de sua empresa. Tenha uma agenda e planeje com antecedência todas as atividades, dividindo por prioridades e prazos. Não caia na armadilha de deixar o dia acontecer. Algumas atividades poderão não ser cumpridas ao longo do dia, você terá clareza e reprogramará para os próximos dias. Lembre-se de dar atenção para as atividades que menos gosta e fazer no início do dia, assim evitamos nossa inimiga “procrastinação”.

2. Estude o mercado, sinta-se segura e aja: Mulheres costumam ser mais cautelosas que os homens, procuram por terrenos mais seguros e não se aventuram tanto. Isso é uma característica que te ajudará a evitar enfiar os pés pelas mãos em diversas situações, pois permite-se pensar antes de agir, o que faz com que suas ações sejam mais assertivas e certeiras. Por isso, não importa em que área deseja atuar, é imprescindível que estude o mercado, busque informações, converse com pessoas da área, alie-se com pessoas de interesse em comum, e imagine mais de um plano para execução, podendo sempre ter um plano B, caso o plano inicial não corra perfeitamente bem. Porém, essa característica também pode ser uma armadilha. Não passe tempo demais imaginando cenários diversos e inexistentes, o perfeccionismo é um grande inimigo nesse momento. Quando idealizamos um projeto e desejamos o encaixe perfeito para sua realização, ele nunca sairá do papel. Nós, mulheres, queremos provar o tempo todo nossa capacidade profissional e buscamos resultados perfeitos que, num mundo de tantas adversidades, não existe. Melhor do que um trabalho perfeito é um trabalho feito. Sinta-se segura com a bagagem que já tem, tenha coragem e inicie, o aperfeiçoamento virá com a prática.

Rafaella Marchese, empreendedora

3. Autoconhecimento e Equipe: Orgulho e humildade podem ser antídoto e veneno dependendo de suas dosagens. Os empreendimentos costumam possuir “a cara” de seu empreendedor. Então, autoconhecimento só trará riquezas para seu negócio e dia a dia. Saiba dos seus pontos fortes e explore-os para melhores resultados e não tenha medo de valorizar-se sabendo que você os possui. Pela opressão que sofremos é comum nunca nos sentirmos boas o bastante para determinada atividade. Pare com isso! Reconheça seu valor e os coloque para jogo. Mas, jamais ignore seus pontos fracos. Identifique cada um deles e monte sua equipe de forma que supra as suas faltas. Claro que há suas exceções, mas mulheres são menos orgulhosas e administram bem a humildade, o que é importantíssimo no momento de montar sua equipe. Procure se aprimorar em cada área, mas não perca tempo demais, nem se force em algo que não tenha muito seu perfil, aposte em alguém forte naqueles aspectos que lhe falta e juntos conquistarão novos patamares.

4. Seja uma solucionadora: Isso lhe exigirá bastante paciência, mas garanto que aumentará significativamente o valor do seu trabalho. Quando oferecemos um produto ou serviço, nosso cliente busca em nós a solução para algo, não importa que área seja. É extremamente motivador imaginar que pode-se ganhar dinheiro ajudando pessoas e acredite, é isso que você faz. E já que alguém procura a solução em você, não deixe jamais essa pessoa ir embora sem ter seu problema “resolvido”. E vem cá, isso nós, mulheres, temos de sobra, empatia e vontade de abraçar a causa do próximo, muitas vezes, sofrendo por problemas que não são nem nossos. Se você tem uma equipe, saiba, essas pessoas confiam e dependem de você, seja uma solucionadora e as motive a serem suas solucionadoras de problemas também. Relacionamento com pessoas costuma ser uma das áreas de maior dificuldade dentro de qualquer empresa, porém esse é um dos grandes segredos para o seu sucesso. Como mulheres, somos muito mais sensitivas e guiadas por nossas emoções, quando usamos esse nosso lado humano a nosso favor, o negócio adquire um novo brilho.

5. Trabalhe: e muito! Nada resiste ao trabalho, mas nada também fica de pé sem ele. A dedicação deve ser diária. Outra característica tão comum entre nós é o esforço e dedicação. Nossos lares costumam depender totalmente dessa nossa energia incansável. Que bom poder programar isso agora no mundo corporativo. Um novo projeto/ negócio/ empreendimento é como um filho. Deseja atenção, cuidado, carinho, empenho, disposição e costuma não te dar férias! Rs Não adianta achar que basta ter uma grande ideia e que as coisas acontecerão naturalmente, dependerá de muita ação e reinvenção sua nesse processo. Equilibre seus momentos de trabalho e lazer, claro, não prejudique sua vida pessoal, mas saiba que grande parte da sua vida será dedicada e empenhada nesse empreendimento. Assim, plante, regue e espere florescer. Somos especialistas em boas colheitas!

Saiba mais:
http://www.codigokid.com.br/

Ivan Primo Bornes (ivan@pastificioprimo.com.br) – empreendedor e fundador da rede de rotisserias Pastificio Primo (www.pastificioprimo.com.br).

 

Depois de quebrar e se reerguer, boliviano se firma com a Comedoria Gonzales

5 de novembro de 2018

Checho Gonzales dá uma dica para quem quer empreender: 'Tente ser original'. Foto de Lucas Terribili

Esta é a história de Checho Gonzales, boliviano chegado ao Brasil aos 7 anos, cidadão do mundo, chef revelação em 2001 e 2002 pela Revista Gula, e que quebrou, e se levantou, algumas vezes, e sempre melhor que antes. Em 2012, Checho foi uma das pessoas que revolucionaram a gastronomia de São Paulo, juntamente com Henrique Fogaça e Lira Yuri, realizando um evento mensal chamado O Mercado, que trazia para um formato de feira de rua comidas de qualidade e de chefs renomados a preços razoáveis. O impacto foi tão importante, que mudou para sempre a forma como o paulistano se relaciona com o alimento no dia a dia da cidade, fazendo com que as pessoas perdessem o medo de comer na rua, de pé, e sem frescura. Isso abriu caminho para a vinda dos food trucks e dos restaurantes com serviço mais informal. Depois de alguns anos, Checho decidiu sair das ruas e ancorar num lugar fixo. Escolheu o Mercado Municipal de Pinheiros para abrir a Comedoria Gonzales, em 2014, servindo comidas latino-americanas – em especial os ceviches – e foi, mais uma vez, pioneiro da transformação desse antigo mercadão num ponto de encontro da gastronomia da cidade. Sempre com seu humor peculiar, conversamos sobre a jornada do empreendedor.

Primeiro apareceu uma ideia que forçou você a virar empreendedor? Ou primeiro apareceu o empreendedor que saiu procurando uma ideia?
Bom, eu sempre fui muito roleiro, até hoje consigo vender ou trocar todo tipo de coisa. Interessa um skate híbrido? Também estou com uma barra fixa. Vendo ou troco por instrumentos ou equipamento… Meu primeiro negócio apareceu quando voltei de Barcelona, vivi lá por 2 anos. Era 1993 e não sabia o que queria da vida e fui fazer umas comidinhas no bar de uns amigos. Foi a primeira vez que cozinhei pra ganhar um dinheirinho. Um dos sócios estava insatisfeito e achei uma boa oportunidade, acabei comprando a parte dele. Não foi uma ideia sensacional, mas me deu uma super referência. Era um bar de rock & roll, sexo e muitas drogas. Depois de passar um par de anos nesse clima cheguei à conclusão de que tinha que dar uma direção na minha vida. Podemos, então, dizer que foi o que alavancou tudo.

A sua família trabalha com você na Comedoria?
Agora meu pai cuida do meu financeiro e minha companheira vai responder às redes sociais. Tentei escravizar a minha filha também, mas ela fugiu…

Como é o dia a dia de um empreendedor da gastronomia?
Passei anos sem vida social regular, saía muito de madrugada, vida bem boemia. Depois que mudei de modelo de negócio e fiquei mais velho, tudo se normalizou: trabalho durante o dia e à noite faço coisas normais. Não sei até quando dura, pois isso acompanha o tipo de negócio.

Quais são os seus planos de futuro?
Creio que a Comedoria tem ainda muito tempo de vida, não bombando como foram os últimos anos, algo mais sóbrio, mas é o apoio que necessito para montar um outro restaurante. Ainda não encontrei a ideia correta, o espaço adequado, o formato que me agrada… Continuo na procura, sei que vai aparecer.

Se pudesse dar uma dica a quem está chegando agora na sua área, qual seria?
Pare de fazer cópias de tudo, tente ser original

Qual o futuro do Brasil?
Ave, neste momento não tenho a mínima ideia. A minha contribuição está no meu dia a dia, sei que agrego, que construo. Tento ser correto em tudo, acho que isso já soma

Saiba mais:
Comedoria Gonzales
Mercado Municipal de Pinheiros – boxe 85
Horário de funcionamento: segunda a sábado, 11h às 20h
@comedoriagonzales

Ivan Primo Bornes (ivan@pastificioprimo.com.br) – empreendedor e fundador da rede de rotisserias Pastifício Primo (www.pastificioprimo.com.br)

Até quando uma startup é uma startup? E falando nisso, é start-up ou startup?

12 de outubro de 2018

É curioso o uso das palavras e seus contextos. Quando um jovem encontra outro, se cumprimentam: E aí véio!!!! E o outro responde: Fala, véio!!! Mas quando dois idosos se encontram, também se cumprimentam: E aí garoto!!! E o amigo responde: Fala garoto!!!

Assim, pela ordem, vamos tratar das empresas jovens. Mas já adianto que a discussão não é exatamente relevante, um pouco chata, mas é uma dúvida de muitas pessoas. O que é uma startup? Quando uma empresa deixa de ser uma? E se escreve startup ou start-up?

Historicamente, startups eram um tipo de… botas! Frederick Fairholt, em seu livro Costume in England, explica que na Inglaterra no final do Século XVI, homens e mulheres calçavam startups. Samuel Johnson, quando publica seu dicionário A Dictionary of the English Language em 1818, também aponta que startup também poderia se referir a um tipo de bota ou galocha, ou a alguém que é notado repentinamente.  Ainda no Século XIX, o termo start-up, agora com hífen, passa a ilustrar o fenômeno de alguém que cresce muito rapidamente, segundo o dicionário A Glossary: K-Z, organizado por Robert Nares em 1872. Seria algo como um estirão.

Depois disso, o termo startup praticamente não foi mais utilizado até o final do Século XX. Thomas Edison (GE), Henry Ford (Ford), Bill Hewlett t e Dave Packard (HP)… ninguém dos empreendedores inovadores do final do Século XIX e metade do Século XX criaram startups. Eles criaram new companies ou new enterprises. Em 1968, quando Robert Noyce e Gordon Moore saem da Fairchild Semicondutors para fundar a Intel, Arthur Rock, interessado em investir na nova empreitada pede para a dupla escrever um plano de negócio. O tal plano, hoje no museu da Intel em San Jose (Califórnia) tinha uma página e explicava que a Intel seria “uma companhia que se engajará na pesquisa, desenvolvimento, fabricação e vendas de estruturas de eletrônica integrada...”

Assim, todas as novas empresas que nasciam no Vale do Silício eram novas companhias, empresas ou empreendimentos.

Mas algumas pessoas perceberam que trajetória de crescimento exponencial de novas empresas como Compaq, Lotus, Citrix, Novell, McAfee, Cisco na década de 1980 não era observado em outras novas empresas que atuavam de forma mais tradicional. A Compaq, por exemplo, atingiu vendas de US$ 1,2 bilhão em seis anos de vida, mas nenhuma das empresas fabricantes de computadores da época tinha notado a presença da empresa que vendia computadores com qualidade compacta (Compact Quality). Havia algo de mágico naquele tipo de “nova companhia” que impulsionava crescimentos escaláveis admiráveis. Isto começou a ser chamado de startup.

Por isso, a partir da década de 1980, investidores começaram a viajar pelos Estados Unidos atrás das novas startups e empreendedores, mais perspicazes, começaram a dizer que estavam criando startups.

Assim, o uso seminal de termo startup no fenômeno do estirão do jovem ou do ser percebido repentinamente para novas companhias de rápido de crescimento e que só eram notadas depois, quando já tinham um grande porte combinou como se uma bota encontrasse o seu par.

O problema é que, principalmente a partir da década de 1990, qualquer novo negócio que utilizava alguma tecnologia, em especial, da informação, passou a ser comunicada e celebrada como startup. E o termo ganhou inúmeras, senão milhares de definições. Cada empreendedor, investidor ou especialista tinha a sua. “Startup é uma empresa que trabalha para resolver um problema em que a solução não é óbvia e o sucesso não é garantido” diz Neil Blumenthal, co-fundador da “startup” Warby Parker, que vende óculos pela internet.  E para complicar, o termo startup aparece em diversos dicionários como qualquer nova empresa.

O caos no uso do termo ganhou alguma lógica quando em 2013, Steve Blank, professor de Stanford e Berkeley começou a repetir dois mantras: “Startup não é uma versão pequena de uma grande empresa” e “Startup é uma organização em busca de um modelo de negócio estável e escalável”. Depois ele acrescentou “lucrativo”. Dada a sua grande influência, muitos começaram a perceber que startup tinha a questão da incerteza (daí a busca), da lógica padrão (estável) de ganhar dinheiro com sólidas vantagens competitivas (modelo de negócio) e que pudesse crescer em proporção muito maior do que seus custos, gastos e despesas (escalabilidade).

Nesta abordagem, uma startup continua nessa condição quando tem grandes ambições de crescimento mas ainda não conseguiu encontrar um modelo de negócio estável, escalável e lucrativo. Quando define e valida o modelo de negócio estável, escalável e lucrativo e continua com a ambição de crescimento, a startup se torna uma scaleup. Caso contrário, se torna um pequeno negócio ou simplesmente os empreendedores desistem e partem para outra. E não há nenhum demérito nisso. Há ótimas empresas bonsais e muitos maratonistas desistem da corrida quando percebem que já não ganharão a prova, poupando-se para a próxima.

A próxima figura ilustra o que é uma startup e até quando uma startup é uma startup.

E o hífen da start-up? Neste caso, as duas grafias estão corretas, mesmo nos Estados Unidos.

Mas e as outras pequenas empresas ou scaleups que continuam querendo ser chamadas de startups? Tudo bem! Eu mesmo adoro quando me chamam de garoto!

Marcelo Nakagawa é Professor de Inovação e Empreendedorismo do Insper.

As máquinas de macarrão de Tatuí

1 de outubro de 2018

Esta é a história de Giovanni Visciglia, dono da Italvisa – a mais importante fábrica de máquinas para massas artesanais do Brasil. Filho de italianos, casado com Sybelle e pai de Giovanna e Enzo, ele conta como foi assumir a empresa familiar e os desafios do Brasil.

Como foi o começo da Italvisa?

Meu pai Vincenzo e seu irmão Giovanni vieram da Calábria, eram filhos de ferreiro e trouxeram o oficio com eles. Montaram uma oficina mecânica em Tatuí (interior de São Paulo, próximo a Sorocaba) que fazia serviço de torno, solda e desenvolvia equipamentos. Um desses equipamentos foi uma extrusora de massas. A primeira máquina foi vendida para um amigo da cidade. O equipamento ficava exposto e chamou a atenção do Toninho do Jardim di Napoli, que tem propriedades em Tatuí, e com isso iniciaram as vendas baseado no boca a boca.

Você escolheu trabalhar no negócio da família?

Sempre acompanhei meu pai dentro da oficina. Era uma maneira que ele tinha de estar perto e nos ensinar um oficio. Então o envolvimento com o negócio foi natural. Aprendi a soldar, tornear e montar. Todo o conhecimento que meu pai tinha, ele me passou. Em um determinado momento resolvi levar os equipamentos para a feira, apoiado e incentivado pela minha namorada e atual esposa. Ideia que no início não foi aceita pelo meu pai porque o custo era significativo. Então comecei a assumir os desafios e responsabilidades do negócio. A feira me mostrou que havia um mercado e um caminho e, com a ajuda do Sebrae, fomos trilhando. A cada feira novos clientes e novos parceiros foram surgindo.

Como a família participa no empreendimento?

Hoje divido a administração do negócio com minha esposa, que roubei da área artística, ela é musicista.  Para o empreendedor, os dias e noites são bem diferentes do “normal”  das pessoas.

Como é isso?

Acho que a vida do empreendedor é como a de um caçador, que fareja as oportunidades, vai atrás do seu sustento e segue seu instinto. Pois nos mantemos sempre em estado de alerta. Claro que depois de um tempo aprendemos a curtir um pouco da vida e saímos com a família para passear!

Quais são os planos de futuro do negócio?

Estamos comprometidos em fabricar equipamentos com qualidade e durabilidade, o que tem favorecido o crescimento no mercado interno e externo.

Se pudesse dar uma dica aos empreendedores que estão chegando no teu setor, qual seria?

A burocracia está cada vez mais consumindo o tempo do empreendedor e não são todos que têm tempo e disposição para se preocupar com tantos detalhes. Empreender é colocar em prática ideias e sonhos que acabam sendo descontinuados com tantas dificuldades que encontramos pela estrada. Então, não desanime.

Qual o futuro do Brasil?

O Brasil, como uma empresa, tem o resultado da maneira que é gerenciada. Não é possível crescer e roubar ao mesmo tempo. É necessário colocar metas, governança, ordem e acima de tudo, respeito pelo Brasil. Se o País voltar a ordem, teremos um bom crescimento, pois o mercado da massa fresca se firmou nesses últimos anos.

Conheça mais:

Site: www.italvisa.com.br

E-mail: contato@italvisa.com.br

Ivan Primo Bornes (ivan@pastificioprimo.com.br) – empreendedor e fundador da rede de rotisserias Pastificio Primo (www.pastificioprimo.com.br)

A Califórnia dos sonhos

24 de setembro de 2018

Estou passando um tempo na Califórnia, curtindo a família e – claro! – pesquisando novidades da gastronomia e alguns modelos de negócios do Estado mais inovador dos Estados Unidos. É fundamental, para qualquer empreendedor, manter constante aprimoramento, aprendizado e curiosidade. Isso permite que o negócio se mantenha relevante e competitivo.

A Califórnia está na vanguarda no estilo de vida saudável e do orgânico. “Farm to table” (do campo à mesa, em tradução livre). O consumo de alimentos produzidos localmente estão em todo lugar.  A Califórnia é uma potência. E a gastronomia, é logico, gira em torno das pessoas que aqui transitam. Tudo isso misturado faz um caldo incrível onde buscar inspiração.

Para se ter uma ideia, os consumidores são pessoas que trabalham na linha de frente de negócios com a internet, ou mesmo as estrelas de Hollywood. Para citar apenas alguns exemplos. Em San Jose, próximo a San Francisco, estão as sedes do Google, da Apple, da Intel e de tantas outras empresas de tecnologia e startups. Em Los Angeles estão os estúdios de cinema, a indústria do entretenimento. Nos vales de Sonoma e Napa, estão os vinhedos. Além de algumas das melhores universidades dos EUA, centros de pesquisa, medicina, esportes, etc. Isso faz com que a gastronomia também tenha que acompanhar o nível de exigência e novidade para este público.

Quero destacar ainda outro assunto muito presente aqui: o respeito e a valorização do pequeno empreendedor. Visitando a cidade de Monterey, fui na (agora) famosa Cannery Row, onde funcionavam antigas fábricas de enlatados e que hoje é um local de turismo com muitos restaurantes premiados. Na praça central, uma estátua incrível em homenagem aos quatro empreendedores que iniciaram a “virada” nesse local decadente nos anos 1970, quando as fábricas estavam fechadas, e investiram de forma visionária nos restaurantes, ajudando a dar outro sentido a essa comunidade. Agora há hotéis 5 estrelas, um dos mais conceituados aquários do mundo, muito turismo e serviços. Os quatro empreendedores da gastronomia imortalizados no bronze são Ted Balestreri, George Zarounian, Hary Davidian, e Bert Cutino. Não conheço outro lugar do mundo onde donos de restaurante tenham sido homenageados em estátuas.

Em comparação, no Brasil os pequenos empreendedores são quase esquecidos e algumas vezes até mesmo hostilizados, apesar de todo o esforço que fazem para trazer prosperidade, inovação e civilidade. Fiquei pensando se o reconhecimento e valor que os americanos em geral – e os californianos em especial – dão aos empreendedores talvez ajude a explicar a riqueza desta sociedade.

Ivan Primo Bornes (ivan@pastificioprimo.com.br) – empreendedor e fundador da rede de rotisserias Pastificio Primo (www.pastificioprimo.com.br).

Empreendedorismo cívico: propiciando maior participação e engajamento de cidadãos nas decisões públicas

19 de setembro de 2018

As tecnologias que ampliam a participação cidadã para auxiliar processos decisórios e políticas públicas mais efetivas deram início ao surgimento de negócios de impacto social focados no engajamento cívico. Hoje, muitas das civic techs têm atuado com soluções inovadoras que aproximam e engajam o cidadão à esfera pública. Alinhadas a um conceito relativamente novo no Brasil, essas startups já apresentam os primeiros resultados e constituem negócios que estão ganhando reconhecimento global. A Artemisia tem acompanhado de perto a evolução dos empreendedoras e empreendedores cívicos mais promissores do país; a organização é responsável pela aceleração da Muove, Colab e Pluvi.On, exemplos de negócios de impacto que valem conhecer mais a fundo.

Para falar sobre a Muove, tenho que começar esse diálogo pela escolha do curioso nome. O que inspirou os empreendedores Ricardo Ramos e Rodolfo Fiori foi a frase “Eppur si muove!”, atribuída a Galileu Galilei. Segundo relatos, diante do tribunal da inquisição, Galileu foi obrigado a abdicar do heliocentrismo; ao final do inquérito, sussurrou “ainda se move” – uma clara referência à Terra. Dita entre lábios, a frase demonstra a persistência em defender a descoberta. Assim como Galileu persistia nas evidências, mesmo diante de um entendimento diferente à época, a Muove acredita no potencial de qualidade e eficiência do setor público brasileiro. As soluções levam em conta os aspectos econômicos, sociais e institucionais que podem dar suporte ou limitar o desenvolvimento de municípios.

Na prática, identifica ineficiências nas finanças municipais e sugere ações de melhoria ao gestor público via plataforma fechada. A ferramenta possui ainda uma área aberta que funciona como um mecanismo de transparência, permitindo maior controle da sociedade civil. Além disso, qualifica a tomada de decisão em municípios brasileiros nas temáticas que vão do desenvolvimento econômico, finanças públicas, saúde e educação. As soluções auxiliam atores locais como gestores públicos, sociedade, empresas, investidores e organizações sociais a fazerem melhores escolhas em suas intervenções. Como a maioria dos municípios brasileiros sofre com a ineficiência dos serviços públicos, o impacto social está na melhoria da qualidade de vida das pessoas via soluções escaláveis, sustentáveis e com custo acessível. Para os empreendedores, a meta é impactar – com produtos e serviços – a qualidade de vida de 50 milhões de brasileiros nos próximos quatro anos.

Um outro exemplo de negócio dentro desse contexto é uma rede social dedicada a questões urbanas e manifestações de cidadania. O Colab é uma ferramenta administrativa conectada com governo. A solução aproxima o brasileiro do poder público em uma plataforma simples, transparente e aberta. Nela, o cidadão passa a ser ouvido por mais de 100 prefeituras do país; dessa forma, o poder público busca ouvir os mais interessados para uma tomada de decisão coletiva. Com a ferramenta, o governo adota uma gestão mais eficiente, diminuindo custos e com maior transparência. Do lado cidadão, a solução oferece a oportunidade de participação às pessoas de todos os municípios com mais de 13 anos.

A plataforma já conta com 200 mil usuários e quase 2 mil gestores públicos e a meta é triplicar de tamanho em 2018. Fundado em 2013 por Paulo Pandolfi e Gustavo Maia, a solução foi eleita o Melhor App Urbano do Mundo pela New Cities Foundation e um dos cinco Melhores Apps de Governo e Participação do Mundo pela Organização das Nações Unidas (ONU). O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) apontou o negócio como a inovação de maior impacto social de 2015.

A Pluvi.On, por sua vez, utiliza uma rede de estações meteorológicas proprietárias para gerar alertas antecipados e em tempo real para avisar a população – sobretudo a de menor renda – sobre riscos de enchentes e deslizamentos. Para empresas, cria redes de sensores que ajudam a aumentar a previsibilidade e resistência a fatores climáticos que afetam suas operações. Para a população, querem usar a tecnologia para dar mais autonomia às pessoas a partir da disponibilização de informações climáticas confiáveis. Com base em uma estação meteorológica de baixo custo e de código aberto – com tecnologia 100% nacional –, o negócio foi criado por Diogo Tolezano, Pedro Godoy, Mariana Marcilio, Murilo Souza e Hugo Santos. Para o futuro, os empreendedores esperam ampliar o serviço para salvar vidas, tornando o Brasil mais resiliente a desastres naturais.

Em 2018, a Pluvi.On foi convidada pela ONU para integrar o programa United Smart Cities. Esse programa funcionará como uma plataforma que une empresas e governos com foco em apoiar projetos de cidades inteligentes. Nesse contexto, a empresa foi selecionada pela abordagem de utilização de tecnologia para criar cidades mais resilientes, mais adaptáveis. O foco – monitoramento climático, especialmente para emitir alertas para a população em desastres naturais como enchentes e deslizamentos – foi o que chamou atenção da Organização das Nações Unidas.

Com convicção, defendo que o Brasil tem todas as credenciais para se tornar um polo mundial de negócios inovadores capazes de resolver os problemas sociais e ambientais – e as civic techs se inserem perfeitamente nesse contexto de inovação social com participação dos brasileiros e brasileiras, de todas as classes sociais, na tomada de decisão e na melhoria de nossa sociedade.

Maure Pessanha, coempreendedora e diretora-executiva da Artemisia, organização pioneira no fomento e disseminação de negócios de impacto social no Brasil.

O Franchising se equipara às grandes empresas de tecnologia

18 de setembro de 2018

Apple, Google e IBM, dentre outras companhias, contam com funcionários altamente qualificados, que apostamos serem graduados nas melhores instituições de ensino do mundo. Será que todos são? Ou devem ser?

A formação universitária não é obrigatória, uma vez que essas companhias já não titubeiam em privilegiar experiências e/ou habilidades específicas, no lugar de diplomas e títulos. O que não quer dizer que tais companhias não fazem questão da qualificação de seus colaboradores.

Um levantamento realizado por um site americano de serviço online para busca de empregos demonstra que se o candidato a uma determinada vaga possuir um conjunto de habilidades condizentes com o cargo, ele poderá ser contratado mesmo se não tiver diploma universitário.

O mesmo consideram as empresas franqueadoras, sérias e responsáveis. Discutem, internamente, quais competências devem ter seus franqueados, quais são as habilidades fundamentais para a melhor gestão do negócio, qual perfil de liderança torna a equipe mais engajada e comprometida com o franqueado, se é melhor que seja alguém mais linha de frente ou de bastidor, mais de vendas ou de controle, estrategista ou operacional.

A formação acadêmica tende a não ter peso na escolha de franqueados. Pesa mais a experiência, a postura, atitudes, habilidades e expectativas assim como a capacidade de compreensão, entendimento e retenção de informações.

Ter um perfil empreendedor e, ao mesmo tempo, seguir conforme as regras é desafiador. Como uma mesma pessoa pode ser empreendedora, querer assumir os riscos de montagem e operação de um negócio e aceitar seguir as regras operacionais e o padrão de um modelo de negócio, definido por um(a) franqueador(a)?

Este é, a meu ver, um dos grandes desafios. Pode haver conflitos neste perfil, pois se é muito empreendedor tende a não ser tão conforme a regras, mas ser alguém que as cria, define, delega, treina e confere.

Já alguém com perfil mais operacional, seguidor de normas e padrões pré definidos não é tão empreendedor, mas pode ser ótimo à frente de uma franquia bem definida pela empresa franqueadora.

O que as empresas franqueadoras ensinam e praticam, exigem e entregam, acredito que nenhuma instituição de ensino por mais completa que seja faça com tamanha propriedade, pois cada uma foi criada por um fundador, dentro de um mercado, segmento, com mix de produtos e serviços específicos, fornecedores escolhidos a dedo, um a um e, aspectos operacionais diferenciados, mesmo que com concorrentes diretos.

Mesmo em tempos de altas taxas de desemprego cabe lembrar que os melhores franqueados não necessariamente são os ex-executivos com os melhores CVs, especializações e fluência em mais de três idiomas. Nosso varejo, em geral, não exige esta capacidade. Menos é mais nessa hora.

Ana Vecchi é professora e pedagoga pela PUC-São Paulo, com especializações em administração de marketing pela Fundação Getúlio Vargas (SP), planejamento estratégico de marketing pela ESPM e MBA em varejo e franquias FIA/PROVAR. É professora universitária, instrutora e palestrante em associações e universidades. Co-autora do livro A Nova Era do Franchising.

Empresa familiar centenária na Rota da Uva

10 de setembro de 2018

Esta é a história de Paulo Brunholi, empresário da Rota da Uva de Jundiaí (SP) que toca, junto com a irmã Sandra, a Villa Brunholi: um centro turístico que combina empório de produtos artesanais, o Museu do Vinho, uma vinícola completa e um restaurante. O empreendimento centenário é um modelo de sucesso de empresa com gestão e trabalho familiar. Brunholi é casado com Priscila e pai da Ana Luiza, de 14 anos, e do José Pedro, 2 anos. “Sim… uma grande diferença de idade, percebemos que faltava algo em casa, e o José veio para animar o lar!”

Qual a tua formação?

Tenho uma formação diversificada… comecei com processamento de dados, passei pela administração hoteleira, técnico em química e pós em comércio exterior. Uso atualmente todas as áreas, elas se completam no meu trabalho.

Como tudo começou?

Toda a história da família Brunholi vem da agricultura, desde quando meu bisavô Antônio Brunholi desembarcou no porto de Santos em 1889, vindo de Vêneto (Itália) para desbravar as terras no bairro do Caxambu, em Jundiaí. Meu pai foi o único que continuou com a lavoura, chegando a ter 120.000 pés de uva, que gerava o sustento da família. Após a crise do plano Collor, as dificuldades aumentaram e dela saiu novas ações. Eu ainda era criança quando meu pai iniciou a venda de vinho  em uma pequena barraca na avenida em frente à propriedade que o nonno comprou… aí começou a história do Villa Brunholi. Da barraca, passou a uma adega, construiu o restaurante e então o complexo turístico com museu e indústria de bebidas. Hoje, quem administra o grupo é a minha irmã Sandra e eu. Somos a terceira geração desde o nonno Brunholi. Arnaldo, nosso pai, sempre é presente nas ideias e conselhos, típico de uma administração familiar.

E como é trabalhar em família?

A decisão de trabalhar em família veio pela necessidade do momento, embora eu tivesse total liberdade de escolher a faculdade a ser feita ou de seguir carreira fora da empresa recém-iniciada. Meu pai sempre nos deu apoio total para qualquer decisão. Porém, o amor ao nosso trabalho falou mais alto e decidi pela hotelaria, uma área que abrangeria todas as necessidades da empresa, passando pela administração financeira, alimentos e bebidas até o atendimento ao cliente e gerenciamento da equipe. Digo que foi a melhor escolha que poderia ter feito, me deu uma ótima base para todas as ações futuras.

Como surgiu o empreendedor dentro de você?

Mesmo com todo o conhecimento e técnica, a vivência do dia a dia dentro de uma empresa cria a necessidade de empreender a toda hora, em todo lugar. Acredito que essa necessidade é o que motiva cada novo dia… ser diferente, fazer a diferença na vida do cliente, isso é o importante.

A família trabalha junto?

Priscila, minha esposa, trabalha na parte administrativa da indústria. Ana Luiza, sempre que os estudos permitem, está na empresa vendo toda a rotina insana de um empreendedor. Só assim para que a família entenda as demandas de horas e horas “extras” que ficamos para alinhar todos as ações, pois são muitas frentes de trabalho que atuamos. O papel da participação familiar é de extrema importância, isso gera valor, reconhecimento. A cada conquista todos sabem do esforço feito para chegar lá.

E como é o dia a dia de um empreendedor do turismo?

Não há final de semana livre, dias de festa e as horas de ócio. A todo momento o empreendedor está pensando, achando uma solução para alguma situação ou planejando. Tudo o que faz é dirigido para os negócios. O restaurante consome uma energia absurda de trabalho, principalmente aos finais de semana. E como uma bela empresa familiar italiana, tudo é muito centralizado, sempre um dos sócios está in loco para gerir as necessidades do dia a dia. Juro que lutamos para isso mudar.

E como você está enxergando o momento atual?

Após a crise que passamos no último ano, tivemos uma queda de 60%  na fábrica de bebidas. Chegamos a ficar com a linha de envase parada por mais de 30 dias e esse custo é muito alto. Procurando alternativas para mudar este cenário, vimos na terceirização de envase uma alternativa viável e totalmente possível.Investimos em estrutura, melhoramos processos e fomos em busca de clientes. Entendemos que é uma área onde só existem grandes indústrias realizando o serviço e pequenos produtores, ainda que informais, não conseguiam legalizar suas produções e produtos por conta dos altos custos de estrutura. Hoje, a Brunholi Brands cuida de todo o processo de desenvolvimento do produto, legalização nos órgãos regulatórios e industrialização de baixa tiragem. Esse formato está permitindo acabar com a ociosidade da planta e fortalecer o pequeno empresário, o retirando da informalidade e produzindo suas bebidas de forma profissional.

Quais são os planos futuros?

A exportação hoje é uma realidade dentro da empresa, já atendemos de forma pontual o Reino Unido e República Dominicana. Temos investimentos constantes para a prospecção da nossa Caipirinha Pronta, participamos de várias feiras fora do Brasil e estamos negociando com outros países para 2019. Para essa ação, foram necessários cursos e treinamentos na área. Somente assim conseguiríamos entender todo o complexo processo de exportação.

Se pudesse dar uma dica aos empreendedores que estão chegando agora, qual seria?

As melhores ações foram criadas em momento de crise. É nessa hora que o empreendedor precisa ter olhar amplo da situação, das oportunidades que podem estar mais perto do que se imagina. Dar um passo para trás e analisar tudo que possui de estrutura e o que pode fazer com ela. Sempre há algo que possa ser mudado ou aprimorado.

Qual o futuro do Brasil?

Estamos em um País extremamente produtivo, mas refém de uma administração pública ineficiente. O pequeno empresário sofre com as consequências e o esforço da atualidade é se manter em pé. As eleições estão aí e não conseguiremos mudar resultados se não mudarmos as atitudes. Estude, analise seus candidatos a fundo e tenha um voto consciente. Podemos e vamos fazer um País melhor a cada dia.

Saiba mais:

Um passeio entre parreiras e adegas em Jundiaí

www.brunholi.com.br

contato@brunholibrands.com

Ivan Primo Bornes (ivan@pastificioprimo.com.br) – empreendedor e fundador da rede de rotisserias Pastificio Primo (www.pastificioprimo.com.br)

Burger com sotaque italiano

20 de agosto de 2018

Esta é a história de Massimiliano Galise, o Max, italiano aventureiro que chegou ao Brasil em 2006, atrás do amor da vida, Luciana. Quando apareceu a oportunidade de empreender, decidiu realizar um antigo sonho familiar e, no começo do ano, abriu as portas do Galise Burger, no bairro Paraíso. Com estilo slow food, ele mesmo comanda a cozinha todos os dias, cuidando de cada detalhe, do compromisso “ultrafresh” e, claro, influência de sua família italiana nas receitas.

Aqui ele nos conta a sua jornada de vida e de empreendedor. “Os italianos são românticos e dramáticos ao mesmo tempo. Quero me despedir deste mundo cozinhando, como dizia aquela minha tia-avó napolitana que cozinhava tão bem e que tinha passado fome durante as duas grandes guerras. Se eu morrer, vou morrer cozinhando. Mas, antes disso, tenho caminho pela frente.”

Qual é sua história?
Sou nascido, criado e crescido na Itália até a tenra idade de 32 anos. Venho de um povoado de 17 mil pessoas, Saluzzo, no noroeste da Itália, no meio dos Alpes, bem na divisa com a França. Praticava muito alpinismo nos arredores do meu povoadinho. Montanhas, natureza… Em 2005 fui à Bolívia escalar um vulcão de 6 mil metros e lá conheci minha mulher, Luciana, que é brasileira.

Foi amor à primeira vista?
Bom…posso dizer que rapidamente voltei para a Itália para arrumar as malas e vender tudo porque depois daquele encontro tinha que seguir a Luciana! Hoje nossas filhas Teodora e Carmela tem 9 e 7 anos. Estou muito feliz…só me faltam os Alpes.

E a chegada ao Brasil?
Fiz de tudo nestes 12 anos de Brasil. Por exemplo, fui taxista por três anos, nesta cidade um milhão de vezes maior que a minha. Experiência boa e inesquecível. Um dia vou escrever um livro destas aventuras.

Desde quando você tem interesse pela gastronomia?
A minha família italiana (no caso eu, Mamma e Papá) não tinha incríveis condições econômicas. Não chorávamos, mas nunca fomos ricos. E sempre fizemos o que tinha que se fazer para “tirare avanti”, para irmos em frente de forma mais que digna. O sonho dos meus pais era, um dia, antes de morrer, abrir um pequeno restaurante. Os italianos são românticos e dramáticos ao mesmo tempo: antes de morrer… eu queria ter um restaurante e realizar este sonho da família. O restaurante tinha que ter 11 mesas, um número recorrente na cabalística de casa. E em casa cozinhávamos sempre. Sempre. Meu pai, minha mãe, eu. Viajávamos para o sul (o meu pai era de Pompei) e lá também todos cozinhavam e comiam. Existe um percurso culinário para ser desvendado na Itália, do norte ao sul. Sabores, temperos, mesclas, jeitos diferentes de preparar o mesmo prato que mudam em poucos quilômetros. E eu, desde criança, sempre em uma cozinha, entre norte e sul, querendo ajudar, querendo fazer…ou simplesmente roubando um gnocchi que tinha acabado de ser feito ou dando uma escapada na horta do tio para roubar um tomate direto do pé…E com aquela mordida,  descobrindo sabores maravilhosos. Não existia “não gosto disso ou daquilo”. Comia de tudo.

Quando apareceu o momento de empreender?
Bom, infelizmente em 11 de abril de 2011 minha mãe faleceu. Poucos anos depois o meu pai se juntou a ela. Era um dia 11 também. Como único filho herdei uma casa na Itália. Vendi a casa e decidi realizar o sonho dos meus pais: abrir o tal do restaurante de 11 mesas. Galise Burger é, portanto, o resultado do dinheiro que herdei, junto a vontade de investir o mesmo em algo que tivesse o sobrenome da família e que vingasse aquele sonho que meus pais não realizaram. O slogan da casa é “cucinando tutta la vita”, cozinhando a vida inteira.

Por que uma hamburgueria e não um restaurante mais italiano?
Apesar de uma vida de intensa prática em cozinhas caseiras, achei que não tinha suficiente experiência para abrir um restaurante, sabe…tipo de culinária italiana. E não tinha muuuito dinheiro para investir. Muitos pensam em burger como algo simples e básico. Talvez por alguns momentos também pensei isso, pelo menos antes de abrir. Creio sim que acreditei um pouco nisso. Hoje julgo o meu burger como algo que não faz parte da mesmice de muitos, e que porta a marca dos tempos e dos conhecimentos de vida e de viagens que fiz pela Itália e pelo mundo. O fato de procurar produtos orgânicos, de nunca congelar a carne que uso e de trabalhar exclusivamente com produtos de primeira, complica as coisas, ainda mais para quem abre pela primeira vez ao público e faz questão de estar na cozinha, na sala e no escritório da contadora. Tudo ao mesmo tempo, claro. Uma logística que poucos conseguem entrelaçar. Estou no começo: sete meses de porta aberta.

Como é a vida de um empreendedor?
O lado primata do empreendedor está no coração, claro, mas creio que esteja evoluindo conforme vejo crescer o meu espaço. Digamos que estamos caminhando de mãos dadas. Claro que não inventei o Galise sem pensar e sem ter convicção do produto que queria criar. Foi como um coquetel de ideias, sonhos, oportunidade e um pouco de loucura. Não escondo que o momento do Brasil, a casa muito nova e a primeira viagem no setor deixa tudo um pouco mais complicado: falo da minha vida  que mudou e também  do perfil econômico do negócio. Mas de verdade, penso que é isso que quero fazer até talvez um dia me aposentar..ou até morrer (rsrs).
Nestes dias, com a casa muito cheia e os pedidos que não paravam de chegar na minha cozinha, vivi um sentimento que talvez não saiba explicar: queria uma trégua, só um instante! Para tudo que estou me perdendo aqui! Mas ao mesmo tempo uma voz falasse assim “está tudo sob controle, você manda bem pra caramba, olha que linda a apresentação deste burger, já já acabam estes pedidos e você vai dar uma volta no salão, perguntando para os clientes se estão satisfeitos.” E eu adoro esta voltinha no salão, vendo as cabeças se mexendo em sinal de aprovação antes de eu perguntar qualquer coisa. Acho que é indispensável um pouco de loucura ou insensatez lógica e controlada para trabalhar na cozinha de um restaurante. Pelo menos é necessário ter a vozinha que fala com você mesmo. Como disse, os horários mudaram, e quando não estou cozinhando, penso. Penso nas novas receitas e (trabalho com um cardápio enxuto e que muda a cada 15 dias) nas possibilidades de modificar o espaço atendendo novas exigências que surgiram depois do primeiro semestre, e claro, nas finanças do empreendimento. A parte que gosto menos. Se você anda comigo na rua, eu estou sempre com pressa, vejo produtos novos, imagino, crio, não te escuto enquanto você fala de futebol e agora que percebo, estou a 10 metros pra frente de você. Os amigos se acostumaram. Acho. E gostam de como descrevo um prato que poderia ser feito por exemplo com aquela abóbora. Aliás, deixe eu anotar “abóbora” como um ingrediente de um futuro burger.

Como é a relação da família no empreendimento?
Inevitavelmente a família está envolvida: os meus horários malucos são o primeiro aspecto que mais revolucionaram a nossa rotina. As minhas filhas enlouquecem me vendo numa cozinha como profissional, e claro, queriam ajudar todas as vezes que jantam no Galise. Talvez sintam falta de cozinhar comigo, em casa, de domingo, assim como acontecia antes de abrir, quando juntos preparávamos gnocchi. Eu e minha mulher nos complementamos. Eu sou o sonhador, o impulsivo, aquele que não para. A Luciana é a parte lógica, o lado responsável do negócio. Eu me vejo hoje em uma deliciosa posição no ranking do Trip Advisor (8° lugar entre todos os restaurantes com 5* de SP) e quero subir mais e mais e mais… Ela fica mais de olho nas contas, ainda bem! De alguma forma, agradeço as minhas três mulheres pela paciência comigo!

Quais são os planos de futuro do negócio?
Para ser honesto, depois de sete meses de abertura, preciso recuperar o meu capital investido. Depois disso vou focar em um futuro mais longe. Não quero mais Galises. Talvez pense sim em um Galise com um espaço maior do que o atual, mas não estou pensando em franquias. Este negócio pertence a um sonho. E quero que permaneça, de alguma forma, ligado àquele sonho primordial. Mas poderia pensar em outra linha de produto. Um outro restaurante. Sei que tenho muitas coisas pra dizer e fazer para que as pessoas provem uma verdadeira cozinha italiana. Eu não frequento restaurantes italianos de São Paulo. Me perdoem, mas para um italiano o melhor restaurante é a casa da mamãe.

Se pudesse dar uma dica aos empreendedores que estão iniciando, qual seria?
Siga os sonhos, seja ousado, saia da mesmice, não crie um produto que já existe, seja único, e tenha ao seu lado alguém que te ama….e que de vez em quando te traz a realidade daquele boleto que está quase para vencer rsrsrs. Precisamos dos dois lados (o prático e o genial) para ter sucesso. Tenho certeza disso, e tenho certeza que preciso daquela minha Luciana pra me trazer, muitas vezes, de volta pro chão. E tenham respeito e paciência com a equipe: somos nós os malucos. Eles ajudam a realizar o que temos na cabeça e no coração. Se alguém um dia tem a receita para criar o dia de 28 horas eu topo uma sociedade para fazermos juntos. A todo sabor.

Qual o futuro do Brasil?
Venho de um país que viveu duas guerras mundiais (e não se saiu bem em nenhuma das duas) e que sempre acreditou na política do “ir pra frente”. “Avanti c’é posto” dizia meu pai: lá na frente sempre tem lugar. Mesmo que a situação econômica atual não seja a mesma da época de quando cheguei aqui, estou confiante no futuro do Brasil. Há muita coisa para ser criada e com certeza os jovens empreendedores podem ter muitas coisas para falar, demonstrando a criatividade, a força de vontade e muita atitude naquilo que criam. Os políticos deveriam ser cozinheiros, criando sempre algo de gostoso e que todos possam saborear, não? Se cada um se colocar como exemplo de renovação e criação de coisas boas e novas, o futuro estará se abrindo como uma flor de abobrinha. Aliás, boa ideia esta flor, para o meu burger vegetariano.

Serviço
Galise Burger
Fone: (11) 2372-0735
Rua Carlos Steinen 270, Paraíso, SP
Instagram: galise.galise
Facebook: Galiseburger

Ivan Primo Bornes (ivan@pastificioprimo.com.br) – empreendedor e fundador da rede de rotisserias Pastificio Primo (www.pastificioprimo.com.br).

Alta gastronomia com tradição familiar

7 de agosto de 2018

Esta é a história de Silvana e de seu filho Cristiano, duas gerações de empreendedores da alta gastronomia. Eles vêm mostrando a força e a capacidade de manter o empreendimento atualizado num setor extremamente competitivo e difícil.

Há 20 anos, Silvana Borella atendia A&B (alimentos e bebidas) de grandes eventos em São Paulo (F1, Salão do Automóvel), até que um dia encontrou uma antiga fábrica de pães abandonada, no bairro do Brooklin, e teve uma visão muito clara do que queria fazer: um restaurante italiano de alta gastronomia, porém sem as afetações esnobes tão comuns em restaurantes deste nível. Assim nasceu o Vicolo Nostro, que desde o surgimento frequenta todas as listas dos melhores restaurantes de São Paulo, sendo precursor do que agora se chama de “comfort food”, ou seja, ambiente e comida que remetem aos sabores caseiros, das afetividades familiares, do bem-estar.

Cristiano Panizza, de 35 anos, foi criado nesse ambiente e decidiu seguir os passos da matriarca, cursando gastronomia na Anhembi Morumbi. Faz 10 anos que assumiu o comando da cozinha do Vicolo. É ele quem nos conta a história e a trajetória familiar: “trabalhar com a mãe é diferente do que trabalhar com um tio ou com um irmão. Até que acabamos discutindo um pouco, mas sendo mãe, eu respeito, pois é preciso escutar a voz da experiência.”

Como foi crescer no meio da cozinha?
A família já trabalhava com restaurantes há tempos. Eu comecei ainda criança a ajudar uma tia que tinha lanchonetes em colégios. Eu estudava pela manhã e trabalhava no período da tarde desde uns 12 anos de idade. Também acompanhava minha mãe nos eventos. Até hoje eu não curto muito Formula 1, por conta das incontáveis vezes em que tive de acompanhá-la. Ela chegou a tocar 16 eventos ao mesmo tempo. Sempre deu certo, mas a operação deixava qualquer um maluco.

Para o empreendedor da gastronomia, chef de cozinha, os dias e noites são bem diferentes do “normal” das pessoas. Como é isso?
Realmente é muito diferente. Enquanto os outros estão se divertindo, você está trabalhando. Está trabalhando para que os outros se divirtam. É complicado ter vida social. Você acaba recebendo seus amigos no restaurante que acaba meio que virando a sala da sua casa. Recebo todos como se fosse na minha casa mesmo e o pessoal já está acostumado com isso. Os amigos é que vem até nós, não costumamos nos encontrar com eles em outros lugares.

Percebo no Vicolo uma extrema qualidade e atenção aos detalhes, várias camadas de história pessoal, tudo muito verdadeiro…
A decoração é feita com itens de família. De viagens. De amigos que sabem do que gostamos e acabam trazendo algo de mercados de pulgas na Itália ou em outros países da Europa. É construída assim, com pequenos detalhes e cada um tem uma história diferente. A decoração do novo salão é um pouco diferente, com uma pegada meio que rococó, rustica, mineira. Minha mãe é apaixonada por artistas mineiros, principalmente de Bichinho (Tiradentes), onde garimpa diretamente com os artesãos boa parte das obras que enfeitam o restaurante. Uma vez minha mãe voltou da Itália com uma caixa enorme com um casal de marionetes antigos (Othelo e Desdêmona) que percorreu a Europa durante cerca de três décadas com uma companhia teatral. Ela se hospedou em frente a um antiquário, e da janela do quarto se encantou pelas marionetes que estavam na vitrine. Todos os dias tentava negociar, mas o proprietário não queria vender. Até que no dia anterior à sua partida deu um ultimato no dono da loja que acabou vendendo. Assim é nossa decoração.

O novo salão que você mencionou é uma ampliação?
A gente chamou de Sala dos Espelhos, é um espaço para eventos. Duas pessoas não atrapalham 100 pessoas, mas 100 pessoas atrapalham duas. Justamente para poder separar os grupos mais festivos dos casais que querem mais intimidade e silêncio investimos neste salão, que comporta até 150 pessoas, focando principalmente em eventos sociais, tais como mini wedding e batizados, além dos já tradicionais eventos corporativos.

Quais são os planos de futuro do Vicolo? Expansão, filiais?
Por conta da decoração garimpada e histórica, nosso restaurante não é facilmente replicável. Na verdade, ele também não foi criado com esta intenção. Ficaria algo meio que artificial se o fosse. Preferimos algo realmente autêntico, uma casa com este carinho familiar. Temos planos de expansão sim, mas em negócios mais simples e enxutos. Acredito que até o próximo ano montaremos uma panineria-, um lugar mais descontraído para tomar uma taça de vinho, comer uma tábua de frios. Será um espaço anexo ao Vicolo, até mesmo para utilizar a mesma cozinha e estrutura, e claro, tornando-o muito mais fácil para administrar. Também apostamos bastante nos eventos

Se pudesse dar uma dica aos jovens empreendedores que estão chegando na gastronomia, qual seria?
Se optarem pelo curso de gastronomia, recomendo que estagiem desde o primeiro semestre para que vejam se além de gostar da área, se realmente estão dispostos a trabalhar muito. Perder finais de semana e férias. Além, é claro, de estudar bastante. Muita gente acha que é glamoroso, que vai aparecer em revista. Essa imagem é superficial. Em geral esquecem que vai queimar a mão, que vai cozinhar por horas na frente do fogão. A vida é de batalha. Estude bastante, pois você nunca vai saber tudo. Sempre você vai aprender algo novo.

Qual o futuro do Brasil?
A perspectiva talvez não seja boa, mas espero que melhore. Como empreendedor estamos fazendo a nossa parte. Gerando empregos e ajudando a girar a economia. Acredito sim que melhorará. Acho o pessoal da gastronomia ainda muito desunido. Deveríamos nos unir mais para brigar por benefícios para o setor.

Serviço:
Vicolo Nostro
Rua Jataituba, 29 – Brooklin, SP
Contato: (11) 5561-5287
Instagram: @vicolonostro
Facebook: facebook.com/vicolonostroSite
www.vicolonostro.com.br

Ivan Primo Bornes (ivan@pastificioprimo.com.br) – empreendedor e fundador da rede de rotisserias Pastificio Primo (www.pastificioprimo.com.br)