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Você tem fome de quê? O empreendedorismo de impacto e as oportunidades no setor da alimentação

14 de dezembro de 2017

David Hertz, grande impulsionador do movimento da gastronomia social no Brasil e no mundo, transformou as experiências profissionais em um poderoso insight. Se a gastronomia é tão rica – movimenta 9,3% do PIB brasileiro, sendo um dos maiores empregadores nos grandes centros urbanos do país –, ela pode ter um propósito maior do que apenas alimentação; pode ser um agente poderoso de transformação e inclusão social. Dessa forma, em 2006, surgiu a Gastromotiva, uma iniciativa que atua com a capacitação de jovens e apoio a microempreendedores na área de gastronomia.

Uma década depois, Hertz transformou o sonho em instrumento para promover educação, empregabilidade e geração de renda. De 2007 até hoje, a Gastromotiva já formou mais de 2 mil pessoas – com idades entre 17 anos e 35 anos – em São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Curitiba e Cidade do México, atingindo um índice de 80% de empregabilidade, após o término do curso; e já apoiou mais de 200 microempreendedores.

Em 2017, a Artemisia teve uma nova oportunidade para refletir e estudar o poder da alimentação e da gastronomia dentro da lógica dos negócios e da transformação social. Em parceria com a Fundação Cargill, conduzimos a Tese de Impacto Social em Alimentação – um estudo que reúne informações relevantes sobre os desafios enfrentados na temática pela população brasileira de baixa renda e pelo setor; e aponta quais são as oportunidades para o desenvolvimento de negócios de impacto social que possam contribuir de forma positiva com a sociedade.

Acesso ao mercado; produtos e serviços financeiros adequados; ampliação da conectividade; insumos, ferramentas e maquinários adequados e de baixo custo; apoio e capacitação para melhor gestão e produtividade; acesso a frutas, verduras e legumes; produção próxima ao consumidor; acesso a refeições saudáveis; armazenamento de alimentos; prevenção & nutrição; e educação nutricional são as oportunidades para empreender detectadas pelo estudo. A análise setorial traz, ainda, exemplos de iniciativas e negócios de impacto social que representam as principais inovações no setor – alguns deles, inclusive, acelerados pela Artemisia, como a Gastromotiva.

A íntegra desse estudo inédito está disponível para download gratuito (aqui), porque consideramos fundamental fomentar ações inovadoras para disseminar conhecimento. Podemos afirmar que a construção dessa Tese é uma entrega à sociedade, servindo como ferramenta para desdobramentos múltiplos de um tema relevante para a população brasileira e para toda uma rede de profissionais do setor – incluindo empreendedores, institutos, fundações, incubadoras, outras aceleradoras e fundos de investimento.

E, voltando ao David, o sonho dele não parou por aí. Ano passado concretizou o Refettorio Gastromotiva, um restaurante no Rio de Janeiro localizado na Lapa que serve comida feita com alimentos excedentes, vindos de mercados ou cozinhas profissionais, e não manipulados. No almoço, a casa é aberta a todos e no jantar apenas para a população menos favorecida. Para as receitas, conta com o auxílio de chefs convidados. O Refettorio é um exemplo concreto de como evitar o desperdicio de alimentos, um dos principais desafios – que pode virar uma oportunidade – da cadeia de alimentação evidenciados em nossa Tese. Com ela, esperamos que mais empreendedores geniais e conectados com o propósito, como o David Hertz, surjam. Boa leitura!

* Maure Pessanha, coempreendedora e diretora-executiva da Artemisia, organização pioneira no fomento e disseminação de negócios de impacto social no Brasil.

Como o problema habitacional se tornou uma oportunidade de negócio de impacto social

2 de novembro de 2017

O sonho de contribuir para que 100% dos brasileiros possam viver com dignidade e poder de escolha tem norteado a atuação da Artemisia há mais de uma década. Quando analisamos os componentes que formam uma vida digna e segura, a questão habitacional se mostra intrinsecamente ligada à qualidade de vida e à saúde da população de menor renda. Os números revelam que o déficit qualitativo é de 15,6 milhões de moradias – de acordo com a Fundação João Pinheiro e Ministério das Cidades. Em contrapartida, o déficit habitacional é de 6,1 milhões de habitações, de acordo com a Fundação João Pinheiro. No Brasil, embora a maioria das ações do poder público se concentre na construção de novas unidades, o problema da qualidade das casas é duas vezes maior.

Na realidade, maior do que a falta de moradias é o contingente de pessoas vivendo em condições precárias; situação que impacta na saúde de milhares de famílias, no absenteísmo e na frequência escolar. Grande parte dessa situação de precariedade habitacional atinge famílias com rendimento de até três salários mínimos. As projeções não mostram um futuro animador: em 2030, 40% da população mundial deverá viver em moradias precárias.

Mas, como esse cenário se torna uma oportunidade para empreender um negócio de impacto social? Os empreendedores do Vivenda – negócio acelerado pela Artemisia em 2013 – enxergaram o enorme potencial de impacto social e de lucro ao oferecer à população de baixa renda reformas habitacionais de baixo custo, de forma rápida e não burocrática, para que o cliente possa, em 15 dias, ter o projeto e a reforma concluída. A empresa já concluiu mais de 600 reformas, atendeu mais de 2.200 pessoas e instalou mais de 5 mil metros quadrados de revestimento em reformas subdivididas por kits: banheiro, cozinha, sala, quarto e área de serviço. Uma solução que desenvolve com os clientes não apenas os planos técnicos, mas as formas de pagamento que caibam no orçamento dessas famílias, chegando a parcelar o serviço em até 30 vezes.

Antes e depois de um dos serviços prestados pela Vivenda

Fernando Assad, um dos empreendedores do Vivenda, costuma dizer que a casa é mais do que a necessidade primitiva do abrigo; ultrapassa a necessidade de segurança física básica. A casa é uma plataforma do desenvolvimento humano, psicológico e de transformação social. A questão habitacional está ligada à saúde pública. Como? Basta pensar que a falta de ventilação trazida por uma simples janela gera um impacto negativo na saúde, sobretudo problemas respiratórios em crianças, ligados à umidade. As mães e pais, diante da saúde precária dos filhos, muitas vezes faltam ao trabalho – colocando em risco o emprego. A criança, por sua vez, falta à aula. A ida ao posto de saúde ou pronto-socorro sobrecarrega o SUS. Ou seja, desventuras em série associadas à insalubridade habitacional.

Na Artemisia, acreditamos que os desafios ligados ao tema habitação constituem oportunidades para que negócios de impacto social sejam desenvolvidos. Os empreendedores do Vivenda estão desbravando esse caminho e mostrando que é possível ganhar dinheiro e mudar o mundo, melhorando a vida de centenas de pessoas.

* Maure Pessanha, coempreendedora e diretora-executiva da Artemisia, organização pioneira no fomento e disseminação de negócios de impacto social no Brasil.

Serviços financeiros para a baixa renda

26 de setembro de 2017

No Brasil, a população de baixa renda utiliza a estratégia de endividamento como recurso para gerir o dia a dia. É uma forma de ter acesso ao consumo, além de uma saída para emergências. Em cada quatro famílias, três têm alguma dificuldade para chegar ao fim do mês com rendimentos. Entre as principais situações para o endividamento estão o consumo para prover bem-estar e conforto para a família; comprar por impulso; calote de amigos e familiares; e emergências. Na hora de quitar dívidas, o relacionamento próximo funciona como mecanismo de seleção; há a preocupação de preservar a amizade e de não fechar possibilidades de ajuda futura. Pesquisa do Plano CDE aponta que 94% das pessoas de menor renda priorizam o pagamento a familiares e amigos na hora de pensar em quitar dívidas; 41% priorizam o cartão de crédito; e 36% os bancos.


No cerne do endividamento desses brasileiros está a baixa educação financeira – uma barreira crítica para a maior inclusão da população das classes C, D e E ao sistema financeiro. A falta de informação, a renda variável, o baixo nível de escolaridade e a incompreensão das funções dos produtos financeiros são fatores que geram entraves no relacionamento desses cidadãos com as instituições bancárias.

Do outro lado da equação, a experiência da Artemisia – que conduz o Desafio de Negócios de Impacto Social: Educação Financeira e Serviços Financeiros para Todos, em parceria com a CAIXA – mostra que serviços financeiros adaptados e uma educação financeira adequada podem contribuir de maneira efetiva para a melhoria da qualidade de vida da população, gerando, inclusive, a inclusão financeira de milhares de brasileiros. A análise da interação entre a população de baixa renda e os diversos serviços do setor financeiro permite identificar deficiências significativas e oportunidades consistentes para empreender negócios de impacto social associados à temática.

A falta de serviços financeiros que atendam as necessidades dos menos favorecidos socialmente e a oscilação de renda – gerada em grande parte pelo trabalho informal e a baixa rentabilidade – estão entre as principais barreiras de acesso aos serviços oferecidos pelos bancos. E, também, entre as principais oportunidades para empreender. PoupeMais (MGov), Jeitto, DimDim, QueroQuitar! e SmartMEI são exemplos de empresas de impacto social do setor que apresentam soluções com alto potencial de sucesso. Ao suprir uma demanda real, estão desenvolvendo inovações sociais transformadoras.

Os desafios são grandes, mas as oportunidades também. O Brasil tem uma singular combinação de mercado consumidor interno enorme – é um dos cinco países com maior número de consumidores internos do mundo – e um dos piores índices de distribuição de renda. Os problemas sociais e as lacunas dos serviços públicos e privados prestados à baixa renda são a tônica dessa oportunidade de empreender, inovar e gerar impacto social.

Maure Pessanha, coempreendedora e diretora-executiva da Artemisia, organização pioneira no fomento e disseminação de negócios de impacto social no Brasil.

 

Primeira infância: uma oportunidade de empreender e construir um novo Brasil

6 de setembro de 2017

É inconcebível viver em um país com tanta disparidade. São inúmeros temas críticos enfrentados pela população de menor renda que impendem o desenvolvimento pleno para uma vida digna. Mas, entre todos os desafios, o mais alarmante – por gerar grande parte da desigualdade que vemos hoje – está na falta de atenção adequada às crianças brasileiras mais vulneráveis.

A falta de acesso básico a serviços e a estímulos de qualidade na primeira infância – período que vai da gestação aos seis anos – pode romper com um ciclo de oportunidades socioeconômicas na vida adulta. Na prática, não investir em uma rede de proteção para as crianças resulta em um alto custo para o desenvolvimento socioeconômico do país. A conta é bem simples: o investimento na primeira infância, prioridade em países com economias fortes, gera uma sociedade composta por adultos socialmente produtivos, que contribuem para o crescimento econômico.

Estudos apontam que, à medida que crescem, as crianças que vivem na linha da pobreza experimentarão baixo desempenho escolar, incluindo altas taxas de repetência e evasão, altas taxas de fertilidade e de morbidade – que contribuem para a ineficiência e altos custos públicos nos setores da educação e da saúde. Se tornam adultos mais propensos a ter baixa produtividade e renda; a não prestar cuidados suficientes aos filhos, contribuindo para a transmissão intergeracional da pobreza. Em suma, são suscetíveis a contribuir menos para o crescimento econômico do país.

Embora a temática seja pouco explorada no Brasil, a primeira infância constitui uma janela de oportunidades para empreender negócios de impacto social, que resultam na melhora da qualidade de vida de crianças, mães e das famílias. Movida pela vontade de construir empresas de sucesso, uma nova geração de empreendedores e empreendedoras tem investido em startups inovadoras, dentro da lógica de criar empresas que possam oferecer soluções para problemas sociais.

E que lógica é essa? Empreendedoras e empreendedores são movidos a desafios. No caso da primeira infância, há inúmeros: há um déficit de 1,8 milhão de vagas em creches e nível insatisfatório na qualidade do ensino infantil, apenas 8,7% do investimento público em educação está direcionado à primeira infância; 77% das crianças de até três anos não frequentam creches e estão sob a responsabilidade de adultos; e há uma enorme carência de serviços de atendimento para crianças com deficiência. Ou seja, há muitos problemas esperando por empreendedores para resolvê-los.

Coerente com o pioneirismo na disseminação e fomento de negócios de impacto social no Brasil, a Artemisia, inspirada pelo trabalho da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal – organização referência no tema no Brasil –, tem apoiado negócios inovadores com foco em primeira infância. Descobrir Brincando, CanalBloom, Adoleta, Tá.Na.Hora (TNH), PlayMove e Erê Lab são algumas das startups mais promissoras no setor.

Empresas que mostram que investir na primeira infância é bom para o empreendedor e é bom para o Brasil. Seguimos acreditando que é possível ganhar dinheiro e mudar o mundo!

* Maure Pessanha, coempreendedora e diretora-executiva da Artemisia, organização pioneira no fomento e disseminação de negócios de impacto social no Brasil.

 

Negócios de impacto social: nem filantropia, nem utopia

1 de agosto de 2017

Como responder aos inúmeros desafios sociais da uma sociedade que ainda não é capaz de oferecer iguais oportunidades para todos? Como complementar e qualificar a oferta pública que, frente à complexidade, não consegue prover serviços de qualidade para que 100% da população tenha capacidade de se desenvolver plenamente, alcançando uma vida digna?

Desde o início da Artemisia, fizemos esses questionamentos com o intuito de buscar e testar modelos viáveis para endereçar os grandes desafios sociais que vivemos no Brasil – que não são poucos. O que nos levou a uma hipótese central: e se aplicássemos a lógica dos modelos de negócio – que são lucrativos, e por isso, não dependem de doações – para gerar impacto social em larga escala e dessa forma transformar a vida de milhares de pessoas da baixa renda brasileira? A partir desta reflexão, chegamos ao que hoje é o conceito que trabalhamos e disseminamos de negócios de impacto. Aos que não têm familiaridade com o termo: são empresas que oferecem, de forma intencional, soluções escaláveis para problemas sociais da população de baixa renda.

Maure Pessanha é diretora-executiva da Artemisia

O lucro é o que difere esses negócios de iniciativas filantrópicas. E diferente de uma área de responsabilidade social de uma empresa, o impacto social está atrelado à atividade principal, ou seja, não é uma externalidade ou um projeto que anda em paralelo. À medida que o negócio ganha escala e se expande, um número maior de pessoas é beneficiado. É a inovação social aplicada a modelos de negócios que oferece abundância. Especialistas já pregam que para um empreendedor ganhar R$ 1 bilhão, basta criar uma startup que resolva o problema de um bilhão de pessoas. Estamos falando de um novo capitalismo, pautado pela consciência social unida ao lucro. Na Artemisia, usamos uma frase que resume esse conceito: “Entre ganhar dinheiro ou mudar o mundo, fique com os dois”.

Parece utópico? Longe disso. Esse conceito traz um pragmatismo que beira o convencional. Trata-se de uma lógica de mercado, de oferta e demanda, tendo o impacto social no centro da equação.

Quem está por trás dessa revolução (nada) silenciosa são os empreendedores. Pessoas inconformadas com os problemas sociais de nosso país que diariamente trabalham para desenvolver e aprimorar soluções que enderecem os principais desafios nos campos da educação, saúde, serviços financeiros, entre outros. É cada vez maior o número de empreendedores vibrantes e competentes que se dedicam a combater as principais mazelas da população de baixa renda – que hoje representa 60% dos brasileiros. Eles são o coração de todo o ecossistema dos negócios de impacto, e por isso, aqui na Artemisia, trabalhamos para apoiar a nova geração de empreendedores e negócios que têm potencial de transformar o Brasil.

Assim como ocorre nos negócios tradicionais, não existe uma fórmula de sucesso para criar um negócio de impacto social. Com base no nosso apoio aos empreendedores há 12 anos, porém, percebemos que existem dois fatores críticos e que são determinantes para o sucesso de um negócio:

1 - Não seja um herói solitário. Tenha as pessoas certas ao seu lado para essa jornada empreendedora. Os problemas que um empreendedor vai enfrentar são complexos e ter uma equipe altamente comprometida é fundamental. É preciso se unir às pessoas certas, com habilidades complementares. Quanto mais competências diferentes estiverem na base do negócio, quanto mais gente boa fizer parte da startup, mais chances o negócio terá de dar certo.

2 - Sonhe grande, mas seja específico no recorte do problema que se propõe a solucionar. A ambição de um empreendedor, em se tratando de negócios de impacto social, é acabar definitivamente com o problema em determinada área. Por exemplo, melhorar a educação do país. Ter essa ambição é ótimo, mas para preparar o pitch do negócio – e convencer investidores – é preciso ser extremamente realista. O ideal é identificar necessidades do mercado, verificar o que já tem sido feito nessa área e apresentar uma solução viável para oferecer um serviço ou produto com alta qualidade e menor preço.

E fica nosso convite: quando pensar em empreender, encare o desafio de olhar para os grandes problemas sociais que escondem oportunidades reais para a criação de negócios lucrativos e com propósito. Encontre a causa que o incomoda – e que ao mesmo tempo o motiva – e desenvolva soluções locais para problemas que podem ser globais. É assim que conseguiremos nos aproximar de um país no qual, um dia, todos e todas viverão com dignidade e poder de escolha.

* Maure Pessanha, coempreendedora e diretora-executiva da Artemisia, organização pioneira no fomento e disseminação de negócios de impacto social no Brasil.