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Hype Economy: A insustentável superficialidade da fumaça colorida

15 de dezembro de 2017

O termo hype tem sido associado a coisas legais, novidades ou modernidades que deveríamos prestar atenção. No dicionário Merriam-Webster, o termo, como adjetivo, é definido como algo excelente ou bacana.  Esta referência ainda cita que esta definição é mais recente, sendo utilizada desde 1989. Hype ainda é algo que é promovido de forma extravagante ou artificial para ganhar notoriedade. Mas curiosamente, a definição principal, utilizada desde 1931, segundo o Merriam-Webster, está relacionada com ilusão, engano ou ainda fingimento, simulação.

Neste contexto, hype talvez seja um termo ideal que realmente representa diversos temas, negócios, eventos, treinamentos, especialistas e novas fontes de conhecimento, que, de repente se tornaram… hype, criando uma economia própria.

Hype como algo importante ou legal deve sempre ser estudado, analisado e, se for útil, planejado, implementado e avaliado. A Quarta Revolução Industrial apresenta uma enxurrada de novas tecnologias que estão inquietando muitos C-Levels das empresas. Toda semana aparece um cavaleiro do apocalipse amaldiçoando a sua empresa que ainda não iniciou sua transformação digital. Se não bastasse ter que pensar no futuro disruptivo do seu negócio com base em big data, internet das coisas, automação ou inteligência artificial, ainda precisa fazê-lo com o custo e velocidade de uma startup e com a perspectiva do design thinking na experiência do usuário, tudo isso, com analytics em todas as frentes. Dos fabricantes de cimento e trading de grãos às startups unicórnios mais valorizadas ao redor do mundo, quem não precisa considerar estas novas regras de negócio?

É aqui que entra o hype promovido de forma extravagante ou mesmo, maliciosamente, artificial. Diante das drásticas mudanças de comunicação e comportamento das pessoas e empresas e velocidade e teor das destas alterações, boa parte das empresas precisa inovar. Mas o “analfabetismo” digital de muitos executivos os tornam vulneráveis a vendedores de soluções milagrosas. Isto já havia acontecido no passado com soluções de Knowledge Management (KM) e depois Business Intelligence (BI), mas agora os desafios são mais numerosos, complexos e exponenciais. Uma decisão errada de plataforma de inbound marketing pode sangrar seriamente o caixa de muitos negócios. Some-se a isto o design centrado no usuário, a jornada do consumidor, a Geração Y e a valorização do propósito de vida de cada colaborador. A roupa nova do rei é sempre o hype da semana até que alguém mais lúcido aparecer e questionar: O conceito de Retorno sobre o Investimento (ROI) também (ainda) é algo hype?

Por isso, antes de embarcar em qualquer hype, estude para não ser traído pelo desejo de também ser isto de forma superficial e insustentável. O número de “especialistas” em temas hype disparou na última década. Dizem conhecer profundamente bitcoin, big data, design thinking, cloud, mas quando se entra em questões mais profundas, a nuvem se torna fumaça colorida de fogos de artificio. Assim, antes de entrar em um embate com sua rede de contatos a respeito do valor do bitcoin, estude profundamente blockchain e a evolução do seu uso. Antes de alardear os benefícios do Big Data, analise a qualidade das bases de dados da sua empresa e tire o pó dos seus livros de estatística. Se possível, pesquise como Sam Walton, fundador do Walmart já acreditava e aplicava estes conceitos ainda na década de 1970. E antes de colar post-its coloridos e dizer que isto é a última tendência em Design Thinking, apaixone-se pela antropologia e, especial a etnografia. Neste campo, deleite-se com sua aplicação ainda em 1870, quando Jacob Davis criou a calça jeans considerando a experiência de uso pelos mineiros de ouro na Califórnia para depois patenteá-la junto com Levi Strauss.

A história da Levi´s ainda é intrigante, pois é a própria metáfora de qualquer onda hype. Muito mais pessoas perderam dinheiro no hype da Grande Corrida ao Ouro no Velho Oeste Americano no Século XIX. Quem ganhou foram os vendedores de ferramentas como calças jeans e picaretas.

Agora, na corrida ao ouro digital do Século XXI, é preciso tomar cuidado justamente com os… picaretas que tentam vender fumaça colorida a preço de ouro.

Marcelo Nakagawa é Professor de Inovação e Empreendedorismo do Insper.

 

Loucura, loucura, loucura: Pequeno guia para empreender em 2018

6 de dezembro de 2017

É difícil projetar como será o ano de 2018. No mundo, a expectativa paira sobre malucos que podem começar uma guerra nuclear. No Brasil, sobre a eleição presidencial e o retorno da nova (e trágica) matriz econômica. Para cada um dos brasileiros empregados, sobre a sua situação de emprego, seja pela crise econômica, pela nova legislação trabalhista, pela questão do propósito de vida. Para os empresários, sobre como continuar sobrevivendo até o país voltar a crescer. E ainda, para uma parcela preocupante de desempregados, sobre como gerar alguma renda e sair do desespero.

Veja também:
• O futuro do empreendedorismo já começa no ensino fundamental
• O Brasil precisa de universidades que formem mais empreendedores
• Em um mundo cada vez mais tecnológico, o futuro do empreendedorismo é ser humano

Mesmo assim, muitos querem (ou terão que) empreender um negócio próprio em 2018. Parece loucura, mas estatisticamente, empreender sempre foi isso, já que parcela majoritária das novas empresas deixa de existir nos primeiros cinco anos. Mesmo assim, ter um negócio próprio é o quarto maior sonho dos brasileiros segundo a pesquisa Global Entrepreneurship Monitor. Empreender só perde, pela ordem de importância, para viajar pelo Brasil, comprar uma casa própria e adquirir um automóvel.

Neste contexto, se pensa em empreender no ano que vem, algumas atividades podem ajudá-lo(a) a seguir em frente.

1. Leia (agora e sempre). Normalmente, empreendedores leem e muito. Principalmente livros. É a forma mais barata, rápida e conveniente de aprendizado. Bill Gates, aos sete anos, já tinha lido todos os 21 volumes de World Book Encyclopedia (equivalente a Barsa ou Enciclopédia Britânica) e, desde então, nunca mais parou de devorar livros. Há alguns anos, Gates sempre divulga uma lista dos melhores livros que leu no ano. Caso tenha interesse, veja sua lista de 2017. A minha lista, mais humilde, está neste link. Assim, entre em uma livraria (física ou online) e escolha um para ler.

2. Faça cursos. Se é empreendedor de primeira viagem, antes de entrar no mar é preciso aprender a nadar. Considere o curso Empretec do Sebrae que já é bastante consagrado em desenvolver o comportamento empreendedor. Além deste, o Sebrae oferece outros cursos. Também faça uma busca nas principais faculdades de administração. Boa parte delas oferece cursos, inclusive de curta duração e de férias, de empreendedorismo. Além do conhecimento, você cria uma rede de contatos que será muito importante durante todas as suas fases de empreendedor.

3. Conheça e participe a hubs de empreendedorismo. Em várias cidades do país, em especial nas capitais, surgiram locais que concentram empreendedores. São coworkings, aceleradoras ou centros de empreendedorismo de faculdades. Também fique atento aos eventos. Caso não encontre um na sua cidade, vale a pena fazer algumas viagens para conhecer estes espaços. Em São Paulo, é praticamente obrigatório conhecer o Cubo do Itaú, o Google Campus, o Habitat do Bradesco, a Wayra da Telefónica e aceleradoras como ACE, Startup Farm e Oxigênio da Porto Seguro.

4. Tenha mentores. Empreender, em geral, é uma atividade muito solitária e sempre repleta de dúvidas, angustias e decisões a tomar. Poder conversar com outras pessoas, em especial as que entendem muito daquele desafio é fundamental para avançar. Neste momento entra o mentor. Algumas iniciativas oferecem mentores como a Endeavor, Inovativa Brasil, Startup Brasil, programas de startups de grandes empresas e aceleradoras. Mas neste caso é preciso passar por um processo seletivo. Se isto não for o seu caso, mesmo assim, você pode contar com mentores. Para isto, faça uma relação de amigos e conhecidos que poderiam orientá-los e convide-os para serem seus mentores. Muitos gostam de ajudar e se sentem muito bem nesta função. O LinkedIn pode ajudar no contato de profissionais que não estejam na sua rede de contatos diretos.

5. Aprenda a planejar seu novo negócio. Para quem pensa em empreender atualmente, é obrigatório conhecer abordagens como Value Propositon Canvas, Business Model Canvas, Lean Startup, Customer Development, Design Thinking, além de ferramentas tradicionais como plano de negócio e modelagem financeira.

6. Tenha sócios complementares. Vários grandes negócios começaram com dois sócios. Um que tenha muita habilidade em vendas e outro com grande capacidade de execução. Se estiver começando algo e não for a pessoa que vende ou a que entrega, preocupe-se. Já começará algo com um peso morto a bordo. E já deve estar até cansado de bordões, mas quem sabe, faz ao vivo!

Marcelo Nakagawa é Professor de Empreendedorismo e Inovação do Insper

Em um mundo cada vez mais tecnológico, o futuro do empreendedorismo é ser humano

4 de dezembro de 2017

Se estiver pensando em empreender ou reinventar seu negócio, pense seriamente, sem hipocrisia, em valorizar as pessoas, sejam parceiros, colaboradores e, principalmente, clientes. Talvez isto não dê retorno no curtíssimo prazo, mas tende a se pagar ao longo do tempo em um futuro dominado pela tecnologia.

De certa forma, percebe-se isto quando é atendido por uma pessoa educada, prestativa, atenciosa e eficaz de um call center. É claro que se você se depara com bestas humanas programadas para se livrar de você no menor tempo possível. Em situações assim, fica até feliz em ser atendido por um robô. Mas quando se depara com alguém que realmente tem a intenção de ajuda-lo, mesmo que sua demanda não seja plenamente atendida, você tende a avaliar bem o atendimento.

E é justamente isto que sempre fez e continuará fazendo a diferença nos negócios. Ser bem atendido é cada vez mais difícil a ponto de notarmos isto quando ocorre. E se deparar com um produto ou serviço UAU é ainda mais raro diante de tanta mesmice dos concorrentes que, já que não podem ser express, são minutos, ou se não são originais, pelo menos são autênticos, genuínos ou ainda, legítimos.

Veja também:
• O futuro do empreendedorismo já começa no ensino fundamental
• O Brasil precisa de universidades que formem mais empreendedores
• Loucura, loucura, loucura: Pequeno guia para empreender em 2018

Em situações assim, serão os colaboradores que farão a diferença. Na semana passada, depois de ter me aborrecido muito com o internet banking do meu banco, e com baixíssimas expectativas de ser bem atendido, liguei para o call center. Não sei se foi sorte, mas o atendente ficou mais de 30 minutos tentando (sinceramente) me ajudar até conseguir encontrar a falha no sistema. Eu, que pensava em trocar de instituição bancária, agora estava feliz em ter sido bem atendido. Muitas empresas contratam seus colaboradores pelo seu potencial, mas se esquecem disso, tratando-os como subalternos incapazes de pensar, e assim, de agir. Os empregados só retribuirão o mesmo atendimento que recebem para clientes e parceiros.

Enquanto muitas empresas tradicionais estão investindo em novas tecnologias para minimizar as dores de cabeça com seus clientes, empregados e fornecedores, novas empresas e empreendedores estão utilizando-as justamente para enriquecer as relações humanas.

Quando Elon Musk (Tesla, SpaceX, SolarCity) não só responde pessoalmente uma mensagem de um cliente como atende rapidamente sua solicitação, muitos o aplaudem nas redes sociais. Mas esta prática é comum em boa parte das startups em que seus fundadores são os responsáveis pelos contatos de reclamações e sugestões.

O Google costuma contratar os colaboradores mais talentosos do mercado e os deixa trabalhar tão livremente que seus escritórios mais parecem um clube do que um local de trabalho. Por trás deste aparente parque de diversões, há um poderoso método chamado OKR (Objectives and Key Results) que integra esforços, incentiva desempenhos superiores e ainda libera a responsabilidade de cada um.

E ainda tem os fornecedores e prestadores de serviços que muitas organizações chamam hipocritamente de parceiros, mas criam relações baseadas na desconfiança e pressão por custos cada vez menores. O Dr. Consulta conseguiu inverter esta relação do médico que passa a ser um real parceiro da clínica em que está associado, ganhando mais do que daquele plano de saúde que o considerava incompetente ou desleal diante de tantos pedidos de exames ou novas consultas.

Todas as empresas querem clientes que divulguem (positivamente) suas marcas, colaboradores que superem seus potenciais e parceiros realmente engajados com o sucesso dos seus negócios. Mas muitas se esquecem (ou não sabem) que enquanto a tecnologia se torna uma commodity, são as pessoas (tratadas como tal) que farão a verdadeira diferença.

Marcelo Nakagawa é Professor de Empreendedorismo e Inovação do Insper

O Brasil precisa de universidades que formem mais empreendedores

29 de novembro de 2017

Poucos conhecem Ronald Degen e Silvio Aparecido dos Santos. Eles lançaram, solitariamente, ainda no início da década de 1980, os primeiros cursos de empreendedorismo do Brasil na FGV-SP e FEA-USP quando o termo sequer era conhecido no País. Neste momento, o saudoso professor Cleber de Aquino trazia empreendedores como Omar Fontana, Jorge Simeira Jacob, Matias Machline e Yvonne Capuano para conversar com os alunos, mas poucos se interessavam em ouvir suas trajetórias e aprendizados. Não havia nada de útil ali para quem sonhava em seguir o caminho do emprego vitalício em alguma grande empresa.

Mas veio a fase de forte crescimento da inflação associado à queda do PIB brasileiro na década de 1980 e abrir um negócio próprio se tornou um caminho obrigatório para sobreviver como foi o caso do engenheiro que virou suco. Após perder seu emprego em uma metalúrgica em 1982, o engenheiro Odil Garcez Filho tornou-se conhecido no País por abrir uma casa de sucos na Avenida Paulista.

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• Loucura, loucura, loucura: Pequeno guia para empreender em 2018

Quase 40 anos depois, há diversos novos caminhos, e a situação do empreendedorismo em relação ao emprego inverteu de forma surpreendente. Em 2016, tornar-se dono de um negócio próprio era o quarto sonho mais desejado pelos brasileiros adultos segundo a pesquisa do Global Entrepreneurship Monitor. Empreender só perde, em prioridade, para comprar uma casa própria, viajar pelo Brasil e comprar um automóvel. Ser empregado (fazer uma carreira em uma empresa) é apenas o 8º sonho, perdendo apenas para casar ou constituir uma nova família e comprar um computador ou smartphone.

Apesar da evolução da importância do empreendedorismo entre os brasileiros, muitas universidades e outras instituições de ensino superior ainda não priorizaram a educação empreendedora nas suas grades curriculares e muitos docentes ainda percorrem um caminho tão solitário como os dos professores Degen e Santos na década de 1980.

Em um momento em que a maior taxa de desemprego está justamente na faixa de idade entre os recém-formados, reitores e dirigentes de instituições de ensino superior deveriam priorizar de forma estratégica, integrada e, principalmente abrangente, diversas iniciativas de empreendedorismo.

Estratégica, incluindo o empreendedorismo como um dos pilares da formação dos seus egressos. O Senac-SP, por exemplo, há muitos anos incluiu a atitude empreendedora como um dos pilares da formação dos seus alunos. A Unicamp vai além e identifica os empreendedores formados pela instituição, mensurando seu impacto em receitas e geração de empregos, seguindo o modelo já adotado pelo MIT e Stanford.

Integrada, associando as diversas disciplinas da grade curricular com suas aplicações inovadoras e empreendedoras. Neste contexto, a FIAP extinguiu o formato tradicional de TCC e introduziu o modelo de startup como trabalho final de todos os cursos de graduação e pós.

E abrangente, permitindo diversas combinações e iniciativas que promovam o comportamento empreendedor de seus alunos, docentes, ex-alunos e outros membros da comunidade. No Insper isto já começa pelos nomes de empreendedores das sala de aula, passa por iniciativas como o Centro de Empreendedorismo e rede de investidores anjos, até permear em diversas iniciativas criadas e geridas pelos próprios alunos.

E em momentos como o atual em que muitos caminhos se fecham para quem perde o emprego e outros que tentam buscar novos caminhos para seguir em frente, os mais empreendedores constroem os seus.

Marcelo Nakagawa é Professor de Empreendedorismo e Inovação do Insper, Consultor Acadêmico de Empreendedorismo do SENAC/SP e da FIAP

O futuro do empreendedorismo já começa no ensino fundamental

27 de novembro de 2017

Para muitos pais, agora avós, o futuro funcionou no Século XX. Enviaram seus filhos para as melhores escolas, para que entrassem nas melhores faculdades e daí, conseguissem os melhores empregos nas melhores empresas. Mas os pais nascidos no final do século passado sabem, mesmo que inconscientemente, que este futuro já não existirá para seus filhos.

Olhando para o destino final do futuro antigo, quais serão as melhores empresas onde nossos filhos trabalharão? Pesquisa apresentada por Pierre Nanterme, CEO da Accenture, uma das principais consultorias de negócios do mundo, aponta que metade das maiores empresas que apareciam no ranking Fortune 500 no ano 2000 já não aparecia na lista 15 anos depois.

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E quais serão os melhores empregos? O Século XX consolidou o conceito de emprego de longo prazo. Sonhava-se aposentar trabalhando orgulhosamente na mesma instituição durante toda a vida. Depois, trabalhando em duas ou três empresas. E já no final do século, apenas aposentar-se já era um alívio. Mas a preocupação atual não é apenas manter-se empregado, mas saber o que será um emprego na próxima década. Pesquisa da Manpower, uma das maiores empresas globais de contração de pessoas, aponta que 65% dos empregos da próxima geração será composta de funções que ainda não existem atualmente.

E esta projeção é uma das mais baixas. Outra pesquisa da Dell prevê que 85% dos empregos será ofertado em funções totalmente inéditas atualmente. Se o futuro do emprego será composto de novas funções, o que acontecerá com as antigas? Um recente estudo da Universidade de Oxford prevê que, pelo menos, 47% das funções desaparecerão ou perderão muito da sua importância nas próximas décadas.

Isto já aconteceu com a função caixa das agências bancárias, está impactando agora os atendentes de call center (trocados por chatbots) mas vai avançar em funções muito especializadas como professores, médicos e advogados. Este é o impacto do que vem sendo chamado de 4ª Revolução Industrial, que integra diversas tecnologias disruptivas como inteligência artificial, big data, internet das coisas para não só substituir como realizar com muito mais eficiência e escala funções profissionais cada vez mais complexas.

Neste contexto, as melhores faculdades estão formando profissionais do futuro ou para o futuro do século passado? No Brasil, o desemprego entre os recém-formados é mais que o dobro do que na média da população. A crise econômica, com certeza, tem forte impacto neste indicador, mas a preparação defasada do jovem profissional que chega ao mercado de trabalho é ainda maior. O resultado direto disso é o crescimento de cerca de 25% dos cursos de pós-graduação observado pelo Ministério da Educação nos últimos três anos.

Diante de tantas incertezas e novidades, muitos pais estão aflitos sobre qual é a melhor educação que precisam oferecer para os seus filhos e isto passa também pela escolha da escola.  Mas a melhor opção é aquela que prepara seu filho para o vestibular ou para a vida?

Pais que podem escolher e sabem a resposta desta questão e reconhecem a importância das escolas de ensino fundamental e médio que incluem a formação empreendedora no programa curricular.  E as escolas que realmente entendem o empreendedorismo como uma das principais habilidades pessoais do Século XXI sabem que isto não se resume a ensinar as crianças a abrirem negócios. Empreendedor é um visionário que tem iniciativa, que sabe identificar oportunidades e estabelecer soluções inovadoras. Ser um empreendedor não se limita às pessoas que começam os seus próprios negócios. O comportamento empreendedor existe em todos os setores, em todos os níveis de carreira, em todos os momentos da vida.

Marcelo Nakagawa é Professor de Empreendedorismo e Inovação do Insper

 

Era uma vez Nokia, Orkut, Second Life, Fotolog, Flickr, Flogão, HpG…

17 de novembro de 2017

Parece ontem…

Todos os dias, 900 milhões de pessoas negociam, fofocam, flertam, riem, gritam e choram em um Nokia. Um dia, nos próximos meses, um Nokia irá chegará às mãos do seu bilionésimo cliente. McDonald´s e Coca-Cola podem alegar que têm mais clientes, mas a experiência que eles oferecem é um pouco mais transitória. Você não sai de casa sem o seu telefone. Se julgar uma marca pela sua influência ou alcance, Nokia pode ser a marca mais bem sucedida na história” – assim começava a reportagem sobre a celebrada empresa finlandesa em uma importante revista norte-americana de negócios.

Naquele momento, o Orkut rumava para alcançar 40 milhões de usuário só no Brasil, colocando o país como o principal no mundo nesta rede social. Sem medo de ser feliz, mais de seis milhões de brasileiros ficavam dormindo no grupo “Eu Odeio Acordar Cedo” e outros mais de três milhões e meio de pessoas se divertiam no grupo “Deus me disse: desce e arrasa!”. O Orkut ainda reunia milhões de brasileiros em grupos como “Eu abro a geladeira para pensar”, “Queria sorvete, mas era feijão”, “Odeio esperar resposta no MSN”, “E INCOMODO?? Que peeena !!!”.

Mas o Orkut era para zoar com os amigos, rede social high tech mesmo era o Second Life e o Brasil era o quarto maior mercado na rede social de realidade virtual. Você criava um avatar e poderia visitar diversos ambientes se o seu processador e sua internet discada ajudasse e participar de eventos como aulas e palestras e além de poder fazer transações comerciais pagando em Linden dólar (L$). O SL era o futuro e muitas grandes empresas, bancos, universidades e até igrejas pagaram para ter suas versões na segunda vida.

O Brasil também era muito importante para o Fotolog. Como o Google limitava a publicação de fotos no Orkut, a rede social de imagens cresceu rapidamente. Neste momento, mais de três milhões de brasileiros, cerca de 26% do total de internautas (sim, utilizava-se este termo) publicavam dezenas de fotos diariamente no Fotolog. Diante do sucesso do Fotolog ao redor do mundo, o Yahoo! decidiu fechar seu Yahoo! Photos para apostar todas as fichas no Flickr, startup que tinha comprado dois anos antes por US$ 25 milhões. Mas para cada startup de sucesso, havia um clone brasileiro e este era o papel do Flogão, que se autodenomiva “O Fotolog do seu jeito”.

Enquanto as redes sociais faziam muito sucesso entre os brasileiros, havia uma ótima concorrência entre os provedores de páginas web grátis. O Brasil representava o quinto maior mercado para o Geocities, que havia sido comprado pelo Yahoo! por inacreditáveis US$ 3,57 bilhões e diante do seu sucesso. Na briga por este espaço, iG havia comprado o HpG, a Globo havia lançado o kit.net e os fundadores do HpG, retornaram com o XpG.

E o MSN reinava absoluto no Brasil. Entre os cerca de 40 milhões de pessoas com acesso à internet, 30,5 milhões utilizavam o MSN para trocar mensagens e economizar nos torpedos, colocando o país na primeira posição mundial.

Mas tudo isto foi em 2007…  ¯\(°_o)/¯

Marcelo Nakagawa é Professor de Inovação e Empreendedorismo do Insper

A empresa que todos os empreendedores deveriam conhecer não faz nada mais além do óbvio

10 de novembro de 2017

Uma boa empresa deveria vender muito. Considerando as vendas proporcionais por metro quadrado, esta tem vendido o dobro da segunda colocada. Uma boa empresa deveria ter clientes fiéis. 76% dos seus clientes lembram que fizeram a compra mais recente lá e indicariam a empresa para seus amigos e conhecidos, mantendo-a entre as favoritas do seu ultracompetitivo mercado há muitos anos. Uma boa empresa deveria fazer o bem para o seus clientes. Esta empresa vende majoritariamente alimentos naturais e orgânicos, premiums e gourmets e ainda consegue fazê-los mais baratos do que os similares da concorrência. Por isso, esta empresa tem fila na porta.

Na abertura da sua mais nova loja, no mês passado, as portas foram abertas às oito da manhã, mas as filas começaram a se formar duas horas antes. Uma boa empresa deveria ser um ótimo local de trabalho. Ela foi considerada a 16ª melhor empresa para trabalhar em todos os Estados Unidos no ano passado, pagando os maiores níveis salariais do seu setor e oferecendo os melhores benefícios. E há diversos relatos de colaboradores atuais e antigos sobre como trabalhar nesta organização mudou suas vidas. E depois de tudo isso, lá na última linha da demonstração do resultado, uma boa empresa precisaria ser lucrativa. E esta empresa é uma das mais rentáveis do setor varejista mundial. A empresa opera lojas pequenas, com poucas opções e com cerca de 80% dos itens sendo marca própria. Isto aumenta a eficiência, escala de compra, custos logísticos, tornando a empresa muito lucrativa e sem endividamento.

As empresas deveriam ser assim, mas não são. Por isso, deveriam conhecer um pouco mais sobre esta empresa, a Trader Joe’s. Mas as empresas também deveriam falar menos e fazer mais. Neste contexto, com quase 500 lojas, mais de 38 mil colaboradores e com faturamento estimado de 13 bilhões de dólares, pouco se conhece da TJ como é mais chamada pelos seus clientes e colaboradores. Seu fundador, Joe Coulombe, atualmente com 87 anos, vendeu a empresa há quase 40 anos. O grupo alemão que adquiriu a Trader Joe’s, manteve não só Joe a frente do seu negócio até se aposentar em 1988 como nunca mais interferiu na forma com que o criativo fundador gerenciava o negócio ou criava uniformes espalhafatosos com temas havaianos para sua equipe. Ele, por sua vez, passou a adotar o perfil discreto, quase invisível que era a principal característica do grupo alemão. A empresa, seus produtos, serviços e experiência de consumo é que devem se destacar! E desde então, seus executivos não aparecem na mídia, não palestram, não falam da empresa. Por ser de capital fechado, a Trader Joe’s não divulga seus números. A empresa também não faz nenhum tipo de propaganda, com exceção ao Fearless Flyer, seu tradicional panfleto de ofertas. A discrição chega à sede da matriz, localizada na cidade de Monrovia, Califórnia, que não tem nenhuma placa ou sinalização com o logo ou nome da TJ.

E mesmo com esta discrição absoluta, a Trader Joe’s consegue entregar uma experiência de consumo que só pode ser descrita com um termo: Uau! Mas o segredo do sucesso da TJ não é nenhum segredo e segue cinco lógicas absolutamente óbvias:

• Venda para pessoas educadas e inteligentes: A empresa foi fundada em 1958 com o nome de Pronto Market e era, basicamente, uma loja de conveniência. Em 1967, Joe Coulombe explicou em uma das suas raras entrevista que leu uma notícia em que era mencionado que 60% das pessoas estavam indo para a faculdade naquele momento. Ele pensou que pessoas mais bem educadas, naturalmente seriam mais exigentes e demandariam um serviço de varejo com produtos mais sofisticados, mas nem por isso pagariam mais caro (afinal, eram inteligentes). Daí veio a ideia de reformular todas as lojas que tinha e inspirado nos “mares do sul” e diversas ilhas famosas, lançou a primeira loja da Trader Joe’s, como algo que remetesse a um entreposto comercial sofisticado do Joe no Havaí. A obviedade é que é fácil vender e manipular clientes idiotas, mas os mais bem educados tendem sempre a exigir o melhor da empresa.

• Monte times pequenos e engajados: A lógica inicial é a mesma até hoje. Os colaboradores são chamados de tripulação. Cada loja tem um capitão. Os gerentes são chamados de First Mate, ou algo como imediatos. A seguir vêm os Merchants ou mercadores. Por fim, há o Crew ou membros da tripulação. A metáfora óbvia é que todos estão no mesmo barco, com poucos níveis hierárquicos e com todos sabendo suas funções, mas também atentos na execução de outras atividades para manter ou aumentar a velocidade do navio funciona!

• Mantenha sua tripulação sempre muito feliz: Encontrar um funcionário feliz ou muito feliz nas lojas da Trader Joe’s e sempre disposto a atendê-lo(a) excepcionalmente bem é uma constante. Para se chegar a este patamar, a TJ oferece os melhores salários, benefícios e condições de trabalho do mercado e total liberdade com responsabilidade. Está cansado, pode descansar. Com fome, pegue algo para comer. Precisa sair mais cedo ou chegar mais tarde. Tudo bem. Não se dá bem um chefe, bom… há vários outros para reportar. Em troca, a empresa quer ver o membro da tripulação entregar uma experiência de consumo UAU! Deve ser amigável, atencioso e divertido. Com todos!

• Ofereça poucas, mas sempre as melhores opções de produtos: A TJ tem uma variedade entre 4 a 5 mil opções enquanto seus grandes concorrentes chegam a oferecer 60 ou 70 mil. Mas cada produto ofertado é cuidadosamente concebido, produzido e embalado. Por se concentrar em uma camada exigente de consumidores, a Trader Joe’s acaba lançando diversos novos produtos que se tornam tendência de mercado depois como cervejas artesanais, iogurtes gregos ou alimentos integrais gourmets. Além disso, cerca de 80% dos itens são comercializados via marca própria. Com isso, a TJ consegue oferecer produtos muito diferenciados, mas com preços baixos.

• Nenhum cliente deve estar insatisfeito. Além do tratamento sempre cordial, da qualidade e criatividade dos seus produtos, a política de reembolso de clientes insatisfeitos da TJ é assustadoramente eficaz. Comprou um produto e não gostou? Mesmo já tendo consumido parte dele ou mesmo não tendo nota fiscal, a empresa reembolsa o valor. Sem questionamentos. Mas a empresa não faz isto pelo medo do impacto negativo de um cliente insatisfeito, mas por acreditar que precisa, de fato, vender algo de grande valor fortalecendo os laços de confiança.
Óbvio assim… há quase 60 anos.

Marcelo Nakagawa é Professor de Inovação e Empreendedorismo do Insper

Mais que clientes, receitas, cabelos… empreendedores estão perdendo sua saúde

7 de novembro de 2017

Não só no Brasil, mas em todo o mundo, criou-se o mito do empreendedor super-herói. Estes aparecem sempre sorridentes, poderosos, bem sucedidos, confiantes, sábios, visionários, ainda que, em alguns casos, a sua empresa ou vida pessoal esteja um caos. “Se não der certo, eu pivoto…” – diz com pleno domínio do startupês, linguagem dos empreendedores mais atualizados. Mas nem sempre é possível pivotar a queda de cabelo, a pressão alta ou as poucas horas de sono, principalmente quando as estatísticas apontam que parcela majoritária das empresas nascentes quebra nos primeiros cinco anos.

Mas como os empreendedores são tratados como um super-herói, quase ninguém fala da sua saúde. Contudo, ele também é vulnerável. Por isso, o artigo escrito por Larry Alton para a revista norte-americana Inc. é tão importante. Nele, Alton apresenta as aflições pessoais mais comuns entre os empreendedores, até entre os mais bem sucedidos, e que abalam seriamente a sua saúde. São elas:

• Dores nas costas: Dores lombares, nas costas, pescoço não prevalecem apenas em empreendedores. Mas a intensidade de preocupações e a quantidade de horas em uma postura errada diante do computador ou celular só intensificam as estatísticas.

• Problemas com a visão: Dez, quinze ou mais horas trabalhando. Boa parte olhando para uma tela de computador ou do celular. Em algum momento, a Síndrome de Visão de Computador (CVS) aparece na timeline do empreendedor.

• Insônia: Quando se diz que o empreendedor trabalha 24 X 7, isto não é uma mera metáfora. Muitos chegam próximo disso e quando vão para a cama, dormem mal. Se não bastasse a quantidade de trabalho, o sono ainda é afetado pela pilha crescente de preocupações e deteriorado pela quantidade de café ingerida diariamente.

• Hipertensão: Que o empreendedor precisa ter coração forte, todos sabem. Mas mesmo sendo forte, é preciso escutá-lo periodicamente. Pressão alta de vez em quando, faz parte da rotina empreendedora, mas sempre pode ser sinal de alguma doença importante.

• Enxaqueca: Quem tem sabe como isto implode sua capacidade de trabalho. Ter que ficar parado com tantas urgências para resolver é uma das piores torturas para qualquer empreendedor. E se não for a enxaqueca, pode ser a gastrite…

• Obesidade: Por mais que o espelho diga todas as manhãs que está acima do peso, muitos empreendedores continuam tendo uma vida sedentária, alimentando-se mal e dormindo pouco.

• Ansiedade: A rotina do empreendedor é naturalmente intensa e diversas novas decisões precisam ser tomadas todos os dias. Para Alton, isto pode favorecer crises de ansiedade. Nosso problema é que o Brasil é recordista mundial em pessoas com transtornos de ansiedade, segundo a OMS. Quase 19 milhões de brasileiros são diagnosticados clinicamente como ansiosos.

• Disfunção sexual: E como se não pudesse piorar…

• Depressão: Apesar de exigir diagnóstico clínico, o número de pessoas que sofrem com a depressão tem disparado no Brasil. A pesquisa mais recente da Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que há, pelo menos, 11,5 milhões de casos registrados no país.

• Vícios: Em alguns casos, Alton explica que se tenta combater a enorme carga de pressão do empreendedor com algum tipo de consumo crítico de alguma substância, desde o café, cigarro ou álcool aos entorpecentes proibidos.

Mesmo que as aflições pessoais dos empreendedores ainda não recebam tanta atenção, elas estão presentes na sua vida pessoal. Por isso, é preciso lembrar algo óbvio: todas têm tratamentos!

Para o empreendedor ser um super-herói (e é de fato dado às dificuldades que enfrenta) precisa ser forte. Mas antes disso, deve estar saudável.

Marcelo Nakagawa é Professor de Inovação e Empreendedorismo do Insper

 

A escova de dente do Google e outras ideias para tornar sua empresa melhor

27 de outubro de 2017

“O empreendedor quando vê uma cobra, vai lá e a mata!” – explica Romeo Busarello, um grande amigo de longa data e colega de trabalho. “Mas a grande empresa, quando vê uma cobra, cria um comitê de cobra…” – finaliza seu irônico raciocínio sobre como as grandes organizações operam atualmente.

Em algum momento, as grandes empresas se perderam em reuniões (ou nas várias mensagens apenas para agendar uma), títulos e cargos, processos e KPIs e outras idiossincrasias corporativas e desaprenderam a fazer o que precisa ser feito de forma eficaz.

Neste sentido, boa parte dos empreendedores mais bem sucedidos acaba inventando soluções simples que parecem toscas em uma primeira análise, mas que guardam uma profunda sabedoria quando os resultados chegam. Empreendedores e executivos de organizações de qualquer porte podem aprender muito com quem “mata a cobra e mostra o pau”, por mais polêmico que possa parecer agora esta expressão popular do passado.

Se reuniões ineficazes se tornaram uma praga na sua organização, considere as práticas de Steve Jobs, da Apple, e Michael Bloomberg, da Bloomberg News. Jobs costumava fazer suas reuniões mais importantes caminhando. Alguns estudos apontam que isto pode ser uma boa solução, pois ativa os dois lados do cérebro, acentuando a capacidade de resolução criativa de problemas. Bloomberg, por sua vez, fazia as reuniões da sua equipe com todos de pé. Este incômodo incentivava a objetividade dos presentes e inibia os que falavam mais do que o necessário.

E nestas reuniões, cada um sai com uma meta para cumprir. Bloomberg pedia para que os que estavam nesta situação que trocassem o relógio para o pulso da outra mão, até que entregassem o que tinha sido combinado. Experiente trocar seu relógio de braço só para entender a eficácia deste método. Mas como as pessoas trabalham em equipes, Jeff Bezos, da Amazon, criou a Regra das duas pizzas. O tamanho ideal para uma equipe realmente funcionar é aquela que pode ser alimentada com duas pizzas. Mais do que isso, a improdutividade começa a aumentar, acredita.

Mas é preciso achar as pessoas certas para o time. Todos os empreendedores bem sucedidos acabam criando sua própria receita para isto, caso contrário não seriam o que são. Isto vai desde Tomas Edison, fundador da General Electric, que não empregava ninguém que colocasse sal na comida antes de experimentá-la, pois queria pessoa que testassem suas criações antes de coloca-las em prática, passando pelo Comandante Rolim Amaro, que não contratava ninguém que comesse devagar, pois entendia que pessoas assim não pensavam rápido, até chegarmos à fórmula PSD – Poor, Smart, Deep desire to get rich (“pobres, espertos, com muita vontade de ficar rico”), utilizada pelo Jorge Paulo Lemann na identificação de talentos para as diversas empresas das quais é acionista.

Sam Walton, do Walmart, também tinha suas manias. Em um caderno anotava todas as noites algum exemplo de por que sua empresa tinha sido melhor do que ontem. Um dia poderia ser um excelente atendimento que fez a um cliente, no outro, uma boa negociação de preço de um item com o fornecedor. No final do ano, tinha anotado mais de 300 melhorias. Com isto, sua empresa se destacava mais do que qualquer outra.

Mark Zuckerberg, do Facebook, também é sempre muito autêntico nas suas abordagens. Uma das mais conhecidas e copiadas pelo seu time é impor-se uma única e grande meta pessoal anual. Em vez de fazer diversas promessas, que já serão esquecidas no dia 2 de janeiro, Zuckerberg mira uma só por ano. A deste, é visitar todos os estados norte-americanos para conhecer as pessoas pessoalmente. Combustível para discussões para quem faz isto digitalmente.

E entre todas as soluções práticas inventadas pelos empreendedores, a de Laércio Cosentino, da Totvs, é a mais gostosa. Na sede da empresa,  mantém uma cozinha na qual ele mesmo pilota as panelas enquanto recebe clientes e parceiros. É uma das formas mais inteligentes e saborosas de criar vínculos com as pessoas.

Mas depois de um bom almoço ou jantar, em algum momento, virá a necessidade de escovar os dentes. É aqui que entra o teste da escova de dentes defendida por Larry Page, co-fundador do Google. Para se tornar um produto da empresa, a ideia precisa ser uma solução “escova de dentes”, ou seja, algo que se precisa usar uma ou duas vezes por dia, pelo menos, e que torna a sua vida melhor.

Por isso, se você criou um comitê achando que iria resolver o problema facilmente e agora coisa está ficando russa, vale o ensinamento de uma amiga minha de lá: Нет ничего на свете проще, чем взять и усложнить себе жизнь. Ou não há nada no mundo que seja mais fácil do que tornar a vida mais difícil.

Marcelo Nakagawa é Professor de Empreendedorismo e Inovação do Insper e Coordenador de área – Pesquisa para Inovação – da FAPESP

A pergunta que só 6% entre os mais inteligentes sabem responder

20 de outubro de 2017

É o MBA mais caro do mundo. O investimento total estimado para os dois anos de dedicação integral do aluno é de, no mínimo, R$ 700 mil. É também o mais exigente. A média da nota do GMAT, prova que avalia conhecimentos de matemática, lógica, inglês e rapidez de pensamento, dos aprovados neste programa em 2016 foi de inacreditáveis 737 pontos, a mais elevada entre todos os programas de MBA do planeta.

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E mesmo diante do custo e da dificuldade, cerca de oito mil pessoas se inscrevem para participar do processo seletivo deste curso. A média dos outros nove MBAs mais demandados do mundo é de cinco mil interessados. Considerando estes aspectos, o MBA da Escola de Negócios da Universidade de Stanford é, de longe, o mais difícil de passar no mundo. De cada 100 inscritos, apenas seis entram. A média dos outros nove MBAs mais concorridos é de 17%.

O preço pode não explicar a dificuldade em ser aprovado em Stanford. Outras escolas de negócio renomadas cobram quase o mesmo valor. E pelo menos dois terços dos aprovados recebem algum apoio financeiro para bancar o curso. Tampouco o GMAT. A média dos outros nove MBAs mais demandados do mundo é apenas um pouco mais baixa: 724 pontos. Assim, uma boa parte dos mais bem aprovados nas outras também passaria na Escola de Negócios de Stanford se o GMAT fosse o principal critério.

A maior dificuldade em passar está na temida e muito conhecida questão da redação. Há duas dissertações. A segunda é bastante fácil de ser respondida: Por que Stanford? Não é preciso dar muitas explicações do interesse em estudar na universidade que é o centro do Vale do Silício. Mas o desafio da vida é encontrar algo para primeira pergunta, que é simples mas que responde pelo seu passado, presente e futuro:

O QUE É MAIS IMPORTANTE PARA VOCÊ E POR QUE?

Há mais de 13 anos que a Universidade de Stanford mantém esta questão que faz os interessados buscarem uma resposta dentro de si. Em boa parte das pessoas esta resposta sequer existe. Esses errantes já desistem no rascunho resposta. Afinal, o que é mais importante para você e por que?

Alguns responderiam que a família é a coisa mais importante. Além de ser algo óbvio, a universidade diria: Ótimo, concordamos. É melhor ficar com ela. Outros responderiam: dinheiro. E novamente, a resposta se limitaria a então é melhor escolher outra instituição. Dos 25 principais programas de MBA do mundo, Stanford ocupa a última posição quando o assunto é sair empregado na formatura e o salário médio de um recém-MBA seu não é o maior.

Stanford mantém a pergunta, pois sabe que muitas pessoas nunca pararam para pensar sobre o que é realmente importante para elas e daí vivê-las intensa e verdadeiramente. São errantes, zumbis que se alegram, cada vez mais, com emojis, kkkk, likes e shares. Que vivem vidas alheias e seguem pessoas inteligentes que pensam da mesma forma. E ao serem questionadas sobre o que é realmente importante, perceberão, de forma trágica, que é o seu perfil em alguma rede social, pois é lá que gasta a maior parte do seu tempo. Mas aí vem a parte final da pergunta que traz um vazio existencial: Por que?

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Assim, de todas as dicas disponíveis para dar uma boa resposta para a pergunta que não é da Escola de Negócios de Stanford, mas da sua vida, a mais impactante foi dada no discurso de formatura mais popular de todos os tempos, a do Steve Jobs, justamente para os formandos em Stanford em 2005: “Seu tempo é limitado. Assim não perca seu tempo vivendo a vida de outra pessoa. Não seja ludibriado por dogmas, que é o resultado do pensamento dos outros. Não permita que o barulho da opinião dos demais cale a sua própria voz. E o mais importante: tenha a coragem de seguir seu coração e intuição. Eles, de alguma forma, já sabem o que você realmente quer se tornar”.

É muito provável que muitos procurarão, mas não encontrarão uma resposta e, consequentemente, não entrarão neste MBA. Mas só fazer com que a pessoa acorde para si mesma e busque seu verdadeiro propósito de vida já fará com que a Escola de Negócios de Stanford cumpra a sua missão: Transforme vidas. Transforme organizações. Transforme o mundo.
Por isso, esta é pergunta do MBA da sua vida: O que é realmente importante para você e por que?

Marcelo Nakagawa é coordenador de área – Pesquisa para Inovação – da FAPESP