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Blog do Empreendedor
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O jeito Netflix de empreender

21 de maio de 2018

Dos tantos palestrantes bacanas que estiveram reunidos na semana passada no VTEX DAY de 2018, o que mais me empolgou – e eu admito que não esperava – foi o ex-CEO e cofundador da Netflix, Marc Randolph. Eu achei que assistiria a uma palestra burocrática e cheia de clichês de Silicon Valley, mas fui surpreendido por um cara muito bem-humorado, que descreveu a sua jornada cheia de imperfeições e reviravoltas, com verdadeiros conselhos práticos para qualquer empreendedor.

Desde 2004, Marc já não faz mais parte do dia a dia da Netflix e se dedica à sua paixão: iniciar empresas de tecnologia. Às vezes acerta, às vezes erra, mas adora mesmo assim, como ele mesmo diz, com muito carisma. Se acaso alguém ainda tiver alguma dúvida do currículo dele, aqui algumas empresas de sucesso que ele participou e investiu, em ordem cronológica:

1983: Mailbox Music
1984: Guitar FPTM Magazine
1986: MacUser Magazine
1987: MacWarehouse
1988: MicroWarehouse
1995: IntegrityQA
2012: Looker Data Science

Mas, sem dúvidas, todos estávamos lá para ouvir sobre a Netflix, e Marc não decepcionou. Contou do inicio da ideia, quando ele pegava carona na Kombi de seu amigo e futuro sócio Reed Hastings e falavam sobre empreender, encontrar uma ideia que valesse a pena apostar.

Os ensinamentos:

- Netflix era uma ideia ruim e não tínhamos dinheiro. Mas no final deu certo. O importante é testar a ideia e adaptar constantemente
- O empreendedor precisa de três coisas: alta tolerância a riscos, uma ideia e confiança
- Não precisa ser uma grande ideia, não precisa ser original, não precisa ser complicada, não precisa nem ser uma boa ideia
- Minha mulher achou a Netflix a ideia mais estúpida que eu já tive
- Assuma os riscos e faça alguma coisa com a sua ideia. Posso garantir a vocês: ninguém tem certeza de nada. Ninguém pode prever o que vai dar certo ou errado
- Ficar muito tempo avaliando se a ideia é boa ou não é pura perda de tempo. Tem que testar
- Onde encontrar uma bia ideia? Procure pela dor, pela dificuldade, onde as pessoas passam dificuldades. É na solução de problemas onde estão as melhores ideias
- A vida média de uma ideia é 24 horas. Começamos a semana com 60 ideias e no final da semana, com sorte, temos uma ideia viável
- Eu nunca sonhei que a Netflix se tornaria o que é hoje
- Sou um péssimo investidor anjo, pois me apaixono por todos os projetos

Ivan Primo Bornes (ivan@pastificioprimo.com.br) é empreendedor e fundador da rede de rotisserias Pastificio Primo (pastificioprimo.com.br)

Heavy metal nos negócios online

14 de maio de 2018

Começa nesta segunda-feira, às 12h30, o VTEX DAY com palestra Bruce Dickinson, vocalista do Iron Maiden, ícone de rock, piloto, empresário, investidor, cervejeiro, escritor, locutor, esgrimista e, hoje em dia, é também um dos palestrantes mais carismáticos do mundo dos negócios.

O maior evento de vendas multicanal da América Latina tem consolidado seu prestígio nos últimos anos por ser um evento de pegada mais leve e divertida, mas sem perder o foco em resultados: vendas. Integrando o online e o offline, as palavras de ordem fundamentais para quem quer entender o novo momento são os temas das inúmeras palestras:  omnichannel; cross border; marketplace; marketing, TI, estratégias e ações comerciais e operacionais; cases globais de sucesso; negócios na prática.

São esperadas 13 mil participantes entre segunda e terça, e mais de 150 palestrantes – um aumento de 25% em relação ao ano passado – e feira com os grandes ‘players’ do mercado. O evento acontece desde 2013, sempre com palestrantes importantes no cenário brasileiro e internacional.

No ano passado tive o privilégio de assistir a palestra de abertura com Sir Richard Branson .

Alguns dos nomes internacionais que estarão palestrando:

Marc Randolph, veterano empresário, conselheiro e investidor do Silicon Valley. Marc foi cofundador do serviço de transmissão de filmes e televisão on-line Netflix, que atua como CEO fundador, como produtor executivo do site e como membro do Conselho de Administração até sua aposentadoria em 2004.

Brian McBride, Chairman da ASOS.com, o varejista de moda on-line e presidente da Wiggle Ltd, o negócio de ciclismo e tri-esportes online. É o Ex-Country Manager da Amazon.co.uk, com base em Slough, no Reino Unido

Sucharita Kodali, especialista em e-commerce, varejo omnichannel, comportamento do consumidor e tendências no espaço de compras on-line. Ela também é uma autoridade em desenvolvimentos tecnológicos que afetam o setor de comércio on-line e fornecedores que facilitam o marketing on-line e o merchandising. Em sua pesquisa, a Sucharita aborda tópicos orientados para o consumidor, como previsão e tendências de e-commerce, melhores práticas de merchandising, otimização de conversão e computação social no mundo do varejo. Ela também é autora do “The State Of Retailing Online”, um estudo conjunto realizado anualmente com a NRF.

Leslie Leifer, vice-presidente de Estratégia Empresarial e Desenvolvimento de Negócios da 1-800-Flowers.com, Inc. Em sua função atual, Leslie é responsável por novas iniciativas de negócios e incubação de marcas para a empresa, que inclui: 1-800-Flowers. com, Harry & David, Cheryl’s Cookies e The Popcorn Factory. Sua experiência nos últimos 12 anos no 1-800-Flowers.com, Inc, inclui gerenciamento de produtos, gerenciamento de projetos, SEO, análise da web, UX / UI, integrações e migrações de plataformas e gerenciamento de campanhas.

Hannu Vangsgaard,  com mais de 20 anos de experiência de vários papéis na arena digital e de comércio eletrônico, ele co-fundou uma das primeiras agências de marketing on-line na Dinamarca em 1998 e, mais tarde, ele foi nomeado chefe de comércio eletrônico no maior varejista da Dinamarca, Dansk Supermarked, onde encabeçou o estabelecimento do negócio de e-com do grupo a partir do zero. Depois disso, ele atuou como chefe de digital no mesmo grupo. Ele passou a ser o principal funcionário digital de uma das três principais agências de publicidade e agora Hannu trabalha como consultor independente no comércio eletrônico e na transformação digital.

Zia Daniell Wigder, Chief Global Content Officer da Shoptalk, um novo evento no varejo global e comércio eletrônico com mais de 7.500 participantes e 700 CEOs.  Zia é responsável pelo desenvolvimento de mais de 100 sessões na agenda e pelo recrutamento de mais de 300 palestrantes de inovações de startups inovadores, marcas estabelecidas e varejistas, empresas de capital de risco, promotores imobiliários e muito mais. Ela ingressou na Shoptalk em 2015 depois de passar mais de sete anos como Diretora de Pesquisa na Forrester, onde supervisionou a loja digital da empresa e a pesquisa de comércio omnichannel. Ela também liderou a cobertura global de comércio eletrônico da Forrester com foco em mercados emergentes como Brasil e China.

Saiba mais do evento, inscrições e palestrantes: http://vtexday.vtex.com/

Nos vemos lá!Ivan Primo Bornes (ivan@pastificioprimo.com.br) – empreendedor e fundador da rede de rotisserias Pastificio Primo (www.pastificioprimo.com.br)

 

A força dos livros na era digital

7 de maio de 2018

Vai ser realizado no dia 9 de maio, na FECOMERCIO SP, um seminário celebrando os 40 anos da Associação Nacional de Livrarias, com o tema “A Sociedade do Conhecimento e o Livro como Ferramenta”. Serão abordados assuntos muito importantes sobre o mercado de livros no Brasil e no mundo, com debates sobre as tendências futuras e os números de vendas.

Temos que lembrar que o livro foi, provavelmente, o primeiro grande afetado pelo advento da internet. Hoje, praticamente qualquer livro é acessível online. É curioso lembrar que Gutemberg revolucionou o mundo em 1439 ao produzir os primeiros livros numa impressora, permitindo livros mais baratos e iniciando uma era de difusão popular do conhecimento humano. Assim também aconteceu em 1969 – data oficial do início da internet – quando se iniciou a revolução que hoje permite que toda pessoa com celular tenha acesso a praticamente qualquer conteúdo na palma da mão.

Mesmo assim o livro – e as livrarias – continuam resistindo firmes e fortes ao avanço da internet, e inclusive tem tido aumento de vendas. Mais de 90% das vendas de livros no Brasil ainda acontecem em livrarias e lojas físicas. Redes de Livrarias com a Livraria da Vila, com 10 lojas, não tem e-commerce. E a rede Leitura (de Minas Gerais) com cerca de 60 lojas, fechou sua loja online. Pelo visto, quando se refere a livros, muitas pessoas ainda preferem o contato com o papel, o caminhar pelos corredores e prateleiras com livros.

Em 2018 está mostrando um aumento no número de livros vendidos no Brasil de quase 10% sobre 2017. Já o valor arrecadado nestas vendas foi 6% menor. Os livros didáticos são os maiores vendedores, com 20%. Depois vem a ficção com 13%, seguidos pela literatura estrangeira com 12%. Os livros de direito são 9% do mercado e os dicionários tem 7% seguidos pela medicina com 6%. As maiores quedas de vendas foram dos livros direcionados para concursos públicos, que perderam 24%, seguidos por arte e comunicação com -0% e direito com -9%.

Achei pessoalmente interessante saber que as histórias em quadrinhos – também chamados de comics – e jogos tiveram um crescimento no último ano de 42% e hoje representam 3% da venda total – e eu entendo perfeitamente, pois eu continuo comprando e colecionando, reforçando a cada ano minha biblioteca de HQ.

Mais informações e inscrições:
www.anl.org.br

Ivan Primo Bornes (ivan@pastificioprimo.com.br) – empreendedor e fundador da rede de rotisserias Pastificio Primo (www.pastificioprimo.com.br)

 

A ex-colega do presidente da França que virou empreendedora no Brasil

2 de maio de 2018

A francesa Alexandrine Brami veio ao Brasil para passar um mês de férias em 2001. Mas o que era um passeio se tornou uma nova vida: acabou se mudando para o país e aqui, depois de trabalhar em atividades acadêmicas, decidiu fazer a difícil metamorfose para a vida de empreendedora – um desafio enorme em qualquer lugar do mundo, e que ganha ainda mais valor quando realizado dentro da complexa realidade brasileira; ainda mais para quem vem de fora.

Ex-colega de estudos do atual presidente da França, Emmanuel Macron, no Lycee Henri IV (considerado o melhor colégio do país), Alexandrine já era professora universitária em Paris quando foi convidada a treinar no Brasil estudantes da PUC-SP para ingressar na conceituada Sciences Po Paris, escola de negócios da França.

Esta demanda foi o embrião para a criação, em 2007, do IFESP, uma escola de ensino de francês especializada no acesso a renomadas universidades francesas, e que hoje se transformou numa plataforma de educação 100% online que já formou mais de 20 mil alunos, sendo que 9 mil deles ingressaram em universidades francesas, muitas deles com bolsa de estudos. Agora o IFESP cresce para oferecer muito mais do que ensinar o idioma de Victor Hugo: também prepara líderes e equipes de alta performance com treinamentos inovadores.
A seguir, Alexandrine conta a sua história empreendedora, destaca a importância da família, da ética, do gosto pelo estudo e pelo trabalho, e compartilha conosco sua visão humanista sensível com as questões sociais e políticas do Brasil.

Uma família de imigrantes
Sou francesa filha de imigrantes tunisianos e italianos. Meus pais investiram tudo que tinham (e tinham pouco, inclusive nenhum diploma e zero capital econômico) nos estudos de seus filhos. Somos oito filhos no total. E sempre nos ensinaram que o estudo é que faria diferença na nossa vida.

Nos incentivaram a estudar diariamente, buscaram as melhoras escolas públicas, contrataram professores particulares para aulas de reforço sempre que necessário. Tive a sorte de nascer na França, país onde o acesso aos estudos é facilitado por políticas públicas de fomento a educação , com bolsas e auxílios para famílias de baixa renda, com infraestrutura de boa qualidade e professores suficientemente bem pagos para se dedicarem ao seu magistério. A escola na França é ainda o grande “elevador social”. Com este legado, me considero hoje como uma “filha da República Francesa” e sinto desde sempre que devo retribuir de alguma forma tudo que eu recebi.

O gosto pelo desafio acadêmico
Como sempre gostei de estudar e de competir no plano acadêmico, fui sempre a primeira da minha classe. Com isso, consegui ingressar no melhor colégio da França, o famoso Lycee Henri IV, que historicamente acolheu grandes intelectuais, além de dois presidentes da república, o Georges Pompidou e o Emmanuel Macron, que foi meu colega de classe.

Escolhi o caminho mais difícil por gosto ao desafio e prossegui no mesmo colégio num curso preparatório para a concorrida Ecole Normale Supérieure, que formou gerações de professores universitários e pensadores. Foram dois anos matadores de intenso estudo, com matérias tão variadas, como Matemática, Filosofia, Letras, História, Geografia, Economia, Sociologia e
Russo, que estudei durante 12 anos.  O que adquiri neste curso preparatório e posteriormente na Ecole Normale Supérieure, além de um conhecimento incrivelmente extenso e rico, são competências essenciais para liderar, tais como: curiosidade, humildade intelectual, capacidade de planejamento e comunicação assertiva, forte resistência a pressão e resiliência. Alimentei ali valores enraizados na minha família: trabalho, cooperação, humanismo, excelência, além de uma ambição positiva de fazer o bem para o meus pais.

A Importância do network
Em 2001 entrei na Sciences Po Paris, uma das melhores business schools na França, que formou quase todos os nossos presidentes da república  – inclusive o atual presidente Emmanuel Macron. Lá eu fiz um mestrado em Ciências Políticas e ingressei logo no Doutorado. E ganhei, além de mais um preparo intelectual, o convívio com um network amplo e qualificado de acadêmicos, experts  e governantes ultra preparados.

Os mentores
Tenho dois grandes modelos que até hoje são fontes de inspiração para meu pensamento e a minha atuação.

- O sociólogo Pierre Bourdieu, falecido, que conseguia enxergar processos estruturais de funcionamento da sociedade e vulgarizar e comunicar com palavras impactantes as reivindicações dos jovens que protestavam na rua em busca de melhores condições de estudos e de vida. Um pensador da complexidade que falava à imprensa francesa de forma simples, traduzindo palavras de ordem totalmente dispersas em conceitos apurados; fazendo assim, ele dava legitimidade, senso e sustentação ao movimento estudantil do qual participava. Aqui no Brasil, tenho impressão que os jovens não tem sequer voz no espaço público. Às vezes eu me pergunto: onde está o Pierre Bourdieu do Brasil?

- O economista Pascal Combemale com quem tive a chance de estudar durante 3 anos macroeconomia e microeconomia, batia constantemente numa tecla: quem ambiciona mudar de dentro o paradigma neoclássico, deve conhecê-lo muito bem, estudar a fundo as hipóteses, as teorias, os conceitos, as metodologias e ferramentas, até achar as brechas e falhas. A “crítica interna”, dizia, é o que dava legitimidade e credibilidade aos melhores críticos deste modelo um lugar de destaque nas mesas de discussões ocupada afinal pelos tomadores de decisões. Aplico este método a tudo que faço: estudo sempre a fundo qualquer assunto de importância para o meu negócio, procuro conhecer por trás dos discursos as relações efetivas entre os players envolvidos e o jogo de poder que rege o tabuleiro. Com isto ganho confiança, consigo trazer na mesa insights pertinentes e dialogar de forma construtiva com quem está no topo. E olha que venho de baixo e sou uma mulher estrangeira num mundo (seja acadêmico, seja business) ainda dominado por homens.

A chegada no Brasil
Cheguei ao Brasil no final de 2001 para passar 1 mês de férias. Não tinha previsão de ficar mais, o meu doutorado era sobre a Rússia, já era professora universitária e jovem pesquisadora associada ao CERI – Centro de pesquisa de referência em Relações Internacionais em Paris.

Mas a Sciences Po me propôs um ‘challenge’: treinar intensivamente jovens estudantes da PUC-SP para que em menos de 6 meses pudessem se candidatar com mais chance de ingresso ao duplo diploma que a universidade tinha com a Sciences Po. Topei na hora. Transferimos as aulas que eu deveria dar em Paris para São Paulo. O programa deu tão certo que foi renovado e ampliado . Em 2006 eu lecionava na PUC-SP, USP e FGV e já estava preparando dezenas de estudantes. Quando cheguei ao Brasil, vivi um choque cultural grande: a população me parecia tão jovem, a proporção de jovens ia crescendo e, fora alguns privilegiados, a grande maioria estava chegando ao mercado de trabalho sem diploma nem preparo, a escola pública não assegurava a ascensão social, as infraestruturas eram insuficientes, os serviços públicos exangues.  Mas esses jovens tinham – e continuam tendo – um sonho: crescer, fazer algo relevante, viajar e conhecer o mundo lá fora e ter acesso aos bens prometidos pela sociedade de consumo.

Sentia na época que tinha no Brasil uma forte aspiração a mudança de sociedade. E aí veio Lula. E as promessas de mudanças radicais. E as frustrações geradas pelos acordos ad hoc e pelo modelo de governança por propinas e chantagens no mais alto nível do poder.

Hoje vejo que a sociedade, apesar de anestesiada politicamente, mudou: mais jovens de baixa renda cursam universidades ou tem esta expectativa, mais jovens brasileiros convivem com estrangeiros que tem ‘mindset’ e aspirações diferentes, mais jovens viajam para fora e descobrem um mundo de possibilidades. O Brasil se abriu, mesmo continuando muito fechado.

Outra diferença notável: na época, em 2002, ser empreendedor não era valorizado. Aliás, a palavra era meio depreciativa e remetia aquele microempreendedor por necessidade. Os modelos de sucesso eram executivos e empresários. Esta visão mudou. Hoje é legal se autoproclamar “empreendedor”, e assumir risco já virou um ‘soft skill’ ensinado nas melhores escolas de business. O bom nisto é que banalizou-se a imagem do empreendedor jovem ou sênior que deixa a carreira executiva mesmo que temporariamente para experimentar uma nova vida e rotina.

O surgimento da empreendedora
Para falar verdade, na época nem me passava pela cabeça abrir uma empresa ou trabalhar numa empresa. Reverenciava mesmo é a vida acadêmica e meu sonho era prosseguir na carreira acadêmica. Eu adorava livros e aquele ambiente seguro da universidade. Ainda sou apaixonada por ideias e um dia voltarei a lecionar.

Mas em 2006 decidi me instalar definitivamente  no Brasil. E precisava ganhar a vida. Então bolei um cartão de visita e comecei a correr atrás de oportunidades. Fiz varias missões no estilo freelancer para diversas empresas em jornalismo, gestão de projetos educativos, vendas etc . Por pura sobrevivência, já que tinha me desligado da academia na França. Mas no início eu era meio relutante e nos primeiros meses senti ter saído de minha zona de conforto sem saber ao certo o que me esperava.

A minha sorte veio de novo da academia e das portas que tinha aberto nesses 4 anos de ensino e pesquisa.  Eu tinha me associado ao GV-CENN, centro de empreendedorismo da FGV onde pesquisava a modernização das administrações tributárias nas três esferas do governo. Eu viajava direto para Rio e Brasília, fazia entrevistas com todos os players-chave desta mudança, frequentava cientistas políticos, encontrava grandes tributaristas e economistas em congressos.

E me aproximei da FIESP onde alguns tributaristas estavam colaborando com um projeto de reforma tributária. Acompanhei discussões e escrevi papers que foram publicados. Paralelamente passei a integrar e frequentar como pesquisadora o Comitê de Jovens Empreendedores da FIESP.

Uma noite, participei de um encontro com mais 200 jovens empreendedores reunidos para prestigiar e ouvir o Benjamin Steinbruch, da CSN. Ele foi lá contar como tudo começou, como ele virou empresário, seus erros e acertos, suas ambições e realizações. Ele falou de forma tão espontânea e apaixonada que eu tive um insight: eu também iria pensar grande e fazer a minha parte neste País. Sai do encontro eletrizada e decidi me apoiar no que eu sabia e gostava de fazer: empoderar pessoas talentosas com sonhos extraordinários, com excelência e inovação. Foi assim que nasceu o primeiro rascunho do IFESP – Instituto de Estudos Franceses e Europeus de São Paulo.

O inicio da empresa
Repito frequentemente que me tornei empreendedora por necessidade. Para sobreviver.  Mas que fiz deste vicio uma virtude. E no fundo hoje acho que eu tinha este espírito chamado “empreendedor” e energizador no sangue. E o Brasil – sua energia, o alto astral das pessoas aqui, a admiração que os brasileiros tem por tudo que vem de fora e que é diferente – deve ter potencializado isto em mim.

Nunca tinha empreendido, não tinha experiência na área, e meu sonho era outro: ser funcionária pública do governo francês, acadêmica atuando em Ciências Políticas. Desta forma , não tinha nenhuma formação em gestão, nunca tinha recrutado ninguém, não sabia como gerenciar projeto e equipe, não tinha expertise em marketing, direito, finanças. Mas fui. E errei muito. E trabalhei muito, fazendo tudo durante seis meses.

Até que encontrei a Pauline Charoki, uma jovem professora francesa que tinha acabado de chegar ao Brasil, cheia de energia, com quem compartilhava os mesmos valores e visão, ambas hard workers mas…também sem nenhum preparo para a vida empresarial :)

Em três meses a convidei para ingressar no quadro societário. Acho até agora que foi a melhor decisão que tomei. E foi no momento certo. Eu tinha 30 anos e ela 24. Nos duas começamos a trabalhar juntas, a compartilhar desta vida maluca, onde só tinha trabalho. Sacrificamos muito nossa vida pessoal. Mas valeu a pena. Não tínhamos nada – bens, contatos… – a perder além de horas de sono :)

A evolução do IFESP
Criamos o IFESP em 2007 usando e tropicalizando o modelo bem conhecido na França da escola IPESUP, tipo de cursinho para as melhores business schools de lá. Eu conhecia bem meu público alvo, jovens de 18-35 anos, com diploma universitário em curso ou na mão, que falam inglês, com mais ou menos recursos, mas todos com sonho de estudar nas melhores universidades francesas .. que são públicas então muito acessíveis aos brasileiros. Aos poucos, ampliamos o leque de atividades até nos tornarmos um hub de inovação em digital learning.

Hoje atuamos em três frentes correlatas: estruturamos uma fábrica de conteúdo digital; desenvolvemos um sistema de ensino com metodologia própria e inovadora de ensino de francês e português com duas escolas virtuais; oferecemos módulos sob medida de coaching e treinamentos profissionais com foco em Comunicação e Soft skills como complemento às aulas de idiomas para formar equipes de alta performance em multinacionais clientes e parceiras.

Uma Plataforma de Educação do Brasil para o Mundo100% de nossos serviços são online, 50% de nosso business é B2C o que nos ajuda na hora de oferecer as administrações públicas e empresas de médio a grande portes programas e cursos adaptados ao user final que conhecemos muito bem. Hoje o B2G e o B2B representam cada um 30% e 20% de nosso faturamento com licitações ganhas e contratos recorrentes com o TRT-SP e o Exército brasileiro (formamos 300 militares brasileiros espalhados no Brasil e fora em terrenos de operação)

Observamos nos últimos 12 meses uma mudança de perfil de nosso aluno: formamos profissionais mais sênior, com background mais sólido e necessidade imediata de praticar e/ ou aprender o idioma francês em tempo recorde, seja por motivações pessoais (mudar de emprego, preparar uma viajem ou reunião de negócio) ou a pedido da diretoria (no âmbito de um projeto de expatriação ou para agilizar a integração de culturas num processo de fusão – aquisição vindo de investidores franceses)

No total, em dez anos formamos 20.000 alunos, profissionais e universitários de todas as áreas, 9.000 ingressaram nas universidades francesas muitas vezes com bolsas. Registramos entre +20 e 35% de crescimento cada ano. Nunca ficamos no vermelho e sempre investimos recursos próprios para alavancar nossos projetos e preparar o futuro. Somos people e customers oriented: cada decisão é pautada desde o princípio em função do resultado esperado (performance, segurança…) de nossos clientes. Temos bom senso e seguimos boas (novas) práticas de pedagogia inspiradas nas recentes descobertas da neurociência: mesmo usando a fundo as novas  tecnologias de ensino, nunca esquecermos que o aluno é humano. Por exemplo, juntamente com ferramentas digitais que quebram barreiras, acompanhamos todos os nossos cursos online de tutoria, mentoring e coaching.

Em resumo fazemos diferença democratizando o ensino do francês, com uma metodologia inovadora 100% online, 100% completa e focada em objetivos, 100% perto do aluno.. a preços super acessíveis. Com nossa plataforma, o francês no Brasil já não é mais uma língua de luxo e quem estuda francês consegue  se destacar num mercado do trabalho cada vez mais competitivo.

Um modelo de gestão inspirador
Funcionamos num modelo organizacional sistêmico, onde squads se formam naturalmente em funções de competências, necessidades e afinidades, para acelerar a gestão de determinados projetos transversais todos com foco em inovação. Todos os colaboradores (sejam eles alocados na nave mãe ou trabalhando como parceiros em projetos pontuais) trabalham em rede com ferramentas colaborativas baratas que nos ajudam a otimizar as trocas e ganhar agilidade e produtividade em todas as etapas dos processos em todas as áreas e departamentos. Nos cercamos de uma rede de 20 mentores de alto nível, que são executivos, empresários e artistas de destaque na sua área, e que trazem conhecimento, contatos, dicas de ferramentas inovadoras e até desafios. Com eles, alimentamos nosso pipe de ideais que transformamos em projetos e resultados em tempo recorde.

O nosso principal desafio está no sourcing de talentos para alimentar de forma contínua nosso pipe de colaboradores. No Brasil, parece ser um problema estrutural: encontrar o profissional que tenha não somente valores e visão alinhadas, mas também expertise e também competências interpessoais desenvolvidas. Aprimoramos constantemente nossa política de recrutamento, implantando testes simples e assessments mais profundos para enxergar mais rapidamente os pontos fortes e o potencial de cada candidato;  estruturamos uma trilha de onboarding para cada novo integrante poder se integrar mais rápido ao resto da equipe e acelerar a aprendizagem inicial (ferramentas, processos, normas, expectativas etc); além do que implantamos uma cultura de reporting, feedback e transparência com KPI para cada área e projetos e OKR para cada membro da equipe. Com isto reduzimos em 80% os nossos “erros” de recrutamento, fomentamos a troca de conhecimentos e experiências e aumentamos a satisfação, a performance e o engajamento de nossa equipe.

Uma visão do futuro para o ensino no Brasil
Vejo um mercado enorme se abrir: o ensino médio e superior com mais de 50 milhões de jovens em busca de experiências de aprendizagem inovadoras, sem falar dos pais, educadores e grupos educacionais. Os jovens de hoje tem sede de aprender e experimentar, vontade de crescer e de se desenvolver como pessoas e profissionais. Só falta é unir forças, escutar os sinais fracos deste mercado educacional em plena transformação, ouvir e tirar as lições do que os gestores escolares e líderes educacionais fazem no dia e dia e tem a dizer, conhecer e se inspirar de experiências bem sucedidas no exterior para adapta-las a realidade brasileira…e avançar juntos para uma educação mais integrada, mais inovadora, mais focada em resultados, mais justa e mais aberta a diversidade.

A inovação chegou finalmente na agenda pública e privada e está em todos os fóruns e congressos. Passou de objeto de desejo a pauta das reformas governamentais na área.  E nós – challenger num mercado tão exigente como o mercado do francês -  estamos prontos para entrar na arena ao lado e em parceria com os melhores e mais ativos grupos educacionais do país. Penso na Kroton que adquiriu agora a Somos, a Conexia do grupo SEB, e demais  concorrentes nacionais e internacionais.

O tema da inovação e do digital learning está em voga, o timing esta bom e estamos prontos para o próximo passo. Só me falta agora encontrar os players chave e convencê-los de que o IFESP – com seu DNA startup e seu potencial – pode agregar valor. Para isto não me faltam argumentos e estarei no EDUCA Bett nos dias 8-11 de maio para defender está visão de que o francês, além e complementariamente ao inglês, representa uma oportunidade ímpar para internacionalizar os currículos de todas as escolas do país.

O bilinguismo está hoje na moda, mas sempre me recordo que ate 1946 o francês era ensinado nas escolas públicas. E quando encontro uma pessoa que estudou francês na infância falar de sua experiência de aprendizagem, me surpreendo sempre com o conjunto de emoções que surgem – prazer, alegria, sonho, saudade. O francês toca no coração,  tanto quanto ele destaca um perfil, transforma tanto quanto abre possibilidades. O que motiva qualquer pessoa a aprender? A razão? Talvez para alguns. Mas para todos eu diria: antes de tudo a emoção. “Le cœur a ses raisons que la raison ne connaît point” dizia Blaise Pascal.

A família empreendedora
Meu esposo que é francês e também empreendedor residente no Brasil há mais de 15 anos, sempre me apoiou, inclusive em decisões difíceis como retornar ao trabalho duas semanas após o nascimento de nossas filhas de 4 e 2 anos. E continua me apoiando com conselhos avisados, dicas práticas, trocas de experiências e indicações de contatos sempre pertinentes. O considero um verdadeiro parceiro que ajuda muito com as tarefas domésticas, o que me parece ser algo bem inusitado no Brasil.

Além disto, se eu tinha uma grande capacidade de trabalho e de organização, com a maternidade, tive que aprender a priorizar e sobretudo a desconectar. Aprendi lendo e praticando. Até que virou “habitus” para usar um conceito do Bourdieu que designa com isto o hábito “feito corpo”. Não leio meus e-mails nem olho meu telefone quando estou com as minhas filhas. Talvez por ter tido as meninas tardiamente, não me culpo pelo pouco tempo passado com elas e procuro oferecer a elas momentos de qualidade com presença total e escuta ativa.

Por fim, organizei minha vida pessoal de tal forma a facilitar a minha vida profissional e vice e versa. Moro a 1 minuto de meu office, posso almoçar com as meninas todo dia. Procurei e escolhi a escola, a academia, os médicos e as lojas onde faço compras num raio de 10 minutos a pé, um luxo em São Paulo. Este foco e planejamento que podem parecer trabalhosos de fora, na verdade valem muito a pena para conciliar de forma sustentável sonhos de realização profissional e pessoal, com rotina e imprevistos.

Estrangeiros empreendedores no Brasil
O Brasil é, além de uma população muito acolhedora, um fantástico laboratório de observação e experimentação, um mercado gigantesco e dinâmico onde podem importar e adaptar modelos de negócios validados em outros contextos.

Queria recomendar sobre a necessidade de enxergar o Brasil como uma economia onde precisa investir (seja tempo ou dinheiro) numa perspectiva de longo prazo para esperar colher frutos; onde, além de aliados e parceiros locais, precisa ter uma alta dose de resiliência, pois erros e fracassos são recorrentes num contexto legal e normativo em constantes mudanças; onde precisa aprender português e se imergir totalmente em círculos / networks genuinamente brasileiros, para compreender rapidamente além das palavras, as especificidades locais, seja no management ou na forma como são negociados e fechados negócios.

Sou muito grata ao Brasil por ter me acolhido e aceitado como eu sou. Aqui quebrei minhas barreiras internas, minhas crenças limitantes, virei EU verdadeira, empreendedora nata, visionária, embaixadora de minha língua e cultura, virei ativista política no sentido mais nobre do termo: formo – com meus meios e no meu nível – agentes transformadores da realidade e do mundo. Faço minha parte, ajudando os jovens talentos e profissionais a acelerar seu projeto acadêmico – profissional, dando a eles através do ensino de uma língua que destaca internacionalmente, a segurança para que possam se auto- afirmar e pleitear seu lugar na mesa dos poderosos.

Para terminar a minha citação favorita do grande poeta e pensador Victor Hugo: “Celui qui ouvre une porte d’école, ferme une prison”. Deixo aqui como um convite para todos os leitores me conhecerem e se unirem de uma forma ou de outra ao nosso projeto.

Para saber mais do IFESP:
www.ifesp.com.br
Facebook: www.facebook.com/ifesp
E-mail: contato@ifesp.com.br

Ivan Primo Bornes (ivan@pastificioprimo.com.br) – empreendedor e fundador da rede de rotisserias Pastificio Primo (www.pastificioprimo.com.br)

Cannoli para tubarões – o empreendedor que sobreviveu ao Shark Tank

23 de abril de 2018

O sonho de ser empreendedor é uma força da natureza, difícil de ser contida, que nos faz dar mil voltas até encontrar o seu curso. Hoje apresento uma entrevista muito divertida e enriquecedora com o empreendedor Alexandre Caliman, jornalista, publicitário, vespista e – acima de tudo – orgulhoso dono, junto com a esposa Mônica, da empresa Cannoli do Calimano.

No filme “O Poderoso Chefão”, o mafioso diz “Leave the gun, take the cannoli” (“Deixe a arma, pegue os ‘cannoli’”). Os cannoli são um dos doces mais conhecidos da Itália, originários da Sicília, onde eram presença obrigatória nas festividades das comunidades rurais e no carnaval. Hoje fazem parte do dia a dia das ruas e das confeitarias de toda a Itália. As receitas de cannoli chegaram ao Brasil junto com os imigrantes.

Assista o vídeo do Alexandre preparando a sua receita “secreta” na cozinha de casa.

Entre as várias aventuras que o negócio do cannoli vem proporcionando, Alexandre e Mônica foram selecionados em 2017 a participar na segunda temporada do reality show Shark Tank Brasil, onde apresentaram o projeto de investimento de transformar a fábrica “caseira” num negócio de grande porte. Mesmo não conseguindo convencer os “tubarões”, os doces foram um sucesso, e Alexandre levou para casa um grande aprendizado.

1. Qual o teu histórico profissional e como isso culminou na vontade de empreender?

Cara, meu histórico profissional é meio maluco e se confunde com a minha história de vida, porque eu sempre trabalhei, desde os 13 anos. Não porque precisava ajudar a família ou porque meus pais me obrigaram a isso. Mas porque eu queria!

Comecei como balconista em uma locadora de vídeo, e isso me deu uma muita noção de atendimento ao público. Sempre fui fã dos filmes clássicos e dos filmes de ação da época… fiquei uns 3 anos nessa locadora, vi muito filme, fiz muita sinopse e atendi muita gente do bairro, que virou minha amiga.

Bom, depois disso acabei indo trabalhar com meu pai na gráfica e aí aprendi com ele, e com a equipe toda, o valor da excelência nos processos. Ver a produção, acompanhar meu pai na gestão e também ajudar no dia a dia sendo uma espécie de “faz tudo” da gráfica me fez entender como é importante um empreendedor saber e já ter feito tudo o que é feito na sua própria empresa. Meu pai começou como contínuo numa gráfica, foi impressor, trabalhou em todas as áreas, foi vendedor e depois de, sei lá, 20 anos, resolveu abrir a própria empresa – que durou algumas décadas até ele adoecer e morrer bem novo, com 48 anos. Ele, Luiz Caliman, era uma força da natureza trabalhando, um líder nato. E era apaixonado por artes gráficas. Muitas vezes o vi saindo do papel de “dono da empresa” pra virar impressor, acabamentista ou tipógrafo, junto da equipe. Foram uns 4 ou 5 anos que passei ao lado dele que me inspiram até hoje.

Daí, com uns 20 anos fui trabalhar em shopping, fui estoquista, caixa e vendedor. Passei por uma loja de roupas e outra de sapatos. Nas duas, aprendi que um cliente, na maioria das vezes, entra pra comprar um item, mas se o trabalho for feito de forma apaixonada e correta, a gente convence ele a levar mais uns 3 ou 4 e ainda lhe agradecer no final.

Em 1999  me formei em Jornalismo (aos 25 anos) e aí fui trabalhar numa grande empresa. Já comecei sendo editor de quadrinhos, na Abril Jovem e agradeço ao universo por isso: terminei uma faculdade de jornalismo, mas fui trabalhar mais uma vez com coisas que amava, as HQ’s de super-heróis. Lá foram 3 anos de um aprendizado completamente diferente do anterior. Vi que numa empresa grande, só sobrevive quem está disposto a “se anular por um bem maior”… não tem espaço pra grandes ideias, não existem grandes possibilidades para arriscar. É tudo controlado pela instituição e a gente consegue, às vezes, colocar uma ideia própria em prática… é tudo muito mais político, mais engessado, mais hierarquizado. Mas foram anos incríveis também. Daí saí pro mundo da internet – lembra da bolha? Participei do portal Zip.net como editor, passei pelo UOL e, quando a bolha da internet estourou, acabei me tornando um redator publicitário.

Há uns 5 anos, talvez pela famigerada crise da meia idade, percebi que só a publicidade não me completaria pessoalmente e comecei a pensar em fazer algo relacionado a outra paixão que tenho na vida: a Itália e tudo o que está relacionado a este país. Sempre gostei de cozinhar e, modéstia a parte, sempre cozinhei bem. Foi então que, por hobby comecei a fazer os cannoli. Mas logo, virou empreendimento. E aí tudo começou a se mover diferente, pra um caminho bacana que, eu acredito, vai me levar ainda bem longe!

2. Você teve algum perrengue que serviu de aprendizado?

Tive. E foi com os próprios cannoli. Em 2014, depois do auge da onda dos food trucks, a gente (eu e a minha sócia e esposa, a Mônica) resolvemos abrir uma pequena loja em um strip mall do bairro (na Casa Verde) onde os eventos de food truck eram feitos com sucesso. Depois de 4 meses, fechamos. Não por falta de público, nem por conta de má gestão, mas por uma incompatibilidade de objetivos entre nós e os donos do pequeno shopping. Na verdade, eles só queriam a gente lá (e todos os outros que alugaram suas lojas) para não ficarem sem renda até a venda da propriedade. Claro que a gente não sabia dessa intenção deles e quando descobrimos, resolvemos cortar relações. Nesse episódio, aprendi que muitos fatores, além da qualidade do seu produto, bom atendimento e esforço pessoal, podem influenciar no seu negócio. Como por exemplo: o caráter dos donos do imóvel que a gente aluga pra montar um empreendimento.

E o maior aprendizado nesse caso foi o seguinte: não acredite “somente na palavra” de ninguém, faça contratos e especifique tudo nesses contratos. É o tal negócio… todo mundo é amigo, até as coisas começarem a ficar estranhas. Não estou dizendo que a gente deva desconfiar, nem que devemos ser pessoas rudes no trato e nas negociações. Acreditei, acredito e sempre vou acreditar nas pessoas, na gentileza e nos relacionamentos harmoniosos. Digo isso por uma questão de precaução mesmo e, vou usar outra frase feita pra exemplificar tudo isso: “o combinado nunca é caro”.

Aprendi que pesquisar antes sobre as pessoas, conversar com quem já fez negócios com elas, observar por um tempo antes de fechar negócio pode fazer a diferença na vida de um empreendedor e evitar algumas dores de cabeça.

3. A vontade de empreender veio antes ou depois do cannoli?

Creio que os cannoli surgiram de uma vontade absurda e contida que eu já tinha de empreender. Os doces (que pra mim são como joias) foram só a manifestação dessa vontade.

4. Como o empreendimento afetou a rotina da família?

Putz… senta que lá vem história… hehehe. Mudou tudo! Completamente tudo na nossa rotina. Eu continuo trabalhando como redator e a Mônica tem agora a dupla função de cuidar dos filhos e também dos cannoli (ela é quem coordena a produção, faz as compras, o financeiro e um montão de outras coisas). Esse apoio e a dedicação da Mônica com os cannoli são fundamentais pra boa saúde do negócio e da família. Sem ela, nada existiria, nem os cannoli, nem a família. Acho até que pra ser mais justo, a gente deveria chamar Cannoli da Monica, não do Calimano (risos). Acredito que vem dela toda a organização e a capacidade de conciliar a família com os negócios. Se dependesse só de mim, o foco estaria todo o tempo no trabalho. Mas quando eu estou “viajando” muito, deixando a família meio de lado, ela vem, me dá um puxão de orelha e me coloca no eixo de novo. Na prática, tentamos sempre estar o mais organizado possível para cumprir uma agenda. Procuramos sempre fazer tudo em família, quando é possível. No último evento que participamos, por exemplo, no Shopping Pátio Higienópolis, levamos os filhos com a gente. Enquanto trabalhávamos, eles comiam. E o Vito, 9, até que ajudou um pouquinho. A Giulia só curtiu o evento mesmo (risos).

5. Qual o teu ponto forte como empreendedor?

Ah… a vontade de fazer o melhor sempre, de não desistir. Também acredito muito na minha capacidade de comunicação com os clientes e no conhecimento que tenho do meu produto.

6. Conta um pouco de como foi a aventura do Shark Tank, como coisas legais  que aconteceram.

Foi uma experiência incrível. Primeiro porque eu achava que nunca seria chamado para participar, fiz um vídeo e me inscrevi muito despretensiosamente. Depois, porque o processo todo, do dia em que te ligam até o dia da gravação, é muito intenso. A gente fica imaginando como vai ser a vida se os tubarões toparem o negócio ao mesmo tempo que se prepara pra não fazer feio em frente às câmeras, ensaia o pitch umas 300 vezes por dia, conversa sobre a proposta umas 350 vezes, refaz os planos umas mil vezes… e aí quando vamos ver, já foi… E é muito bacana isso, como tudo o que tira a gente da zona de conforto. Foi muito legal conhecer os bastidores, ter contato com o pessoal da produção, todos muito ágeis e profissionais e gente fina (até hoje vendo cannoli pra alguns deles). É bem bacana ver como um programa de TV é feito e ficar cara a cara com os empreendedores considerados como alguns dos melhores traz pra gente uma confiança, um sentimento de que nada é impossível.

7. Qual o maior desafio enfrentado (e superado) até hoje com o Cannoli?

Creio que é o desafio que vamos ter que encarar sempre: a perda de um cliente. Esse ano, deixamos de atender a um restaurante que era nosso cliente desde o início do negócio. Foram quase 4 anos juntos e, como eles reformaram a cozinha e criaram uma estação dedicada a doces, passaram a fabricar seus próprios cannoli. Isso gerou um impacto negativo no início do ano, mas a gente superou encontrando um cliente ainda melhor, que compra mais do que esse restaurante e tem uma relação de parceria incrível com a gente!

8. Qual foi a maior besteira que você já fez? Alguma coisa que você teria feito diferente?

A gente tende a ter memória seletiva e esquecer as mancadas, mas algumas delas não esquecemos porque justamente nos ajudam e nos ensinam. Uma dessas foi quando eu, na ânsia de atender a tudo e a todos, aceitei fazer 4 eventos simultâneos em um final de semana. Foi uma loucura, correria. Saímos atrás de gente pra trabalhar, produzimos o dobro, nos enchemos de expectativas e 2 dos 4 eventos não tiveram nem a metade do público estimado. Deu tudo certo, graças ao nosso esforço, mas no final, não tivemos o retorno financeiro que imaginávamos. Chegamos à conclusão de que às vezes é melhor selecionar com calma quais eventos devemos participar, fazer contas imaginando o pior cenário e, só então assumir ou não uma responsabilidade. Resumindo, às vezes a gente ganha mais dando uma descansada e uma pensada nos próximos passos ao invés de sair como um trator querendo conquistar tudo!

Saiba mais do Cannoli do Calimano
Site:  cannolidocalimano.wordpress.com
Instagram:  instagram.com/cannolidocalimano
Facebook:  facebook.com/cannolicalimano

Ivan Primo Bornes (ivan@pastificioprimo.com.br) – empreendedor e fundador da rede de rotisserias Pastificio Primo (www.pastificioprimo.com.br)

Atletas Empreendedores

16 de abril de 2018

Segundo dados da PEGN, o Brasil é o 5º maior mercado mundial do setor de alimentos e bebidas saudáveis. Mesmo assim, ainda é um mercado carente de opções, em especial para as pessoas com foco em treinamento físico – e não apenas atletas profissionais, mas também uma enormidade de atletas amadores – que ao longo da semana gostam de comer alimentos que tenham propriedades funcionais que ajudem a alcançar uma melhor performance.

Neste contexto, os amigos de corrida Rogério Silva Pereira e Pedro Catalani enxergaram uma oportunidade de empreender vinda da própria necessidade de cuidar da própria alimentação, e em 2016 surge a Cozinha de Atleta, com 8 receitas de pratos prontos congelados, sem conservantes e low carb.

Como todo empreendedorismo “mãos na massa”, esta história é cheia de lições inspiradoras e práticas que o sócio Rogério me contou nesta entrevista:

Conte um pouco da história profissional de vocês.

Nasci em São Paulo e levo no sangue a herança empreendedora da mãe. Aos 18 anos ingressei na faculdade de Administração de Empresas e logo iniciei a carreira em uma multinacional de Telecomunicações, onde atuei até março de 2017. Em 2014, paralelamente ao emprego na multinacional e ao MBA em Gestão Estratégica de Negócios, conciliei tempo e investimento financeiro numa tentativa de atuar com a revenda de roupas jovens num bairro nobre de São Paulo. Era o ápice da crise econômica e os resultados iniciais foram minguantes, o que levou a optar pelo encerramento da atividade e evitar maiores prejuízos. O sangue empreendedor continuava a correr, no final de 2016, resolvi entrar de cabeça na Cozinha de Atleta. Após o desligamento da multinacional, passei a me dedicar 100% do tempo ao projeto de alimentação saudável. Tenho certeza de que este trabalho será um divisor de águas na minha vida profissional, afinal hoje consigo gerar emprego e levar saúde a qualquer pessoal que quer se alimentar bem. O Pedro também nasceu em São Paulo e acompanhou desde criança as aventuras empreendedoras de seu pai. Com formação de técnico em eletrônica e engenharia elétrica, o Pedro possui muito conhecimento técnico na área de tecnologia. Em 2010 aceitou um desafio para iniciar o departamento de projetos de uma empresa americana de ramo de merchandising que estava se estabelecendo no Brasil. Em 2012 uma nova proposta lhe fez assumir atividades realmente executivas quando foi convidado a abrir e erguer a filial brasileira de uma outra agência americana de merchandising. O Pedro sempre comentou que havia oportunidade a todo momento passando em nossa frente e que só assim iriamos conseguir chegar a um determinado êxito profissional.

Como é iniciar um negócio com um amigo?

Não temos uma amizade de longa data, porém unidos pelo esporte (corrida de rua), sempre estamos juntos, conversando sobre diversos assuntos. Um dos assuntos recorrentes, são as oportunidades e tudo o que ocorre ao nosso redor. Posso dizer que o esporte foi o embrião, onde aprendemos juntos a superar desafios que, quando parecia difícil, o outro surgia para apoiar e mostrar uma forma diferente. De certa forma somos muitos parecidos, afinidades são mil, mas acredito que merecem destaque ter uma comunicação direta, tratar tudo com objetividade e ser honesto. Acreditamos que levando a honestidade como principal valor, vamos conseguir ter uma empresa e um país melhor.

Amizade atrapalha o negócio?

Acho que ainda não tivemos problema com isso, mesmo que, vira e mexe, consigamos fazer nossas coisas como amigos. Conseguimos separar a hora de trabalho e amizade, talvez o equilíbrio de saber separar as coisas seja fundamental para este tipo de situação.

Primeiro veio a ideia ou a vontade de empreender?

A vontade de empreender já existia no sangue dos dois, só faltava uma ideia inovadora. O estalo aconteceu com um questionamento que fiz durante uma de nossas corridas: por que essa academia bem aqui na nossa frente não oferece alimentos dos quais os alunos realmente precisam, a exemplo de batata doce e frango? Poderiam usar máquinas automáticas refrigeradas pra isso. Parece tão simples de resolver! Começamos a fazer pesquisas de mercado a respeito disso e na medida em que as pesquisas foram evoluindo, criávamos confiança e iniciamos naturalmente a construção de uma linha própria para atender ao que ansiávamos.

A vida mudou depois de começar a empreender?

Pelo lado da família e amigos continua muito igual, eles sempre nos apoiaram e chegaram a participar de muita coisa dentro da empresa. Neste sentindo posso dizer que melhorou, descobrimos e damos mais valor a cada opinião, cada detalhe, cada ajuste que, mesmo simples, estão ligados a levar a uma empresa mais organizada. Sobre a rotina, hoje posso dizer que o dito popular é verdade. “Quando você trabalha para você, trabalha muito mais”. Ainda não conseguimos adequar as rotinas que tínhamos antes. Lembro que saíamos para correr quase todos os dias, até com a opção de correr em lugares diferentes espalhados pela cidade, coisa que hoje acontece com certa dificuldade.

Como é o dia a dia?

Não temos medo de trabalho duro, não pensamos duas vezes se é preciso varrer o chão ou fechar um contrato. Somos treinados (pela vida e por livros) na boa comunicação, sabemos conversar e respeitar desde o morador de rua até o presidente de uma grande corporação. Ambos tem boa educação familiar que faz certos sentimentos como ética e transparência se tornarem naturais e até facilitam em tomada de decisões. Boa instrução acadêmica: eu sou administrador com MBA e o Pedro é engenheiro elétrico com MBA, ambos com profundo conhecimento em gerenciamento de projetos, portanto a forma de pensar dos dois é parecida e isso facilita demais.

Qual é o destaque da Cozinha de Atleta?

Acreditamos que a empresa tem como ponto forte a ideia inovadora: praticidade na utilização de ingredientes funcionais. Cada produto foi pensado para ter a opção de ser consumido frio, onde o cliente pode abrir e consumir o produto em qualquer lugar, sem a necessidade de talher ou aquecimento. A marca cresce a cada dia! Conseguimos fazer boas parcerias, inclusive levar o produto a outras regiões e Estados. A distribuição é algo que ainda precisamos evoluir, precisamos desenvolver novos negócios para ter uma malha mais eficaz com um custo menor ao cliente.

Qual foi o maior desafio até agora?

Acredito que foi ajustar os 8 produtos para uma embalagem única, com uma formatação que atenda o mercado de forma prática. Tivemos que dar alguns passos para trás e desenvolver com um fornecedor especializado em embalagens para superar o desafio de ter uma caixa de forma única para atender todos os produtos. Recordo que, no dia em que pegamos alguns produtos na mão, já na reta final de desenvolvimento, colocamos na embalagem que achávamos que era ideal e descobrimos que estávamos longe de um produto ideal para o mercado. Voltamos a diversos supermercados e fomos olhar embalagem por embalagem pra consolidar pontos positivos e negativos até chegar num consenso de formato que temos hoje.

Teriam feito alguma coisa diferente?

Tudo tem dado muito certo e creditamos isso à nossa confiança em Deus. Não acreditamos em coincidências e até os maiores problemas que enfrentamos pensamos que, de alguma forma, vêm para o nosso bem. Posso citar um exemplo: no início, pensávamos que nossa maior dificuldade seria conseguir convencer varejistas a comprarem nossos produtos, sendo assim usamos de todas as nossas técnicas para que nossos primeiros revendedores comprassem as maiores quantidades possíveis. Resultado: um desses clientes não soube trabalhar com os produtos, deixou tudo em geladeira. Decidimos fazer a troca de 48 caixinhas que estavam estragando na gôndola da loja. Depois disso criamos estratégias para trabalhar o sell-out, ajudar nossos clientes a fazer o produto sair da gôndola deles. Hoje quando (raramente) nos perguntam se trabalhamos com permuta ou troca não hesitamos em responder: pra que se nós vamos te ajudar a vender tudo que comprar?

Para saber mais:
Site http://cozinhadeatleta.com.br
E-mail: faleconosco@cozinhadeatleta.com.br
Facebook: CozinhadeAtleta
Instagram: @CozinhadeAtleta
Ivan Primo Bornes (ivan@pastificioprimo.com.br) – empreendedor e fundador da rede de rotisserias Pastificio Primo (www.pastificioprimo.com.br)

Alta taxa de mortalidade de restaurantes

9 de abril de 2018

Aproximadamente 50% dos empreendimentos em gastronomia fecham em 2 anos.  Ao contrário do que muita gente pensa, trabalhar com comida definitivamente não é um negócio para amadores. Ao mesmo tempo, parece ser um dos que mais atraem marinheiros de primeira viagem – com resultados previstos.

A gastronomia está ligada ao lúdico, ao criativo, ao charme, ao artista dentro de cada um de nós. Elementos românticos, familiares e culturais são influência importante para investir em cozinha. Está conectado ao epicurismo, ao prazer da vida, à saúde, ao lazer, às viagens. E o maior de todos os perigos, o canto da sereia: parece fácil.

Tampouco podemos esquecer muitas das complexidades extras do setor, quando comparado com outros negócios:

- Alta perecibilidade da matéria prima e impacto na gestão de taxas de desperdício

- Questões de saúde pública, higiene, manipulação de alimentos

- Necessidade intensa de mão de obra

- Falta de mão de obra profissional na base de auxiliares

- Custo de aluguel elevado em pontos de alta visibilidade

- Margens apertadas e variáveis por sazonalidade

- Licenças, permissões e alvarás específicos

- Necessidade de alto comprometimento do dono (horas de trabalho)

Ao olhar ao meu redor, vendo tantos lugares que tinham excelente potencial, agora fechados, me fez listar alguns casos comuns de fracasso.

1) O restaurante tem gastronomia ótima, o dono/cozinheiro é genial… mas um péssimo administrador. Não sabe calcular o preço do prato: ou cobra caro demais ou barato demais. Fluxo de caixa é algo de outro mundo, assim como questões trabalhistas podem ficar esquecidas. O resultado é previsível.

2) O dono é um excelente administrador, leva a conta de cada centavo. Mas não sabe a diferença entre uma carne de qualidade e uma de segunda linha, troca um queijo caro por outro mais barato sem saber – ou entender – o impacto que isso traz na qualidade do prato e na percepção do cliente. Assim, os clientes começam a fugir e, provavelmente, o restaurante entra a fazer cada vez mais promoções, investe no Grupon e similares. Já imaginamos onde isso vai parar.

3) Dois donos, sendo um ótimo administrador e outro um cozinheiro genial. Combinação perfeita, só que… desentendimentos de sócios são muito comuns, e cachorro com dois donos, morre de fome.

4) Outro caso comum: o chef de cozinha é genial, prepara pratos maravilhosos, mas é um cretino no relacionamento com sua equipe, com fornecedores ou até mesmo com clientes. Rapidamente tudo vira um inferno.

5) E ainda tem o fator sorte. Imagina que vc fez o dever de casa, se preparou bem, estudou fluxo de caixa, gastronomia, mercado, cardápio, margens, equipe nota dez… e errou o ponto. Ferrou. Já aconteceu comigo. O imponderável também faz parte da equação.

Ou seja, não basta com ser um ótimo gestor, é necessário também conhecer de produto e gostar de serviço. Um bom plano de negócios, com a devida expectativa de capital de giro, é fundamental. Uma pitada de sorte não vai fazer mal.

A maioria das pessoas ilusiona que trabalhar na gastronomia é ficar o dia todo cozinhando para os amigos e tomando vinho. A realidade é bem outra, e valendo os 99% transpiração e 1% de diversão.

Ivan Primo Bornes (ivan@pastificioprimo.com.br) – empreendedor e fundador da rede de rotisserias Pastificio Primo (www.pastificioprimo.com.br)

Gentileza Gera Gentileza

3 de abril de 2018

Tenho abordado o assunto da Inteligência Emocional diversas vezes e com vários enfoques – na aventura, no Jedi, na montanha e no fracasso, por exemplo.

Hoje quero compartilhar com você o meu entusiasmo por esta habilidade social – que sim, a literatura especializada garante que pode ser desenvolvida e melhorada e que muitas vezes é deixada em segundo plano – já que ser empreendedor é lidar com pessoas o tempo todo.

Também chamado de QE (quociente emocional), para mim é certamente um dos elementos mais importantes para obter sucesso em qualquer empreitada e, sabendo disso, dedico bastante tempo ao aprendizado humilde e demorado destas capacidades – e acredite, não é nada fácil.

Na antiga Grécia, em 400 a.c. Platão diz que todo aprendizado tem uma base emocional. Hoje parece uma ideia óbvia, mas na época isso foi muito revolucionário e influenciou tudo e todos a partir desse ponto.

Nos anos 1930, o psicometrista Edward Lee Thorndike começa a definir o conceito de “inteligência social” como a capacidade de se dar bem com as outras pessoas, com uma função utilitarista.

Se passam 50 anos e, em 1983, um psicólogo chamado Howard Gardner escreve um livro chamado Estruturas da Mente, onde elabora uma teoria que afirma que as pessoas tem 7 tipos de inteligência (inteligência visual/espacial, inteligência musical, inteligência verbal, inteligência lógica/matemática, inteligência interpessoal, inteligência intrapessoal e inteligência corporal/cinestética).

Em 1990 os psicólogos Peter Salovey e John Mayer divulgam uma teoria e usam pela primeira vez a expressão Inteligência Emocional, que definem como “…a capacidade de perceber e exprimir a emoção, assimilá-la ao pensamento, compreender e raciocinar com ela, e saber regulá-la em si próprio e nos outros.”

Mas foi o californiano Daniel Goleman que “lacrou” o assunto e ganhou notoriedade com o livro best-seller Inteligência Emocional em 1995, colocando um holofote definitivo sobre a importância da “…capacidade de identificar os nossos próprios sentimentos e os dos outros, de nos motivarmos e de gerir bem as emoções dentro de nós e nos nossos relacionamentos.”

Para Goleman, a inteligência emocional é a maior responsável pelo sucesso ou insucesso dos indivíduos, inclusive indicando que a maioria das situações de trabalho é envolvida por relacionamentos entre as pessoas. E, desse modo, pessoas com qualidades de relacionamento humano, como afabilidade, compreensão e gentileza, têm mais chances de obter o sucesso.

Parece fácil, não? Mil livros, muitos cientistas pesquisando o assunto, e mesmo assim nenhum resultado é garantido!

Pois é, o QE é muito, mas muito difícil de adquirir – provavelmente a jornada de uma vida inteira. Um bom começo me parece ser praticar todos os dias com as pessoas que estão ao nosso redor – quem sabe um básico bom dia ao vizinho de casa? No supermercado? À pessoa ao seu lado no metrô? Como dizia o Profeta: Gentileza Gera Gentileza. E eu complemento: Gentileza Gera Inteligência Emocional.

Ivan Primo Bornes (ivan@pastificioprimo.com.br) – empreendedor e fundador da rede de rotisserias Pastificio Primo (www.pastificioprimo.com.br)

Empreendedorismo ao redor do mundo

26 de março de 2018

É provável que os Estados Unidos sejam o país empreendedor por excelência, e que todos os demais países olham sempre para lá em busca de exemplos e inspiração. Empreender está na base da cultura americana. Na Declaração de Independência 1787, Thomas Jefferson escreveu uma das frases mais bonitas do direito e da política universal: “todo homem é criado igual, que todo homem é dotado pelo Criador de certos direitos inalienáveis, que entre estes direitos se encontra o direito à vida, à liberdade e à busca da felicidade.”  A busca do “Sonho Americano”, que é prosperar através de trabalho e boas ideias, é considerado um princípio básico ensinado desde muito cedo a todos os americanos de todas as classes sociais. Esse foi o sonho que impulsionou os pioneiros que desbravaram o oeste, e essa foi a atração que os Estados Unidos tiveram a tantos imigrantes que foram “fazer a América”.

Em artigo publicado na semana passada nos Estados Unidos, o americano especialista em marketing digital Jayson DeMers destacou qualidades e dificuldades em alguns países do mundo que também tem forte cultura empreendedora, entre eles o Brasil.

Alemanha
Os alemães têm uma forte cultura de trabalho ético, e são extremamente focados. “No entanto, iniciar um negócio na Alemanha é mais complicado do que em muitos países. O Banco Mundial coloca a Alemanha na 113 posição em termos de facilidade para iniciar um novo empreendimento. A principal razão, citada no artigo, é que os alemães priorizam o trabalho no governo e em grandes empresas. Os melhores e mais talentosos profissionais são absorvidos por empregos mais estabelecidos, que são mais prestigiosos. Assim ficam muitas oportunidades empreendedoras sem demanda. A parte boa são os imigrantes, que constituem grande parte dos pequenos negócios e com enorme vontade de prosperar.”

Nova Zelândia
Ser empreendedor neste país não é fácil do ponto de vista social. “O Banco Mundial coloca a Nova Zelândia no topo da categoria de “facilidade de iniciar um novo negócio”, mas o país enfrenta outro tipo de problema, muito local, chamado de Tall Poppy Syndrome (TPS) que pode ser traduzido livremente como um tipo de rejeição a pessoas ricas e bem sucedidas e contra o individualismo. De acordo com uma pesquisa de um site neozelandês de empreendedorismo, cerca de 75% dos empreendedores locais consideram o TPS um fenômeno real, e 42% afirmam ter vivenciado pessoalmente a rejeição. Tentando mudar este cenário, a Nova Zelândia está com facilidades de imigração e visa para empreendedores que queiram iniciar novos negócios

China
Até há poucos anos, a China era a grande fábrica do mundo, onde tudo é feito. “Mas agora a China está colocando foco em estimular empreendedores, principalmente na área de tecnologia, com investimentos estimados em 338 bilhões de dólares. Os empreendedores chineses estão em busca do sucesso e dispostos a fazer grandes sacrifícios. Assim, as startups chinesas são as que crescem mais rápido no mundo.”

Brasil
Nosso pais é considerado, no artigo, um exemplo “interessante”. Conforme de Jayson DeMers, as taxas de empreendedorismo tem crescido nos últimos anos, graças a estímulos governamentais e de investidores internacionais. “A sociedade brasileira enxerga o empreendedorismo como uma oportunidade de subir na escala social. Os cidadãos brasileiros priorizam trabalhar em pequenas e médias empresas.”

Ivan Primo Bornes (ivan@pastificioprimo.com.br) – empreendedor e fundador da rede de rotisserias Pastificio Primo (www.pastificioprimo.com.br)

 

A história do refrigerante artesanal GLOOPS

19 de março de 2018

No meio de tanto “storytelling fake” que grandes marcas tentam nos empurrar, é raro – e também muito satisfatório – quando encontramos um produto com o qual nos identificamos e ao mesmo tempo admiramos as pessoas que fazem a coisa toda acontecer. Eu acredito que é impossível separar o produto artesanal das pessoas que o fazem.

Assim aconteceu quando conheci o GLOOPS, o suco gaseificado (também chamado de refrigerante artesanal) que surgiu em 2012, e venho acompanhando sua trajetória, na luta de abrir espaço no disputado mercado de bebidas, em busca de uma alimentação mais saudável e divertida – valores tão importantes para mim.

Acredito que propagar estas histórias servem de modelo a empreendedores atuais e futuros empreendedores.

O nascimento do empreendedor

Gustavo Siemsen foi um empreendedor precoce. Aos 14 anos – junto com 2 amigos – iniciou uma pequena confecção de calções de surf que vendeu todo o primeiro lote rapidamente. Ao comprar o tecido para o segundo lote, o pai pediu para ele priorizar os estudos “Se der certo, você não vai ter mais tempo de estudar, e se der errado idem. Sem estudar você não irá a lugar nenhum, dizia ele.”

O momento da verdade

“Aos 42 anos, trabalhando na Pepsi, tive um momento de forte reflexão sobre meu propósito de vida e cheguei à conclusão de que além de não estar realizando meu sonho, eu estava indo contra alguns dos meus próprios valores por estar incentivando o consumo de refrigerantes para crianças.”

“Foi neste momento que tive a ideia de criar uma bebida saudável que pudesse substituir os refrigerantes e que eu pudesse ter orgulho de vender. Que máximo seria montar a minha própria empresa e ao mesmo tempo contribuir com algo útil para transformar os hábitos alimentares da molecada, eu imaginava.”

A dúvida

“Neste momento, porém, bateu o desespero de perder tudo o que eu já havia conquistado na carreira, estabilidade financeira e um padrão de vida bem confortável. Tive que amadurecer a ideia por mais 4 anos antes de criar coragem para largar tudo e começar do zero.”

O passo adiante

“O nome Gloops surgiu de um brainstorm com minhas filhas onde começamos a ver expressões em gibis que representavam a sede ou engolir comida. Vimos palavras como Glupt, e fomos adaptando até chegar em Gloops, que tem um som parecido com um gole de bebida. Além disso queríamos um nome que pudesse ser universal, que funcionasse independente da língua ou do país que estiver sendo vendido.”

A produção

“Iniciamos a produção de forma artesanal na cozinha do nosso escritório há 3 anos atrás. Nós espremíamos as frutas, coávamos o suco e usávamos uma máquina que nós mesmo desenvolvemos para gaseificar. Esta máquina foi construída usando algumas peças de fábricas de cerveja artesanal adaptadas a um trocador de calor, pois o suco tem que estar bem gelado para incorporar o gás. Este desenvolvimento foi um processo longo que fomos aperfeiçoando ao longo do tempo.”

A diferença

“Nosso suco gaseificado não tem adição de açúcar e os refrigerantes naturais tem bastante açúcar na fórmula. Nós até usamos o termo refrigerante saudável para facilitar na explicação do que é o nosso produto, pois o fato de ser natural não significa que ele será saudável. Você pode colocar bastante açúcar orgânico na sua bebida e ela será natural, mas menos saudável que um suco sem adição de açúcar. Outro conceito que está surgindo é o do refrigerante artesanal, ou craft soda. Assim como no mercado de cervejas, nós acreditamos que as pessoas estão cada vez mais em busca de produtos artesanais, por isso há bastante espaço para estas opções que estão surgindo no mercado. Mas acreditamos que se o produto, além de ser artesanal, também for saudável, terá mais chances no médio e no longo prazo. Os consumidores estão cada vez mais bem informados e rapidamente eles estão percebendo as diferenças.”

O crescimento

“O primeiro ano foi assustador. À medida que o interesse pela bebida foi crescendo e as pessoas queriam volumes maiores para levar para casa nós tivemos que adaptar o processo. A máquina para gaseificar o suco ainda não estava totalmente pronta, mas os consumidores queriam comprar quantidades cada vez maiores. Tivemos alguns momentos de quase pânico, em que tínhamos encomendas grandes para o dia seguinte e a máquina não gaseificava direito ou o nosso fornecedor de frutas do Ceasa teve uma inundação e não conseguiu entregar. Corremos para o supermercado mais próximo e saímos com dois carrinhos cheios de limão, mas nunca deixamos de atender o cliente. Tivemos muitos momentos em que adaptar era o nome do jogo. Hoje, com a produção na fábrica, é bem mais tranquilo.”

O trabalho numa pequena empresa

“Tudo é muito diferente, as rotinas, os desafios, a falta de recursos, a falta de segurança. Mas para mim o que é mais relevante é o fato de não precisarmos fazer politicagem para agradar este ou aquele alto executivo, e não gastamos horas e recursos em reuniões intermináveis. Fazemos o que é importante para o consumidor e para o negócio, pois se der errado é no nosso bolso que irá doer. O fato de eu e o Ricardo, meu sócio, termos vivido por muitos anos em grandes empresas, nos permite trazer toda a experiência estratégica corporativa e implementar uma série destes processos no dia a dia da nossa pequena empresa. Então conseguimos extrair o que há de melhor numa grande corporação e somar com a agilidade e espírito inovador de uma startup.”

O futuro

“Hoje nosso volume mensal é de 25 mil litros, sendo que no primeiro ano vendíamos cerca de 1.500 litros por mês. Queremos estar presentes nas principais redes de supermercados, restaurantes, padarias e lojas de produtos naturais de Manaus a Porto Alegre.”

A definição do empreendedor, por Gustavo Siemsen

“O empreendedor é uma pessoa que gosta de sonhar, mas não se contenta apenas em sonhar, gosta de fazer, de transformar, uma pessoa irrequieta, que quer ver o sonho se tornando em realidade.”

Ivan Primo Bornes (ivan@pastificioprimo.com.br) – empreendedor e fundador da rede de rotisserias Pastificio Primo (www.pastificioprimo.com.br)