Blog


Blog do Empreendedor
O cotidiano de empreendedores como você
Twitter Facebook Orkut
Aumentar texto Diminuir texto

Cansado das startups disruptivas de alta tecnologia? Conheça as startups DTC que trazem frescor para mercados cansados

25 de maio de 2018

Há um tipo de startup que vem crescendo muito nos Estados Unidos, mas que ainda não decolou no Brasil: as DTC (Direct to Customer), novos negócios cujo produtor ou fabricante vende produtos tradicionais repaginados (aparelhos de barbear), reimaginados (alimentos) ou em versões inovadoras (colchões) diretamente para o cliente, sem depender de intermediários, representantes, franquias, distribuidores ou lojas físicas.

A principal vantagem para quem funda uma DTC é poder utilizar plataformas prontas, baratas e eficazes de comércio eletrônico, eliminando assim a dependência de uma equipe de desenvolvedores, algo que está cada vez mais difícil e caro encontrar e, principalmente, manter. A desvantagem é que as barreiras para entrar neste mercado são baixas (desde que o empreendedor tenha acesso ao produto que será comercializado), o CAC (Custo de Aquisição de Cliente) tende a ser alto e a complexidade e despesa logística, muitas vezes, inviabiliza o negócio. Mas com tantas DTC entrando e saindo, as ideias de negócio são renovadas e evoluídas constantemente, colocando pressão nas grandes corporações que também são obrigadas a trazer frescor para sua linha de produtos. Não à toa, todas os principais conglomerados de bens de consumo estão criando iniciativas de inovação aberta em todo o mundo.

As DTC seguem padrões parecidos: tendem a vender apenas uma categoria de produto, sempre de alta qualidade e design muito atraente a preços competitivos. Muitas startups ainda optam pelo serviço de assinatura, reduzindo a complexidade para o cliente das suas compras do dia a dia.

Criada em 1999, a BlackSocks é uma das startups DTC mais antigas e começou vendendo apenas assinaturas de meias pretas masculinas. A cada quatro meses chegaria três pares da meia preta que escolhesse e o executivo nunca mais perderia minutos preciosos pela manhã tentando encontrar o par correto. Jogue a primeira meia quem não passou por isso… Atualmente a BlackSocks expandiu seu negócio e vende meias… coloridas e cuecas.

Mas as grandes estrelas do DTC, ambas unicórnios (startups avaliadas acima de US$ 1 bilhão), fazem sucesso vendendo aparelho de barbear e óculos. A Dollar Shave Club já uma estória com final feliz, pelo menos para seus empreendedores. Em 2010, dois jovens, Mark Levine e Michael Dubin, tiveram uma ideia de negócio que beirava o ridículo para muitos: um serviço de assinatura de aparelhos de barbear. Assim, os peles-de-bebê nunca mais se lamentariam por terem esquecido de passar no supermercado ou farmácia. Mas para a surpresa desses muitos, incluindo os próprios empreendedores, a startup conseguiu captar mais de US$ 160 milhões de investidores renomados como Kleiner Perkins Caufield & Byers e Andreessen Horowitz. E mais para frente, o mundo dos negócios foi pego de surpresa quando a Unilever comprou o serviço de assinatura de aparelhos de barbear em 2016 por US$ 1 bilhão… em dinheiro.

Mas a nova geração de startups DTC quer ser mesmo a Warby Parker. O negócio que só vende óculos pela internet começou com apoio de dois mil e quinhentos dólares que os fundadores, Andrew Hunt, David Gilboa e Jeffrey Raider, quando ainda eram estudantes da Universidade da Pennsylvania, receberam da instituição. Mesmo que seja difícil de aceitar que alguém compre óculos online (incluindo por meio do seu premiado aplicativo), a Warby Parker captou quase US$ 300 milhões de investidores e seu valor atual está próximo de US$ 1,8 bilhão.

Pelo seu passado perrengue e presente bilionário, a Warby Parker se tornou a referência para muitos empreendedores que querem produzir algo especial (em geral, “o melhor do mundo”) e vendê-lo diretamente aos clientes, não importando se é colchão (www.casper.com), absorvente feminino (www.mylola.com), sutiã (www.harperwilde.com), sofá (www.burrow.com), vela (www.otherland.com), mala (www.awaytravel.com), bens genéricos de consumo (www.brandless.com), roupas íntimas (www.meundies.com), tênis (www.allbirds.com), tratamento de pele (www.curology.com), roupas de cama (www.bollandbranch.com), calça legging (www.thisisaday.com), roupas que nunca amassam (www.ministryofsupply.com) ou até queda de cabelo e disfunção erétil (www.forhims.com), entre outras centenas de novos negócios.

Neste contexto, se você pensa em empreender ou apenas gosta de novidades, considere as DTCs. Estas startups, como as suas congêneres puramente digitais, são as novas referências de inovação.

Marcelo Nakagawa é Professor de Inovação do Insper, FIA, Fundação Vanzolini e Instituto Butantan.