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Burger com sotaque italiano

20 de agosto de 2018

Esta é a história de Massimiliano Galise, o Max, italiano aventureiro que chegou ao Brasil em 2006, atrás do amor da vida, Luciana. Quando apareceu a oportunidade de empreender, decidiu realizar um antigo sonho familiar e, no começo do ano, abriu as portas do Galise Burger, no bairro Paraíso. Com estilo slow food, ele mesmo comanda a cozinha todos os dias, cuidando de cada detalhe, do compromisso “ultrafresh” e, claro, influência de sua família italiana nas receitas.

Aqui ele nos conta a sua jornada de vida e de empreendedor. “Os italianos são românticos e dramáticos ao mesmo tempo. Quero me despedir deste mundo cozinhando, como dizia aquela minha tia-avó napolitana que cozinhava tão bem e que tinha passado fome durante as duas grandes guerras. Se eu morrer, vou morrer cozinhando. Mas, antes disso, tenho caminho pela frente.”

Qual é sua história?
Sou nascido, criado e crescido na Itália até a tenra idade de 32 anos. Venho de um povoado de 17 mil pessoas, Saluzzo, no noroeste da Itália, no meio dos Alpes, bem na divisa com a França. Praticava muito alpinismo nos arredores do meu povoadinho. Montanhas, natureza… Em 2005 fui à Bolívia escalar um vulcão de 6 mil metros e lá conheci minha mulher, Luciana, que é brasileira.

Foi amor à primeira vista?
Bom…posso dizer que rapidamente voltei para a Itália para arrumar as malas e vender tudo porque depois daquele encontro tinha que seguir a Luciana! Hoje nossas filhas Teodora e Carmela tem 9 e 7 anos. Estou muito feliz…só me faltam os Alpes.

E a chegada ao Brasil?
Fiz de tudo nestes 12 anos de Brasil. Por exemplo, fui taxista por três anos, nesta cidade um milhão de vezes maior que a minha. Experiência boa e inesquecível. Um dia vou escrever um livro destas aventuras.

Desde quando você tem interesse pela gastronomia?
A minha família italiana (no caso eu, Mamma e Papá) não tinha incríveis condições econômicas. Não chorávamos, mas nunca fomos ricos. E sempre fizemos o que tinha que se fazer para “tirare avanti”, para irmos em frente de forma mais que digna. O sonho dos meus pais era, um dia, antes de morrer, abrir um pequeno restaurante. Os italianos são românticos e dramáticos ao mesmo tempo: antes de morrer… eu queria ter um restaurante e realizar este sonho da família. O restaurante tinha que ter 11 mesas, um número recorrente na cabalística de casa. E em casa cozinhávamos sempre. Sempre. Meu pai, minha mãe, eu. Viajávamos para o sul (o meu pai era de Pompei) e lá também todos cozinhavam e comiam. Existe um percurso culinário para ser desvendado na Itália, do norte ao sul. Sabores, temperos, mesclas, jeitos diferentes de preparar o mesmo prato que mudam em poucos quilômetros. E eu, desde criança, sempre em uma cozinha, entre norte e sul, querendo ajudar, querendo fazer…ou simplesmente roubando um gnocchi que tinha acabado de ser feito ou dando uma escapada na horta do tio para roubar um tomate direto do pé…E com aquela mordida,  descobrindo sabores maravilhosos. Não existia “não gosto disso ou daquilo”. Comia de tudo.

Quando apareceu o momento de empreender?
Bom, infelizmente em 11 de abril de 2011 minha mãe faleceu. Poucos anos depois o meu pai se juntou a ela. Era um dia 11 também. Como único filho herdei uma casa na Itália. Vendi a casa e decidi realizar o sonho dos meus pais: abrir o tal do restaurante de 11 mesas. Galise Burger é, portanto, o resultado do dinheiro que herdei, junto a vontade de investir o mesmo em algo que tivesse o sobrenome da família e que vingasse aquele sonho que meus pais não realizaram. O slogan da casa é “cucinando tutta la vita”, cozinhando a vida inteira.

Por que uma hamburgueria e não um restaurante mais italiano?
Apesar de uma vida de intensa prática em cozinhas caseiras, achei que não tinha suficiente experiência para abrir um restaurante, sabe…tipo de culinária italiana. E não tinha muuuito dinheiro para investir. Muitos pensam em burger como algo simples e básico. Talvez por alguns momentos também pensei isso, pelo menos antes de abrir. Creio sim que acreditei um pouco nisso. Hoje julgo o meu burger como algo que não faz parte da mesmice de muitos, e que porta a marca dos tempos e dos conhecimentos de vida e de viagens que fiz pela Itália e pelo mundo. O fato de procurar produtos orgânicos, de nunca congelar a carne que uso e de trabalhar exclusivamente com produtos de primeira, complica as coisas, ainda mais para quem abre pela primeira vez ao público e faz questão de estar na cozinha, na sala e no escritório da contadora. Tudo ao mesmo tempo, claro. Uma logística que poucos conseguem entrelaçar. Estou no começo: sete meses de porta aberta.

Como é a vida de um empreendedor?
O lado primata do empreendedor está no coração, claro, mas creio que esteja evoluindo conforme vejo crescer o meu espaço. Digamos que estamos caminhando de mãos dadas. Claro que não inventei o Galise sem pensar e sem ter convicção do produto que queria criar. Foi como um coquetel de ideias, sonhos, oportunidade e um pouco de loucura. Não escondo que o momento do Brasil, a casa muito nova e a primeira viagem no setor deixa tudo um pouco mais complicado: falo da minha vida  que mudou e também  do perfil econômico do negócio. Mas de verdade, penso que é isso que quero fazer até talvez um dia me aposentar..ou até morrer (rsrs).
Nestes dias, com a casa muito cheia e os pedidos que não paravam de chegar na minha cozinha, vivi um sentimento que talvez não saiba explicar: queria uma trégua, só um instante! Para tudo que estou me perdendo aqui! Mas ao mesmo tempo uma voz falasse assim “está tudo sob controle, você manda bem pra caramba, olha que linda a apresentação deste burger, já já acabam estes pedidos e você vai dar uma volta no salão, perguntando para os clientes se estão satisfeitos.” E eu adoro esta voltinha no salão, vendo as cabeças se mexendo em sinal de aprovação antes de eu perguntar qualquer coisa. Acho que é indispensável um pouco de loucura ou insensatez lógica e controlada para trabalhar na cozinha de um restaurante. Pelo menos é necessário ter a vozinha que fala com você mesmo. Como disse, os horários mudaram, e quando não estou cozinhando, penso. Penso nas novas receitas e (trabalho com um cardápio enxuto e que muda a cada 15 dias) nas possibilidades de modificar o espaço atendendo novas exigências que surgiram depois do primeiro semestre, e claro, nas finanças do empreendimento. A parte que gosto menos. Se você anda comigo na rua, eu estou sempre com pressa, vejo produtos novos, imagino, crio, não te escuto enquanto você fala de futebol e agora que percebo, estou a 10 metros pra frente de você. Os amigos se acostumaram. Acho. E gostam de como descrevo um prato que poderia ser feito por exemplo com aquela abóbora. Aliás, deixe eu anotar “abóbora” como um ingrediente de um futuro burger.

Como é a relação da família no empreendimento?
Inevitavelmente a família está envolvida: os meus horários malucos são o primeiro aspecto que mais revolucionaram a nossa rotina. As minhas filhas enlouquecem me vendo numa cozinha como profissional, e claro, queriam ajudar todas as vezes que jantam no Galise. Talvez sintam falta de cozinhar comigo, em casa, de domingo, assim como acontecia antes de abrir, quando juntos preparávamos gnocchi. Eu e minha mulher nos complementamos. Eu sou o sonhador, o impulsivo, aquele que não para. A Luciana é a parte lógica, o lado responsável do negócio. Eu me vejo hoje em uma deliciosa posição no ranking do Trip Advisor (8° lugar entre todos os restaurantes com 5* de SP) e quero subir mais e mais e mais… Ela fica mais de olho nas contas, ainda bem! De alguma forma, agradeço as minhas três mulheres pela paciência comigo!

Quais são os planos de futuro do negócio?
Para ser honesto, depois de sete meses de abertura, preciso recuperar o meu capital investido. Depois disso vou focar em um futuro mais longe. Não quero mais Galises. Talvez pense sim em um Galise com um espaço maior do que o atual, mas não estou pensando em franquias. Este negócio pertence a um sonho. E quero que permaneça, de alguma forma, ligado àquele sonho primordial. Mas poderia pensar em outra linha de produto. Um outro restaurante. Sei que tenho muitas coisas pra dizer e fazer para que as pessoas provem uma verdadeira cozinha italiana. Eu não frequento restaurantes italianos de São Paulo. Me perdoem, mas para um italiano o melhor restaurante é a casa da mamãe.

Se pudesse dar uma dica aos empreendedores que estão iniciando, qual seria?
Siga os sonhos, seja ousado, saia da mesmice, não crie um produto que já existe, seja único, e tenha ao seu lado alguém que te ama….e que de vez em quando te traz a realidade daquele boleto que está quase para vencer rsrsrs. Precisamos dos dois lados (o prático e o genial) para ter sucesso. Tenho certeza disso, e tenho certeza que preciso daquela minha Luciana pra me trazer, muitas vezes, de volta pro chão. E tenham respeito e paciência com a equipe: somos nós os malucos. Eles ajudam a realizar o que temos na cabeça e no coração. Se alguém um dia tem a receita para criar o dia de 28 horas eu topo uma sociedade para fazermos juntos. A todo sabor.

Qual o futuro do Brasil?
Venho de um país que viveu duas guerras mundiais (e não se saiu bem em nenhuma das duas) e que sempre acreditou na política do “ir pra frente”. “Avanti c’é posto” dizia meu pai: lá na frente sempre tem lugar. Mesmo que a situação econômica atual não seja a mesma da época de quando cheguei aqui, estou confiante no futuro do Brasil. Há muita coisa para ser criada e com certeza os jovens empreendedores podem ter muitas coisas para falar, demonstrando a criatividade, a força de vontade e muita atitude naquilo que criam. Os políticos deveriam ser cozinheiros, criando sempre algo de gostoso e que todos possam saborear, não? Se cada um se colocar como exemplo de renovação e criação de coisas boas e novas, o futuro estará se abrindo como uma flor de abobrinha. Aliás, boa ideia esta flor, para o meu burger vegetariano.

Serviço
Galise Burger
Fone: (11) 2372-0735
Rua Carlos Steinen 270, Paraíso, SP
Instagram: galise.galise
Facebook: Galiseburger

Ivan Primo Bornes (ivan@pastificioprimo.com.br) – empreendedor e fundador da rede de rotisserias Pastificio Primo (www.pastificioprimo.com.br).