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Até quando uma startup é uma startup? E falando nisso, é start-up ou startup?

12 de outubro de 2018

É curioso o uso das palavras e seus contextos. Quando um jovem encontra outro, se cumprimentam: E aí véio!!!! E o outro responde: Fala, véio!!! Mas quando dois idosos se encontram, também se cumprimentam: E aí garoto!!! E o amigo responde: Fala garoto!!!

Assim, pela ordem, vamos tratar das empresas jovens. Mas já adianto que a discussão não é exatamente relevante, um pouco chata, mas é uma dúvida de muitas pessoas. O que é uma startup? Quando uma empresa deixa de ser uma? E se escreve startup ou start-up?

Historicamente, startups eram um tipo de… botas! Frederick Fairholt, em seu livro Costume in England, explica que na Inglaterra no final do Século XVI, homens e mulheres calçavam startups. Samuel Johnson, quando publica seu dicionário A Dictionary of the English Language em 1818, também aponta que startup também poderia se referir a um tipo de bota ou galocha, ou a alguém que é notado repentinamente.  Ainda no Século XIX, o termo start-up, agora com hífen, passa a ilustrar o fenômeno de alguém que cresce muito rapidamente, segundo o dicionário A Glossary: K-Z, organizado por Robert Nares em 1872. Seria algo como um estirão.

Depois disso, o termo startup praticamente não foi mais utilizado até o final do Século XX. Thomas Edison (GE), Henry Ford (Ford), Bill Hewlett t e Dave Packard (HP)… ninguém dos empreendedores inovadores do final do Século XIX e metade do Século XX criaram startups. Eles criaram new companies ou new enterprises. Em 1968, quando Robert Noyce e Gordon Moore saem da Fairchild Semicondutors para fundar a Intel, Arthur Rock, interessado em investir na nova empreitada pede para a dupla escrever um plano de negócio. O tal plano, hoje no museu da Intel em San Jose (Califórnia) tinha uma página e explicava que a Intel seria “uma companhia que se engajará na pesquisa, desenvolvimento, fabricação e vendas de estruturas de eletrônica integrada...”

Assim, todas as novas empresas que nasciam no Vale do Silício eram novas companhias, empresas ou empreendimentos.

Mas algumas pessoas perceberam que trajetória de crescimento exponencial de novas empresas como Compaq, Lotus, Citrix, Novell, McAfee, Cisco na década de 1980 não era observado em outras novas empresas que atuavam de forma mais tradicional. A Compaq, por exemplo, atingiu vendas de US$ 1,2 bilhão em seis anos de vida, mas nenhuma das empresas fabricantes de computadores da época tinha notado a presença da empresa que vendia computadores com qualidade compacta (Compact Quality). Havia algo de mágico naquele tipo de “nova companhia” que impulsionava crescimentos escaláveis admiráveis. Isto começou a ser chamado de startup.

Por isso, a partir da década de 1980, investidores começaram a viajar pelos Estados Unidos atrás das novas startups e empreendedores, mais perspicazes, começaram a dizer que estavam criando startups.

Assim, o uso seminal de termo startup no fenômeno do estirão do jovem ou do ser percebido repentinamente para novas companhias de rápido de crescimento e que só eram notadas depois, quando já tinham um grande porte combinou como se uma bota encontrasse o seu par.

O problema é que, principalmente a partir da década de 1990, qualquer novo negócio que utilizava alguma tecnologia, em especial, da informação, passou a ser comunicada e celebrada como startup. E o termo ganhou inúmeras, senão milhares de definições. Cada empreendedor, investidor ou especialista tinha a sua. “Startup é uma empresa que trabalha para resolver um problema em que a solução não é óbvia e o sucesso não é garantido” diz Neil Blumenthal, co-fundador da “startup” Warby Parker, que vende óculos pela internet.  E para complicar, o termo startup aparece em diversos dicionários como qualquer nova empresa.

O caos no uso do termo ganhou alguma lógica quando em 2013, Steve Blank, professor de Stanford e Berkeley começou a repetir dois mantras: “Startup não é uma versão pequena de uma grande empresa” e “Startup é uma organização em busca de um modelo de negócio estável e escalável”. Depois ele acrescentou “lucrativo”. Dada a sua grande influência, muitos começaram a perceber que startup tinha a questão da incerteza (daí a busca), da lógica padrão (estável) de ganhar dinheiro com sólidas vantagens competitivas (modelo de negócio) e que pudesse crescer em proporção muito maior do que seus custos, gastos e despesas (escalabilidade).

Nesta abordagem, uma startup continua nessa condição quando tem grandes ambições de crescimento mas ainda não conseguiu encontrar um modelo de negócio estável, escalável e lucrativo. Quando define e valida o modelo de negócio estável, escalável e lucrativo e continua com a ambição de crescimento, a startup se torna uma scaleup. Caso contrário, se torna um pequeno negócio ou simplesmente os empreendedores desistem e partem para outra. E não há nenhum demérito nisso. Há ótimas empresas bonsais e muitos maratonistas desistem da corrida quando percebem que já não ganharão a prova, poupando-se para a próxima.

A próxima figura ilustra o que é uma startup e até quando uma startup é uma startup.

E o hífen da start-up? Neste caso, as duas grafias estão corretas, mesmo nos Estados Unidos.

Mas e as outras pequenas empresas ou scaleups que continuam querendo ser chamadas de startups? Tudo bem! Eu mesmo adoro quando me chamam de garoto!

Marcelo Nakagawa é Professor de Inovação e Empreendedorismo do Insper.