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As pessoas estão começando a se perder (e perder) no Linkedin

24 de fevereiro de 2017

Reid Hoffman, criador do Linkedin

Linkedin é uma rede social para profissionais fundada por um empreendedor profissional que poucos conhecem, justamente… por seu profissionalismo. Ele organiza, mas sai, discretamente, antes da festa acabar. Por isso, quando Reid Hoffman (pouco) fala, boa parte dos melhores empreendedores desta nova geração, escuta.

“Facebook é como o churrasco que você faz no seu quintal com seus amigos e familiares, brincando, jogando e compartilhando fotos. Linkedin é o escritório, é como você se atualiza e resolve seus desafios profissionais”,  diz, comparando a empresa do qual foi um dos primeiros investidores (sim, ele investiu no Facebook) com a empresa que fundou.

Talvez poucos sejam tão genuinamente do Vale do Silício quando Hoffmann, pois ele nasceu em Palo Alto, pequena e mais importante cidade da região e estudou na Universidade de Stanford (que fica na cidade), trabalhou na Apple, investiu no Friendster, uma das primeiras redes sociais a atingir milhões de usuários e aprendeu a empreender fundando a sua própria startup, a SocialNet em 1997. Três anos depois, devido a problemas com os sócios e com o desempenho da Socialnet, ele saiu da empresa que tinha fundado para se tornar diretor de operações da Confinity, uma startup fundada por Peter Thiel, que tentava oferecer um serviço de pagamento por meio do Palm Top (lembra-se do assistentes pessoal?). Meses depois, a Confinity se juntaria a X.com, fundada por outro empreendedor desconhecido na época chamado Elon Musk, para se tornar o PayPal. Quando o PayPal foi adquirido pelo eBay em 2002 por US$ 1,5 bilhão, Hoffman ficou milionário.

Enquanto seus amigos de startup (que passou a ser conhecido como PayPal Mafia) compravam Ferraris e Porshes, Hoffman preferiu tirar duas semanas de férias para cruzar a Austrália. Mas já na primeira semana, teve uma ideia que o fez desistir da viagem e voltar para casa. Mesmo sendo época de Natal, ele e alguns amigos que tinham trabalhado no Socialnet e Paypal começaram a trabalhar na sala de estar da casa de Hoffman no final de 2002. Meses depois, como uma versão beta nas mãos, convidaram 350 amigos para testar o sistema. No final do mês já havia quatro mil utilizando o Linkedin, que terminou o ano com 81 mil usuários. Era um crescimento espantoso para uma rede social especializada em reunir apenas profissionais e executivos. Oito anos depois, já com 100 milhões de usuários em todo o mundo, o Linkedin abriu o seu capital, atingindo o valor de US$ 9 bilhões.

E o que mais impressionava os novos investidores era o modelo de negócio bem consolidado e a operação bem gerida do Linkedin, que continuou a crescer exponencialmente. Em receita, o Linkedin passou de US$ 522 milhões em 2011, ano do IPO, para quase US$ 3 bilhões em 2015. O serviço passou a ser cada vez mais respeitado não só pelos usuários, que atingiu cerca de 500 milhões de profissionais cadastrados no final de 2016, como também por empresas contratantes que respondem por 65% das receitas totais do Linkedin. Na rede social fundada por Hoffman só aparecia a melhor parte de cada profissional. “Ninguém se preocupa em quem está saindo com quem no Linkedin…” – afirmava.

Por todo este sucesso, o Linkedin sempre foi objeto de desejo de quase todas as outras grandes empresas de tecnologia. Ninguém, nem mesmo a Microsoft, conseguia ter esta relação de confiança, admiração e profissionalismo com uma quantidade tão grande de executivos ao redor do mundo. Do estagiário ao CEO das menores às maiores empresas, todos estavam no Linkedin. Justamente por este posicionamento, a empresa de Bill Gates pagou US$ 26 bilhões em 2016 (ou quase três vezes o valor do Linkedin no seu IPO) para adquirir a rede social profissional criada na sala de estar da casa do Reid Hoffman.

Finalmente, com vários anos de atraso, a Microsoft conseguia ter o seu próprio Facebook. E isto ficou muito mais claro quando o Linkedin, já sob a direção da gigante de Redmond, anunciou agora, em janeiro de 2017, uma drástica mudança no seu layout, interação com o conteúdo gerado pelos usuários e integração com seu aplicativo.

Se por um lado, os resultados foram imediatos com o aumento do uso do aplicativo, do número de postagens e interações com o conteúdo, por outro, o Linkedin vem se transformando em um Facebook já que os “profissionais” estão se perdendo em seu amadorismo, seja na viralização de raízes/nutellas, nas frases de efeito motivacionais, nas discussões raivosas e comentários ásperos ou nos erros conceituais grosseiros quando entram em debates em áreas que desconhecem.

Muitos recrutadores que utilizam as redes sociais para contratar costumavam dizer que uma pessoa era contratada pelo seu Linkedin mas perdia sua vaga pelo seu Facebook.  O Linkedin está deixando de ser aquele escritório em que você aprende e lida com desafios profissionais. Mas também não está se tornando aquele churrasco com família e amigos. Para isto, há o WhatsApp.

Infelizmente, está se tornando aquele final de festa da firma quando todos os profissionais já foram dormir porque precisam trabalhar no dia seguinte.

Marcelo Nakagawa é Professor de Inovação e Empreendedorismo do Insper

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