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As oportunidades que vêm do Acre

20 de julho de 2015

Uma das regiões mais isoladas do Brasil vive um novo ciclo de empreendedorismo. O bambu e a energia renovável são algumas oportunidades que vêm atraindo a atenção também de estrangeiros.

Era comum, no sul do Brasil, perguntar se o Acre existe mesmo. Se você não conhece quem tenha nascido ou visitado o Acre, acredite, em breve provavelmente você pode ficar conhecendo empresas que vêm do Acre. Fruto de uma articulação que nos últimos anos vem incentivando a inovação, o Acre está fortalecendo seu ecossistema empreendedor. Por isso, começo alguns posts para mostrar mais sobre esse pedaço do Brasil que poucos conhecem – e que apresenta um mundo de oportunidades.

Antes de falar dos negócios, acho que vale recuperar algumas informações e contextualizar a região, a começar pela sua localização. No sudoeste da Região Norte, o estado do Acre faz divisa com duas unidades federativas: Amazonas ao norte e Rondônia a leste; e faz fronteira com dois países: a Bolívia a sudeste e o Peru ao sul e a oeste. De Rio Branco, capital, a Cuzco, onde fica a lendária Macho Picchu, são 1000 km.  Entre Rio Branco e a “vizinha” Manaus são 1.400 km.  Entre Rio Branco e São Paulo são 3.500 km.

O Acre sempre foi uma terra de conquistadores. Os brasileiros, principalmente os nordestinos, foram para a região, que então pertencia a Bolívia, no final do século XIX, para explorar o ciclo da borracha.  A ocupação motivou a proclamação do Estado Independente do Acre, que, posteriormente, por acordo, foi incorporado ao Brasil em 1903.  Terra distante dos grandes centros, sempre foi foco de muitas dificuldades, desde a falta de infraestrutura rodoviária até de internet (que é cara e lenta). Mais da metade dos 22 municípios têm índice de desenvolvimento humano (IDH) baixo ou muito baixo. Mas, enfrentando os obstáculos, existem personagens que estão empreendendo para mudar esse cenário.

Um dos expoentes desse ciclo empreendedor do Acre é o empresário americano Mark James Neeleman. Com 36 anos, ele acredita que pode ajudar a preservar a floresta através do manejo florestal de bambus e se prepara para instalar uma fábrica de painéis para construção civil, feitos a partir do bambu, em Xapuri.  “Eu creio o Acre foi o local da famosa cidade perdida El Dorado.  Como pode lembrar, foi uma cidade lendária que sumiu na floresta e que era feita de ouro.  Creio que o ouro de que os índios estavam falando não era metal, mas sim uma cidade feita de bambu que tem a cor dourada quando seca” explica ele, por e-mail.

“O estado do Acre é o único lugar que temos como começar hoje pois qualquer outro lugar teremos que esperar cinco anos até que o plantio esteja pronto”.  Nesta fábrica ele vai produzir lâminas de bambu para construções e outros usos como substituto da madeira.  Depois pretende produzir vários produtos baseados nos resíduos do bambu, como carvão ativado, biocombustíveis, entre outros.

Pergunto se ele acredita que essa é uma oportunidade para os empresários investirem no bambu e na região. A resposta foi assertiva. “O Brasil é um pais agrícola. Faz todo o sentido ter um novo produto para superar essa crise e o bambu pode ser a resposta.  Os chineses e os indianos exportam, respectivamente, 28 e 8 bilhões por ano de produtos de bambu. O Brasil pode triplicar isso”, justifica ele.

O projeto do americano está sem sintonia com as ações do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, que, em parceria com o governo estadual do Acre, está criando um centro de vocação tecnológica (CVT) para capacitação e beneficiamento do bambu em Rio Branco. O ministério iniciou o repasse de R$ 2,4 milhões para projeto.  O acordo de gestão compartilhada do centro foi assinado no início do mês entre a Universidade Federal do Acre (UFAC) e outras entidades como o Instituto Federal do Acre (IFAC), Sebrae, Embrapa, entre outros atores.

O secretário de Ciência e Tecnologia para Inclusão Social do MCT, Eron Bezerra, explica que o princípio é transformar o recurso natural em um recurso industrial, aumentando o valor, verticalizando a produção e elevando o padrão de renda das pessoas da região. “A cadeia de agregação de valor vai começar com o extrator. O produtor vai fazer o tratamento inicial no campo.”  Neeleman está empolgado com as perspectivas: “O Acre é nosso piloto, vamos dizer, para criar um modelo que creio que dar nascimento uma nova fase de Brasil Bambuzado como falo, onde construímos economia verde, com energia limpa, e usamos bambu como ferramenta”.

Mas o bambu não é a única iniciativa que vem movimentando o ecossistema local de inovação. “Nos nossos estudos observamos o Acre como um dos três locais no Brasil com a maior necessidade de demonstrar na realidade o uso de tecnologias inovadoras de energias renováveis, também com foco de capacitação e educação de povos indígenas isolados” conta o sérvio Boris Petrovic, cientista, pesquisador e engenheiro de sistemas de tele-automação. Ele criou em 2012 o Instituto Nikola Tesla, em Brasília, com o objetivo de viabilizar soluções que garantam a independência energética do planeta. Um dos primeiros projetos é a Aldeia Solar, um modelo social integrado de aproveitamento de energia solar para aldeias indígenas. No município de Marechal Thaumaturgo, no Acre, ele assinou termo de cooperação com a associação ambiental Kuntamanã para um projeto piloto (que busca financiamento).

E não são só estrangeiros que estão vendo no Acre um horizonte de oportunidades. Na semana passada o alagoano e investidor-anjo João Kepler, esteve por lá fazendo palestras sobre inovação para empresários de vários setores e segmentos. Perguntei a ele com qual a impressão ficou e a resposta foi que “todos estão muito interessados na questão da inovação, não existe mais nenhuma barreira, os empresários do Acre estão receptivos da importância e da necessidade de inovar”.

Foi semana passada também que o Sebrae abriu um edital para selecionar startups para um programa de pré-aceleração. Já o Instituto Federal lançou o programa IFAC Empreendedor e prepara-se para organizar o X Connepi, em dezembro. Mas desses assuntos vamos saber mais na semana que vem. Até lá.

Marcelo Pimenta (menta90) é professor de inovação da ESPM e criador do Laboratorium. Escreve às segundas no Blog do Empreendedor. Saiba mais curtindo www.facebook.com/menta90.

Ps – Se você conhece outros projetos inovadores no Acre que merecem visibilidade por favor comente esse post ou envie um e-mail para menta@laboratorium.com.br.

 

1 Comentário Comente também
  • 20/07/2015 - 10:54
    Enviado por: João Kepler Braga

    [ACRE] Uma das regiões mais isoladas do Brasil? Nem tanto! Estive lá por duas vezes e posso testemunhar a evolução do Ecossistema Empreendedor local.

    Empreendedores atuantes, incríveis projetos, entidades e academias fazendo a sua parte e o Governo apoiando as iniciativas. Todos com um só objetivo, ser referência e motivo de orgulho. Avante Bambú Valley.

    responder este comentáriodenunciar abuso

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