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Ah… e tem mais uma coisa: Inovação é meio, se não, será o fim

2 de novembro de 2018



Nas memoráveis apresentações anuais dos lançamentos da Apple conduzidas por Steve Jobs, a plateia aguardava ansiosa pela parte final em que Jobs fazia uma pausa e anunciava: Ah… e tem mais uma coisa! Os presentes no auditório urravam com este aviso. A maior e mais secreta inovação da Apple seria apresentada em alguns segundos. Sigilo, foco no cliente e vendas maiores do que no período anterior eram cuidadosamente orquestrados por todos na empresa e aquele momento não era o fim, mas o meio para se construir mais um ano memorável.

Ser inovador ou algo ainda pior, parecer inovador, tornou-se um mantra entre muitos líderes executivos. Suas organizações lançam iniciativas pomposas, contratam consultores com discursos rasos com teor bombástico e apocalíptico, começam a pregar inovações radicais e exponenciais e divulgam todas as suas intenções, passos e projetos de inovação nas redes sociais pois querem parecer inovadores. Seus concorrentes mais tolos irão correr para lançar iniciativas ainda mais pomposas, com consultores (agora internacionais) ainda mais bombásticos e apocalípticos e a briga por quem cospe mais longe se acirrará. Porém, seus concorrentes mais inteligentes adorarão saber quais são as estratégias de inovação do competidor que publica tudo na internet.

Como inovação se tornou um fetiche de muitas corporações, a primeira questão que, quase sempre, levantam é como inovo? Crio uma aceleradora de startups como meu concorrente ou lanço um laboratório de inovação como o outro fez? Faço um hackathon ou uma sessão de design thinking? Levo a área de inovação da empresa para um coworking ou construo um próprio?

Essas dúvidas são inócuas quando há uma questão anterior que direcionará todas as outras: Por que inovar? Muitas corporações não têm a mínima noção sobre como responder esta pergunta. Nos casos mais grotescos, a resposta implícita é porque meu concorrente está inovando. A melhor resposta deveria estar associada à construção de um futuro mais próspero para a empresa em um ambiente de negócio cada vez mais caótico, incerto e tecnológico. Em casos mais graves e urgentes, a resposta diz respeito a própria sobrevivência da companhia.

 

Muitas corporações não sabem por que querem (ou precisam) inovar pois seus dirigentes enxergam o futuro olhando para o passado e seus executivos concentram-se em garantir o bônus do ano. E estão racionalmente corretos. Em 2007, a Nokia rumava para ser a primeira corporação a atingir um bilhão de clientes com seus telefones celulares inovadores. Sua participação de mercado era maior do que a somatória de todos os demais concorrentes. Ela se preparava para ocupar a China, o maior mercado emergente do mundo. E seu concorrente mais inovador ainda era pequeno e tinha um peculiar nome de fruta. Se fosse executivo da Nokia naquele momento teria certeza de que a empresa estava no caminho correto e saberia qual fruta era essa.

Pouco mais de uma década depois, muitos sabem o que aconteceu com a Nokia e têm certeza absoluta do nome da fruta. Mas em uma década, diversas outras corporações do mundo se tornaram Nokias. Como muitas ainda não sabem disso, acreditam que a inovação é um fim em si mesma, por isso, gostam de alardear publicamente suas iniciativas de inovação. Mas as empresas mais inovadoras do mundo, segundo o ranking publicado pela revista Fast Company, como a Apple, Netflix, Tecent e Amazon não divulgam iniciativas, mas “acabativas” de inovação quando a concorrência já foi deixada nitidamente para trás.

Organizações e executivos que não percebem que a inovação é um meio, encontrarão, invariavelmente, seu fim, pois não entregarão os resultados esperados por qualquer companhia: aumento de vendas, redução de custos, incremento do valor ou fortalecimento do seu propósito de existir.

Ah… e tem mais uma coisa: A fruta que a Nokia achava que era sua concorrente inovadora não era uma maçã, mas uma amora.

Marcelo Nakagawa é Professor de Inovação e Empreendedorismo do Insper