Blog


Blog do Empreendedor
O cotidiano de empreendedores como você
Twitter Facebook Orkut
Aumentar texto Diminuir texto

A sutileza da cortesia

27 de março de 2017

Existe um clima de guerra civil nas mídias sociais do Brasil, pautado majoritariamente pela questão política e econômica que estamos passando, que é bem assustador. Abundam no Facebook as pessoas com certezas absolutas sobre tudo e todos e que, para afirmar sua “verdade verdadeira”, vão da simples descortesia à pura brutalidade.

O mais inacreditável é que são parentes, vizinhos, amigos e até mesmo desconhecidos, se ofendendo mutuamente e “radicalizando” pontos de vista rasos. Brigando como se não houvesse amanhã. Se você se reconheceu entre esse tipo de pessoas, busque terapia, porque existe amanhã sim –  e de preferência um que não envolva executar o vizinho num pelotão de fuzilamento virtual.

A parte boa – se é que tem uma – é que esse fenômeno (de cachorro que muito late e não morde) está bastante restrito às mídias sociais, e no fundo a grosseria proferida faz mais mal a quem a pratica. Mesmo assim é suficiente para me alertar de que temos muito trabalho à frente, como cidadãos.

Nossa maturidade democrática deveria nos guiar para o entendimento de que, mesmo não gostando do vizinho porque ele ouve pagode, ou rock, ou ele é rico, ou pobre, ou votou em fulano ou beltrano, mesmo com todos e quaisquer motivos que a gente tenha de não concordar com o vizinho, ainda assim deveríamos nos tolerar, ajudar e colaborar.

Somos um País livre para ter opiniões, crenças e diferenças culturais. Vivemos em uma democracia – mesmo que capenga – onde a liberdade individual e de pensamento é uma premissa duramente conquistada. Essa é a nossa base para nos expressar e trabalhar em busca de um futuro como país, algo bastante complexo pelo tamanho do Brasil, mas muito simples quando olhamos a rua de nossa casa, por exemplo.

Veja bem, o que quero dizer é que a prática da cidadania é muito mais eficiente e gratificante nas pequenas coisas que nos unem – naquelas que de fato podemos atuar HOJE – do que ficar reclamando daquilo que não tem muito como mudar até as próximas eleições. Na verdade, nem precisamos saber em quem o vizinho votou. O que interessa é como podemos ajudar o vizinho para, juntos, fazermos algo válido, já, urgente.

Seja em cuidar do lixo da rua, ou na segurança do bairro, ou em organizar um abaixo-assinado para a SABESP quando falta água na região, ou fazer um mutirão para arrumar a pracinha onde nossos filhos brincam, ou pedir uma melhoria na linha de ônibus. Acredito que será natural descobrir que temos muitos mais interesses em comum com nosso vizinho, do que diferenças.

É claro que temos muito para avançar. Mas também precisamos celebrar que já desenvolvemos um conjunto de leis de convivência bastante razoáveis, que existem para a nossa própria preservação – como não dirigir embriagado, não roubar, não matar e por aí vai, coisas básicas – e temos a liberdade de realizar basicamente tudo o que queremos, desde que não seja contra o sistema que estamos criando e cuidando. E desde que não atropele a liberdade do outro.

Sempre é bom lembrar que estamos neste estágio privilegiado porque nossos pais, avós e bisavós trabalharam, migraram, sonharam – e muitos morreram em guerras de vários tipos – para nos dar esse status. Tenho a constante sensação de que temos a responsabilidade de continuar melhorando o sistema para que possamos deixar de herança algo melhor do que recebemos. Para poder viver num país livre, portanto, é de bom tom se educar a conviver com as diferenças. Civilidade.

Obviamente, enfrentamos desafios diferentes dos que nossos pais vivenciaram. Ficar reclamando atrás de um celular ou de um notebook faz muita gente achar é inteligente e charmoso, mas é apenas fútil. Teria muito mais efeito e utilidade juntar o lixo da calçada, ajudar o vizinho a descarregar as compras, ser gentil no trânsito, recolher o cocô do seu cachorro na praça, praticar a civilidade, a cortesia.

Vamos honrar nossos antepassados que nos trouxeram até aqui? Qual o legado que queremos deixar?

Ivan Primo Bornes – o fundador do Pastifício Primo escreve nas segundas feiras. Gostaria de fazer uma pergunta, um comentário? Sugerir um assunto? Envie seu email para ivan.primo@pastificioprimo.com.br

Deixe um comentário: