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A organização (perdida) no mundo das maravilhas da Quarta Revolução Industrial

13 de julho de 2018

A questão para cada organização não é mais se eu serei disrupado, mas quando a disrupção ocorrerá e de que forma?” – alerta Klaus Schwab, fundador do World Economic Forum e autor do artigo “Welcome to The Fourth Industrial Revolution” (Rotman Management Magazine, Fall 2016). Seu artigo, que resume a percepção de uma parcela majoritária e crescente dos principais líderes executivos ao redor do mundo, só acelerou o temor das organizações a respeito do seu futuro, não em um momento longínquo, mas nos próximos dez e, em casos mais graves, nos próximos cinco anos.

Organizações tradicionais muito hierarquizadas, com altos custos operacionais e lentas passam a lidar com clientes altamente conectados, bem informados e cada vez mais exigentes e a enfrentar novíssimos concorrentes que surgem leves, eficientes, rápidos e, especialmente, inovadores. Por isso, estas organizações estão tão ávidas pelas promessas das maravilhas da tal Quarta Revolução Industrial aclamada por Schwab e oportuna, e muitas vezes sorrateiramente, por muitos consultores que enxergam situações oportunísticas para baterem suas metas de vendas comercializando soluções de Big Data, AI, IoT, blockchain, Machine Learning, Open Innovation e outros neologismos que estas organizações não sabem ou não estão preparadas para realmente consolidarem vantagem competitiva real e sustentável e, principalmente, para alcançarem a transformação digital e se tornarem organizações exponenciais, dois conceitos populares, que quase sempre entram um nababesco vazio de “so what?”.

Estas organizações, que caem neste buraco digital e entram no mundo das maravilhas da Quarta Revolução Industrial que são realmente incríveis, de um lado, mas ameaçadoras para quem está do outro lado do espelho, deveriam considerar as reflexões de Alice no País da Maravilhas, livro escrito por Lewis Carroll em 1865.

Neste mundo como no nosso atual, diversos coelhos brancos passam apressados alertando: “Quanto é para sempre? Às vezes, isto dura apenas um segundo…”. No mês passado, a Amazon comprou a PillPack, uma startup autorizada a comercializar remédios nos Estados Unidos e todas as redes farmacêuticas do país entraram em desespero. Elas se juntarão à Borders, Sports Authority ou Toys ‘R’ Us, que dominaram seus mercados e desapareceram? E aí, passa outro (senão o mesmo) coelho branco mais apressado ainda: “Quando mais rápido eu vou, mais para trás eu fico…

Quando a Amazon entra em mercados tão díspares, a pergunta da lagarta para Alice também passa a fazer sentido para as organizações tradicionais. “Quem é você?” – pergunta a lagarta. “É difícil responder… Eu sabia quem eu era quando acordei esta manhã, mas eu acho que eu mudei muitas vezes desde então…”. Nesta nova dimensão já não faz mais sentido pensar em como será o seu negócio ontem e amanhã. Fabricantes de carruagens que investiram na “carruagem do amanhã” quebraram assim como os fabricantes de velas nunca teriam inventando a lâmpada. “Não faz sentido pensar no ontem porque eu era uma pessoa diferente…” – Explica Alice.

Mas neste exato momento em que muitas organizações se sentem perdidas no mundo das maravilhas da Quarta Revolução Industrial, a passagem mais importante do livro, sendo inclusive capa de muitas edições, precisa ser profundamente compreendida.

Poderia me dizer, por favor, para onde eu devo ir?” – pergunta Alice ao Gato que Ri. “A resposta depende de onde você quer chegar…” – responde o Gato. “Eu não me importo muito com isso.” – diz Alice. “Então, qualquer caminho serve…” – retruca o Gato.

Por isso, para não se perder, antes de entrar neste mundo vendido constantemente maravilhoso, defina-se como organização e crie objetivos, indicadores e metas (mesmo que tenha que mudá-los amanhã) para inovação, transformação digital e qualquer outro coelho branco que aparecer pela frente.

Marcelo Nakagawa é Professor de Inovação e Empreendedorismo do Insper.